A Comuna de Paris, o urbanismo revolucionário e a cidade-negócio do governo Haddad

A Comuna de Paris completa, hoje, 142 anos. Foi no dia 18 de março de 1871 que se constituiu a primeira experiência histórica de autogoverno operário e popular, a qual durou cerca de quarenta dias, resistindo ante as tropas francesas e alemãs que executaram mais de 20 mil rebeldes até o esmagamento da Comuna.

Sobre aquela experiência, assinalou o teórico Henri Lefebvre, formulador do conceito de Direito à Cidade:

“A Comuna? Foi uma festa, a maior do século e dos tempos modernos. A análise mais fria descobre ali a impressão e a vontade dos insurgentes de tornarem-se os donos de sua vida e de sua história, não somente no que concerne às decisões políticas, mas ao nível da cotidianeidade. É nesse sentido que compreendemos Marx: ‘A maior medida social da Comuna era sua própria existência em ato… Paris toda verdade, Versalhes, toda mentira’. (…)

A Comuna foi a conquista do poder político pela classe trabalhadora (Marx) mas ela mudou radicalmente a forma e o sentido do poder político, pondo o social e a sociedade por cima do político, rebaixando este último e levando-o ao seu fim. (…)

A Comuna representa até o nosso tempo a única tentativa de um urbanismo revolucionário, atacando sobre o terreno dos signos petrificados da velha organização, captando as fontes da sociabilidade – nesse momento, o bairro –, reconhecendo o espaço social em termos políticos e não crendo que um monumento possa ser inocente”.

comunaNeste dia de lembrar essa grande experiência de urbanismo revolucionário, é importante nos voltarmos à realidade das nossas cidades e analisarmos experiências que se anunciam como transformadoras, para avaliar se efetivamente têm esse caráter. Hoje, o Brasil volta seus olhos para a administração de Fernando Haddad, em São Paulo, a maior e mais rica metrópole do país, uma das mais importantes do mundo. Sinais contraditórios têm sido emitidos sobre a direção que será impressa pela gestão petista, e não pretendo fazer uma avaliação global de cenários. É relevante trazer desde já, no entanto, apontamentos críticos que vêm sendo feitos de modo fundamentado por movimentos sociais e urbanistas.

Nesse sentido, Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, apresenta um diagnóstico que nos permite perceber como a nova Prefeitura tem sinalizado que seu planejamento urbano tem como objetivo fundamental gerar lucro para o capital imobiliário (e outros), e apenas acessoriamente a preocupação com uma cidade democrática e de direitos. Aponta Raquel, sobre o projeto do “Arco do Futuro” da Prefeitura:

Na Faculdade de Arquitetura, na disciplina de Planejamento Urbano, nós ensinamos que primeiro se define o que se quer para a área, debatendo amplamente com a sociedade: ou seja, que cidade queremos? Qual é a transformação que desejamos para este lugar? Depois, uma vez definido o que se quer, discute-se quais são os melhores instrumentos para implementar a proposta. O caminho que está sendo colocado agora [pela gestão de Fernando Haddad] é o contrário, ele começa com o instrumento, que é a parceria público-privada. A partir daí se definirá o projeto.  Mas se é parceria, a empresa tem que necessariamente ter lucro, e isso, claro, implica e compromete o projeto, na medida em que ele só ficará de pé se incluir a possibilidade de gerar grandes lucros imobiliários. A pergunta central, a partir disso, gira em torno da questão “qual é o uso mais rentável deste solo?” e não do que a cidade quer, demanda e precisa, ou seja, “do  que mais precisamos neste momento nesta cidade?”.

Sigamos atentos, e empenhados na construção de alternativas superiores e insurgentes, em confronto com a tecnocracia resignada, ainda que bem intencionada, que Haddad, o PT e a atual Prefeitura de São Paulo parecem encarnar.

Leia a íntegra do texto da professora Raquel Rolnik aqui.

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A disputa pelo espólio político de Chávez e o futuro da revolução bolivariana

Chavez

Por Edemilson Paraná

Guardadas as devidas diferenças ideológicas, a morte de Hugo Chávez na Venezuela talvez seja equivalente no Brasil apenas à morte de Getúlio Vargas. Lá, como aqui, uma grande disputa pelo espólio político do “comandante” deve ocorrer e, com ela, o desenho de todo um rumo (novo?) para a nação. Chávez teve tempo de “organizar” minimamente sua morte? Deixou testamento político? Como se comportarão o Exército e a Suprema Corte, aliados da revolução?

Há disputas consideráveis dentro do Chavismo, e a direita – que vem se reorganizando há algum tempo – certamente se aproveitará delas. Os EUA, saudosos do tempo em que tinham no no país um petro-quintal, devem influenciar. Líderes latino-americanos devem reagir e uma crise se avizinha, mas tudo indica que o destino do país dependerá mesmo é do povo venezuelano e de como ele receberá os “significados” dessa morte. A revolução sobreviverá sem Chávez? As conquistas sociais estão vinculadas a ela no imaginário popular?

Nas últimas eleições, Henrique Caprilles, o candidato opositor, utilizando-se de um discurso moderado obteve expressivos 44% dos votos. Não é pouca coisa. Se a interpretação da Constituição do país que determina a convocação de novas eleições em 30 dias prevalecer, ele deve ser o candidato natural. E vem forte. Um chavismo dividido teria sérias dificuldades nesse cenário.

Com todos os limites, contrições e equívocos, Chávez foi um dos maiores líderes políticos de seu tempo. Promoveu mudanças profundas na vida da população e mudou para sempre a política venezuelana. Ícone da resistência latino-americana ao neoliberalismo, teve papel fundamental na construção de um outro equilíbrio de forças no continente. O impacto de sua morte ultrapassa as fronteiras da República Bolivariana.

Se episódios como os golpes em Honduras e no Paraguai, bem como a resistência colombiana, patrocinada pelos EUA, às mudanças no continente nos relembram as ameaças à soberania dos países da América do Sul, o tempo é de união, nacional e regional, em torno das conquistas democráticas e cidadãs das mudanças ocorridas na Venezuela.

Chavez sai da vida para entrar para a história. Os rumos de sua “revolução”, no entanto, seguem em disputa. Para que a Venezuela não sofra um retrocesso, mas, ao contrário, reafirme seu destino de país livre e soberano, será preciso unidade política. Que os erros – que não foram poucos – sejam corrigidos e as mudanças aprofundadas para o empoderamento histórico (e de fato) daquele que deve ser sempre o protagonista de toda mudança real: o povo!

Direita volver: a caduquice do “Franciscanismo” de esquerda

Por Edemilson Paraná

Classe média faz revolução?

É dificil afirmar o contrário. Dos países árabes ao Chile, da Europa aos Estados Unidos, o grande ator político por trás das revoltas que sacudiram essas sociedades em 2011 e reabriram uma discussão considerada morta ou velha pelo pensamento liberal foi a classe média. Para o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn (leia aqui), “as ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos ‘exércitos postiços’, formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso”.

O fenômeno levanta uma série de dúvidas para a esquerda tradicional. O quê faz com que a mesma classe média esteja por trás de protestos e revoltas organizadas em países tão distintos econômica e socialmente como o Egito e o Estados Unidos, Espanha e Síria? Do que trata e o que pretendem exatamente esses protestos de estudantes e seus Macs, Iphones e câmeras HD a exgir uma nova sociedade?

Para o filósofo Slavoj Zizek (aqui) movimentos como esses trazem uma nova linguagem para a crítica social. Para Hobsbawn, não há dúvida se tratar de um processo revolucionário. Algo comparado simbolicamente ao ano de 1848 quando revoltas estouraram em toda a Europa; mas dessa vez uma revolução feita por estudantes, pela classe média incluída digitalmente. Segundo ele, “estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis – uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos”.

Quando direita e esquerda ortodoxa unem vozes

A reação conceitual às mudança propostas e exigidas “pelos filhos do capitalismo” não tardou a aparecer. Como há dificuldade em contrapôr um projeto civilizatório que desmascare o receituário liberal clássico e injustificável de combate às crises capitalistas (arrocho ao trabalho, incentivos amplos ao capital), optou-se por discutir o perfil dos contestadores em vez de suas ideias. A tentativa, carente de fundamento e, não por coincidência, partilhada entre a direita e parte da esquerda clássica, de desqualificar tais movimentos sustenta-se na suposta incorência de tais jovens que, munidos de educação formal de qualidade, acesso a bens de consumo e produtos tecnológicos, estão por trás de iniciativas que propõem igualdade material e o fim das opressões. Em oitavas diferentes do mesmo tom, a direita fala em hipocrisia enquanto parte da esquerda tradicional denuncia a contradição de um processo de transformação que não é gestado no seio das camadas genuinamente populares.

Em terras brasileiras, a ideia desembarcou com ares de crítica inteligente e divertida. No Facebook, o même (partícula de conteúdo viralizada na rede) “legal essa sua camiseta do Che Guevara. Você se comunica com seus amigos revolucionários por esse Iphone aí?”  foi compartilhado com ares de triunfalismo deboxado, como uma denúncia inquestionável da hipocrisia histórica da classe média de esquerda que se diz revolucionária.

E vc? Usa esse Iphone aí para reproduzir injustiças?

A direita e o “Franciscanismo” de esquerda como faces da mesma moeda

Se para a direita é hipócrita lutar com um smartphone mãos em prol dos que não tem o que comer, para a velha esquerda a prática antiga de estetização patriarcalista da pobreza produz uma recusa automática (e irracional) em levar a sério processos de mobilização e luta social convocados e organizados por jovens bem educados munidos de recursos tecnológicos de ponta. É o que eu chamo de “Franciscanismo” de esquerda, quando a cegueira dogmática leva à idealização da pobreza.

Em ambos os lados é evidente o equívoco na crítica à hipocrisa que pretensamente denunciam, mas reproduzem. À direita a descontrução é feita com menos dificuldade porque a crítica, nessa acepção, carece de um fundamento básico: lógica. Ou seja, a partir desse pensamento (?) para ser de esquerda de verdade deve-se abrir mão de tudo o que dispõe em prol da caridade ao pobres (“venda esse computador moderno e alimente famílias” é o que se ouve). Acontece, vejam só!, que abrindo mão de tais recursos aumenta-se ainda mais a desvantagem (como se ela já não fosse enorme) de progressistas em relação a conservadores na luta política contra privilégios e opressões. Ou seja, é coerente que um conservador utilize meios de comunicação eficientes para propagar politicamente a manutenção da realidade, mas é ilegítimo que alguém de esquerda utilize os mesmos recursos em prol de uma sociedade mais justa e igual.

Não faz sentido, ou melhor, faz sentido na lógica de manutenção do status quo. Sob tal compreensão, para ser coerente de verdade um esquerdista precisa voltar no tempo, se descolar da realidade em que está inserido e, no limite do paroxismo (quem define o que é ou não supérfluo nesses casos?), utilizar orelhão, rádio a pilha e mimeógrafo para fazer luta política, ou pior, terá de vender sua casa, seu carro, abrir mão de sua educação, etc., até fazer voto total de pobreza em prol da coerência caridosa, confundida por tais críticos (com toda desonestidade intelectual que disso decorre) com ser de esquerda. Essa compreensão primária da disputa política, que denota falta de capacidade de formulação de projetos de sociedade, abandona o que realmente importa –a discussão em torno de qual sociedade desejamos– em prol da desqualificação menor do polo erradiador de ideias contrárias. O que seria coerente? Não agir? Utilizar tais recursos apenas em benefício próprio? Deixar a atuação política? É o que essa crítica esconde: uma tentativa desqualificada de impedir a atuação transformadora de onde quer que ela se origine.

Ora, se por razões de ordem social, que no nosso caso é recheada de injustiças históricas, foi dada à classe média a possibilidade de acesso à educação formal, arte, esporte, bens de consumo e bens tecnológicos, nada mais justo (e necessário) que utilizem TODOS esses recuros materiais e imaterias na luta por transformação social, na luta contra tais injustiças que afetam a sociedade como um todo. Esse era o apelo da luta emancipadora do intelectual e político Darcy Ribeiro, para quem a universidade, os estudantes e a elite intelectual do Brasil tem o dever moral e o imperativo intelectual de utilizar seus conhecimento e potencialidades (que aqui podem ser vistos como privilégios de classe) em prol daqueles que não o tem, para a transformação. E aí, sim, é justo e necessário utilizar seu diploma universitário, seu smartphone que facilita a propagação de mensagens, seu computador capaz de editar peças gráficas e audiovisuais, o acesso às instituições, a boa localização em que vive, entre outros recursos, para lutar de todas as maneiras em favor de e em aliança com os movimentos sociais populares, em colaboração para seu empoderamento legal, conceitual e técnico; um empoderamento, aliás, que é mútuo na medida em que não há uma hieraquia dos aprendizados nessa relação. Pudera tivessem ainda mais recursos tecnológicos para colocar a disposição dos trabalhadores nessa batalha…

Desconstruída a crítica que vem da direita –que apela por uma caridade que esconde o conflito político e mantém injusta a base estrutural da sociedade, vamos à esquerda ortodoxa.

Para isso, é importante lembrar: Marx não teorizou sobre a distribuição da pobreza e sim da riqueza. Sendo superficial: não se trata de levar pobreza aos ricos, mas riqueza ao pobres. De sair do reino da necessidade, para o reino da liberdade, como dizia o próprio. E a ênfase na palavra liberdade aqui é importante, porque em nossa sociedade capitalista acesso ao consumo é também empoderamento político e mais uma etapa de inclusão cidadã. E por consumo entenda-se desde a obtenção de alimentos básicos até livros e computadores. Lutar contra a pobreza é lutar pela liberdade e lutar pela liberdade é combater a pobreza material e imaterial.

A política do quanto pior melhor (quanto mais fome e desgraça, mais revoltado tende a ficar o povo e mais próximo da revolução ele estaria) –típica da esquerda radical dogmática– é, além de incoerente (você supostamente quer o melhor para o povo mas na prática deseja que ele esteja cada vez pior até que chege o dia da revolução), cruel do ponto de vista humano. Achar que mais trajédia social é parte “natural” de qualquer processo de mudança política é uma escolha que a esquerda da qual eu faço parte se recusa a aceitar.

Se para nós o que interessa é a construção de uma nova hegemonia, de uma nova cultura, de uma nova compreensão das relações de poder na sociedade que inclua democraticamente a todos, para essa outra esquerda todo processo que não vem de quem sofre no limite mais profundo da opressão, de quem não é gestado e formado como indivíduo na disputa clássica entre capital e trabalho, deixa de ser legítimo. Trata-se de uma lógica excludente e autoritária que, tomada em sua compreensão fundamental, jamais será capaz de produzir mudanças reais.

Ao receber o prêmio World Food Prize em reconhecimento às políticas públicas que combateram a fome e levaram 40 milhões de brasileiros a ascenderam de classe social e 28 milhões a deixarem pobreza extrema, o presidente Lula deu uma declaração impactante (aqui disponível em vídeo):

“A fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão. E quem tem que ajudar os famintos não são só os famintos, somos nós que tomamos café de manhã, de tarde e de noite. Somos nós que precisamos, com muita humildade, estendermos a mão para ajudar aqueles que não tem força sequer para gritar que estão com fome”.

Apesar de contradito em parte pela história (a Russia revolucionária contou com um verdadeiro exército de famintos), o presidente mandou uma mensagem clara em seu discurso, mensagem essa que esteve implícita no discurso de vários revolucionários ao longo da história: a luta contra a fome é dever e responsabilidade de todos nós. A consolidação de uma revolução de bem alimentados e bem educados pode ser, quem sabe, mais bem sucedida que o exemplos fracassados que tivemos ao longo história.

“Ser um deles”

Outra dimensão dessa crítica é a visão romantizada do militante que recusa o conforto de sua vida para lutar com, viver sua realidade e até “ser” um oprimido quando da disputa política, para compartilhar e vivenciar com ele a mesma realidade. Sem entrar no mérito dessa decisão, não acho que seja uma escolha possível (ou cogitável) para milhões de brasileiros que simpatizam com ideias progressistas e podem contribuir à sua maneira para a transformação social na atual conjuntura. Se deixar o conforto pequeno burguês em prol da militância junto aos movimentos populares é mais uma escolha e uma estratégia carregada de fundamentação prática e teórica, não há de se apontar esse como o único meio coerente de produção de mudança social sob pena de reduzirmos drasticamente nosso alcance político.

Há ainda outro ponto que envolve a aliança classe média-trabalhadores: a formação subjetiva e a carga simbólica que cada uma dessas classes carrega em sua formação. Ora, por mais que um militante abra mão de todos seus privilégios em prol de somar forças aos setores populares ele jamais será um deles no sentido constitutivo. E não o será não porque não é capaz de socializar-se como um igual, mas porque construiu sua subjetividade em processos de socialização, aprendizagem e educação completamente distintos. A honestidade política em se querer igual tendo consciência das diferenças é fundamental para um relação saudável no interior desta aliança entre progressitas de diferentes classes sociais. A ignorância dessa sutileza (nada sutil) pode incorrer na imposição cega de uma subjetividade sobre a outra, reproduzindo no interior da luta política por emancipação uma nova opressão.

Para o sociólogo Jessé Souza, a superação da compreensão puramente econômica de classe social (seja pelo marxismo que a vê como um lugar no sistema de produção ou pelo liberalismo que a entende com base nos padrões de renda) é fundamental para entender o que se passa na sociedade e transformá-la  A determinação econômica de classe social seria portanto não uma mentira, mas uma meia verdade na medida em que ignora aspectos sociológicos relevantes. No livro “A Ralé”, ele discute a formação das classes sociais sob a ótica dos processos afetivos e emotivos de construção diferencial dos seres humanos, encobertos por essa associação puramente econômica (aqui em vídeo, Jessé debate a formação da nova classe média e as transformações no capitalismo brasileiro). Há um mundo de complexidades para além do marxismo teórico.

A necessidade dessa compressão se estende da questão de classe para obviamente tocar a identidade. Se não compartilhar da identidade do oprimido em questão não lhe dá o direito de apropriar-se de uma condição que não é sua, tampouco deve te impedir de apoiar, intervir, ajudar, contribuir e militar ativamente pelos direitos que envolvem a questão.

Política transforadora: incluir ao invés de apartar

É evidente que há várias limitações constitutivas que contribuem para o não envolvimento da classe média em ações revolucionárias. O militante do B&D, Gustavo Capela, elenca várias delas neste texto. Mas o fato é que de alguma forma isso parece estar mudando, e a classe média tem demonstrado um potencial considerável de mobilização seja no Brasil ou no resto do mundo. A explicação de Eric Hobsbawn para esse fenômeno de ruptura nos receiturários e modos tradicionais de compreensão das mudanças políticas vão ao encontro do argumento central desse texto. Para ele, “a esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível”.

O cenário é duvidoso e segue em aberto. Para uma nova sociedade, novas formas formas de mobilização, novos sujeitos políticos, nova alianças. Para injustiças políticas históricas, o resgate da velha tradição humanista. Tudo somado, mostra-se um equívoco estratégico enorme ignorar neste momento a classe média como força propulsora de mudanças reais. É preciso um discurso que inclua, ao invés de apartar, atores políticos distintos a se unirem pela transformação da sociedade.

E isso é especialmente relevante no Brasil, onde discute-se a gênese de um novo ator sócio-político, a chamada “nova classe média”. A oposição de direita aos poucos acorda para a realidade e exerga, através de um (talvez o único) de seus melhores quadros, essa como uma oportunidade para o avanço da modernização conservadora. Apesar de extremamente mal interpretado por seus pares, a clareza de Fernando Henrique Cardoso a respeito desse tema é cristalina:

“Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média.

(…)  Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas” (aqui, o texto na íntegra).

Vários autores discordam, entre eles o próprio Jessé Souza, da definição imprecisa dada ao termo “nova classe média”. Fala-se em nova classe trabalhadora, de uma classe com valores e posição social distintos da classe média tradicional. De qualquer maneira, é importante olhar esse fenômeno atentamente; é evidente que ela terá desdobramentos políticos consideráveis.

E nós, de esquerda, que desejamos uma transformação real e profunda desse país, como nos posicionaremos diante desse processo? Traremos para dentro do leque progressista esses que aos poucos empoderam-se como cidadãos, vindo a produzir o que pode se tornar no futuro nosso Ocupe Wall Street à brasileira, ou os designaremos como os novos privilegiados consumistas, como não dignos de nossos padrões de ação verdadeiramente revolucionários, jogando-os no colo da oposição de direita?

Sobre a revolução: Jacques Rancière

Por João Telésforo Medeiros Filho

Transcrevo abaixo trecho de uma das melhores entrevistas que li nos últimos anos. Com Jacques Rancière, para a Revista Cult, edição 139, de agosto de 2009.

O mote da conversa é o livro “Le spectateur émancipé” (“O espectador emancipado”), lançado em 2009 na França e em 2010 no Brasil. Publico aqui as partes que dizem mais respeito a um tema muito caro ao B&D: a revolução, a transformação profunda das estruturas sociais.

Eu postara essa entrevista no meu blog pessoal em setembro de 2009, e é interessante perceber como a mudança do contexto muda a forma como a lemos.

“O presente não é tão alegre”, dizia Rancière em 2009. A boa notícia é que temos algumas razões para nos alegrarmos: desde o ano passado, temos visto sinais dos “novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação” manifestando-se na política – condições e sintomas de um momento revolucionário, segundo o pensador francês.

Assistimos a esse fenômeno recentemente no Egito e, com menor intensidade, na Espanha, em Natal (a “primavera potiguar” do #foramicarla), e também em Brasília – na revolucionária ocupação da Reitoria da UnB, em 2008, e nos atos do movimento Fora Arruda e Toda Máfia, em 2009-10. Merecem destaque ainda, entre os novos meios de fazer circular a informação, projetos como o Wikileaks e o Transparência Hacker.

“Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas”, afirma Rancière. Isso tem acontecido. Do mesmo modo, a criação e  o emprego, na política, de novas formas de comunicação – espera-se que, à semelhança do que aconteceu com o movimento operário no século XIX, isso implique novos poderes e direitos para o povo. Tal como em 1968, vemos agora “surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação”.

Nosso desafio é seguir fomentando e participando desses movimentos que rompem com os limites aparentes do possível e instituem novas formas de fazer política. Porém, isso não é suficiente. Rancière aponta também “novas formas de economia” como típicas dos momentos revolucionários. Não basta inventarmos uma nova política, se não tivermos a imaginação necessária para fundar uma outra economia, diferente deste sistema excludente e desigual no qual vivemos. Precisamos transformar nossa indignação em mudança; imaginar para revolucionar, a exemplo do que têm buscado fazer os manifestantes nas praças espanholas.

Anotem-se as palavras de Rancière: “Os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda“. A nova política e a nova economia que precisamos inventar devem incrementar reciprocamente suas capacidades de inovação. Precisamos descobrir/inventar a riqueza e o potencial emancipatório das redes horizontais, não-hierárquicas, na economia, não apenas na política. Isso começa a acontecer, mas é preciso ir além: disseminar, aprofundar, radicalizar esse processo criativo.

Fiquem com a entrevista para a Cult.

“(…) CULT – Continuar lendo