Hugo Chávez e os novos caminhos da América Latina

Segue abaixo, como contribuição ao debate sobre Hugo Chávez e o seu legado, texto do professor Pio Penna Filho, do Instituto de Relações Internacionais da UnB.

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A morte de Hugo Chávez não afetará apenas a Venezuela. Chávez foi um líder que sempre enfatizou a América Latina como um todo. Sua visão política rompia com a barreira da nacionalidade do seu país e vislumbrava uma América Latina unida em torno de um ideal “pan-latinoamericano”. Foi um desses líderes carismáticos que surgem apenas de tempos em tempos e que deixam um registro histórico que geralmente sobrevive durante muitas e muitas décadas.

Em termos de política internacional, Chávez rompeu com o marasmo latino-americano. Vínhamos num ritmo lento, quase sem ousadia na cena internacional. Durante a década de 1990, boa parte dos países da região seguia obediente aos mandos e desmandos de Washington, sem sequer se atrever a questionar os pressupostos neoliberais irradiados a partir dos Estados Unidos. Depois da Revolução Cubana, Chávez foi o grande contraponto a esse estado de coisas.

Esse cenário começou a mudar quando Hugo Rafael Chávez Frías assumiu o poder na Venezuela e passou a questionar, cada vez com mais intensidade, a impertinência do modelo neoliberal e mesmo da ordem internacional vigente para as sociedades latino-americanas, marcadas por profundas desigualdades sociais.

O comando de um importante país produtor de petróleo fez uma enorme diferença para que os ideais políticos de Chávez, de caráter socialista e mesmo que um tanto confusos, fossem colocados em prática.

Assim, com os recursos obtidos pelo espetacular aumento dos preços do petróleo no mercado internacional, Chávez promoveu uma ampla política de distribuição de renda que hoje, diante da verdadeira comoção nacional em torno de sua despedida, nos permite ter uma ideia do seu impacto na sociedade venezuelana.

No plano internacional, a Venezuela chavista estendeu a mão para alguns países mais pobres da América Latina, como Bolívia, Cuba e Nicarágua. Com a chamada Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, ou ALBA – que mesmo tendo obtido modestos resultados práticos –, Chávez inovou mais uma vez ao propor algo diferente dos tradicionais esquemas de integração regional baseados quase que apenas na ampliação das trocas comerciais.

Projetando a Venezuela para fora da América Latina, Chávez ousou em se aproximar de regimes considerados como praticamente párias pela hegemonia norte-americana, como os regimes sírio (Bashar al Assad), líbio (Muammar Gaddafi) e, com mais intensidade ainda, com o iraniano, tendo visitado o país persa em várias ocasiões durante o seu governo.

Com a Rússia, assinou um acordo comercial para compras de armas e equipamentos militares que irritou Washington e deixou muitos governos da própria América Latina preocupados com a modernização das forças armadas da Venezuela.

Chávez fará falta para a Venezuela, para a América Latina e para o mundo como um todo. Sua visão da política, que está longe de ser consensual, irrita muitos mas agrada outros tantos. Uma das suas grandes contribuições foi justamente essa, a de apontar em direção a uma outra via, diferente, sonhadora e preocupada com as questões sociais, algo que anda muito em baixa entre os governantes e líderes do início do século XXI.

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Bolivianos no Brasil

Por João Telésforo Medeiros Filho

Estamos acostumados a ouvir falar de problemas com imigração em outros países. Os Estados Unidos chegaram a construir um muro na fronteira com o México, e na Europa há um forte discurso xenofóbico dirigido contra  os imigrantes, utilizados pela direita como bodes expiatórios para o desemprego e a violência. Dois novos casos vieram à tona recentemente: nos Estados Unidos, a resistência à demanda de construção de uma mesquita em Manhattan, perto de onde ficavam as Torres Gêmeas (Obama, felizmente, vem defendendo o direito dos muçulmanos de contruírem-na); na França, a deportação de centenas de ciganos pelo governo de Sarkozy.

Não temos o hábito, porém, de pensar essa questão como algo próximo de nós, um problema sério a ser enfrentado também aqui no Brasil. Talvez isso mude nos próximos anos: Márcio Pochmann, professor de Economia da Unicamp e atual presidente do IPEA, comenta em entrevista à Caros Amigos deste mês que o Brasil entrará em uma fase de escassez de mão-de-obra, e levanta a possibilidade de que poderá haver demanda cada vez maior por imigrantes – paraguaios ou bolivianos, por exemplo – para fazer os serviços mais simples.

Embora este seja um tema com pouca visibilidade pública, já há muitos imigrantes bolivianos no Brasil, muitos deles trabalhando em condições precárias – por vezes, análogas à de escravo – em costurarias em São Paulo. Veja-se, a este respeito: “Bolivianos em São Paulo: entre o sonho e a realidade“, “Imigrantes bolivianos vivem como escravos em São Paulo” e o filme “Costurando sonhos: a presença boliviana em São Paulo” (de apenas 15 min, vale à pena ver lá!).

Como lidaremos com os imigrantes: cidadãos cujos direitos devem ser assegurados, pessoas cuja cultura deve ser respeitada e com quem podemos aprender, ou apenas estranhos a serem desprezados, odiados, explorados e perseguidos? Nossa abordagem será discriminatória e policialesca, ou preocupada com a garantia de trabalho digno, acesso a serviços públicos e integração social e cultural? Quando falo em integração, não me refiro a uma assimilação que implique esforço de destruir ou enfraquecer sua identidade, mas combate à visão preconceituosa que os trata como cidadãos de segunda classe.

Uma fonte importante de reflexão sobre o assunto é o blog “Educar para o Mundo”, que acompanha o projeto pioneiro de extensão coordenado pelo IRI/USP sobre migrações. Transcrevo abaixo texto que a professora Deisy Ventura postou lá ontem:

Esquizos

“Eu tenho vontade de dizer a esses italianos: escutem, vocês não lembram que já foram bolivianos?”, exclamou Maria Victoria Benevides, em meio ao abraço da Flávia Schilling, numa sala repleta e acolhedora da Faculdade de Educação da USP. O motivo do nosso encontro: a banca de Mestrado da Giovanna Modé, consagrada a um assunto bem incômodo. É possível, nas escolas de São Paulo, a matrícula de alunos sem documentos. As pífias estatísticas contam de 60 a 200 mil bolivianos residentes aqui na cidade – o certo é que, seja qual for o contingente, grande parte dele vive clandestinamente no Brasil. Pensou Giovanna: tudo bem, eles podem matricular os filhos, mas o que acontece durante e depois da matrícula?  E lá foi ela a campo, ver e ouvir os imigrantes e a comunidade à sua volta, ao mesmo tempo em que percorria a melhor literatura sobre migrações, educação e direitos humanos. A densidade teórica ilumina a compreensão das dezenas de depoimentos e afasta qualquer clichê. No texto, encontramos uma menina que não quer mais ser boliviana: “sou brasileira porque eu como miolo de pão e gosto mais de doce do que de salgado. Boliviano é meu pai”. Há também a mãe que sonha com uma escola separada para os bolivianos, pois a educação no Brasil é “fraca, ninguém respeita os professores e o ensino nada tem a ver com a realidade”. Ali está uma criança que sente falta das aulas de música, teatro e dança da escola na Bolívia: “aqui, nas aulas de arte, a gente só escreve”. Há, por sua vez, os brasileiros que, num debate durante a aula, dizem à professora que estão decididos a migrar para os Estados Unidos, onde ficarão ricos e serão bem tratados; então os coleguinhas bolivianos, em geral tímidos, irrompem em riso frouxo. Há igualmente a garota pop que os brasileiros pensam que é japonesa. Ora, só uma impecável escuta durante as entrevistas (postura ético-política que marca a obra da Orientadora, a Flávia) poderia permitir tamanha desenvoltura nestas falas, em que não há rastro de vitimização. Tampouco de ilusões ou ingenuidade. A referência à discriminação é constante. Há relatos de espancamento até a morte, e de estupro de imigrantes. Continuar lendo