Superar a capitulação da esquerda

Precisamos pensar a capitulação de Marina, que dá mais um passo em trajetória rumo à direita iniciada há anos, para muito além do Fla-Flu eleitoral. É necessário pensar mais uma vez também a capitulação do PT, ou de grande parte do partido, assim como do PSB, PCdoB e tantas outras forças. Para evitar que essa tragédia se reproduza como destino da nossa geração de militantes sociais com horizontes anticapitalistas e altermundialistas, é indispensável buscarmos a reflexão mais profunda sobre a cadeia de fatores que tem conduzido a esse beco sem saída diante da ordem estabelecida.

A aposta prioritária ou quase cega na disputa do Estado, em especial na via eleitoral, como principal e quase exclusiva forma de intervenção e transformação da realidade certamente é um desses fatores. E isso caracterizou fortemente a trajetória tanto do PT quanto de Marina nos últimos anos, não interessa o quanto façam discursos de apologia aos movimentos sociais ou às redes de ativismo social.

Não temos direito de reproduzir esse erro. E isso obviamente é um desafio muito maior para quem, como nós do PSOL, interpreta que continua sendo importante participar da disputa eleitoral na atual conjuntura, ainda que de forma não prioritária, e sim subordinada à construção do poder popular. Passar da “boa intenção” à coerência da práxis concreta neste assunto, como em tantos outros, é que são elas…

Outro fator que acho importante é a necessidade de retomarmos, na luta política cotidiana, a inquietação de compreensão profunda e atual da realidade, e, com ela, a apropriação e reconstrução de ferramentas teóricas necessárias para tanto. O espontaneísmo e postura anti-teoria de muitos/as militantes sociais da nossa geração não são novos, tal como diagnostica Paulo Arantes, que enxerga nesse achatamento da reflexão e do horizonte mais uma forma da capitulação à ordem, ainda que em nome de um discurso de emergência (que termina por “enxugar gelo” sem atacar o fundo das questões).

Como diz Bruno Cava Rodrigues (no rastro de muita gente mais), não são “a humanidade” ou “a sociedade” que produzem a hecatombe social, política e ambiental dos nossos tempos. É uma determinada forma de produção da vida social, que tem nome: chama-se capitalismo.

Se tentativas de superação do sistema do capital fracassaram nesse intento, ao longo do último século, isso não é razão para não seguir tentando. Um século é muito pouco na escala da história global. Outro mundo é possível, sim, porque a organização social da nossa vida não é um dado, ela é dotada de grande plasticidade, é um artefato social produzido historicamente e que podemos reconstruir, aliando grandes doses de imaginação e de rebeldia.

E tem mais: segundo enuncia Eduardo Viveiros de Castro, não precisamos apenas imaginar utopias, lugares não-existentes para inspirar essa luta construtiva “rumo ao futuro”. Podemos e devemos nutrir heterotopias, aprender com as experiências alternativas existentes de organização da sociedade, de outros mundos sociais efetivos hoje, como os de povos indígenas, notadamente. Outros mundos são possíveis e já existem no presente, resistindo à força homogeneizadora do capital, destrutiva da diversidade de formas de produção da vida social, cultural, econômica, de organização (e desorganização) do poder.

É preciso que voltemos a nos munir das armas da crítica radical, forjando a quente, a partir das lutas, a atualização das leituras do capitalismo global e de sua conformação no lugar onde lutamos (América Latina, Brasil, cidade, etc), bem como das estratégias para sua suplantação.

“As ferramentas do mestre nunca desmantelarão a sua casa. Elas no máximo nos permitirão derrotá-lo temporariamente em seu próprio jogo, mas nunca nos tornarão capazes de promover mudança genuína”. (Audre Lorde).

Que entendemos por Poder Popular?

No nosso exercício contínuo de reflexão coletiva a partir da práxis das lutas e do estudo e debate teórico para responder às inquietações que dela surgem, periodicamente revisamos e atualizamos a “Carta de Fundamentos” do B&D. Incorporamos a esse documento, hoje, nova versão, com modificação considerável na parte sobre poder popular. Confira aqui. Abaixo, segue nossa compreensão – sempre aberta ao aprendizado para seguir se aperfeiçoando – sobre esse objetivo fundamental que justifica a existência do grupo.

poder popular mulher.

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Poder popular

“O poder do povo vai criar um mundo novo”

O poder não está sacralizado em leis imutáveis e nem deve ser visto apenas como ferramenta ou meio para o alcance de um dado fim. Para nós, a multiplicação social do poder é o próprio fim: o alargamento de capacidades e práticas de autogoverno e o fortalecimento da organização insurgente e autônoma das/os oprimidas/dos e das/dos exploradas/os, capazes de recriarem o mundo social sobre novas bases cognitivas e pragmáticas, mediante sua luta pela emancipação. A isso chamamos poder popular.

A realização desse objetivo revolucionário fundamental depende do fortalecimento de sujeitos e processos que instaurem rupturas com o caráter alienante e espoliador do sistema político, cultural e produtivo vigente e construam possibilidades reais de sua superação.

A produção do poder popular exige que voltemos os olhos também, portanto, para as limitações, obstáculos e adversários que enfrenta, bem como as estratégias desenvolvidas para suplantá-los.

Esses obstáculos e limitações são de diversas ordens. Em primeiro lugar, observa-se que as estruturas sociais – capitalistas, racistas, colonizadoras, patriarcais, heteronormativas – produzem, de forma sistemática e entrelaçada, exploração e dominação dos mais amplos grupos populacionais. Por conseguinte, os movimentos sociais contra-hegemônicos, por meio dos quais os povos se mobilizam para construir modelos alternativos de sociedade – igualitários, libertários e cooperativos –, têm papel proeminente na luta pelo poder popular.

Em segundo lugar, é necessário levar em conta que o Estado cumpre papel fundamental na reprodução das estruturas citadas – não por acaso, é um dos grandes violadores dos direitos humanos (senão o maior) e criminaliza movimentos sociais sistematicamente. Por isso, deve-se ter em mente que a luta pela radicalização da democracia invariavelmente entra em choque com a institucionalidade estatal e seus aparelhos de repressão violenta e legitimação simbólica, instrumentalizados pelos sistemas de dominação existentes.

A ação direta deve ser valorizada, portanto, como o mecanismo fundamental de construção do poder popular, de forma autônoma com relação ao Estado capitalista, racista, colonizador, patriarcal e heteronormativo; e, por vezes, em clara confrontação com ele, mediante o exercício democrático do direito à resistência. Ação direta não significa apenas, no entanto, desobediência civil e insurreição; também abarca diversas outras situações e formas de atuação mediante as quais comunidades e movimentos desenvolvem e fortalecem seus próprios meios de sociabilidade, organização política, produção cultural e econômica, com autonomia frente ao Estado e aos grupos dominantes contra os quais lutam.

Por outro lado, não se pode ignorar que a institucionalidade estatal é dotada de fraturas internas: existe certa abertura à participação social (ainda que de forma desigual e violentamente apassivada), bem como é possível pressioná-la em alguma medida para conquistar normas legislativas, políticas públicas e sentenças judiciais que eventualmente podem contribuir ao fortalecimento do poder popular. Disputar as contradições do Estado, de diversas maneiras de acordo com a conjuntura de cada momento, pode ter papel decisivo para obter vitórias nas lutas.

Porém, seria um erro superestimar a abertura procedimental da institucionalidade estatal, que ainda é pequena para as amplas massas populares oprimidas, além de bastante limitada nos efeitos concretos que gera. A necessária democratização radical da sociedade, da produção do poder político, não pode ser feita exclusivamente ou prioritariamente, portanto, “por dentro” das instituições. Não basta alargar a participação popular no Estado, embora isso também seja importante.

O fundamental, fazemos questão de repeti-lo, é a construção de poder dos e com os sujeitos coletivos que se organizam desde baixo, em sua práxis criadora e estimuladora de novas compreensões, mecanismos, práticas e cultura política. A disputa da institucionalidade estatal não deve ser feita como fim em si mesmo nem como objetivo estratégico prioritário, mas de modo organicamente vinculado e subordinado ao fortalecimento desse bloco de lutas.

Índios ocupam o Congresso Nacional em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

Índios ocupam o Congresso Nacional, em 2012. Poder dos Povos em construção na luta!

B&D convida: Grupo de Estudos Anticapitalistas

Afinal, somos um grupo que acredita em revolução. Revolução enquanto processo diário e constante. Revolução que precisa de construções alternativas e contra-hegemônicas. Revolução que não foi escrita nem descrita em qualquer livro, mas que exige de nós, enquanto militantes, conhecimento da história e das ferramentas teóricas que nos são apresentadas. Certo ou errado, nossas escolhas se pautam pela conexão com a teoria que se aprende na prática e pela prática capaz de inovar e renovar a teoria.

(“B&D: Tomando Partido“, março de 2013)

Nós, militantes, precisamos estudar teoria? Pra quê?

Não é pra que saibamos usar autores chiques como adorno às nossas falas, apenas pra que fiquem mais “bonitas” ou… incompreensíveis.

Também não é pra descobrir receitas prontas ou fórmulas universais sobre como mudar o mundo. Quem quiser algum livro sagrado com dogmas deve procurar, talvez, uma Igreja, e não uma teoria, muito menos um pensamento revolucionário.

Então… Pra quê?

Me diz aí, você que sonha com “um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” (Rosa Luxemburgo), como a gente… Como é que constrói isso aí, que a gente chama de socialismo?

Só por meio da militância diária nas lutas anticapitalistas e de combate às opressões, do engajamento coletivo no processo social de criatividade de novas práticas e estruturas, é que vamos ser capazes de fazer isso.

Ok, sabemos disso, concordamos. Mas, então, me diz aí, já que você falou de “lutas anticapitalistas”. Que danado é esse tal de capitalismo, hein? Porque, afinal, se queremos combatê-lo e superá-lo, é legal pensar se estamos fazendo isso mesmo ou não, né? Então, parece interessante saber que negócio é esse.

Cada um(a) de nós tem várias intuições sobre isso, claro, a partir de experiências, leituras, conversas. São válidas e úteis. Mas, não dá vontade de pensar e discutir isso mais a fundo? Quais são as principais características do capitalismo? Como ele se formou historicamente e se transformou? De que maneira está relacionado às estruturas sociais racistas, machistas e heteronormativas, ao genocídio contra os povos indígenas e africanos, à dominação das mulheres, ao fundamentalismo religioso, à corrupção, à destruição ambiental e às guerras? Como as classes sociais estão estruturadas na América Latina e no Brasil hoje?

Essas e outras perguntas têm enorme valor prático, e as respostas não são simples. Exigem reflexão, pesquisa. Claro que a investigação e compreensão da realidade também se faz no dia a dia da militância, em diversos níveis. Porém, o estudo teórico propriamente dito (se é que faz algum sentido essa separação prática-teoria, taí outra questão) pode e deve ser também, justamente por isso, uma dimensão da prática militante: uma das formas de investigar a realidade, interpretá-la, compreendê-la para transformá-la, é estudar o que uma galera já andou escrevendo sobre isso aí.

Uma galera tipo o Karl. Karlinhos, o Marx. Um cara que teve umas sacadas interessantes, extremamente atuais (algumas delas com o Fred, brother dele). Até George Soros, mega investidor, bilionário, diz que Marx é fundamental pra entender o mundo de hoje. E você taí com a cabeça fechada pro nosso camarada Karl? Não tô dizendo pra você concordar com tudo o que o rapaz falou. Sabe qual era o lema de vida dele? “Duvidar de tudo”. Sabe uma das definições que ele deu ao comunismo? “A crítica radical de tudo o que existe”. Então, nesse espírito, certamente Marx se reviraria no túmulo se você adotasse postura reverencial, acrítica diante dele. Não, o Karl deve ser lido como se lê a um(a) amigo(a), um(a) colega, e, em especial, um(a) companheiro(a) de militância. Com postura de reflexão, crítica, e pensando o que ele e vários/as outros/as podem oferecer como ponto de partida pra que elaboremos nosso próprio pensamento, a partir das circunstâncias e desafios atuais da mudança concreta do mundo. E, olha, o cara ainda contribui muito, viu. #ficaadica

Formaremos um “grupo de estudos anticapitalistas”, então, com o objetivo de compreender o capitalismo mais a fundo. Porém, mais do que isso: também pra pesquisar e pensar experiências e concepções de sua superação. Outras pessoas antes de nós enfrentaram o desafio de construir estratégias e lutas anticapitalistas, outras estão enfrentando isso agorinha mesmo, e muita gente escreveu ou tá escrevendo sobre isso, a partir dos problemas que enfrentavam ou enfrentam e das saídas que julgavam ou julgam adequadas. A gente pode tentar bolar a nossa estratégia e desenvolver as nossas iniciativas sem considerar todo esse acúmulo histórico – seja o de dois séculos ou de um ano atrás. Mas, não faz mais sentido levar isso em conta? Não pode ser uma boa fonte de compreensão, reflexão, inspiração?

Nosso grupo terá dois grandes objetivos, então: (i) estudar teorias sobre o capitalismo e possibilidades de sua superação, valorizando em especial as teorias elaboradas como parte da militância revolucionária, tal como na tradição do marxismo; (ii) estimular a nossa produção e discutir textos de nossa própria autoria sobre essas questões.

Quer participar? Chega aí! Algumas informações úteis: (i) as reuniões serão quinzenais, normalmente aos sábados à tarde (15h); (ii) haverá indicação de textos para cada reunião, de tamanho não muito longo (cerca de 30 páginas, no máximo 40 ou 50), para que possamos ter o compromisso de lê-los e aprofundar o debate sobre os pontos trazidos neles; (iii) o grupo é impulsionado pelo B&D, mas aberto a outras pessoas, que poderão participar igualmente da definição da agenda de leituras, discussões, etc.

A primeira reunião será no dia 25 de maio, e o texto-base será a parte do Capital, de Marx, sobre “a chamada acumulação original” do capital. Umas vinte páginas de pura emoção sobre a formação histórica do capitalismo, que você pode acessar a partir daqui: http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/cap24/index.htm
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Alguns dos principais estudiosos contemporâneos do capitalismo, como David Harvey, enfatizam a importância da compreensão da “acumulação original” (ou “primitiva”) para pensar também o mundo de hoje.
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Para participar do grupo de estudos, envie um e-mail para brasiledesenvolvimento@gmail.com inscrevendo-se e confirmando que comparecerá no dia 25, ou justificando a ausência.

A importância da formação política para os movimentos sociais

Formação política em sentido amplo

Formação política, em sentido bastante amplo, é aquilo que nos forma para desempenhar a atividade política de modo cada vez mais eficaz em todas as suas dimensões, o que inclui não apenas a capacidade de compreender a realidade em múltiplos níveis, mas também a de atuar nela de modo concreto. Isso exige uma série de competências, de habilidades: como saber fazer trabalhos de mobilização, de articulação, de mediação e negociação, de agitação e propaganda, de formulação, etc. Formação política, portanto, não é apenas aprender a pensar, mas também aprender a fazer (e, no limite, essa distinção é falsa, pois pensar é fazer, e fazer é pensar).

Formação política em sentido estrito

Porém, é possível e útil entender formação política também num sentido mais específico, como aquilo que amplia nossa capacidade de atuar de modo conscientemente político. Quando participamos de um movimento social, por exemplo, podemos ter graus diversos de consciência sobre o projeto político a que servem nossas pautas e mobilizações, para além do que se apresenta como evidente nas disputas setoriais.

Empregamos “político”, aqui, basicamente como aquilo que diz respeito à organização da sociedade como um todo – aquilo que articula toda a polis, e não apenas uma de suas partes.

Para ficar mais claro, tomemos o exemplo de movimentos da área da educação. Digamos que estudantes e professores lutem por educação gratuita e por melhores salários, respectivamente. É possível que essas lutas sejam dadas simplesmente de acordo com interesses corporativos imediatos: os estudantes não querem pagar, os professores querem ganhar mais. Porém, é possível também que sejam compreendidas à luz de um projeto político: por que ter educação gratuita e professores mais bem remunerados seria importante não apenas para estudantes e professores, mas para a sociedade de modo geral? Continuar lendo