John Lennon – socialista, feminista, internacionalista

John Lennon revolucionário

Yoko e John em passeata com o jornal trotskista Red Mole. Na capa: “Pelo IRA contra o imperialismo inglês”.

Por Edemilson Paraná

Desde muito cedo gosto dos Beatles e especialmente de John Lennon. Foi literalmente minha primeira experiência musical “libertadora”, quando, aos 12 anos de idade, de livre e espontânea vontade, sem a recomendação de ninguém (meu contexto familiar passa muito longe do Rock), uma dessa epifanias inexplicáveis me fez brotar numa loja de discos na minha pequena cidade no interior do Paraná: “quero ouvir qualquer coisa dos Beatles”. Me lembro da cara estranha da atendente que, num misto de espanto e ternura, me apontou um CD: “só temos essa coletânea aqui”. Era a Beatles 1, recém-lançada. Desde então nunca mais parei.

Pouco tempo depois, conhecendo a história de cada um dos integrantes da banda, me deparei com a música Imagine, que se tornaria um tema de vida para mim. Na mesma época começava a tocar violão. Essa combinação simples de Dó com Fá e poucas variações em Lá Menor e Sol virou uma obsessão. Tocava em casa, na escola, em apresentações, entre os amigos. Os mais próximos chegaram a enjoar. Apressado em traduzi-la, me deliciei com o exercício imaginativo de pensar um mundo sem propriedade, sem países, sem religião, sem guerras. Como seria aquela maluquice? Longe de ser um socialista, de ter alguma consciência política progressista (na verdade era até um tanto conservador), sentia que aquilo me dizia muito a respeito.

A descoberta autônoma da música (não a que te dão, mas aquela que você busca e encontra), carregada de novidades estéticas e simbólicas, teve um papel importantíssimo na minha formação, na minha sensibilidade, na forma de como viria a sentir o mundo a minha volta. E aqui vale lembrar a importância transformadora da arte, da estética, da cultura pela sensibilização e movimentação intersubjetiva por um novo senso comum.

Cresci, andei por diferentes universos musicais, me fiz universitário longe de casa, cidadão consciente do meu papel político e socialista por convicção. Toda essa mudança, essa revolução interna pela qual gradativamente passei, no entanto, fez com que eu começasse a ver os Beatles de forma ambígua: próximos emocionalmente – por conta de toda essa carga subjetiva, mas um pouco distantes racional e politicamente em relação ao modo idealizado de como aquele garoto umuaramense os via desde o fatídico encontro na loja de CDs.

Para mim, do ponto de vista político, umas das categorias fundamentais pela qual passaria a experienciar e organizar o mundo a minha volta, John e os Beatles se tornaram mais um brilhante produto da indústria cultural, que domesticou o ímpeto subversivo e marginal do Rock em seus primórdios – e a canção Revolution, que expressa em versos o que seria essa decepcionante revolução cultural, comportada e adequada ao sistema, proposta por eles era a prova cabal disso. Junto dela, as fugas espirituais, sensoriais e alucinógenas do movimento Hippie, que individualizava e marginalizava a possibilidade de qualquer transformação sistêmica; um símbolo, enfim, da destruição criadora do capitalismo cultural que transforma toda forma de contestação em adequação mercantilizada.

John Lennon, o meu preferido, seria, deles, talvez o mais progressista; um pacifista, anti-guerra, um “aliado tático”, mas, ainda assim, parte desse processo todo de derrota política da contra-cultura. Com essa conclusão em mente, sem extremismos, segui ouvindo, tocando e me divertindo com a banda e suas músicas, mas certamente desencantado. Na minha cabeça, John, os Beatles e transformação radical não eram mais uma coisa só, como o fora para aquele menino que começava a descobrir o mundo.

De certo modo, isso não mudou. Mas hoje, ao descobrir por acaso uma entrevista de John Lennon concedida a Robin Blackburn e Tariq Ali, ligados à IV Internacional, para o jornal Trotskista Red Mole, me reconcilio, de alguma forma, com aquele garoto que um dia fui. Me dou conta de algo que para alguns talvez não seja novidade: John era – ainda que de modo ambíguo – um socialista convicto, e Imagine era expressão dessa convicção, “virtualmente o Manifesto Comunista”, segundo o próprio.

Na entrevista (aqui), que ficaria conhecida mais tarde como a “entrevista perdida”, John fala sobre sua origem de classe trabalhadora, as desilusões da fama, a necessidade de destruir o capitalismo, a emancipação das mulheres, o fim das guerras, entre outros assuntos pouco convencionais para um beatle bem comportado. Conforme conta Rômulo Mattos, em brilhante artigo no Blog Convergência (parte de uma série em duas partes aqui e aqui):

“no dia seguinte à entrevista concedida ao jornal Red Mole, um animado Lennon telefonou para Tariq Ali: “Olhe, fiquei tão entusiasmado com o que conversamos que fiz uma música para o movimento, para vocês cantarem nas passeatas”. “Power to the people” mostra uma mudança significativa em relação a “Revolution”. Nessa canção, o artista avisa aos revolucionários para não contarem com ele. Inversamente, em 1971, Lennon canta: “Diga que queremos uma revolução/ É melhor começar logo/ Se prepare/ E vá para as ruas” (“Say we want a revolution/ we better get on right away/ Well, you get on your feet/ And on the street”). A sua adesão aos movimentos revolucionários é ratificada em um verso como: “Nós temos de derrubar vocês/ Quando chegarmos à cidade” (“We got to put you down/ When we come into down”). As suas declarações no período vão no sentido de que o chamado Flower Power fracassara; por essa razão, era necessário começar novamente. Lennon dizia claramente: “Somos o começo da revolução […] Da América ela se espalhará pelo resto do mundo. Viva a revolução” (cf. LEAF, SCHEINFELD, 2006). O arranjo da música merece um rápido comentário. No início da gravação, lançada como single, a frase “Power to the people” é cantada em coro, sendo acompanhada por um provável som de palmas, simulando um protesto de rua”.

Apesar de saber a respeito da espionagem que o FBI teria feito com o cantor na época do movimentos anti-guerra e do boicote à sua permanência nos EUA pelo governo estadunidense que se recusou a renovar seu visto, não conhecia essa face, digamos, “revolucionária” de John Lennon. Havia tomado esse vigilantismo ianque contra John como parte da velha e  injustificada paronóia de controle dos norte-americanos. Pelo visto havia outros temores em Washington. Grata surpresa. Se há um John hippie e domesticado, há também um John em chamas – socialista, feminista, internacionalista. De volta a meus 12, fico com esse, fico com o John de Imagine.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole com sua entrevista concedida à Tariq Ali.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole que trazia sua entrevista concedida à Tariq Ali.

Abaixo, trechos da entrevista de John Lennon a Robin Blackburn e Tariq Ali (Red Mole).

Imagine como Manifesto
“A canção Imagine, que diz, ‘Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política…’ é virtualmente o Manifesto Comunista… Hoje Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar – uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, mas porque ela é suave é aceita.”


Luta das Mulheres

“E as mulheres também são muito importantes, não podemos ter uma revolução que não envolva e emancipe as mulheres. É sutil como se fala da superioridade masculina. Levou algum tempo para que eu compreendesse que o meu machismo estava cerceando certas áreas para Yoko. Ela é uma socialista radicalmente libertária (‘red hot liberationist’) e logo me fez notar como eu estava errado, mesmo quando parecia para mim agir naturalmente. Estou sempre interessado em saber como pessoas que se dizem radicais tratam as mulheres”.


Poder para o povo
“Eles me criticaram por cantar ‘Poder para o Povo’, dizendo que nenhuma facção pode deter o poder. Bobagem. O povo não é uma facção. Povo significa todas as pessoas. Penso que cada um deveria possuir tudo de forma igualitária e que o povo deveria ser também proprietário das fábricas e ter participação na escolha de quem as dirige e o que deve ser produzido. Estudantes deveriam ter o direito de escolher seus professores.”


Revolução

“(Para destruir o capitalismo na Inglaterra), penso que o único caminho é tornar os operários conscientes da sua sofrida posição a que estão submetidos, dos sonhos que os cercam. Pensam que estão em um maravilhoso país da liberdade expressão. Compram carros e televisões e acham que não há nada mais na vida. Estão condicionados a deixarem os patrões mandarem, a verem seus filhos massacrados nas escolas. Estão sonhando o sonho de outros, não é um sonho autêntico deles. Devem compreender que os irlandeses e os negros estão sendo reprimidos e que eles serão os próximos. Tão logo eles tomem consciência de tudo isso, podemos começar a fazer algo. Os trabalhadores têm de começar a assumir. Como Marx disse: ‘Para cada um segundo sua necessidade’. Penso que isto seria muito adequado aqui”.

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O histórico discurso de Pepe Mujica na Assembléia Geral da ONU

Reproduzimos abaixo o sóbrio – e profundamente emocionante – discurso de Pepe Mujica, presidente do Uruguai, na Assembléia Geral da ONU. Um líbelo anticapitalista em defesa da verdadeira paz, democracia, liberdade e felicidade humanas;  um chamado ao socialismo – ao nosso socialismo e horizonte societário. Que fique marcado em pedra, como utopia-programa da luta que construímos no presente para o mundo que queremos no futuro. Porque inviável, irreal ou impossível é o planeta seguir como está.

Amigos todos,

Sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma peneplanície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Teve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que por fim, no começo do século XX, se transformou em vanguarda no social, no Estado, na educação. Diria que a social democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na verdade, na economia fomos bastardos do império britânico e quando este sucumbiu vivemos o mel amargo de termos comerciais funestos, e ficamos estagnados, saudosos do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje ressurgimos neste mundo globalizado talvez aprendendo da nossa própria dor. Minha historia pessoal, a de um rapaz – porque uma vez fui um rapaz – que como outros quis mudar sua época, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são em parte filhos de meu tempo. Obviamente os assumo, mas há vezes em que medito com nostalgia.

A FORÇA DA UTOPIA

Quem me dera ter a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! Sem embargo não olho para trás porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou reverberar memórias.

Me causa angústia, e de que maneira, o futuro que não verei, e por ele que me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez hoje a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, em débito com milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos campos, nas selvas, nos pampas da América Latina, pátria comum que se está construindo.

O BLOQUEIO INÚTIL A CUBA

Venho em débito com as culturas originais esmagadas, com os restos do colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a esse lagarto sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Venho em débito com as consequências da vigilância eletrônica que não faz outra coisa que não seja semear desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Venho em débito com uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios da América.

Em débito com o dever de lutar por pátria para todos. Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e reconheço o débito de lutar pela tolerância, a tolerância que se precisa com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e discordamos. Não se precisa da tolerância para aqueles com quem estamos de acordo.

A TOLERÂNCIA É A PAZ

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que no mundo somos diferentes. O combate à economia suja, ao narcotráfico, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas embarcadas por este antivalor, esse que sustenta que somos felizes se nos enriquecemos seja como for. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo deles com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões, a aparência de felicidade.

Parece que nascemos só para consumir e consumir, e quando não podemos sofremos com a frustração, a pobreza e até a autoexclusão.

O certo hoje é que para gastar e enterrar os detritos nisso que a ciência chama “pegada de carbono”, se aspirássemos nessa humanidade consumir a média consumida por um americano padrão, seriam necessários três planetas para podermos viver.

O DESPERDÍCIO DE VIDA

Quer dizer, nossa civilização montou um desafio mentiroso e assim como vamos, não é possível para todos manter esse sentido de desperdício que se deu à vida. Na verdade, é cada vez mais difundido como uma cultura de nosso tempo, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de extravagância e desperdício, e no fundo ela se constitui em uma contagem regressiva contra a natureza, contra a humanidade como futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

“CIVILIZAÇÃO” CONTRA O AMOR

Pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, o único transcendente, o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família. Civilização contra o tempo livre não paga, que não se compra, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com caminhadores, à insônia com comprimidos, à solidão com equipamentos eletrônicos, porque somos felizes alijados do ambiente humano.

Cabe fazer esta pergunta, fugimos de nossa biologia que defende a vida por si própria, como causa superior, e a suplantamos pelo consumismo em função da acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado, de pulo em pulo a política não pode mais do que se perpetuar, e como tal delegou o poder e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Malfadada marcha da história humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de algum modo, o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretarias, os carros e às férias. Tudo, tudo é negócio.

No entanto as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os mais velhos e ter no futuro um território assegurado. Sobram provas destas tecnologias bastante abomináveis que as vezes, conduzem às frustrações e muito mais.

O “homenzinho médio” de nossas grandes cidades,vagando entre as financeiras e o tédio rotineiro dos escritórios, as vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e a liberdade, sempre sonha em terminar de pagar as contas, até que um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado cobrindo as garras do mercado, assegurando a acumulação. A crise se faz impotência, a impotência da política, incapaz de compreender que a humanidade não foge, nem fugirá do sentimento de nação. Sentimento que quase está encrustado em nosso código genético.

UM MUNDO SEM FRONTEIRAS

Hoje, é tempo de começar a esculpir um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução do que o interesse privado, de muitos poucos, e cada estado nacional olha sua estabilidade continuista, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde maneira de ver, é o todo.

Como se isso fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo são o auge do poder mundial. Mais claro, acreditamos que o mundo demanda a gritos regras globais que respeitem as conquistas da ciência, que abundam. Mas não é a ciência que governa o mundo. São necessárias, por exemplo, uma grande agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a Terra, como converter as moedas, como financiar a luta global por água e contra os desertos.

SOLIDARIEDADE COM OS OPRIMIDOS

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global? Quais são os limites de cada grande esforço da humanidade? Seria imperioso conseguir consenso planetário para desencadear solidariedade aos mais oprimidos, castigar impositivamente o desperdício e a especulação. Mobilizar as grandes economias, não para criar descartáveis, com obsolescência programada, mas sim com bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar aos pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Derrubar um neo-keynesianismo útil de escala planetária para abolir as vergonhas mais flagrantes que existem nesse mundo.

A POLÍTICA E A CIÊNCIA

Talvez nosso mundo necessite de menos organismos mundiais, esses que organizam os foros e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas, no melhor dos casos, mas que ninguém recolhe nada e transforma em decisões…

Necessitamos sim mascar muito o velho e eterno da vida humana junto à ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para se tornar rica; com eles, com homens de ciência, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos pelo mundo inteiro. Nem os grandes Estados nacionais, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveria governar o mundo humano. Mas sim a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, aí está a fonte. Essa ciência que não se importa com o lucro, mas que olha para o futuro e nos diz coisas que não atendemos. Quantos anos faz que nos disseram determinadas coisas que não nos demos por inteirados? Creio que temos que convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas desse estilo e outras que não pude desenvolver nos parecem imprescindíveis, mas requereriam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

NÃO SOMOS TÃO ILUDIDOS

Obviamente, não somos tão iludidos, estas coisas não irão ocorrer, nem outras parecidas. Resta-nos muitos sacrifícios inúteis por diante, muito remendar consequências e não enfrentar as causas. Hoje o mundo é incapaz de criar uma regulação planetária à globalização e isto se dá pelo enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa do todo. Por último vamos assistir ao refúgio dos acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão reclamar um mentiroso livre comércio interno, mas que no fundo vão terminar construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. Por sua vez, vão crescer ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, vamos estar entretidos e naturalmente tudo vai continuar como está para manter a rica a acumulação, para regojizo do sistema financeiro.

IR CONTRA A ESPÉCIE

Continuaram as guerras e portanto os fanatismos até que talvez a mesma natureza chame a ordem e faça inviável nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, impiedosa e vemos o homem como uma criatura única, a única que há sobre a terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta, é consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo, também nossa derrota, porque temos impotência política de enquadrarmos em uma nova época. E contribuímos a construir nos damos conta.

Por quê digo isso? São dados nada mais. O certo é que a população se quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990 aproximadamente a cada seis anos se duplica o comércio mundial. Poderíamos seguir anotando os dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está ocorrendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente mas com políticos, enfeites culturais, partidos, e jovens, todos velhos diante da pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer pudemos registrar. Não podemos manejar a globalização, porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitante cultural ou estamos chegando aos limites biológicos.

OS EFEITOS DA GANÂNCIA

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou menos, condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada porque nem sequer temos tido filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A ganância, tão negativa e tão motor da história, isso que empurrou o progresso material técnico e científico, que fez aquilo que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a ganância que nos empurrou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo brumoso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e perpetuarmos transformando-nos.

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Caso Edward Snowden: a liberdade na rede e o teatro da diplomacia global

Representando o grupo Brasil e Desenvolvimento, debati ontem ao vivo na Pós Tv com o pessoal do Partido Pirata sobre o caso Snowden e a liberdade na Internet. Segue abaixo, a íntegra da discussão em vídeo.

Ressaltei a importância de pensarmos a Internet a partir de seu papel no sistema global de produção e circulação de bens, serviços e, sobretudo informação – o grande ativo econômico do capitalismo informacional. Sob esse prisma, fica claro que estamos diante de um grande teatro da diplomacia global a respeito das revelações feitas por Edward Snowden, há cerca de um mês, de que existe um sistema global de monitoramento e vigilância de dados de governos, empresas e cidadãos levado à cabo por agências de inteligência estadunidenses. Quando o presidente Obama diz que os EUA não estão fazendo nada que os outros países não fazem é triste, mas é a realidade. Alemanha, França, China e até o Brasil (em diferentes níveis e de diferentes formas) espionam e monitoram em massa seus cidadãos.

Pós TV: Edward Snowden e a liberdade na rede

Edemilson Paraná (B&D), João Apolinário, Paulo Rená e Daniel Dantas (integrantes do Partido Pirata) debatem a liberdade na rede

Estados nacionais e empresas transnacionais atuam em intensa colaboração na produção desse sistema global de vigilância e controle – e o Google e o Facebook, como tantos outros, são parte do jogo. Há uma verdadeira corrida ciberarmamentista financiada pela indústria bélica em cooperação com os Estados – que comercializam entre si parte desses novos “produtos informacionais” de segurança. A Internet, que nasce e se desenvolve de modo descentralizado, passa por um processo brutal de centralização, controle e militarização tanto do ponto de vista técnico quanto econômico. O papo parece complicado, mas tem tudo a ver com nossas vidas e nossa liberdade. A Internet está deixando de ser uma esperança para se tornar um grande risco para a humanidade.

Se há alguma grande lição por trás dos últimos “escândalos cibernéticos” é a de que não há democracia, há capitalismo. Em nome dele, e por ele, são cometidas todas as atrocidades necessárias, inclusive a vigilância e monitoramento em massa.

Informação é dinheiro (Capital). Dinheiro é poder. Poder é política. Só com resistência política organizada é que derrubaremos esse estado injusto de coisas (que não começa agora, nem mesmo com a Internet). Um novo front para a luta de sempre. Nas redes e nas ruas, é hora de resistir!

Hugo Chávez e os novos caminhos da América Latina

Segue abaixo, como contribuição ao debate sobre Hugo Chávez e o seu legado, texto do professor Pio Penna Filho, do Instituto de Relações Internacionais da UnB.

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A morte de Hugo Chávez não afetará apenas a Venezuela. Chávez foi um líder que sempre enfatizou a América Latina como um todo. Sua visão política rompia com a barreira da nacionalidade do seu país e vislumbrava uma América Latina unida em torno de um ideal “pan-latinoamericano”. Foi um desses líderes carismáticos que surgem apenas de tempos em tempos e que deixam um registro histórico que geralmente sobrevive durante muitas e muitas décadas.

Em termos de política internacional, Chávez rompeu com o marasmo latino-americano. Vínhamos num ritmo lento, quase sem ousadia na cena internacional. Durante a década de 1990, boa parte dos países da região seguia obediente aos mandos e desmandos de Washington, sem sequer se atrever a questionar os pressupostos neoliberais irradiados a partir dos Estados Unidos. Depois da Revolução Cubana, Chávez foi o grande contraponto a esse estado de coisas.

Esse cenário começou a mudar quando Hugo Rafael Chávez Frías assumiu o poder na Venezuela e passou a questionar, cada vez com mais intensidade, a impertinência do modelo neoliberal e mesmo da ordem internacional vigente para as sociedades latino-americanas, marcadas por profundas desigualdades sociais.

O comando de um importante país produtor de petróleo fez uma enorme diferença para que os ideais políticos de Chávez, de caráter socialista e mesmo que um tanto confusos, fossem colocados em prática.

Assim, com os recursos obtidos pelo espetacular aumento dos preços do petróleo no mercado internacional, Chávez promoveu uma ampla política de distribuição de renda que hoje, diante da verdadeira comoção nacional em torno de sua despedida, nos permite ter uma ideia do seu impacto na sociedade venezuelana.

No plano internacional, a Venezuela chavista estendeu a mão para alguns países mais pobres da América Latina, como Bolívia, Cuba e Nicarágua. Com a chamada Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, ou ALBA – que mesmo tendo obtido modestos resultados práticos –, Chávez inovou mais uma vez ao propor algo diferente dos tradicionais esquemas de integração regional baseados quase que apenas na ampliação das trocas comerciais.

Projetando a Venezuela para fora da América Latina, Chávez ousou em se aproximar de regimes considerados como praticamente párias pela hegemonia norte-americana, como os regimes sírio (Bashar al Assad), líbio (Muammar Gaddafi) e, com mais intensidade ainda, com o iraniano, tendo visitado o país persa em várias ocasiões durante o seu governo.

Com a Rússia, assinou um acordo comercial para compras de armas e equipamentos militares que irritou Washington e deixou muitos governos da própria América Latina preocupados com a modernização das forças armadas da Venezuela.

Chávez fará falta para a Venezuela, para a América Latina e para o mundo como um todo. Sua visão da política, que está longe de ser consensual, irrita muitos mas agrada outros tantos. Uma das suas grandes contribuições foi justamente essa, a de apontar em direção a uma outra via, diferente, sonhadora e preocupada com as questões sociais, algo que anda muito em baixa entre os governantes e líderes do início do século XXI.