O Brasil que nasce na rua

Por João Telésforo Medeiros Filho

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

O grande mestre Tobias Barreto proferiu esse belo e irrefutável aforisma em 1877, no seminal “Discurso em mangas de camisa” (leia! Aqui, a partir da p. 99), no Clube Popular de Escada, pequena cidade de Pernambuco. Em apêndice (p. 139-140) a ele, detalhou o sentido da afirmação:

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

Há aqui a referência implícita à errônea opinião, geralmente acreditada entre nós, de que a história de um povo possa servir de norma para as ações de um outro. Assim vemos, ainda a esta hora, mais de um espírito culto, ou pretendido tal, reportar-se, ora à França, ora à Inglaterra, ora aos Estados Unidos mesmo, para ensinar a marcha regular do governo monárquico brasileiro! (…)

Ora, não precisa dizer, quanto esta instituição é acanhada e pueril.

Cada povo tem a sua história, e cada história tem os seus fatores. Tampouco se encontra duas nações com o mesmo desenvolvimento, como dois indivíduos com a mesma feição. (…)

a um povo não é lícito repetir ou imitar, nem a si mesmo, sob pena de cair no baixo cômico, inerente a todas as caricaturas. ‘Ai dos imitadores, se diz na poesia; porém três vezes mais dignos de lástima os imitadores políticos; eles são o presente mais perigoso, com que a cholera dos deuses pôde mimosear uma nação infeliz.’ Não hesito em fazer minhas essas palavras de K. Frenzel.

Assim, em suma, eu creio que não é lançando mão do programa revolucionário deste ou daquele país, nem trajando alheia roupa constitucional, que poderemos jamais elevar-nos e engrandecer-nos.

Alexandre Humboldt chamou a constituição inglesa um produto oceânico; nós seríamos ditosos, se também aquela que nos rege, pudesse pudesse por ventura qualificar-se de um produto selvático. A política autóctone, ingênita ao caráter do povo, é a única eficaz e vantajosa, por ser a única, também, capaz de desenvolvimento.”

O Grupo Brasil e Desenvolvimento compartilha firmemente da convicção de que o único caminho para o desenvolvimento brasileiro é a política autóctone. Trata-se da ideia de “pluralismo institucional”: instituições que tem êxito na organização de uma sociedade não necessariamente serão adequadas a qualquer outra, pois o contexto – cultural, econômico, social, político – no qual as instituições atuam, sob e sobre o qual  elas agem, varia de sociedade para sociedade. Podemos desmembrar analiticamente essa afirmação em duas: (i) instituições diferentes tenderão a surtir efeitos diferentes em sociedades diferentes (vide Dani Rodrik, Roberto Mangabeira Unger, Ha-Joon Chang, Marcus Faro de Castro, Joseph Stiglitz, David Kennedy…); (ii) as sociedades tem aspirações diferentes, padrões diferentes para  aferir se algo é positivo ou negativo – ou seja, determinado arranjo institucional que eventualmente gere em toda parte os mesmos efeitos pode ser legitimamente louvado por uma sociedade e repudiado por outra, pois os sistemas de valoração são diferentes, os projetos de sociedade são diferentes.

Precisamos, portanto, de um projeto à brasileira, segundo já se defendeu neste blog. Porém, o que é isso? Quem vai dizer o que é esse “à brasileira”? Como achar esse “caráter do povo” de que fala Tobias Barreto? Retomando indagação de Drummond reproduzida em outro post aqui: acaso existirão os brasileiros?

O desenvolvimento só pode ser fruto de uma política autóctone porque só ela poderá revelar para nós mesmos quais são nossas aspirações coletivas, qual sociedade desejamos construir coletivamente, qual povo queremos ser, qual povo somos. A identidade do povo brasileiro cria-se pelo processo cívico de engajamento coletivo na construção política da sociedade (e de autoconstituição do próprio povo). Essa identidade, numa democracia, é necessariamente dinâmica, aberta, reconstruída permanentemente pela participação cidadã, de descoberta e criação simultâneas de nossas identidades individuais e coletivas – que temos plena liberdade para mudar a todo momento. É isso que caracteriza a liberdade política de que falava Hannah Arendt, por exemplo, como possibilidade sempre aberta de natalidade, de aparecimento do novo no mundo, da recriação experimentalista de si e do todo social de que se faz parte. Reconhecer-se como parte de um povo é reconhecer-se como parte de uma dada comunidade política, e assim participar dessa esfera de invenção pública permanente daquilo que nos constitui. É ser parte (=participar) do poder instituinte da vida social. Negar esse direito de participação, de ser parte ativa do poder instituinte, é tornar impossível a cidadania. Continuar lendo

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Político na UnB

Por Gustavo Moreira Capela

Hoje o professor Roberto Mangabeira Unger vai  à Universidade de Brasília discutir sua proposta para o futuro do país. Mangabeira é um intelectual de grande porte. É gênio declarado desde muito novo, virou professor de Harvard aos 23 anos, escreveu livros que são comentados pelos maiores pensadores do mundo, foi elogiado por nomes como Richard Rorty e já foi considerado dono “da teoria social mais poderosa da segunda metade do século vinte”. Certamente, não é pouca coisa.

Não há dúvidas que seus anseios políticos o levam à UnB. Unger nunca escondeu sua vontade de se lançar na política, tendo como frustrada a tentativa de adquirir um assento na Casa do povo pelo Rio de Janeiro e de se lançar como candidato à presidência pelo PDT em 2002. Agora, com as eleições se aproximando, Mangabeira  já mudou de partido – agora é filiado ao PMDB, antes era do PRB – e buscará apoio para uma candidatura própria. Seu grande sonho é ser presidente do país.

Entretanto e não obstante todos os argumentos elencados acima, a prática de um evento nos moldes do que ocorrerá amanhã na Universidade de Brasília deveria ser transformada em costume. A universidade é um centro de produção de conhecimento. Deveria ser também o lócus de um debate amplo e  exaustivo entre os anseios políticos de um partido, de um indivíduo ou de um movimento social, e as teorias que os sustentam. Essa é uma forma de aproximar a Universidade e seus teóricos da área de humanas ao mundo concreto que nos envolve. Discutir os rumos do país e as mudanças estruturais que precisam ser pautadas em cada uma das áreas traz ganhos incomensuráveis para qualquer uma das partes. Enquanto o político (indivíduo,partido ou movimento social) ganha respaldo ou repensa sua estratégia, os estudiosos ganham subsídios fáticos para suas pesquisas.

Pensar um país não é algo a ser feito individualmente, setorialmente ou regionalmente. Assim como o país é pluralíssimo, as idéias que acompanham as diferenças também são as mais diversas. A universidade tem a função social de representar essa diversidade através da produção do conhecimento voltada para os anseios coletivos. Um plano nacional deve, pelo menos, passar pelo crivo dessas instituições n que tange às suas idéias.

Vejam, não defendo que a Universidade seja o único sujeito da fiscalização de idéias. A universidade, se imbuída de sua real função, terá contatos freqüentes e constantes com os movimentos sociais, estará atento às demandas dos mais diversos atores da sociedade, será  um ambiente plural e representativo, de acesso a todas as classes, e produzirá conhecimento voltado para o bem da coletividade, não pelo acúmulo da capital.

Claro que, para isso, é necessária uma reforma abrupta em todos os segmentos sociais. Não há reforma nas diretrizes educacionais que perpasse a lógica de um sistema que não presenteia conhecimento alheio ao acúmulo de capital. Até lá, entretanto, faz-se mister elogiar a iniciativa do ex-ministro. Quem possui idéias e quer construir um plano, uma estratégia de alternativa, tem que submetê-la ao crivo da crítica pública. Tem que expor suas razões e ouvir as do outro. Para além de permitir alterações com base no que ouve, é capaz de refletir com atenção ao que aprendeu com a vivência de compartilhar uma idéia própria.

Numa universidade, discutir com intelectuais que possuem planos concretos para a transformação, mudança, ou até manutenção das formas sociais é importante. Debater os planos políticos de um indivíduo que projeta idéias para sua atuação é indispensável.

Esperamos todos lá! Com idéias, planos e críticas à “Alternativa” que nos será apresentada.

A exaustão social-democrata

Por João Telésforo Medeiros Filho

Postamos hoje texto de Carlos Sávio Gomes Teixeira originalmente publicado pelos amigos do Grupo Juramento. Sávio é um colaborador importante de nossas reflexões, já participou de algumas reuniões do Brasil e Desenvolvimento.

No texto abaixo, aborda o futuro da política social ante a exaustão social-democrata. Na última sexta, 18/09, assisti aqui em Lyon a debate em que se discutia esse mesmo tema, no grande Fórum promovido pelo jornal Libération para discutir os rumos da esquerda 20 anos após a queda do Muro de Berlim. No painel “Le logiciel social-démocrate est-il obsolète?“, Jean-Luc Mélenchon e Alain Minc discordaram enormemente sobre os rumos que a França e a União Européia devem seguir neste momento, mas concordaram que, sim, a lógica social-democrata está obsoleta. Embora tenha sido bem-sucedida nos países nórdicos, ela não é apropriada para a França por inexistirem no país uma série de características culturais e institucionais lá existentes. Lembrou-me o que Roberto Mangabeira Unger fala sobre o Brasil: não teremos sucesso como uma Suécia tropical… Em um post futuro, explicarei as razões deles. Agora, deixo-os com o Carlos Sávio.

A idéia contemporânea do “social”

Carlos Sávio G . Teixeira

A grande questão política e intelectual deste início de milênio continua sendo: é possível reconstruir as sociedades para que elas consigam ir além das conquistas alcançadas pelas socialdemocracias? As características mais marcantes das socialdemocracias são a acomodação diante do sistema institucional existente e a adoção de práticas de compensação social para amenizar os conflitos no interior da ordem social.O arranjo político que propiciou a emergência da socialdemocracia se baseou em um acordo para que as forças contestadoras – tendo a seu favor a ameaça do avanço do comunismo – negociassem o abandono do esforço de reorganizar a produção e a política em troca da possibilidade de reforma social da sociedade por meio de práticas de redistribuição. O problema é que este contrato socialdemocrata dá mostras de que chegou aos seus limites.

A exaustão socialdemocrata exige, para ser superada, a recuperação da idéia de futuros alternativos para as sociedades. Mas o problema é que os instrumentos com que pensar as alternativas estão bloqueados pela herança recebida das grandes narrativas teóricas dos séculos XIX e XX, que exerceram e ainda exercem enorme influência sobre a política contemporânea. A idéia mais importante desta tradição intelectual é a de que as sociedades enfrentam grandes alternativas estruturais: o que parece ser um conjunto eterno de leis sociais é, de acordo com esta idéia, apenas um conjunto de leis de uma forma específica de organização social e econômica. Ela define como particular aquilo que seria universal.Mas a esta idéia metodológica antinaturalista das grandes teorias sociais foi acoplado um conjunto de premissas fatalistas que lhes roubaram o poder transformador. Primeiro, a concepção de que há uma lista fechada de alternativas estruturais na história, como o feudalismo, o capitalismo e o socialismo. Segundo, a concepção de que cada um desses sistemas institucionais é indivisível e que, portanto, toda a prática política ou é a reforma trivial de um desses sistemas ou a substituição revolucionária de um por outro. E, terceiro, a busca de leis que moveriam a sucessão preestabelecida desses sistemas. Estas premissas atrapalharam e continuam atrapalhando a prática transformadora.

Por outro lado, na ciência social positiva, sobretudo na que é praticada na academia dos Estados Unidos e em seus satélites, o determinismo é abandonado ao preço da desconsideração das alternativas estruturais. Essa ciência social se esforça para naturalizar o existente, retirando da história o seu cunho chocante, surpreendente, absurdo, violento,que seria a tarefa de toda ciência social realista reconhecer e explicar. O grande desafio de nosso momento histórico está, portanto, no resgate da idéia de que a sociedade é um artefato, resultado de uma construção e de que esta construção pode ser alterada nos seus pressupostos institucionais e ideológicos. Para realizar esta tarefa é preciso rejeitar a herança política e intelectual do século XX. Ela forjou uma situação na qual todo o campo das idéias sociais está hoje dominado pelas práticas intelectuais da racionalização e da humanização.

A racionalização sugere que as práticas e as instituições estabelecidas são necessárias e inevitáveis e, dessa forma, liga o trabalho da inteligência à apologia da realidade. Nenhuma área do estudo social evidencia mais explicitamente essa tendência do que a economia. Já a humanização sugere meios para atenuar os efeitos das desigualdades. O resultado é o predomínio, no debate de políticas públicas, da ênfase em ações sociais compensatórias para redimir a desumanidade do mercado. Significa ganhar a capacidade de humanizar a situação existente em troca do desarmamento da capacidade de reorganizar a sociedade. Esta é a idéia predominante na teoria jurídica e na filosofia política atuais. A solução é a compreensão de que a troca de passividade institucional por compensação social não funciona. A política social não é ramo da caridade, é espaço da política. Investir no social sem mudar as instituições não constrói cidadania.

Gustavo Dudamel e “El Sistema”: um projeto de engrandecimento do ser humano

Por João Telésforo Medeiros Filho

Senhoras e senhores, com vocês, Gustavo Dudamel e a Orquestra Juvenil Simón Bolívar de Venezuela, executando a belíssima Alma Llanera:

Extasiado e impressionado com esse vídeo (obrigado ao Thiago Tannous pela indicação!), fui procurar sobre o rapaz e a orquestra. Minha admiração cresceu ainda mais, e ultrapassou o aspecto musical: não sei se admiro mais a genialidade do regente ou a excelência e visão do programa social que propiciou a ele, à sua orquestra de talentos e a outros tantos jovens venezuelanos a oportunidade de conquistarem cidadania e desenvolverem suas aptidões  artísticas e humanas por meio da música.

No blog do Guaciara, Lauro Mesquita informa:

O maestro Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Juvenil Simón Bolívar são muita curtição. O maestro é o mais comentado da atualidade, e causa movimentação por onde passa. Muito por causa da musicalidade dele, mas muito por causa de sua performance. Dudamel rege para ser bem escutado e visto, principalmente em vídeos do YouTube.

Considerado uma promessa na música de concerto, suas performances não são nada burocráticas. Mesmo em interpretações de composições complexas como as de Mahler são  marcadas por um envolvimento pouco usual dos músicos com as peças. Pelo menos nos vídeos e no disco, o clima parece ser de grande descontração, de verdadeiras celebrações (que invariavelmente contagiam o público). (…)

Vale  pena ler os ótimos textos do nosso amigo Irineu Franco Perpétuo sobre o venezuelano. Com eles dá pra entender que é possível construir um modelo de orquestra de excelência a partir de um projeto social. (…)

E para os anti-chavistas mais exaltados, é bom avisar: El Sistema foi criado muito antes do Chávez tomar posse pela primeira vez. A rede de educação musical nos bairros pobres foi criada em 1975 pelo músico e professor José Antonio Abreu.

Para conhecer melhor o Sistema Nacional de  Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela, visite o site oficial e a página de Dudamel. Eis a missão do programa:

La Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela constituye una obra social del Estado Venezolano consagrada al rescate pedagógico, ocupacional y ético de la infancia y la juventud, mediante la instrucción y la práctica colectiva de la música, dedicada a la capacitación, prevención y recuperación de los grupos más vulnerables del país, tanto por sus características etárias como por su situación socioeconómica.

Dudamel teria se tornado o grande regente que é se não existisse esse programa? Não sei. Sei que El Sistema tem feito a diferença na vida de milhares de crianças e jovens venezuelanos, como Edicson Ruiz:

Edicson Ruiz se convirtió en el contrabajista más joven que jamás ha tenido la Filarmónica de Berlin a la edad de 17. Ochos años antes, el trabajaba medio tiempo empaquetando bolsas en un supermercado para complementar el sueldo de su madre. La calle, con el alcohol, las drogas y las peleas de pandillas, representaba un gran atractivo, y su comportamiento se estaba haciendo cada vez más violento. Entonces un vecino le contó acerca de la escuela de música local.

É bonito ver a chance que os jovens têm de desenvolver sua criatividade e superar os próprios limites:

“Ellos me dieron una viola y me sentaron en el medio de la orquesta, entonces escuche el sonido de los contrabajos, y pensé, si! ese es el instrumento para mi!” recuerda Ruiz, sonriendo.

“Alguno meses después me pusieron en la Orquesta Nacional Juvenil. Por supuesto yo no podía tocar todas las notas! Ellos siempre lo hacen así; te meten en medio de la orquesta.

Yo recuerdo que miraba la partitura en el atril en mi primer ensayo de orquesta. Era una sinfonía de Tchaikovsky. Y yo pensé, Ellos están locos! pero nunca me dijeron, tú no vas a poder hacer eso. Nunca nadie me dijo algo así en la orquesta. Nunca”

É isto que um modelo de desenvolvimento precisa construir: oportunidades para que cada pessoa faça de si mesma o melhor que possa ser, tenha a chance de criar e engrandecer a si própria, ao seu país e à humanidade, como faz Gustavo Dudamel.

É impossível ter noção da extraordinária dose de talento que o Brasil desperdiça ao deixar à míngua, carente de oportunidades de desenvolvimento, Continuar lendo