Não é sobre Safatle, não é sobre o PSOL. O que aconteceu com uma das candidaturas mais promissoras da esquerda radical em 2014?

Safatle

Breve descrição dos acontecimentos sob a ótica de quem participou das negociações

Sou Edemilson Paraná, vice-presidente do PSOL-DF, integrante de uma organização local denominada ELA – Esquerda Libertária Anticapitalista. Não temos militantes em São Paulo. Não disputamos, dessa forma, nenhum espaço em sua estrutura burocrático-administrativa. Nossa organização, no entanto, tem um diálogo político com Vladimir Safatle que data já de antes de ambos termos entrado no partido (nós em abril de 2013, ele em agosto do mesmo ano). Em mais de uma ocasião, realizamos atividades com Vladimir em Brasília para discutir os rumos da esquerda socialista no Brasil.

Por conta dessa relação, que aos poucos se tornou mais próxima, ancorada num profundo acordo no plano das ideias, comemoramos sua filiação no PSOL e a notícia de que seria candidato a governador em um dos Estados mais importantes da Federação. Era a chance de vermos essas ideias representadas em mais um importante front de lutas. Achamos que a entrada de um intelectual da escala de Vladimir é um indício do próprio fortalecimento e crescimento do PSOL no último período, em sua relevância política e social, parte que é da mesma conjuntura que impulsionou nossa opção pela filiação no partido como uma alternativa diante do atoleiro histórico (estético, simbólico, de valores e ideias) em se que se enfiou o PT.

Dessa forma, entramos no circuito dessa discussão, para ajudar a resolver a crise lá instalada, imbuídos unicamente do senso de responsabilidade política e histórica em defender tais ideias e o processo que seu enraizamento, mediante luta política e construção cotidiana do poder popular conjuntamente de várias setores e movimentos do Estado, poderiam ajudar a conformar em São Paulo e em todo o Brasil um novo ambiente político. Achamos que essa candidatura é boa para o PSOL e para todo o debate político brasileiro, não só em São Paulo. Dito isso, narro o que presenciamos. 

Certo dia recebo, por alguns companheiros presentes em uma reunião da executiva do PSOL-DF, a informação de que Vladimir havia desistido da candidatura. Duvidando da solidez da informação, entro em contato com o mesmo para verificar a informação. De fato, a história não era exatamente essa. Ali começava, mesmo que ainda não soubéssemos bem ao certo a razão, a operação de não-viabilização de sua campanha.

É que em uma reunião com a direção do partido, que acabara de acontecer, Vladimir praticamente foi abandonado à própria sorte: informado de que não contava com nenhum recurso e nenhuma estrutura para realizar sua campanha, nem mesmo uma previsão de equipe militante. Zero. Nada. Poucos quadros políticos, sobretudo alguém recém-ingresso na vida partidária, não integrante de nenhuma corrente política e, portanto, pouco ambientado com as adversidades da disputa interna levaria a empreitada de ser candidato a governador adiante em tal contexto. Estava evidente, no entanto, que as coisas não eram bem assim, que nenhuma candidatura à governador é abandonada, dessa forma, à própria sorte, sem a viabilização de absolutamente nada e, se assim o fosse, esse fato deveria, no mínimo, ter sido comunicado com antecedência, quando Vladimir foi convidado a ser candidato pelo partido, ainda em 2013. Longe de apenas refletir o quadro de carestia de um partido político militante e coerente com seus princípios, que não aceita doações de empresários e donos do poder – algo que confere com a realidade, era patente o esvaziamento político que a manobra denunciava.

No dia seguinte, após conversas com outros companheiros, Vladimir manifestou legitimamente que seguiria candidato desde que conseguíssemos viabilizar algumas condições políticas e de infra-estrutura mínimas que, de saída, fossem capazes de ao menos colocar a campanha na rua. A questão, concordamos, se tratava apenas de calibrá-las de diante de nossas possibilidades. Sabíamos que com algum trabalho, militância e dedicação era possível obter as tais condições de partida que, nesse caso, estavam longe de serem absurdas. A isso seguiu nossa luta, com algum sucesso, não sem a colaboração do próprio Vladimir, para obtê-las de comum acordo com todos os setores do partido. 

Pressionando por um desfecho rápido, a direção do partido, comandada pelo mesmo grupo que tentaria praticamente demovê-lo da empreitada na primeira das reuniões, produziu de modo apressado uma nota que anunciava a desistência da candidatura diante da não obtenção das referidas condições. A nota, de caráter interno, e dirigida à militância, dava pé das razões para a referida desistência, não sem apresentar de modo irresponsável um suposto comportamento individualista da parte de Safatle. O professor, por sua vez, de modo a não aprofundar o tensionamento interno e preservar o partido, evitou manifestar contrariedade ao teor do texto. Enquanto isso, seguimos trabalhando pela obtenção das condições que um dos setores do partido se negava, de fato, com algumas exceções, ao empenho de buscar. Vladimir seguiu afirmando para todos os setores e seus dirigentes, de modo bastante claro durante as negociações, de que seguia candidato se as condições fossem obtidas, algo que àquele momento estavam próximas de serem obtidas.

Depois de quase uma semana de trabalho, conversas e negociações, conseguimos obter as referidas condições. O PSTU, irmanado no propósito de compor uma frente de esquerda, se dispôs a ajudar (ainda que até àquele momento sequer tivesse sido procurado pelo setor do partido que alegava a total falta de possibilidade para obter as referidas condições), além de outros simpatizantes da campanha e quadros políticos. Nada de substancial, mas o suficiente. Obtidas as condições, na verdade algo próximo delas, Vladimir voltou a afirmar para todos os agrupamentos do partido sua disposição, amplamente conhecida àquela altura, de ser candidato. 

Mas já era tarde. A “política do fato consumado” já havia sido ligada, e a direção do PSOL-SP, conduzida a mão de ferro pela corrente política do deputado federal Ivan Valente, já havia decidido que a candidatura Safatle não era de seu interesse. Em seu lugar, seria colocado Gilberto Maringoni, ligado à Unidade Socialista, o referido grupo de Ivan, Paulo Búfalo e outros. Por trás da decisão estava a indisposição para aliança com o PSTU, pleiteada por Safatle e setores da esquerda do partido, que exigiria reconfiguração da disposição do tempo de TV e algumas outras condições, além do temor diante da ameaça que a candidatura e as ideias de Safatle poderiam representar ao equilíbrio de forças interno, que garantia sua apertada maioria no diretório estadual. O velho pacto de mediocridade da burocracia: manter o controle do partido, nem que às custas da inviabilização de um importante processo político e do próprio crescimento quantitativo, mas sobretudo qualitativo, da legenda.

Surpreendidos com a rápida obtenção das condições que hora imaginaram que não conseguiríamos por nossa própria sorte e sem sua ajuda, que viabilizava política e materialmente a manutenção da candidatura Safatle, a Unidade Socialista deu um passo além em sua política de boicote: o tesoureiro do partido ligou para umas das pessoas que havia se disposto a contribuir com a campanha de Safatle pedindo ajuda financeira, vejam só!, para outro candidato: Gilberto Maringoni. O objetivo de implodir a candidatura de Safatle não poderia estar mais claro. Depois desse acontecimento, e prevendo outros ataques, Safatle sentiu-se no dever de soltar uma nota própria, também de caráter interno, explicando os problemas e reafirmando sua disposição de ser candidato. Com tudo esclarecido, o diretório, que iria se reunir no dia seguinte, o fatídico domingo, poderia tomar a decisão sem grandes polêmicas ou dificuldades.

Mesmo diante deste ataque aberto, acreditávamos em uma recomposição que fosse capaz de, unitariamente, superar as disputas e problemas de comunicação em nome da nomeação conjunta e coletiva de Safatle. Não havia nada que impedia isso, afinal. Tudo estava garantido. As condições haviam sido obtidas, e Safatle havia manifestado reiteradas vezes sua disposição diante delas, algo que era de conhecimento de todos os dirigentes ali presentes. A ideia era compor uma comissão que, na segunda-feira, batesse o martelo conjuntamente com nosso candidato a governador.

Mas a Unidade Socialista de Ivan Valente e Paulo Búfalo, amparada numa apertada maioria estava empenhada a levar, de modo grosseiro, a disputa até as últimas consequências, e ancorados na informação inverídica de que Safatle havia desistido do pleito, que seguiram afirmando mesmo diante do conhecimento de sua afirmativa, colocaram em votação, não sem protesto e deslegitimação aberta por parte de um número significativo integrantes do diretório, a aprovação da candidatura Maringoni. Sim, amigos, a máquina burocrático-administrativa havia sido ligada mais uma vez para submeter a vida militante do partido em nome do controle do pequeno poder local como um fim em si mesmo. O tragicômico repetir da velha manobra por todos nós conhecida em manuais e tratados de história política. Desde então, seguiu-se o lamentável que temos visto na imprensa e que motiva mais este texto de esclarecimento: notas, declarações, entrevistas e acusações trocadas.

Safatle, ao contrário do que se diz, agiu de modo altivo, paciente e comprometido. Seu único erro foi confiar em demasia na burocracia do partido em seu Estado.

E agora? Ou por que essa crise não é apenas sobre a candidatura Safatle

No seguinte texto (publicado aqui), descrevo porque as diferenças entre Maringoni e Safatle não se dão meramente entre indivíduos ou agrupamentos/correntes políticas, mas entre posições distintas em um importante debate estratégico: de concepções sobre quais rumos deve seguir o PSOL em seu objetivo de reconstrução da esquerda brasileira a partir do esgotamento estrutural (ou não, a depender da visão diferente de cada um deles nesse particular) do ciclo político petista, iniciado na década de 80. E aqui, leituras diferentes sobre o que representam as jornadas de junho, qual a dimensão e o significado da revolta social que hora toma o país, e mesmo do que é feito e como deve funcionar um partido como o PSOL diante desse cenário estão implícitas. A militância sabe disso e se levanta pelo nome de Safatle de modo ainda mais apaixonado do que pudemos imaginar. A direção burocrática do partido também sabe disso e por isso leva o nome de Maringoni até as ultimas conseqüências de modo muito mais truculento do que fomos capazes de conceber.

Não entrarei no mérito a respeito de quem é Gilberto Maringoni com quem divirjo a respeito da leitura do momento político em que vivemos dentro e fora do PSOL. Respeito e admiro sua história coerente de luta política e construção partidária, sua militância e compromisso, e justamente por isso, acho equivocado o papel a que ele tem se prestado neste momento. Maringoni é um quadro bastante experiente e sabe exatamente com o que está lidando e, portanto, que tarefa está cumprindo neste contexto. Como reitero, o debate aqui, no entanto, não é sobre Maringoni ou Safatle (já que ambos, como militantes, merecem nossa estima) mas sobre qual deve ser o papel do PSOL na reconstrução da esquerda e qual deve ser o seu lugar no cenário político brasileiro. E com base nessa leitura, é no mínimo um grande desperdício prescindir de uma das que figurava entre as candidatura mais promissoras da esquerda radical em 2014.

Não aceitaremos que lideranças burocráticas, instaladas na máquina partidária da esquerda radical atuem como se o partido fosse uma verdadeira capitania, administrada à mão de ferro, em nome de um pacto de mediocridade ancorado no curto-prazismo da obtenção e manutenção de mandatos parlamentares.

E tampouco encontra amparo na realidade a versão de que Safatle ou outros setores do partido, com tal negativa, não respeitam decisões coletivas. Só confunde, de modo interessado ou não, decisão coletiva com decisão burocrática quem não aprendeu com os erros da história. 

Por mais que disputas como as de São Paulo sejam desanimadoras para nossa aguerrida militância, não devemos sequer cogitar prescindir dessa luta política. Há todo um mundo para ser transformado. Tudo somado, o PSOL ainda é um partido em disputa, com um equilíbrio sempre tênue e cambiável, um instrumento importantíssimo para construirmos as mudanças necessárias. Mesmos nossos acordos mínimos, fruto de duros embates, estão muito além do pavoroso cenário de transformismo e capitulação de outros partidos, que cada dia menos ousam se autodenominar de esquerda. A duras penas, é verdade,  o PSOL segue sendo um espaço plural de recomposição política da esquerda brasileira. Cabe a nós seguir lutando de modo incansável para aprofundar ainda mais essa sua condição.

PSOL: petismo das origens ou nova esquerda pós-petista?

Por Edemilson Paraná*

Qual é o papel do PSOL no cenário político brasileiro?

Entre primaveras e manifestações, lutas parlamentares e polêmicas apaixonadas, o ano de 2014 começou quente para o nosso pequeno PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) que, em alguns lugares do Brasil, como o Rio de Janeiro, por exemplo, começa a ganhar fôlego como uma alternativa real de poder. Como produto direto de uma conjuntura intensa e confusa, um conjunto de contradições, problemas, possibilidades e oportunidades se abre de forma avassaladora para nós. O partido cresce em tamanho e relevância, sobretudo nas juventudes. Mas para onde irá e em qual coordenada se instalará de fato o PSOL na cartografia política brasileira de nosso tempo?

As jornadas de junho, realizadas com nosso apoio e das quais parte de significativa de nossa militância foi protagonista, não deixou de produzir uma verdadeira ecatombe em nossa já movimentada vida partidária. É que se governos, entidades, sindicatos e movimentos sociais, cada um a sua maneira, viram-se fortemente questionados em seus potenciais reais de mudança social, não foi diferente para nós que, naquilo que há de positivo e/ou negativo, lutamos para nos consolidar, desde a recente fundação em 2005, como um partido político – instituição estruturalmente desgastada face ao “espírito do tempo”. 

Em nossa cozinha, há, também por isso, uma discussão intensa sobre o futuro da legenda. 

De um lado, setores mais ligados a suas “raízes”, defendem um “petismo das origens”, agarrado ao programa-estratégia conhecido como “Democrático-popular”. Aqui, a tese fundamental é de que uma vez abandonada pelo Partido dos Trabalhadores, seu principal defensor e impulsionador, que teria capitulado diante das elites dominantes nacionais e internacionais, a plataforma possível e necessária face à realidade política brasileira deve ser empunhada e levada adiante pela fatia da esquerda brasileira, desde 2005 no PSOL, que não aceitou tal rebaixamento político-programático em nome da governabilidade conservadora e que tem, portanto, a necessária autoridade política e moral para cumprir a referida tarefa. Não surpreende que, no tocante às alianças políticas, ao modo de gestão do partido e ao programa que deve ser defendido, esses setores mimetizem, de modo por vezes nostálgico, a vivência petista de outrora.

De outro, agrupamentos, sobretudo os mais enraizados nas juventudes, que alguns tem denominado de pós-petistas, acreditam na necessidade de um programa, estratégia e formas de militância radicalmente renovados, que superem de vez este ciclo histórico, iniciado a partir da década de 80, que, em sua leitura, dá mostras claras de desgaste político profundo e irreversível. A partir dessa interpretação, apostam na democracia radical, em novos instrumentos de luta e movimentos sociais, conectados com esse cenário de superação estrutural do projeto petista, como elemento de reconstrução da esquerda brasileira. Essas diferenças, aqui simplificadas, encontram eco em distintas apostas e leituras teóricas, concepções de modelos organizativos e lógica de funcionamento do partido e suas direções que remontam debates históricos das esquerdas.

Se tais diferenças que, aos olhos da maioria da população parecem insignificantes mas que desenham rumos importantes da vida interna do partido, conviveram, não sem conflito, até aqui, por meio de uma política interna de acordos mínimos, definida de tempos em tempos em congressos, a partir de junho de 2013 a coisas começam a mudar. A nova situação política, marcada por um alto grau de tensionamento social em vários espaços da sociedade brasileira, tem tornado esse equilíbrio interno cada vez mais frágil. Momentos de crise, com seus problemas e oportunidades, sabemos, desenham uma necessidade mais premente de apostas rápidas, robustas e eficazes, conectadas e capazes de responder com clareza aos desafios de seu tempo. Em muitos Estados, lideranças jovens, que em sua maioria compartilham dessa leitura, foram alçadas aos cargos de direção do partido.

É possível ler a partir dessa lente, como relativa a esse impasse, por exemplo, a crise instaurada no diretório do partido em São Paulo no que se refere à candidatura a governador de Vladimir Safatle e o seu agora nome alternativo, Gilberto Maringoni. Ambos defendem/representam mais ou menos, com um sério risco que todas as simplificações esquemáticas carregam, as diferentes leituras/teses acima apresentadas. O filósofo e professor da USP Vladimir Safatle, recém-filiado, não por acaso, tem sido defendido pela base do partido, sobretudo as juventudes, como o nome mais conectado com a conjuntura pós-junho. Gilberto Maringoni, jornalista e professor da UFABC, ligado ao grupo que tem apertada maioria nos diretórios estadual e nacional, não coaduna da tese de superação estrutural do ciclo político petista e é protagonista, por isso, de um diálogo mais próximo com a “esquerda” do PT (que caminha a passos largos para se transformar no bloco monolítico que não queremos ver o PSOL se transformar). Advinda dessa diferença, desdobram-se outros desencontros no que se refere aos significados de junho, nossa relação com certos campos políticos e sociais e seus movimentos, bem como o papel de nossas candidaturas nesse cenário.

Militantes do PSOL Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. Para além de figuras ou agrupamentos, eles representam diferentes leituras sobre o momento político que vive o Brasil.

Militantes do PSOL Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. Para além de figuras ou agrupamentos, eles representam diferentes leituras sobre o momento político que vive o Brasil.

É elucidativo – no que há de potente e limitado – que nosso partido ainda discuta o espólio do processo petista de organização da esquerda brasileira. Aí reside a crítica, inclusive, de muitos daqueles que seguem apegados a um PT que desmorona em seus valores e propostas. A crise, porém, dirá Antonio Gramsci, “consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. É, pois, nesse interregno que a política brasileira se encontra. E é na luta para superar o velho com a produção o novo que o PSOL hora se mobiliza.

Se, no entanto, em uma conjuntura de reconfiguração da luta social e do cenário político, estamos relativamente próximos de superar uma etapa defensiva, marcada por uma legenda que surge em 2005 basicamente à fórceps, para acolher os desterrados do projeto petista que acabou devorando seus próprios filhos, a pergunta que inicia esse artigo volta a impor-se com uma força avassaladora. Para onde vamos agora?

Em sua adolescência política, o PSOL busca, não sem dor, como é comum nesta fase, encontrar seu lugar no mundo. Pacificar-se com suas origens no intuito de superá-las em nome de uma existência política verdadeiramente autônoma é o desafio que agora se coloca diante de nós. A disputa interna no PSOL, ora lida, não sem alguma razão, de modo caricatural pelo conjunto da sociedade é, pois, parte da própria disputa político-social, externa, tomada em seu sentido amplo. É assim, afinal, que caminha a vida de um partido democrático e plural, que carrega a palavra liberdade em seu nome.

Mas que esquerda? Que PSOL?

A hora, no entanto, é de nos movermos em frente. Nossos desafios conjunturais são parte integrante dos desafios históricos da esquerda mundial no século XXI e não podem ser lidos separadamente, de modo esquemático ou etapista. É hora de superarmos o dirigismo e o burocratismo que, de certo modo, caracteriza os setores da velha esquerda (nos governos ou, fora deles, nos partidos radicais) e a estrutura partidária como um todo, em todo o espectro político.

A esquerda pós-muro de Berlim, que tropeça e vacila em seu caminhar, sobretudo no que se refere à força de seu projeto histórico de superação do capitalismo, precisa vencer a separação, que remete à 1968, entre esquerda tradicional – ligada às lutas econômicas por justiça social, e a esquerda das identidades e da diferença – conectada à critica cultural, dos costumes e das opressões identitárias. Apenas ancorada em uma crítica de fato (anti)sistêmica, a partir de uma leitura das totalidades, em que as opressões e violências são tomadas em seu sentido multicausal, é que podemos caminhar conjunta e unitariamente na construção de uma outra sociedade, sem invisibilizar nenhum de seus construtores e construtoras no interior dessas mudanças.

Além de um diagnóstico preciso e atual sobre a estrutura cruel de funcionamento do modo de produção capitalista em tempos de hiper-desenvolvimento tecnológico e dominância financeira, precisamos apontar caminhos (mesmo que através de novas formas de resistência) para a superação da crise civilizacional (porque social, cultural, política, econômica e ambiental) em que nos encontramos no início do século XXI. A dominação de um ser-humano por outro não pode ser lida separadamente de um diagnóstico profundo e autocrítico do significado que tem, na origem, a dominação da própria natureza por ele mesmo. Se não for verde, nem colorida e festiva, a esquerda do século XXI jamais encontrará o tom de vermelho que lhe parece faltar.

No que se refere aos direitos individuais, não nos cabe negar, seja qual for a justificativa, sua defesa. O sacrifício das liberdades democráticas e individuais em nome de um coletivismo autoritário e burocrático, produziu atrocidades que não podemos ousar defender ou justificar. Longe de reforçar o liberalismo econômico e político que compõe a farsa de nosso tempo, as liberdades sexual, de credo, costume, modos de vida e tantas outras, podem e devem caminhar juntas na defesa de uma sociedade igualitária para com suas maiorias sociais e minorias políticas. Longe de jogar o indivíduo na lixo da história, temos de defender que apenas em uma sociedade justa e igual no que se refere à organização de seu trabalho e produção social, somente com a garantia de liberdades coletivas que viabilizem e garantam de fato (e não apenas formalmente) a existência de uma pluralidade dos modos de vida, é que o indivíduo (não mais burguês) poderá realizar todo seu potencial enquanto tal. Somos, como defendia Rosa Luxemburgo, “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Devemos, por isso, ocupar nosso espaço no mapa político brasileiro como uma esquerda libertária e anticapitalista, que construa o poder popular por meio do impulsionamento de lutas sociais, bandeiras e reivindicações que dialoguem diretamente com a vidas cotidianas e concretas das pessoas. Um esquerda, em resumo, que não vacile e que, nas palavras de Vladimir Safatle, “não tenha medo de dizer seu nome”. E para isso, além de renovar nosso discurso e prática política sem abrir mão de nosso lado claro, é preciso imaginação, novas ideias e propostas claras. Temos de ser uma esquerda que mais do que propostas defenda e propague valores, e mais do que valores, seja capaz de apresentar propostas.

No interior do PSOL, precisamos reforçar nosso caráter de “frente ampla”. A hora é de ampliarmos ainda mais nossa pluralidade interna, servindo como um acolhedor guarda-chuva, democrático e aberto, a receber organizações, grupos, movimentos e agremiações que subscrevem nossas ideias e com os quais construímos a luta social. O cinturão apertado da unidade partidária incondicional, hierarquizada por um centralismo burocrático e aparelhista, não dá mais conta de sustentar as pressões transformadoras de nosso tempo. Não conseguiremos, de outra forma, reconstruir a esquerda brasileira em tempos fragmentação política profunda. O medo de perder o controle de sua direção não pode nos paralisar diante da possibilidade de fazer crescer e ampliar esse necessário instrumento de mudança.

O PSOL não é e não pode ser, portanto, um fim em si. Seu objetivo não é acumular mandatos parlamentares, deslocar oligarquias dissidentes ou avançar de etapa em etapa rumo à direção da maquina burocrática do Estado. Disputá-la é importante, é verdade, mas apenas como parte da disputa da própria sociedade em sentido amplo. Para não cometermos os erros da história recente, essa trajetória não pode se apartar da luta pela construção de um orgânico e enraizado processo de mobilização social. Chegar ao poder, de modos questionáveis e submissos, para só depois tentar mudar as regras do jogo não é uma tática que deve estar no nosso cardápio de opções.

Tudo somado, com todas as suas dificuldades, as disputas do PSOL compõem o quadro de um partido que ainda não jogou a toalha, que não se vendeu e que tem amor pelas ideias que defende. Sabemos o quanto isso é raro e especial em nosso tempo. Estamos inseridos nas principais lutas políticas nas redes e ruas, e nossos parlamentares estão entre os mais coerentes e combativos do país, utilizando seus mandatos como palanque para essas lutas, pautas e bandeiras. Nos Estados, temos avançado na defesa de ideias e práticas diferentes do mainstream político, e no plano nacional, a candidatura de Randolfe Rodrigues à Presidência será a única a defender o passe-livre no transporte público, os direitos LGBT e das mulheres, a legalização da maconha, a reforma agrária e a agricultura camponesa, o fim dos privilégios a banqueiros e ao capital financeiro no Brasil, a revisão da ilegítima e nunca aditada dívida pública brasileira, mais gastos sociais com saúde e educação pública, gratuita e de qualidade para todos, uma reforma política profunda, o fim de doações privadas de campanha, etc. O Brasil precisa de uma oposição de esquerda relevante e apenas nós podemos cumprir esse papel na atual conjuntura.

No contexto brasileiro atual, os desdobramentos disso em um programa político que combata sem tergiversar os fundamentalismos religiosos e sociais e defenda, na denúncia de nosso modelo econômico desigual e concentrador, um programa de mudanças sociais reais e profundas, que caminhem na direção da igualdade e dignidade, é um imperativo. Para isso, precisamos de um discurso de justiça social que fale para as maiorias sociais, disputando o debate político, sem abrir mão de suas ideias. Isso é possível e se manifesta em cada grito pela universalização de uma educação de qualidade, por sustentabilidade e respeito ao meio-ambiente, por uma saúde que não seja mercadoria, por um transporte que funcione e sirva a todos, entre tantos outros que ouvimos em junho passado. O cenário poucas vezes nos foi tão favorável como agora. É hora de nos reinventarmos para agirmos unitariamente. É hora de mudar.

*Edemilson Paraná, 25, vice-presidente do PSOL-DF, é jornalista e mestrando em sociologia pela Universidade de Brasília.