Caso Edward Snowden: a liberdade na rede e o teatro da diplomacia global

Representando o grupo Brasil e Desenvolvimento, debati ontem ao vivo na Pós Tv com o pessoal do Partido Pirata sobre o caso Snowden e a liberdade na Internet. Segue abaixo, a íntegra da discussão em vídeo.

Ressaltei a importância de pensarmos a Internet a partir de seu papel no sistema global de produção e circulação de bens, serviços e, sobretudo informação – o grande ativo econômico do capitalismo informacional. Sob esse prisma, fica claro que estamos diante de um grande teatro da diplomacia global a respeito das revelações feitas por Edward Snowden, há cerca de um mês, de que existe um sistema global de monitoramento e vigilância de dados de governos, empresas e cidadãos levado à cabo por agências de inteligência estadunidenses. Quando o presidente Obama diz que os EUA não estão fazendo nada que os outros países não fazem é triste, mas é a realidade. Alemanha, França, China e até o Brasil (em diferentes níveis e de diferentes formas) espionam e monitoram em massa seus cidadãos.

Pós TV: Edward Snowden e a liberdade na rede

Edemilson Paraná (B&D), João Apolinário, Paulo Rená e Daniel Dantas (integrantes do Partido Pirata) debatem a liberdade na rede

Estados nacionais e empresas transnacionais atuam em intensa colaboração na produção desse sistema global de vigilância e controle – e o Google e o Facebook, como tantos outros, são parte do jogo. Há uma verdadeira corrida ciberarmamentista financiada pela indústria bélica em cooperação com os Estados – que comercializam entre si parte desses novos “produtos informacionais” de segurança. A Internet, que nasce e se desenvolve de modo descentralizado, passa por um processo brutal de centralização, controle e militarização tanto do ponto de vista técnico quanto econômico. O papo parece complicado, mas tem tudo a ver com nossas vidas e nossa liberdade. A Internet está deixando de ser uma esperança para se tornar um grande risco para a humanidade.

Se há alguma grande lição por trás dos últimos “escândalos cibernéticos” é a de que não há democracia, há capitalismo. Em nome dele, e por ele, são cometidas todas as atrocidades necessárias, inclusive a vigilância e monitoramento em massa.

Informação é dinheiro (Capital). Dinheiro é poder. Poder é política. Só com resistência política organizada é que derrubaremos esse estado injusto de coisas (que não começa agora, nem mesmo com a Internet). Um novo front para a luta de sempre. Nas redes e nas ruas, é hora de resistir!

Anúncios

Castells em Barcelona: Medrosos de todo mundo, uni-vos pela rede!

Castells, o téorico das redes

Por Edemilson Paraná, do Blog do Paraná

A frase é de Manuel Castells – um dos maiores teóricos da Comunicação da atualidade – na palestra “Comunicação, poder e democracia” que proferiu em Barcelona na #acampadabcn em 27 de maio desse ano.

Parafraseando o dito imortalizado no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx, disse Castells:

“Precisamos superar o medo para imaginar uma nova sociedade. Se eu tivesse um slogan por um momento, ele seria: medrosos de todo o mundo, uni-vos pela rede! Vocês não tem nada a perder a não ser seu proprio medo”.

Na palestra, reproduzida nos quatro vídeos abaixo, Castells fala da crise representativa das instituições políticas no ocidente -e do vazio entre a política e sociedade- para advogar em favor da busca de modos alternativos, mais democráticos e inovadores, de participação cidadã. Para ele, movimentos como os que tomaram a Espanha e outros países recentemente são produtos de uma insatisfação extremamente necessária nessa construção.

O autor acerta em cheio no diagnóstico. Tenho dito que pensar a democracia para além do voto não é mais coisa de “esquerdista radical”, é coisa de gente que enxerga o óbvio. Algum partido brasileiro está enxergando isso? Não. O próprio Castells explica o porquê:

“É necessário levar para as ruas daqui e de todo o mundo a ideia de que é necessária uma reconstrução da democracia. Não uma destruição, mas um reconstrução da democracia. Mas essa reconstrução não pode ser realizada pelos os que representam a democracia neste momento, porque isso vai contra o seu interesse enquanto grupo profissional, enquanto grupo político e se há algum político bem intencionado dentro de um partido ele é logo podado. Então o problema não é meramente individual – desse ou daquele político – mas de um sistema entranhado por interesses poderosos. É esse sistema que está bloqueando as mudanças”.

Em tempos de discussão da reforma política no Brasil vale o questionamento. Quais interesses estão bloqueando as grandes mudanças? Se as instituições – incluídas aí os partidos políticos – já não dão conta de absorver e dar resposta aos anseios e angústias dos indivíduos (que por vezes sequer podem ser chamados cidadãos), um novo modo de fazer política surge no horizonte. Como será essa nova política? Isso dependerá apenas de nós. Não temos nada a perder a não ser o nosso medo.

Economia da sociedade em rede

Por João Telésforo Medeiros Filho

No vídeo abaixo, o professor Yochai Benkler explica como a internet está gerando a emergência de um novo modelo econômico, cujo lastro é a produção social – compartilhada, colaborativa, em rede e voluntária:

Clique na imagem para abrir o vídeo

Clique na imagem para abrir o vídeo

“Propriedade é um mecanismo de coordenação, mas não é o único”, diz Benkler (tradução por Paulo Rená). E dinheiro nem sempre é o melhor incentivo à produção: o crescimento acelerado do peso da produção social na economia permite-nos vislumbrar um modelo de organização econômica em que a motivação fundamental da conduta dos agentes não seja a maximização do lucro. O papel das instituições é incentivar essas mudanças e garantir a inclusão de todos os indivíduos como seus sujeitos e beneficiários (para isso, uma série de políticas apresentam-se como indispensáveis – as que promovem a inclusão digital, por exemplo).

O professor Marcus Faro de Castro comenta, no blog Direito, Economia e Sociedade:

“O campo que investiga a relações entre o direito e a “nova economia”, incluindo economia em rede, produção e socialização do conhecimento, cultura livre e economia política da propriedade intelectual etc. tem inúmeras vertentes importantes, além daquelas mais evidentes, relacionadas à TI. É preciso abranger também os movimentos “open source biotechnology”, “open source drug discorvery”, discussões sobre patentes da indústria financeira e assim por diante. Ver, por exemplo:
http://freedomofscience.org/
http://rsss.anu.edu.au/~janeth/Law.html
http://www.osdd.net/
http://www.philadelphiafed.org/research-and-data/publications/working-papers/2008/wp08-10.pdf

Um foco central nessas matérias, de um modo geral, diz respeito à política de propriedade intelectual e suas consequências.”