“Esquenta!”, DG e a disputa pela representação da nova classe trabalhadora

A mãe de DG foi ao Esquenta, mas não teve espaço para vocalizar as críticas que vem fazendo às UPPs.

A mãe de DG foi ao Esquenta, mas não teve espaço para vocalizar as críticas que vem fazendo às UPPs.

Vejo o “Esquenta” como um dos retratos do empoderamento conquistado por uma classe subalterna durante os anos Lula, e também de seus limites (que parecem cada vez mais incontornáveis nos moldes da atual governabilidade conservadora).

Esse empoderamento veio, como se sabe, pela conquista de aumento do poder de consumo. Um empoderamento que pode ser frágil e sem dúvida algum contraditório, mas foi empoderamento, porque o acesso a esses bens ampliou as condições materiais de autocomunicação e auto-organização desses setores – veja-se os “rolezinhos”, um dos exemplos mais marcantes desse fenômeno. Frágil, porque é preciso analisar o peso do endividamento das famílias nessa expansão do consumo, e mais ainda porque basicamente não se tocou nas estruturas que concentram poder – material e ideológico – nas classes e setores dominantes.

Porém, embora não se tenha enfrentado essas estruturas, elas não ficaram imunes à maior inclusão desse setor subalterno no mercado de consumo. Não se promoveu a democratização dos meios de radiodifusão nem se mexeu, aparentemente, nos privilégios fiscais de Globo e cia, mas fica cada vez mais difícil para a Globo e cia ignorarem a existência dessa classe em relativa ascensão econômica.

Engana-se redondamente quem pensa que basta, para não perder a hegemonia ideológica e de mercado sobre esse setor, fazer propaganda dirigida para ele (o que tem acontecido bastante, claro). A Globo sabe que seu grande concorrente, cada vez mais, é a internet, com suas redes de autoprodução e difusão de cultura e entretenimento, inclusive entre esse segmento de trabalhadores pobres. Prova disso é a reformulação que está fazendo em diversos programas para tentar torná-los mais “interativos” e parecidos com as redes sociais – não assisti ao Fantástico de ontem, mas dizem que foi mais um marco nesse sentido. Então, preocupada com a hegemonia de audiência e ideológica sobre o setor pobre consumidor, o ‘consumitariado’, a Globo sabe que, cada vez mais, não bastará mostrá-lo como objeto; é preciso, tal como acontece nas redes sociais, promover sua inclusão como sujeitos produtores de cultura e entretenimento, em alguma medida.

O “Esquenta” é a principal resposta da Globo, até aqui, a esse duplo movimento: à ascensão consumidora de uma classe, e às mudanças forçadas pela nova lógica social de produção e comunicação, em escala global (cujas raízes não cabe examinar neste texto), que têm como grande símbolo as redes sociais.

Não é por acaso, então, que Douglas Silva, o DG, um dos jovens negros assassinados numa favela do Rio de Janeiro nessa semana, fosse um dançarino de destaque do Esquenta, e não do Fantástico, Domingão do Faustão, do programa do Luciano Huck, Fátima Bernardes, Ana Maria Braga ou Serginho Groisman. Obviamente, nesses outros programas também devem trabalhar jovens pobres e negros de favelas do Rio de Janeiro. Porém, muito provavelmente, não na mesma proporção do Esquenta, e o mais importante: não tanto diante das câmeras, e muito menos em posições de destaque e como porta-vozes da estética produzida pelos segmentos da periferia, como no programa de Regina Casé. Estética essa que não é homogênea, claro, e que é seletivamente recortada nas suas representações admitidas e priorizadas no “Esquenta!”.

O Esquenta é, pois, uma pequena abertura conquistada pelas lutas dessa classe em relativa ascensão. Conquistada pelas lutas, sim: as pequenas grandes conquistas do ciclo lulista – não só Bolsa-Família, mas, mais ainda, políticas como o aumento real sustentado do salário-mínimo – foram arrancadas do poder: respostas do Estado para tentar se legitimar diante de anos e anos de mobilização popular por justiça social. É claro que a resposta lulista foi limitada, deu-se nos marcos de não promover reformas estruturantes; e por isso mesmo, parece delinear-se não só sua precariedade, como seu esgotamento. Porém, isso não muda o fato de que esses parcos avanços foram obtidos pelas lutas, como tentativas dos poderosos de “dar os anéis (ou nem isso) para não perder os dedos”. De modo análogo, o programa “Esquenta”.

Dada a função que cumpre e sua composição social de classe (no palco e na audiência), o Esquenta não tinha como não se dedicar, hoje, à morte de seu dançarino Douglas DG, não tinha como não contextualizá-la como mais um episódio brutal da violência contra a juventude pobre e negra das periferias do Rio de Janeiro e do Brasil… Devemos comemorar, pois, que se tenha falado nesses assuntos, ainda que de modo passageiro e superficial, no programa de Regina Casé de hoje. Trata-se de um furo do bloqueio midiático sobre a discussão desses temas, conquistado pelas lutas dos movimentos negros, das periferias, de cultura, populares.

Porém, basta olhar com um pouco mais atenção para a edição de hoje do Esquenta para se perceber os limites e o caráter contraditório da “abertura” em que ele consiste. Praticamente não se falou da violência policial sistemática dirigida contra a população pobre e negra das favelas. Não se tocou no fato de que o Estado é um dos grandes instrumentos desse ciclo de criminalização da pobreza e da juventude negra.

O tom geral foi o de se falar da violência em abstrato, sem denunciar as políticas de segurança pública como parte fundamental desse quadro violento. Contraditoriamente, o discurso genérico “contra a violência” que marcou o programa de hoje pode alimentar justamente a legitimação da resposta policialesca que é parte do problema, e não de sua solução.  A resposta do governo do Rio à morte de DG, que tem indícios sérios de responsabilidade da polícia, é bastante eloquente sobre isso: na repressão ao protesto da população indignada da comunidade do Pavão-Pavãozinho, mais um jovem morto pela ação da PM: Edilson da Silva.

Não é uma coincidência que o Esquenta de hoje não tenha falado sobre Edilson. Não era conveniente para os interesses da Globo lembrar que insistir na resposta policial à violência só vem agravando-a ainda mais (perdi o começo do programa e posso ter tido algum lapso de atenção, mas, caso alguém tenha tocado no tema por lá, foi de modo extremamente passageiro e sem desdobrar a crítica). Mais conveniente era falar de combater a violência, em abstrato, e até mesmo a impunidade (!), como o fez Jô Soares no programa (e não para falar de impunidade de policiais…). Ou seja: a solução seria punir ainda mais… Como se os jovens das favelas já não estivessem sendo punidos, muitas vezes com a morte, por sua condição social e identidade racial.

Significativas, também, foram outras falas do Esquenta, como a de Fátima Bernardes. A apresentadora disse que o Estado tem de estar presente na favela também com educação. É claro que já é alguma coisa reconhecer-se a necessidade de superação da desigualdade no acesso à educação, saúde, etc. Porém, a armadilha desse tipo de discurso é que critica a omissão do Estado, mas silencia diante da outra face complementar dela: o inchaço de seu aparato repressor. Esse é o discurso que se tenta construir, agora, para legitimar a ocupação militarizada das favelas: o problema não estaria exatamente nela, mas na ausência das políticas sociais. Ou seja, uma vez que se “compense” a violência sistemática, a criminalização da pobreza, com “políticas sociais” (“UPP social”), aí o problema estaria resolvido… Como se não fosse preciso mudar radicalmente as políticas de segurança pública, como se elas e a omissão do braço social do Estado não fossem parte de uma mesma política.

O fato é que são. O projeto das UPPs mostra muito bem isso, como parte de uma lógica de gestão neoliberal da pobreza. Neoliberal?! Sim. O neoliberalismo produz a “ascensão do Estado penal”, “em resposta à crescente inseguridade social, e não à insegurança criminal”, diz o sociólogo Loïc Wacquant, autor da já clássica obra “Punir os pobres: o governo neoliberal da inseguridade social” (2009). O “neoliberalismo realmente existente”, diz Wacquant, consiste não na redução do Estado (conforme sua propaganda ideológica), mas em sua reengenharia, na “construção de um Estado forte capaz de opor-se de modo efetivo à resistência social à mercantilização e de moldar culturalmente subjetividades em conformidade com isso”. Trata-se, diz ainda o francês radicado nos Estados Unidos, de uma “articulação entre Estado, mercado e cidadania que direciona o primeiro para impor o selo da segunda na terceira”.

O Estado não diminui, mas ganha um novo perfil, ainda mais forte como máquina de estratificação social a serviço da mercantilização. No caso da “ocupação” das favelas, isso fica bastante claro: o projeto das UPPs envolve não apenas o disciplinamento político de uma classe via repressão explícita, mas também uma disputa econômica pelo controle do mercado consumidor e produtivo dos territórios “pacificados”… A retórica é de que o controle territorial pelo Estado teria por fim “levar serviços básicos” às favelas, mas o que se tem registrado não é isso.

A disputa pelo controle da economia dos territórios das favelas alcança não apenas a concorrência comercial pela prestação de alguns serviços, mas, de modo bastante central, a ofensiva de inclusão daquelas terras no mercado imobiliário dominado pelas grandes empresas “do asfalto”. Não por acaso, tem se registrado alta brutal de preços dos imóveis de favelas “pacificadas”, o que tem expulsado a pobreza para áreas mais periféricas do Rio e gerado lucros exorbitantes para o capital imobiliário.

Vale lembrar que em janeiro deste ano, o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro foi homenageado pelo Esquenta devido ao seu trabalho com as UPPs. Foram blocos e mais blocos que falavam dos benefícios das Unidades, contradizendo outros muitos veículos midiáticos populares que trataram do assunto.

UPPs, governos e Rede Globo (e suas concorrentes da grande mídia) estão, como é bastante notório, unidos nesse projeto. Controlar territórios pobres de modo militarizado, não para garantir a segurança daquela população, mas para discipliná-la como público consumidor e assujeitado. O “Esquenta” de hoje, ao não enfrentar a falência das UPPs ou enfrentar o tema da violência policial, mostrou-se como dimensão contraditória desse projeto. Contraditória porque esse programa, justamente por ser uma tentativa de disputar a representação simbólica da classe subalterna em ascensão (como parte do esforço de domesticá-la), precisa mostrá-la como sujeito, de alguma maneira – mesmo uma versão bastante parcial e disciplinada desse sujeito. Ao fazer isso, abre um terreno de disputa menos desvantajoso para a autoexpressão desse sujeito e de suas lutas do que a programação “comum” da Rede Globo e das demais grandes emissoras de TV.

Como disse o megainvestidor norte-americano Warren Buffett, lembrado outro dia pelo Vladimir Safatle: “Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo”. Não sei quem está vencendo, sei que precisamos refinar nossos instrumentos de análise, pois tanto as estratégias de resistência e produção subalterna, como as de tentativa de seu apassivamento, apropriação e direcionamento, têm se sofisticado. Mais útil do que celebrar as pequenas aberturas como se fossem revolucionárias, ou lamentar de modo impotente o fato de que não o são, é investigar a realidade dialeticamente, para pensar estratégias que alarguem a materialidade dessas frestas e evitem seu disciplinamento.

PS: este texto foi aprimorado pelo diálogo com o professor Edson Farias e por sugestões da Anne Botelho. Obviamente, porém, as opiniões registradas aqui, com as imprecisões que possam ter, são de responsabilidade unicamente minha.

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Nós revolucionários, o Papa Francisco e a Igreja

Por Edemilson Paraná

Algo de diferente parece surgir no horizonte da Igreja Católica. Um líder espiritual que, ao que indica seu discurso, defende algum respeito à diferença, a abertura a certos questionamentos teológicos, a preocupação com a opressão e os mais pobres, contra os males de uma dominação econômica cruel. Um Papa do terceiro mundo para o terceiro mundo. Trata-se, no mínimo, de um “giro tático” da Igreja, e isso não é qualquer coisa. Apontamentos para uma Igreja progressista e renovada, dos pobres, pela libertação? Cedo demais para dizer. O fato é que o tempo impõe mudanças e a Igreja entendeu isso: ou se renova, ou deixa de existir. Se o obscuro passado político do cardeal Bergoglio e a estrutura da instituição da qual faz parte são motivos para algum ceticismo, não é de se ignorar que a mudança guarda um simbolismo interessante.

A Igreja Católica, no entanto, é a Igreja Católica e um Papa é sempre um Papa. É importante ter essa obviedade em mente na hora fazer críticas e pensar seu papel (e a charge de Laerte que ilustra, abaixo, o texto é muito didática a esse respeito). Trata-se de uma instituição humana milenar, dogmática, hierarquizada e politicamente organizada a partir da obediência intelectual e comportamental. É assim que fundamenta sua razão de existir e se legitima enquanto representante do poder divino na Terra.

Larte

Essa instituição, no entanto, não é monolítica. Apesar de seu núcleo dogmático constitutivo, é dividida em correntes de pensamento, congregações e uma miríade de complexidades. Há em seu interior setores conservadores e setores progressistas (a Teologia da Libertação, por exemplo, cumpriu um papel político importante na resistência às opressões na América Latina). E essa diferenciação não é irrelevante; há igrejas dentro da Igreja.

Como estrutura de poder político simbólico e material, no entanto, cumpre um papel de normatização e controle. Esse papel, evidentemente, impôs historicamente e impõe um pesado fardo objetivo e subjetivo à mulheres, indígenas, negros, homossexuais, pobres e tantos outros “desviados” do “caminho” que ela professa. E impôs, sobretudo, porque sua “filosofia”, sua interpretação do mundo e da humanidade, da vida e da sociabilidade, é um dos sustentáculos morais de todo um sistema que organiza cognitivamente (e justifica, em alguma medida) uma vida submetida a irracionais opressões materiais.

Postas as paixões políticas de lado, é importante compreendermos que um “espírito” (judaico)cristão diz respeito às nossas instituições, ao nosso Estado, nossa política, nosso sistema de valores, nossa sexualidade, nossa sociabilidade “ocidental”. É, pois, parte constitutiva de nós: de críticos a criticados, de ateus a crentes, porque somos parte da mesma sociedade. O nosso humanismo e nossa visão de respeito ao próximo estão assentados, em alguma medida, em relação a tal “espírito” (que não explica em si a história, mas é parte dela).

É contra as agouras desse espírito, no que ele manifesta de cruel, que se direciona a luta do pensamento radical nesse particular. É natural que como revolucionários desejemos um novo mundo, livre das opressões materiais e imateriais, desejemos a superação de todas essas formas de controle e dominação, seja as justificadas em nome de deus, seja as justificadas em nome dos homens e suas “coisas”. Mas é natural também que, como parte dele, carreguemos dentro de nós esse velho mundo. Essa é a contradição fundamental de todo revolucionário: produzir o amanhã vivendo o hoje. Quem ignora ou nega essa contradição fundamental não tem compromisso com a realidade.

Mas o papo é sobre Igreja, Papa, religião. Como lidar com isso tudo diante de tal contradição mencionada?

Primeiro, entendendo que a fé tem sua materialidade, mas é algo sobre o transcedental. Uma ansiedade constitutiva e uma necessidade primária da existência humana. Nos sentimos parte de um todo, de um cosmo inexplicado e injustificado racionalmente. A questão, pois, é como vivemos e lidamos com isso, por meio de quais expressões. Os cristãos, católicos, se relacionam com isso de uma dada forma. Devemos respeitá-la. Não há outra opção. Cabe substituir uma normatização por outra, impondo a não-crença? Não parece razoável (e tampouco seria efetivo). Liberdade imposta não é liberdade e os cristãos devem ter seu direito à religião garantido. Para entender isso é preciso alguma dose de crítica ao hiper-racionalismo que tantos males produziu ao longo do século XX.

Segundo, entender que a religião, o Estado e a Coisa Pública não podem se misturar sem diferenciação. Tem-se direito de crer no que crê? Sim. Tem-se direito de impor isso ao conjunto da sociedade? Não. O ímpeto evangelizador, o ímpeto militante de conversão e convencimento (que é parte também da política e outras esferas da sociedade) não pode se transmutar em imposição e submissão. Não podemos aceitar essa violência que, para além de um ataque aos não-crentes, representa um duro ataque às demais formas de viver e entender a espiritualidade bem como as demais religiões.

Terceiro, entender que toda instituição e todo discurso guarda em si sua superação. A contradição fundante da Igreja é deturpar os ensinamentos fundamentais de seu profeta (de amor, tolerância, respeito, paz, solidariedade, contras as injustiças do mundo) por meio de um sistema de poder mundano centrado no controle e na regulação de subjetividades por meio de justificativas transcedentais – um sistema que produziu e justificou preconceitos, guerras e violências de vários tipos. É possível crer em uma fé diferente, libertadora? Eu diria que é contra a essência da verdadeira fé não ser libertadora. A fé só é fé, enquanto tal, quando expressa a liberdade em sentido pleno. Se hoje não a expressa, devemos lutar para que expresse. Para que a fé seja, sobretudo, a fé na capacidade humana de ser livre.

Há, estou convencido, cristãos comprometidos com essa missão. Esses devem ter nosso apoio porque são irmãos na luta por um mundo mais justo, livre e igual. A isso significa dizer que a religião é neutra e pode ser igualmente revolucionária ou conservadora a depender da apropriação? Isso seria uma afirmação muito categórica. O buraco é bem mais fundo. Significa dizer, no entanto, que fé não é sinônimo de opressão e que não há nenhuma hierarquia intelectual ou política entre quem crê ou não crê em algo para além da existência material mais imediata.

Tudo somado, há de se receber positivamente, sem ilusões, claro, as posições do Papa, que esperamos se materialize em posições de toda a Igreja. Chegaríamos, com isso, a um mundo livre? Não, longe disso, mas certamente seria um avanço considerável.

Chegaremos ao dia em que irmanados na vida livre prescindiremos de religiões, Estados, nações e todas as demais formas de normatização e controle da vida social? Só a luta dirá. Até lá, na busca por esse horizonte, não podemos nos desumanizar, não podemos ignorar nossas contradições. Não temos outra opção de caminho e construção que não o respeito. Um mundo construído em outras bases não seria o mundo da nossa utopia.

#Freixopq

“Claramente, a construção de um corredor de segurança na Zona Sul da cidade não segue critérios de um projeto de segurança pública, e sim de cidade para megaeventos. É o mapa da cidade olímpica: Jacarepaguá–Zona Sul–Zona Portuária–Maracanã. Só em Copacabana tem quatro UPPs, enquanto na Baixada só tem milicianos. Cidade segura não é a que tem muita polícia, e sim a que precisa de pouca, mas que tem muita escola, muita saúde.” – Marcelo Freixo em Revista Piauí

Quando votamos, espera-se, levamos em consideração algumas coisas básicas: qual é o projeto que o partido desse sujeito defende (afinal, no Brasil, o mandato eleitoral público é monopólio dos partidos)?; Quais são as propostas que melhor atendem às necessidades que esse cargo pode enfrentar?; e Qual é a desse sujeito que hoje pede meu voto?

Enfim, o que é representado pela candidatura? O que que ela representa?

No Rio de Janeiro, sede de Copa do Mundo e das próximas olimpíadas, a disputa eleitoral revela, mais que uma escolha sobre quem será chefe do executivo da cidade, a possibilidade de questionarmos, mundialmente, o modelo de cidade que se quer. Conhecido tanto por ser o cartão postal do Brasil no exterior, quanto pelos noticiários e filmes que exploram as dinâmicas problemáticas que envolvem o mundo criminal da cidade, o espaço urbano carioca se reivindica enquanto problema há tempos. Sou nascido no rio, de família carioca, tenho 26 anos e desde que reconheci a funcionalidade desse “eu” simbólico chamado Gustavo escuto em casa, no bar, na praia e no ônibus quão problemáticas são as relações de poder que imperam sobre o espaço urbano do Rio.  Não me parece, portanto, que é segredo que há, em momentos, desespero por mudança. Mudança estrutural. Mudança estruturante.

A candidatura de Marcelo Freixo tenta ser essa possibilidade. Além de reivindicar a pauta da ética enquanto projeto mínimo (é o mínimo que se espera de um homem público), a candidatura expande-se justamente quando, na prática, e não só no discurso, enfrenta e escancara, sem medo, os problemas de fato. As ameaças à vida de Freixo não são pelo que ele fala. São pelo que ele faz. E faz com frequência.

Baseada, hoje, num projeto de poder de um partido que busca guarnecer os projetos históricos da esquerda programática, a candidatura de Freixo tem conteúdo propositivo e transparente: quer tornar o espaço urbano do rio de janeiro um local mais público, menos excludente, mais conectado, menos ilhado. Isso tudo sem maquiagem, sem dependência de projetos ocultos que bancam seu caminho político.

Para emplacar a visão que hoje predomina no seu partido no Rio de Janeiro, o deputado estadual encara hoje as máfias do Morro e do asfalto. Enfrenta milícias armadas e máfias eleitoreiras. Disputa um projeto político contra uma aliança que hoje se vincula ao projeto de poder já instaurado no rio de janeiro. Projeto que não questiona, cede a pressões conservadoras. Projeto que não propõe, defende-se do avanço reacionário.

A política, dizem alguns, é a mistura entre Virtu e Fortuna. Na atual conjuntura, parece-nos que a cidade do Rio se vê diante da fortuna de poder votar com vontade. Pouquíssimas outras podem dizer o mesmo. Em geral, hoje, vota-se nao no que se quer, mas no que se pode. Mais que apresentar um projeto alternativo, pois, parece que a candidatura de Freixo pode realocar libido social em um projeto que empolga, que renova, que enfrenta.

Espera-se, logo, que a virtu de Freixo, valente e constante, concretize-se ao receber da população a oportunidade de se imiscuir na estrutura e tentar desagregar o hegemônico. Porque, nesse momento, mais que contra a hegemonia, é indispensável ser anti-hegemonico diante do projeto de cidade escolhido na sala da Fifa e do comitê olímpico.

Na piauí: a violência e o poder político das milícias no Rio de Janeiro

Por João Telésforo Medeiros Filho, do blog Da Planície

As velhas imagens sobre o poder dos traficantes de drogas no Rio de Janeiro, ainda alimentadas por grande parte da imprensa, cada vez condizem menos com a realidade.

Os grupos criminosos e violentos que têm poder no Rio hoje, cada vez mais, são as milícias formadas por policiais militares e civis, bombeiros, funcionários do sistema penitenciário. Poder crescente e tenebroso. Segundo bem apontam especialistas como Luiz Eduardo Soares e Jacqueline Muniz, não se trata de “Estado paralelo”, mas de um poder paralelo que cresceu dentro do próprio Estado, usando sua estrutura e penetrando inclusive – e com força – nos órgãos eletivos.

Triste do país que precisa de heróis, dizia Brecht. O fotógrafo Nilton Claudino é um deles, no nosso.

A revista piauí novamente presta um grande serviço jornalístico à nação, publicando seu texto sobre as torturas e ameaças de morte de que foi vítima, junto a uma colega, quando apuravam a atuação de um grupo miliciano no Rio, e que destruíram a sua vida. Além de muitos policiais, um vereador e um deputado estadual também estavam diretamente envolvidos. Seguem impunes.

Leitura imperdível. Seguem abaixo alguns trechos, com o único fim de estimular a leitura da íntegra da matéria, que está disponível no site da piauí. Confira: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/historia-pessoal/minha-dor-nao-sai-no-jornal

Leia também texto publicado em 2008 pelo Deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), o corajoso Presidente da CPI das Milícias: “Combater as milícias: uma questão de soberania“.

Minha dor não sai no jornal

Eu era fotógrafo de O Dia, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as milícias. Fui descoberto, torturado e humilhado. Perdi minha mulher, meus filhos, os amigos, a casa, o Rio, o sol, a praia, o futebol, tudo

por Nilton Claudino

(…)
o começo de 2008, fui chamado pelo diretor de redação de O Dia, Alexandre Freeland, para uma pauta que tinha que ser cumprida sigilosamente: investigar um grupo de milicianos (policiais militares e civis, bombeiros, funcionários do sistema penitenciário) que atuava no Jardim Batan, uma favela encravada em Realengo, na Zona Oeste.

(…)Havia fotografado muito: a movimentação pelas ruas, PMs bêbados, castigos, punições, carcaças de carros roubados acumuladas dentro de um terreno do Exército, o depósito clandestino de gás.

Às 21h30 da quarta-feira, dia 14, falamos com o diretor de redação. Eu sempre me reportava a ele. A possibilidade de envolvimento de um deputado e um vereador com a milícia fez com que decidíssemos estender nosso período por lá. Queríamos provas indesmentíveis.

Quinze minutos depois desse telefonema, fui pego em frente à pizzaria vizinha da nossa casa. Já comecei apanhando muito. Gritavam que sabiam que eu era jornalista.  (…)

Fomos algemados, encapuzados com toucas pretas e enfiados no banco traseiro de um carro. Rodamos alguns minutos atrás da chave de onde seria nosso cativeiro. (…)

 iquei encapuzado a maior parte do tempo. Mas sabia que havia em volta muitos policiais. Sentia os chutes vindos de coturnos. (…)
A repórter reconheceu a voz de um vereador, filho de um deputado estadual. E ele a reconheceu. Recomeçou a porradaria. Esse político me batia muito. Perguntava o que eu tinha ido fazer na Zona Oeste. Questionava se eu não amava meus filhos.

Cada vez chegavam mais camburões. Depois que apanhamos muito, levaram-nos para a sessão de choque. Era um instrumento que tinha o formato de uma pizza com um cano no meio. Tiraram minha roupa e me davam choques na região baixa e nos pés. Não posso, não devo, não quero entrar nos detalhes das brutalidades e das humilhações que sofremos. (…)

Leia a íntegra da matéria no site da revista piauí: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/historia-pessoal/minha-dor-nao-sai-no-jornal.