B&D Cria atividade no ENECOM

Camila: Senta aí que a gente precisa escrever sobre o evento de hoje no ENECOM, rapá.

Gustavo: Cri cri cri

Camila: Eu tenho três reuniões ainda hojeee, vamo logo!

Gustavo: Faz aí que eu assino embaixo, hehe.

Camila: Ok. Era uma manhã ensolarada, pássaros cantavam de longe, o cheiro de café fresco, aquele ar friozinho típico de Brasília e, nós, entusiasmados com uma oficina sobre criatividade política, nos debruçávamos sobre o texto de 10 páginas que tínhamos escrito, para refletir a respeito, na noite anterior.

Gustavo: Tu vai mentir na cara dura?

Camila: Belê, vou começar de novo. Acordei um pouco atrasada, vim correndo pra UnB com medo de ver todo mundo aqui me esperando, indignado com minha demora. Cheguei, encontrei você  e vi que estava tudo um pouco atrasado. Ufa…

Gustavo: Daí bateu aquele medo de ninguém aparecer.

Camila: Exato.

Gustavo: Mas não.

Camila: Não. E isso foi genial. Chegaram o Paraná e a Clarice e a sala, naquele momento vazia, foi enchendo! Eu fiquei muito de cara. Pensei que a ressaca venceria os encontrandos.

Gustavo: Alguns presentes estavam vencidos, perdidos na rua da amargura, de fato.

Camila: Tá, beleza, mas a energia da sala tava sensacional, vai dizê! Cada hora que surgia um novo sotaque eu achava que era outra língua. Uma mais cantante que a outra. Eu ficava tentando acertar as regiões desse pessoal que ia entrando, pouco a pouco, e se entusiasmando com os vídeos, com as falas, com toda a oficina.

Gustavo: Acho que era o som dos vídeos. Músicas boas, bem selecionadas e pá.

Camila: Não era o som, ô, mane. A campanha #votoserrapq realmente empolga.

Gustavo: Sim, se eu votasse negro, eu não seria serra, hehehe.

Camila: Ok, seu chato, mas, falando sério! A gente reúne alguns preconceitos no vídeo que são tragicômicos, claro, mas que também demonstram como estudantes com um senso de humor conseguem interferir na agenda política. Disputar o senso comum é massa,  dialogar com quem discorda é massa. Mostra que esse lance de fazer política não é algo que tem que ser necessariamente chato. Politicar é legal, vai…

Gustavo: Vai…

Camila: Serião! E oficinar é entusiasmante quando se põe em prática um pouco desse sonho que é a UnB. Pensar junto, unido, pés nos chão e com base na prática, na práxis do dia-a-dia.

Gustavo: Foi looonge…

Camila: Looonge…

Gustavo: Lá de looonge…

Camila: Onde toda beleza do mundo se escooonde…

Gustavo: Mandeee para ontem…

Camila: Ok, voltar pro post.

(entra uma participante da oficina, a “encontranda”)

Encontranda: Galera, que tipo de post é esse nada inclusivo, no qual vocês simplesmente escrevem suas percepções sem nem considerar ou chamar alguém do encontro pra escrever com vocês?

Camila: Escreva aí, colega.

Oficina do B&D no ENECOM-Brasília

Encontranda: Acho bom…. Então, vamos começar: “Era uma manhã ensolarada, o céu brilhava azul anil, minhas axilas suavam de tesão pela oficina que começaria no horário exato…”

Gustavo: A gente já desconstruiu esse discurso…

Encontranda: Ah….tá. Bom, vou falar então…hum…ah, sim, nos apresentaram dois contextos sociais diferentes para…

Gustavo: Seja precisa, quem apresentou?

Camila: Não dê atenção a ele.

Encontranda: (vira de costas para Gustavo) Como eu dizia, o B&D nos apresentou dois contextos sociais diferentes: um do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e um do Banco da Estrutural de Economia Solidária. A gente tinha que bolar meios criativos de promover, difundir informações e divulgar as iniciativas de forma a disputar o pensamento hegemônico. Uma forma que agregasse libido, que envolvesse os desejos individuais em planos comuns e coletivos.

Gustavo: Que deeennnso. Tinha tudo isso num videozinho besta, véi?

Encontranda: Não sei se era intenção, mas, sabe comé esse lance de linguagem, né? Nunca pertenceu nem nunca vai pertencer a ninguém.

Gustavo: Falou bonito, me dá um beijo?

Encontranda: Jamais. Segure a onda ae. Meu desejo não contempla você enquanto objeto e eu quero falar mais.

Camila: Desembucha ae aquele papo que altera.

Encontranda: Aquele papo de alteridade, cê diz…. Cara, sei lá, ver um grupo com pessoas discutindo estratégias de comunicação inovadoras para movimentos sociais. Ver, num grupo só, pessoas que não se conheciam, de diversas regiões, expondo suas realidades-próximas, seus desejos-locais, realmente fascina, envolve e pelo menos ME seduz.

Camila: Contempla.

Gustavo: Comunica.

Encontranda: Explica.

Camila: Aglutina.

Gustavo: Incorpora.

Encontranda: Revigora.

Camila: Ok, parou.

Gustavo: É, parou.

Encontranda: Pelegos…

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Um encontro inusitado – #votoserrapq e #votoporkeiko

Eliana Carlin (da campanha de Ollanta Humala no Perú), Edemilson Paraná, Conceição Oliveira (@maria_fro) e Luiz Carlos Azenha no II Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas.

Por Edemilson Paraná

Seria uma iniciativa militante na internet capaz de influenciar politicamente países distantes, com realidades diferentes? Neste último sábado, dia 18, um encontro inusitado demonstrou que sim.O debate era sobre a utilização de mídias sociais na política. Na sala lotada, blogueiros, internautas e ciberativistas de todos o país participavam do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas (#2blogprog) em Brasília. Escalados para coordenar o debate ninguém menos que Luiz Carlos Azenha (@viomundo) e Conceição Oliveira (@maria_fro). Com a fala, os coordenadores de mídias sociais da “Gana Perú” – campanha de Ollanta Humala para a Presidência do Perú. Durante alguns minutos apresentaram o trabalho, as brilhantes estratégias e os resultados que culminaram na vitória de Humala nas urnas. Entre as iniciativas demonstradas estava o vídeo #votoporkeiko, em que universitários ironizavam – com política – os eleitores da adversária Keiko Fujimori.

Tudo transcorria como o previsto. Me inscrevi para uma pergunta.

“Olá, boa tarde a todos, sou Edemilson Paraná do blog do Paraná e do blog Brasil e Desenvolvimento – grupo político do qual faço parte. No ano de 2010 produzimos uma campanha em vídeo chamada #votoserrapq…”. Sou interrompido no mesmo momento.

“Fueron usteds?! Esto es lo que copiamos” (algo do tipo), gritou-me da mesa Eliana Carlin do movimento #NoaKeiko e da campanha virtual de Humala.

No mesmo momento um dos blogueiros interrompeu a ordem do debate intervindo com uma pergunta retórica: “foram vocês, aqueles da UnB, que fizeram o vídeo”? “Sim, fomos nós”.

No mesmo momento a sala toda irrompeu em palmas. Entre elas, meio que abafado, ouvia-se um “muito bom!”, outro “sensacional!”.  Retomei a palavra após as palmas para agradecer e dizer que a pergunta, que se quer chegou a ser completada, já havia sido respondida. Um outro blogueiro sugeriu que os vídeos da campanha #votoserrapq fossem projetados na ali mesmo naquele debate. Outro pegou a palavra para comentar sobre a campanha, para dizer que levou humor e política a uma eleição marcada pelo baixo nível de debate. Luiz Azenha e Conceição Oliveira também comentaram e parabenizaram a iniciativa. No debate com a mesa, outro blogueiro chegou a sugerir a criação uma rede internacional de intervenção a favor de candidatos de esquerda.

Eliana Carlin e a brasileira Sandra Recalde, que também trabalhou na campanha, contou-nos como, porquê e em que momento da campanha foi feita a cópia. Falou-nos de como o #votoserrapq havia inspirado-os a ousar e buscar uma abordagem criativa para tratar de assuntos espinhosos, sem perder o conteúdo político. “A campanha explodiu”, contaram-nos.  Abaixo, vídeo com depoimento dos coordenadores da campanha virtual de Humala sobre o #votoserrapq.

Ao fim de tudo, ganhei vários abraços, uma camiseta do “No a Keiko” e broches do movimento – presentes de agradecimento, segundo Eliana Carlin. “Lo bueno se copia. Grácias”. Sandra Recalde brincou que deveriam pagar royalties ao Brasil e Desenvolvimento. Elvis Mori, outro coordenador da “Gana Perú”, disse finalmente ter encontrado os responsáveis pelo vídeo. Agredeci. Conversamos sobre o cenário político dos dois países, sobre as motivações das campanhas no Youtube, sobre o que propomos. Sai com as esperanças renovadas.

Quase ia embora quando um blogueiro paulista pegou no meu braço: “vocês influenciaram o processo eleitoral do Perú, ajudaram a eleger um presidente de esquerda, isso é fazer história, meu caro” – disse-me, e pude sentir uma empolgação quase juvenil em suas palavras. Trocamos um aperto de mão e partimos. Achei a consideração exagerada. Mas de exagero em exagero reforcei minha crença na força das ideias, na força da criatividade, na força da colaboração.

Voto.Porque.

Votar.

O voto e a disputa eleitoral são, sem sombra de dúvidas, momentos de extrema importância para o combate social de ideologias. Assim, é importante lembrar o que elas significam, quem elas representam e que sociedade elas buscam atingir com seus discursos e práticas.

A esfera política brasileira, sabemos, tem o costume de não enfrentar diversos problemas sociais que dificultam o acesso amplo e irrestrito à atuação e efetivação dos ideais democráticos. O não enfrentamento, o medo de atacar questões centrais à pluralização do espaço público, está diretamente vinculado ao senso comum construído por uma ideologia dominante que abomina o confronto e a crítica aos interesses da elite econômica e política do pais. Somos o país dos falsos-consensos, da naturalização das desigualdades sociais.

Os vídeos da campanha escancaram o preconceito sistemático que negros, homossexuais, mulheres, índios, pessoas de baixa renda e nordestinos sofrem e que impedem a criação de um ambiente efetivamente democrático, efetivamente aberto e efetivamente inclusivo. Conservar o status quo é, necessariamente, conservar essa perspectiva. É conservar os mecanismos que rebaixam, diminuem e excluem com frequência a diversidade na decisão coletiva.

Para mudarmos esse cenário, precisamos, então, refundar o senso comum,  entendendo sua vocação emancipatória para sempre apontar novas perspectivas e novas experiências democráticas. Combater o senso comum é combater discursos que impedem a abertura de espaços como o da família, do mercado, do acesso à moradia, à educação, à comunicação, ao transporte e todos os outros aspectos da vida individual e coletiva que aumentam a participação política.

A campanha #votoserrapq atacou de forma irônica os discursos conservadores que integram o senso comum pouco enfrentado para que não esqueçamos de nossa missão, como sociedade, de enfrentar problemas que são centrais para a pluralização constante.

Para tanto, torna-se indispensável ressignificar o sentido da palavra “votar”. Votar não é, nem pode ser, somente clicar botões em uma urna eletrônica. Tampouco pode ser a participação em processos eleitorais de quatro em quatro anos. “Votar” é escolher. É escolher projetos, é escolher formas de atuação, é escolher disputas. É, acima de tudo, escolher lados, escolher, diariamente, um projeto coletivo.

Assim, agradecemos, encarecidamente, todos que se incluíram no #votoserrapq, seja enviando sugestões, seja fazendo seus próprios vídeos. É o aspecto coletivo de qualquer atividade que a engrandece e, nesse caso, não é diferente. Sem a adesão maciça, o apoio incontestável, e as críticas construtivas, a campanha não seria a mesma.

Portanto, apesar de as urnas terem fechado, os votos terem sido contabilizados, nosso trabalho apenas começou.

Cabe a nós, agora, a luta. Cabe a nós, a inquietação. Cabe a nós exigir, através de disputas permanentes e persistentes, que nossos ideais se tornem realidade.

Abaixo o último vídeo de nossa campanha, agora intitulada “Voto.Porque.”

#votopq