Não é sobre Safatle, não é sobre o PSOL. O que aconteceu com uma das candidaturas mais promissoras da esquerda radical em 2014?

Safatle

Breve descrição dos acontecimentos sob a ótica de quem participou das negociações

Sou Edemilson Paraná, vice-presidente do PSOL-DF, integrante de uma organização local denominada ELA – Esquerda Libertária Anticapitalista. Não temos militantes em São Paulo. Não disputamos, dessa forma, nenhum espaço em sua estrutura burocrático-administrativa. Nossa organização, no entanto, tem um diálogo político com Vladimir Safatle que data já de antes de ambos termos entrado no partido (nós em abril de 2013, ele em agosto do mesmo ano). Em mais de uma ocasião, realizamos atividades com Vladimir em Brasília para discutir os rumos da esquerda socialista no Brasil.

Por conta dessa relação, que aos poucos se tornou mais próxima, ancorada num profundo acordo no plano das ideias, comemoramos sua filiação no PSOL e a notícia de que seria candidato a governador em um dos Estados mais importantes da Federação. Era a chance de vermos essas ideias representadas em mais um importante front de lutas. Achamos que a entrada de um intelectual da escala de Vladimir é um indício do próprio fortalecimento e crescimento do PSOL no último período, em sua relevância política e social, parte que é da mesma conjuntura que impulsionou nossa opção pela filiação no partido como uma alternativa diante do atoleiro histórico (estético, simbólico, de valores e ideias) em se que se enfiou o PT.

Dessa forma, entramos no circuito dessa discussão, para ajudar a resolver a crise lá instalada, imbuídos unicamente do senso de responsabilidade política e histórica em defender tais ideias e o processo que seu enraizamento, mediante luta política e construção cotidiana do poder popular conjuntamente de várias setores e movimentos do Estado, poderiam ajudar a conformar em São Paulo e em todo o Brasil um novo ambiente político. Achamos que essa candidatura é boa para o PSOL e para todo o debate político brasileiro, não só em São Paulo. Dito isso, narro o que presenciamos. 

Certo dia recebo, por alguns companheiros presentes em uma reunião da executiva do PSOL-DF, a informação de que Vladimir havia desistido da candidatura. Duvidando da solidez da informação, entro em contato com o mesmo para verificar a informação. De fato, a história não era exatamente essa. Ali começava, mesmo que ainda não soubéssemos bem ao certo a razão, a operação de não-viabilização de sua campanha.

É que em uma reunião com a direção do partido, que acabara de acontecer, Vladimir praticamente foi abandonado à própria sorte: informado de que não contava com nenhum recurso e nenhuma estrutura para realizar sua campanha, nem mesmo uma previsão de equipe militante. Zero. Nada. Poucos quadros políticos, sobretudo alguém recém-ingresso na vida partidária, não integrante de nenhuma corrente política e, portanto, pouco ambientado com as adversidades da disputa interna levaria a empreitada de ser candidato a governador adiante em tal contexto. Estava evidente, no entanto, que as coisas não eram bem assim, que nenhuma candidatura à governador é abandonada, dessa forma, à própria sorte, sem a viabilização de absolutamente nada e, se assim o fosse, esse fato deveria, no mínimo, ter sido comunicado com antecedência, quando Vladimir foi convidado a ser candidato pelo partido, ainda em 2013. Longe de apenas refletir o quadro de carestia de um partido político militante e coerente com seus princípios, que não aceita doações de empresários e donos do poder – algo que confere com a realidade, era patente o esvaziamento político que a manobra denunciava.

No dia seguinte, após conversas com outros companheiros, Vladimir manifestou legitimamente que seguiria candidato desde que conseguíssemos viabilizar algumas condições políticas e de infra-estrutura mínimas que, de saída, fossem capazes de ao menos colocar a campanha na rua. A questão, concordamos, se tratava apenas de calibrá-las de diante de nossas possibilidades. Sabíamos que com algum trabalho, militância e dedicação era possível obter as tais condições de partida que, nesse caso, estavam longe de serem absurdas. A isso seguiu nossa luta, com algum sucesso, não sem a colaboração do próprio Vladimir, para obtê-las de comum acordo com todos os setores do partido. 

Pressionando por um desfecho rápido, a direção do partido, comandada pelo mesmo grupo que tentaria praticamente demovê-lo da empreitada na primeira das reuniões, produziu de modo apressado uma nota que anunciava a desistência da candidatura diante da não obtenção das referidas condições. A nota, de caráter interno, e dirigida à militância, dava pé das razões para a referida desistência, não sem apresentar de modo irresponsável um suposto comportamento individualista da parte de Safatle. O professor, por sua vez, de modo a não aprofundar o tensionamento interno e preservar o partido, evitou manifestar contrariedade ao teor do texto. Enquanto isso, seguimos trabalhando pela obtenção das condições que um dos setores do partido se negava, de fato, com algumas exceções, ao empenho de buscar. Vladimir seguiu afirmando para todos os setores e seus dirigentes, de modo bastante claro durante as negociações, de que seguia candidato se as condições fossem obtidas, algo que àquele momento estavam próximas de serem obtidas.

Depois de quase uma semana de trabalho, conversas e negociações, conseguimos obter as referidas condições. O PSTU, irmanado no propósito de compor uma frente de esquerda, se dispôs a ajudar (ainda que até àquele momento sequer tivesse sido procurado pelo setor do partido que alegava a total falta de possibilidade para obter as referidas condições), além de outros simpatizantes da campanha e quadros políticos. Nada de substancial, mas o suficiente. Obtidas as condições, na verdade algo próximo delas, Vladimir voltou a afirmar para todos os agrupamentos do partido sua disposição, amplamente conhecida àquela altura, de ser candidato. 

Mas já era tarde. A “política do fato consumado” já havia sido ligada, e a direção do PSOL-SP, conduzida a mão de ferro pela corrente política do deputado federal Ivan Valente, já havia decidido que a candidatura Safatle não era de seu interesse. Em seu lugar, seria colocado Gilberto Maringoni, ligado à Unidade Socialista, o referido grupo de Ivan, Paulo Búfalo e outros. Por trás da decisão estava a indisposição para aliança com o PSTU, pleiteada por Safatle e setores da esquerda do partido, que exigiria reconfiguração da disposição do tempo de TV e algumas outras condições, além do temor diante da ameaça que a candidatura e as ideias de Safatle poderiam representar ao equilíbrio de forças interno, que garantia sua apertada maioria no diretório estadual. O velho pacto de mediocridade da burocracia: manter o controle do partido, nem que às custas da inviabilização de um importante processo político e do próprio crescimento quantitativo, mas sobretudo qualitativo, da legenda.

Surpreendidos com a rápida obtenção das condições que hora imaginaram que não conseguiríamos por nossa própria sorte e sem sua ajuda, que viabilizava política e materialmente a manutenção da candidatura Safatle, a Unidade Socialista deu um passo além em sua política de boicote: o tesoureiro do partido ligou para umas das pessoas que havia se disposto a contribuir com a campanha de Safatle pedindo ajuda financeira, vejam só!, para outro candidato: Gilberto Maringoni. O objetivo de implodir a candidatura de Safatle não poderia estar mais claro. Depois desse acontecimento, e prevendo outros ataques, Safatle sentiu-se no dever de soltar uma nota própria, também de caráter interno, explicando os problemas e reafirmando sua disposição de ser candidato. Com tudo esclarecido, o diretório, que iria se reunir no dia seguinte, o fatídico domingo, poderia tomar a decisão sem grandes polêmicas ou dificuldades.

Mesmo diante deste ataque aberto, acreditávamos em uma recomposição que fosse capaz de, unitariamente, superar as disputas e problemas de comunicação em nome da nomeação conjunta e coletiva de Safatle. Não havia nada que impedia isso, afinal. Tudo estava garantido. As condições haviam sido obtidas, e Safatle havia manifestado reiteradas vezes sua disposição diante delas, algo que era de conhecimento de todos os dirigentes ali presentes. A ideia era compor uma comissão que, na segunda-feira, batesse o martelo conjuntamente com nosso candidato a governador.

Mas a Unidade Socialista de Ivan Valente e Paulo Búfalo, amparada numa apertada maioria estava empenhada a levar, de modo grosseiro, a disputa até as últimas consequências, e ancorados na informação inverídica de que Safatle havia desistido do pleito, que seguiram afirmando mesmo diante do conhecimento de sua afirmativa, colocaram em votação, não sem protesto e deslegitimação aberta por parte de um número significativo integrantes do diretório, a aprovação da candidatura Maringoni. Sim, amigos, a máquina burocrático-administrativa havia sido ligada mais uma vez para submeter a vida militante do partido em nome do controle do pequeno poder local como um fim em si mesmo. O tragicômico repetir da velha manobra por todos nós conhecida em manuais e tratados de história política. Desde então, seguiu-se o lamentável que temos visto na imprensa e que motiva mais este texto de esclarecimento: notas, declarações, entrevistas e acusações trocadas.

Safatle, ao contrário do que se diz, agiu de modo altivo, paciente e comprometido. Seu único erro foi confiar em demasia na burocracia do partido em seu Estado.

E agora? Ou por que essa crise não é apenas sobre a candidatura Safatle

No seguinte texto (publicado aqui), descrevo porque as diferenças entre Maringoni e Safatle não se dão meramente entre indivíduos ou agrupamentos/correntes políticas, mas entre posições distintas em um importante debate estratégico: de concepções sobre quais rumos deve seguir o PSOL em seu objetivo de reconstrução da esquerda brasileira a partir do esgotamento estrutural (ou não, a depender da visão diferente de cada um deles nesse particular) do ciclo político petista, iniciado na década de 80. E aqui, leituras diferentes sobre o que representam as jornadas de junho, qual a dimensão e o significado da revolta social que hora toma o país, e mesmo do que é feito e como deve funcionar um partido como o PSOL diante desse cenário estão implícitas. A militância sabe disso e se levanta pelo nome de Safatle de modo ainda mais apaixonado do que pudemos imaginar. A direção burocrática do partido também sabe disso e por isso leva o nome de Maringoni até as ultimas conseqüências de modo muito mais truculento do que fomos capazes de conceber.

Não entrarei no mérito a respeito de quem é Gilberto Maringoni com quem divirjo a respeito da leitura do momento político em que vivemos dentro e fora do PSOL. Respeito e admiro sua história coerente de luta política e construção partidária, sua militância e compromisso, e justamente por isso, acho equivocado o papel a que ele tem se prestado neste momento. Maringoni é um quadro bastante experiente e sabe exatamente com o que está lidando e, portanto, que tarefa está cumprindo neste contexto. Como reitero, o debate aqui, no entanto, não é sobre Maringoni ou Safatle (já que ambos, como militantes, merecem nossa estima) mas sobre qual deve ser o papel do PSOL na reconstrução da esquerda e qual deve ser o seu lugar no cenário político brasileiro. E com base nessa leitura, é no mínimo um grande desperdício prescindir de uma das que figurava entre as candidatura mais promissoras da esquerda radical em 2014.

Não aceitaremos que lideranças burocráticas, instaladas na máquina partidária da esquerda radical atuem como se o partido fosse uma verdadeira capitania, administrada à mão de ferro, em nome de um pacto de mediocridade ancorado no curto-prazismo da obtenção e manutenção de mandatos parlamentares.

E tampouco encontra amparo na realidade a versão de que Safatle ou outros setores do partido, com tal negativa, não respeitam decisões coletivas. Só confunde, de modo interessado ou não, decisão coletiva com decisão burocrática quem não aprendeu com os erros da história. 

Por mais que disputas como as de São Paulo sejam desanimadoras para nossa aguerrida militância, não devemos sequer cogitar prescindir dessa luta política. Há todo um mundo para ser transformado. Tudo somado, o PSOL ainda é um partido em disputa, com um equilíbrio sempre tênue e cambiável, um instrumento importantíssimo para construirmos as mudanças necessárias. Mesmos nossos acordos mínimos, fruto de duros embates, estão muito além do pavoroso cenário de transformismo e capitulação de outros partidos, que cada dia menos ousam se autodenominar de esquerda. A duras penas, é verdade,  o PSOL segue sendo um espaço plural de recomposição política da esquerda brasileira. Cabe a nós seguir lutando de modo incansável para aprofundar ainda mais essa sua condição.

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A Comuna de Paris, o urbanismo revolucionário e a cidade-negócio do governo Haddad

A Comuna de Paris completa, hoje, 142 anos. Foi no dia 18 de março de 1871 que se constituiu a primeira experiência histórica de autogoverno operário e popular, a qual durou cerca de quarenta dias, resistindo ante as tropas francesas e alemãs que executaram mais de 20 mil rebeldes até o esmagamento da Comuna.

Sobre aquela experiência, assinalou o teórico Henri Lefebvre, formulador do conceito de Direito à Cidade:

“A Comuna? Foi uma festa, a maior do século e dos tempos modernos. A análise mais fria descobre ali a impressão e a vontade dos insurgentes de tornarem-se os donos de sua vida e de sua história, não somente no que concerne às decisões políticas, mas ao nível da cotidianeidade. É nesse sentido que compreendemos Marx: ‘A maior medida social da Comuna era sua própria existência em ato… Paris toda verdade, Versalhes, toda mentira’. (…)

A Comuna foi a conquista do poder político pela classe trabalhadora (Marx) mas ela mudou radicalmente a forma e o sentido do poder político, pondo o social e a sociedade por cima do político, rebaixando este último e levando-o ao seu fim. (…)

A Comuna representa até o nosso tempo a única tentativa de um urbanismo revolucionário, atacando sobre o terreno dos signos petrificados da velha organização, captando as fontes da sociabilidade – nesse momento, o bairro –, reconhecendo o espaço social em termos políticos e não crendo que um monumento possa ser inocente”.

comunaNeste dia de lembrar essa grande experiência de urbanismo revolucionário, é importante nos voltarmos à realidade das nossas cidades e analisarmos experiências que se anunciam como transformadoras, para avaliar se efetivamente têm esse caráter. Hoje, o Brasil volta seus olhos para a administração de Fernando Haddad, em São Paulo, a maior e mais rica metrópole do país, uma das mais importantes do mundo. Sinais contraditórios têm sido emitidos sobre a direção que será impressa pela gestão petista, e não pretendo fazer uma avaliação global de cenários. É relevante trazer desde já, no entanto, apontamentos críticos que vêm sendo feitos de modo fundamentado por movimentos sociais e urbanistas.

Nesse sentido, Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, apresenta um diagnóstico que nos permite perceber como a nova Prefeitura tem sinalizado que seu planejamento urbano tem como objetivo fundamental gerar lucro para o capital imobiliário (e outros), e apenas acessoriamente a preocupação com uma cidade democrática e de direitos. Aponta Raquel, sobre o projeto do “Arco do Futuro” da Prefeitura:

Na Faculdade de Arquitetura, na disciplina de Planejamento Urbano, nós ensinamos que primeiro se define o que se quer para a área, debatendo amplamente com a sociedade: ou seja, que cidade queremos? Qual é a transformação que desejamos para este lugar? Depois, uma vez definido o que se quer, discute-se quais são os melhores instrumentos para implementar a proposta. O caminho que está sendo colocado agora [pela gestão de Fernando Haddad] é o contrário, ele começa com o instrumento, que é a parceria público-privada. A partir daí se definirá o projeto.  Mas se é parceria, a empresa tem que necessariamente ter lucro, e isso, claro, implica e compromete o projeto, na medida em que ele só ficará de pé se incluir a possibilidade de gerar grandes lucros imobiliários. A pergunta central, a partir disso, gira em torno da questão “qual é o uso mais rentável deste solo?” e não do que a cidade quer, demanda e precisa, ou seja, “do  que mais precisamos neste momento nesta cidade?”.

Sigamos atentos, e empenhados na construção de alternativas superiores e insurgentes, em confronto com a tecnocracia resignada, ainda que bem intencionada, que Haddad, o PT e a atual Prefeitura de São Paulo parecem encarnar.

Leia a íntegra do texto da professora Raquel Rolnik aqui.

Bolivianos no Brasil

Por João Telésforo Medeiros Filho

Estamos acostumados a ouvir falar de problemas com imigração em outros países. Os Estados Unidos chegaram a construir um muro na fronteira com o México, e na Europa há um forte discurso xenofóbico dirigido contra  os imigrantes, utilizados pela direita como bodes expiatórios para o desemprego e a violência. Dois novos casos vieram à tona recentemente: nos Estados Unidos, a resistência à demanda de construção de uma mesquita em Manhattan, perto de onde ficavam as Torres Gêmeas (Obama, felizmente, vem defendendo o direito dos muçulmanos de contruírem-na); na França, a deportação de centenas de ciganos pelo governo de Sarkozy.

Não temos o hábito, porém, de pensar essa questão como algo próximo de nós, um problema sério a ser enfrentado também aqui no Brasil. Talvez isso mude nos próximos anos: Márcio Pochmann, professor de Economia da Unicamp e atual presidente do IPEA, comenta em entrevista à Caros Amigos deste mês que o Brasil entrará em uma fase de escassez de mão-de-obra, e levanta a possibilidade de que poderá haver demanda cada vez maior por imigrantes – paraguaios ou bolivianos, por exemplo – para fazer os serviços mais simples.

Embora este seja um tema com pouca visibilidade pública, já há muitos imigrantes bolivianos no Brasil, muitos deles trabalhando em condições precárias – por vezes, análogas à de escravo – em costurarias em São Paulo. Veja-se, a este respeito: “Bolivianos em São Paulo: entre o sonho e a realidade“, “Imigrantes bolivianos vivem como escravos em São Paulo” e o filme “Costurando sonhos: a presença boliviana em São Paulo” (de apenas 15 min, vale à pena ver lá!).

Como lidaremos com os imigrantes: cidadãos cujos direitos devem ser assegurados, pessoas cuja cultura deve ser respeitada e com quem podemos aprender, ou apenas estranhos a serem desprezados, odiados, explorados e perseguidos? Nossa abordagem será discriminatória e policialesca, ou preocupada com a garantia de trabalho digno, acesso a serviços públicos e integração social e cultural? Quando falo em integração, não me refiro a uma assimilação que implique esforço de destruir ou enfraquecer sua identidade, mas combate à visão preconceituosa que os trata como cidadãos de segunda classe.

Uma fonte importante de reflexão sobre o assunto é o blog “Educar para o Mundo”, que acompanha o projeto pioneiro de extensão coordenado pelo IRI/USP sobre migrações. Transcrevo abaixo texto que a professora Deisy Ventura postou lá ontem:

Esquizos

“Eu tenho vontade de dizer a esses italianos: escutem, vocês não lembram que já foram bolivianos?”, exclamou Maria Victoria Benevides, em meio ao abraço da Flávia Schilling, numa sala repleta e acolhedora da Faculdade de Educação da USP. O motivo do nosso encontro: a banca de Mestrado da Giovanna Modé, consagrada a um assunto bem incômodo. É possível, nas escolas de São Paulo, a matrícula de alunos sem documentos. As pífias estatísticas contam de 60 a 200 mil bolivianos residentes aqui na cidade – o certo é que, seja qual for o contingente, grande parte dele vive clandestinamente no Brasil. Pensou Giovanna: tudo bem, eles podem matricular os filhos, mas o que acontece durante e depois da matrícula?  E lá foi ela a campo, ver e ouvir os imigrantes e a comunidade à sua volta, ao mesmo tempo em que percorria a melhor literatura sobre migrações, educação e direitos humanos. A densidade teórica ilumina a compreensão das dezenas de depoimentos e afasta qualquer clichê. No texto, encontramos uma menina que não quer mais ser boliviana: “sou brasileira porque eu como miolo de pão e gosto mais de doce do que de salgado. Boliviano é meu pai”. Há também a mãe que sonha com uma escola separada para os bolivianos, pois a educação no Brasil é “fraca, ninguém respeita os professores e o ensino nada tem a ver com a realidade”. Ali está uma criança que sente falta das aulas de música, teatro e dança da escola na Bolívia: “aqui, nas aulas de arte, a gente só escreve”. Há, por sua vez, os brasileiros que, num debate durante a aula, dizem à professora que estão decididos a migrar para os Estados Unidos, onde ficarão ricos e serão bem tratados; então os coleguinhas bolivianos, em geral tímidos, irrompem em riso frouxo. Há igualmente a garota pop que os brasileiros pensam que é japonesa. Ora, só uma impecável escuta durante as entrevistas (postura ético-política que marca a obra da Orientadora, a Flávia) poderia permitir tamanha desenvoltura nestas falas, em que não há rastro de vitimização. Tampouco de ilusões ou ingenuidade. A referência à discriminação é constante. Há relatos de espancamento até a morte, e de estupro de imigrantes. Continuar lendo

São Paulo é a nova Paris?

Por Laila Maia Galvão

Na semana passada, assitimos na TV algumas cenas de violência ocorridas em Jaçanã, na zona norte da cidade de São Paulo. A morte de um jovem, após confronto com a polícia militar, teria causado uma onda de protestos no distrito. Três ônibus foram queimados por moradores. 

Hoje, uma notícia semelhante nos noticiários. Uma garota foi atingida por um tiro na cabeça durante troca de tiros entre Guarda Civis de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e faleceu em seguida. Os policiais perseguiam os suspeitos de um roubo de carro. Os moradores, revoltados, protestaram. As ruas da favela Heliópolis foram fechadas e os manifestantes atearam fogo em móveis e pneus. A polícia revidou com balas de borracha e bombas de efeito moral.

É possível que tais episódios representem casos isolados, mesmo considerando o intervalo de menos de uma semana entre esses dois tristes acontecimentos. No entanto, não deixei de recordar a Paris de 2005, quando moradores do subúrbio parisiense perpetraram atos de protesto durante vários dias consecutivos com a queima de mais de 9000 veículos. Relembrando:

A morte acidental de dois jovens que acreditavam estar sendo perseguidos pela polícia em Clichy-sous-Bois (periferia de Paris), desencadeia nos bairros mais pobres da região parisiense episódios de violência urbana durante as noites e madrugadas que vão se estender a todo o país. De 27 de outubro a 17 de novembro passados, mais de 9.000 veículos foram queimados, tendo sido interrogadas 3.000 pessoas; 126 policiais ficaram feridos. Em 8 de novembro último, o governo instaurou o estado de urgência, prorrogado por três meses.

O script me parece semelhante: insatisfação da população no que diz respeito à atuação excessivamente violenta da polícia e profunda indignação quanto à opressão e à exclusão enfrentadas cotidianamente por moradores da periferia. Assim como em 2005, as informações que temos sobre tais episódios são obtidas por meio de veículos de comunicação que nem sempre conseguem passar ao leitor todas as facetas desses acontecimentos.

E se antes os atos de violência franceses pareciam corresponder a uma realidade distante, agora não temos tanta certeza assim. De resto, vamos seguir acompanhando o clima de tensão na periferia paulistana.

Reportagem sobre morte em Jaçanã: Aqui. / Reportagem sobre morte em São Caetano do Sul: Aqui. / Reportagens especiais sobre violência na França em 2005: Aqui. / Interessante artigo “gangsta rap” francês: Aqui.

Reportagem da Rede Globo no SPTV sobre o episódio de Jaçanã: