Do pobreza ao poder

Por Edemilson Paraná

Democracia ajuda a diminuir a pobreza no mundo

Foi lançado no último dia 18, aqui em Brasília, o livro “Da pobreza ao poder – Como cidadãos ativos e estados efetivos podem mudar o mundo”, de Duncan Greem, pesquisador da Oxfam na Grã-Bretanha. O livro foi lançado em outras 3 capitais brasileiras (Rio, São Paulo e Recife).

No livro, o pesquisador argumenta que será necessário promover uma redistribuição radical do poder, oportunidades e ativos para romper o ciclo da pobreza e da desigualdade e permitir que essas pessoas em situação de pobreza assumam o comando de seus próprios destinos. A tese do livro é de que cidadãos ativos e estados efetivos são as forças que estão impulsionando essa transformação.

A obra traz uma grande contribuição para um debate urgente e marcado por mudanças rápidas em torno do desenvolvimento, tema de importância central nas discussões deste blog. Sua análise baseia-se na experiência das organizações afiliadas de Oxfam International e contrapartes em mais de 100 países e em abrangentes discussões com diversos profissionais da área do desenvolvimento.  A Oxfam é uma associação de organizações internacionais que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no planeta.

O livro oferece uma visão de pessoas de todas as partes do mundo que tem educação, saúde e acesso a outros direitos bem como, dignidade e voz – e que são donos de seus destinos. Para que isso seja possível para todos, faz-se necessário o estabelecimento de um novo acordo global – um acordo para a redistribuição de poder, participação, oportunidades e ativos. A experiência da Oxfam, retratada no livro, nos permite concluir que a redistribuição necessária pode ser alcançada por meio de uma combinação de cidadãos ativos e Estados efetivos.

Por que cidadãos ativos? Porque pessoas em situação de pobreza devem ter o direito de participar de decisões que definam seu destino, de lutar por direitos e justiça na sua sociedade e de cobrar responsabilidades do Estado e do setor privado. Por que Estados efetivos? Porque a história revela que nenhum país prosperou sem uma estrutura estatal efetivamente capaz de administrar ativamente o processo de desenvolvimento.

É interessante a abordagem feita pelo autor da necessidade de participação política e uma cidadania ativa para que as reivindicações se convertam em transformações reais. A noção vem ao encontro da idéia, discutida e apresentada repetidamente pelos membros do B&D, de que a transformação social se dá, antes, pela politização da sociedade.

Nesse sentido, se torna claro o porquê uma cidadania ativa se faz necessária- e aqui mais uma vez as noções do grupo e do autor se encontram:  a repolitazação da sociedade deve levar ao empoderamento  popular, ou seja: é crucial que os cidadãos possam determinar o curso de suas próprias vidas, lutando por seus direitos e por justiça em suas sociedades.

O prefácio do livro é escrito por ninguém menos que Amartya Sen, economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998 e conselheiro honorário da Oxfam, outro grande nome de peso para este grupo, que resume “Por nos contar o que pode ser realizado por pessoas comuns por meio de ações organizadas, este livro gera esperança ao fortalecer o entendimento do que é necessário fazer para eliminar a pobreza. O mundo efetivamente precisa de esperança e know-how e temos razões para sermos gratos pelos fatos que este importante estudo nos apresenta a partir de um amplo conjunto de ações sociais colaborativas”.

Outro destaque de “Da Pobreza ao Poder” refere-se aos governos de países ricos. Segundo autor, eles devem concentrar-se, primeiramente, em colocar sua casa em ordem. Eles devem reprimir duramente em seus territórios atividades danosas, como o comércio de armas, a restrição ao fluxo livre de conhecimentos e tecnologia, a falta de ética das empresas, emissões de carbono que podem destruir o planeta.

“Essa agenda de ‘parar de prejudicar’ deve ser complementada por uma solidariedade ativa com a luta de pessoas em situação de pobreza e suas comunidades dentro dos países em desenvolvimento, que deve incluir uma maior ajuda humanitária em termos de quantidade e qualidade. Não pode haver uma causa mais louvável. A luta contra o flagelo da pobreza, da desigualdade e da ameaça de um colapso ambiental definirá o século XXI, como a luta contra a escravidão ou pelo sufrágio universal definiu eras pregressas. Se falharmos, as gerações futuras não nos perdoarão. Se formos bem-sucedidos nesse esforço, elas se perguntarão como o mundo tolerou essa injustiça desnecessária e sofreu seus efeitos por tanto tempo”, alerta Greem.

Algumas curiosidades nada curiosas apresentadas no livro

“A economia globalizada produz, anualmente, US $ 9.543 em bens e serviços por pessoa – 25 vezes mais que o valor de US $ 365 por ano que define a ‘extrema pobreza’ de um bilhão de seres humanos. Isso é mais do que suficiente para todos.”

“As mulheres cultivam de 60 a 80 por cento dos alimentos produzidos na maioria dos países em desenvolvimento, mas são proprietárias de menos de dois por cento da terra. Em Kerala, na Índia, quase metade das mulheres que não possuem qualquer propriedade relata que sofre violência física, contra apenas 7 por cento das que possuem alguma propriedade.”

“Pessoas que moram em favelas em Jacarta, Manila e Nairóbi pagam de cinco a dez vezes mais por unidade da água que consomem do que as que moram em áreas de alta renda em suas cidades – e mais que os consumidores pagam em Londres ou Nova Iorque.”

“Abaixo de um PIB de cerca de US $ 20.000 per capita, as expectativas das pessoas em relação à sua satisfação na vida aumentam constantemente com a renda. Acima desse valor, o gráfico se estabiliza: uma renda nacional mais alta não traz mais satisfação às pessoas.”

“Os países pobres estão perdendo cerca de US $ 385 bilhões por ano (quatro vezes o volume da ajuda humanitária global) em decorrência da sonegação de impostos.”

“Para cada pessoa que falece em decorrência de atentados terroristas, aproximadamente 25 mulheres morrem desnecessariamente no parto e outras 60 morrem em acidentes de trânsito, enquanto 175 crianças morrem de fome.”

“Se não forem tomadas medidas agora, o número de refugiados ambientais pode superar a marca dos 150 milhões até 2050 em função dos prováveis efeitos do aquecimento global.”

“Em 1900, a Nova Zelândia era o único país com um governo eleito por todos os seus cidadãos adultos. No final do século, o mundo tinha 120 democracias eleitas.”

Sobre o autor

Duncan Green, desde 2004 dirige a área de Estudos e Pesquisas de Oxfam Grã-Bretanha. É também Professor Visitante da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. O autor tem mais de 20 anos de experiência e de reflexão nos temas de desenvolvimento e de combate à pobreza e as desigualdades.

Formado em Física pela Universidade de Oxford, sua vida profissional mudou radicalmente quando realizou uma viagem para a América do Sul, no final dos anos 1970. Viveu e trabalhou em diversos países acompanhando como jornalista e ativista as dificuldades econômicas, políticas e sociais que caracterizaram a região nas décadas de 1980 e 1990. Essa experiência resultou na publicação de diversos livros sobre a América Latina, como, por exemplo, La Revolución Silenciosa, El auge de la economía de mercado en America Latina (Tercer Mundo editores, Colombia, 1997).

Em 1997, integrou os quadros da organização não governamental britânica CAFOD como Analista Político em Comércio e Globalização. Na ocasião, publicou diversos textos, sobre comercio internacional, pobreza e desenvolvimento. Esse novo desafio lhe possibilitou ampliar seus horizontes e conhecimentos para novas regiões do planeta, especialmente África e Ásia.

No ano 2004, Duncan assumiu o cargo de Assessor Sênior no Departamento de Desenvolvimento Internacional do Governo Britânico. Atualmente, Duncan vive em Brixton, no sul de Londres, com a esposa e dois filhos.

Anúncios

O Blog do Planalto e a política na era web 2.0

Por Edemilson Paraná

Hoje foi inaugurado o Blog do Planalto, o esperado e comentado Blog do presidente Lula. Pela manhã, o blog saiu do ar por não suportar o alto número de acessos. Resolvido o problema, o conteúdo pode ser conferido no endereço: http://blog.planalto.gov.br/

O Blog, no entanto, não será do presidente Lula, e sim da Presidência da República. Veja a descrição postada pela equipe do Blog:

Segunda-feira, 31 de agosto de 2009 às 14:00

Estamos aqui para compartilhar com vocês informações sobre o cotidiano da Presidência da República. A equipe do Blog do Planalto (ver foto) vai acompanhar de perto os eventos, atos e a agenda do Presidente para que você, seus amig@s, familiares e companheir@s de navegação na internet possam compreender melhor as ações, programas e políticas do governo.

A equipe coordenada pelo jornalista Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, precisará de boas idéias para não transformar o veículo em mais um despersonalizado portal de notícias sobre as atividade do presidente. A escolha foi clara, o Blog é do PLANALTO e não do LULA.

O blog tem vídeos, enquetes, mas peca ao não permitir comentários, um dos recursos centrais para o sucesso de blogs como fomentadores de debate público.

Conscientes do poder midiático e interativo dos novos meios digitais, nossos políticos começam a divulgar seus blogs, twitters e perfis em serviços da Web. O poder eleitoral dessas ferramentas é promissor, mas poucos testaram na prática.

Obama, que trabalha de forma genial sua imagem, foi um dos primeiros políticos a acordar para essa realidade e o que a vetorizou da melhor forma.

Os instrumentos liberados pelos recentes avanços tecnológicos abriram grandes possibilidades para a transformação da política e da relação representante-representado. Para além dos tradicionais meios de comunicação como a televisão e o rádio, a internet apresenta-se como uma meio cada vez mais abrangente e presente na vida das pessoas. A simultaneidade, convergência midiática e interatividade da web expandiram substancialmente a velocidade da produção e propagação de informações na sociedade contemporânea.

No âmbito da política, as discussões da transparência e participação ganharam espaço, permitindo ao eleitor e à imprensa proximidade cada vez maior não só do trabalho e atividades políticas do representante, mas também de sua privacidade. Nesse âmbito, a separação entre o público e o privado é cada vez menos clara. As discussões públicas no espaço da web potencializam o alcance das informações e suas múltiplas interpretações. Com o avanço da “midiatização” da sociedade, o trato com a informação torna-se, então, ainda mais estratégico.

Dessa maneira, avançamos rumo a um “comportamento midiático”. Os indivíduos, atores sociais, movimentos políticos e socais ocupam espaço na mídia de maneira ativa e racional produzindo conteúdo e informação que lhe são favoráveis. Muitos atos e falas, para além de sua real significação prática, têm como único objetivo construção de discurso, imagem e representação. A comunicação não é mais privilégio apenas das rádios, jornais e emissoras de televisão; e os atores sociais se tornam cada vez mais competentes em lidar com a imprensa e produção da imagem que desejam para si. O desenvolvimento e crescimento das assessorias de comunicação pessoais e institucionais inserem-se nesse movimento.

Reforçado pelas características intrínsecas à democracia liberal representativa em uma sociedade de massas, o debate político de maior relevância se dá, sobretudo, na esfera dos meios de comunicação de massa. E o sucesso das ações políticas acaba intrinsecamente ligado à construção da imagem e representação do agente que promoveu essa ação. Estar consciente e pronto para trabalhar com essa realidade torna-se fundamental a qualquer político.

Poderá a democratização da internet salvar a sociedade da despolitização? A era da ” política web 2.0 ”  determinará um novo tempo nos debates políticos? Alguns teóricos mais otimistas falam do poder reverberador e anárquico da rede. Um poder capaz de teletransportar-nos para a era da democracia direta.

Euforismos à parte, é preciso lembrar que a revolucionária campanha cibertnética #forasarney não foi capaz de estimular internautas a deixar suas cadeiras estofadas rumo à Esplanada dos Ministérios. E pergunta retorna: a internet favorece ou prejudica a mobilização social? Facilidade comunicacional ou letargia paralisante? Difícil responder, difícil prever.

Para Marshall McLuhan, um dos principais teóricos da Comunicação, “o meio é a mensagem”. O messianismo da frase de impacto alude à idéia de que a cognição dos meios de comunicação definem um modo de organização social específico. Assim a sociedade da escrita (Galáxia de Gutemberg) se desconfigura com a sociedade rádio-telegráfica (Galáxia de Marconi), e assim por diante.

É preciso tomar cuidado para não cairmos, diante dessa noção, nos exageros do determinismo tecnológico.Os meios de comunicação abrem  possibilidade para nova organização social, mas não podem ser vistos por si só como agentes dessa mudança. É a característica especifíca desse ou daquele meio de comunicação  que transformará a sociedade ou uso humano e racional das possibilidades comunicacionais liberadas por esses meios? Na dúvida entre homem e máquina, fico com o homem. Só nós seremos capazes de nos redimirmos,  só nós, humanos, poderemos mudar a política e a nossa sociedade. Seja via blog, twitter, internet, tv, rádio ou telégrafo, a inventividade e vontade do homem ainda determinam (e continuarão a determinar) a gênese e concretização de suas utopias.

E agora, José?

Edemilson Paraná

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

Do poema José, Carlos Drummond de Andrade.

Tal qual o poema de Drummond, a angústia toma conta, agora, de milhões de Josés pelo Brasil. Um deles talvez respire aliviado. Um deles talvez sorria extasiado.

Aos Josés das Marias, que só tem a Jesus, só resta marchar. Marchar pra onde, José?

Aos Josés de Brasília, contraste de ontem, ironia de hoje, só resta calar. Calar por que, José?

A crise do Senado não foi novidade, não foi histórica. A crise do Senado só fez expor, ainda mais, a realidade nua e crua da política brasileira.

De um PT agonizante que, enamorado do poder, luta contra sua própria história e vontade de resgatar o que já foi. De um PMDB, que há muito tempo é mais P do que MDB. De uma oposição não menos humilhada pela culpa compartilhada, pela ética retórica, pelo acordo celebrado. De uma imprensa orquestrada, que sabe a que veio, em nome de outro José.

Oh, deuses da conciliação desavergonhada, tão nua e crua é a realidade de um país que não encara seus problemas de frente. Tão cruel é seu destino de permanecer vergonhosamente mergulhado na desigualdade, na injustiça social, no esvaziamento da democracia, na despolitização militante.

A comédia no Senado se transfigurou em tragédia, protagonizada por todos nós, os incautos de sempre. Das irrevogáveis decisões protagonizaram-se os revogáveis caráteres. De indigestas palavras engoliu- se a resignação amarga. E da esperança dos pobres gargalhou mais uma vez a dureza de Maquiavel.

O espetáculo foi notável. Arns vociferou contra o PT exaltando a ética humilhada de Virgílio, Marina pediu seu adeus, Mercadante não teve forças para preservar a si mesmo. E, ao final, se concretiza o trágico destino de um partido que um dia ousou desafiar os deuses da “política como ela é”: discursar com os coronéis de ontem, cerrar os punhos em correntes enferrujadas, subir nos palanques de Calheiros, Collors, Sarneys; curvar-se ao peso do possível, abandonar sem dó nem saudosismo as utopias do impossível.

O resulta da soma? A nação de analfabetos políticos se orgulha, cada vez mais, de estufar o peito e dizer odiar a política. Ao Brasil invoquemos a alma penada de Brecht: “Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio exploradores do povo”.

Falta coragem para desfraldar a estrela vermelha no alto das próximas eleições, sobra temor dos retrocessos de antes, expiram as dúvida, salta a angústia. E agora, José?

Se a história recente da nossa política nos leva a crer que a esperança é, de fato, filha da mentira; que permaneceu entre os homens, por ordem de Zeus, apenas para prolongar nosso tormento ou se o teimoso sonho de um país melhor insiste em vê-la como a dádiva perdida entre os males de pandora; não nos resta escolha agora, José: em 2010 ela não pode morrer!

Lei de Imprensa e exigência do diploma de jornalismo. Quem ganha e quem perde com a revogação.

Por Edemilson Paraná- edemilsonparana.wordpress.com

Uma visão para além da cobertura da grande mídia

Recente discussão sobre a Lei de Imprensa e a obrigatoriedade do diploma de jornalismo movimentou a imprensa e a sociedade em um debate frutífero sobre liberdade de opinião e proteção das garantias individuais. Em menos de três meses, o STF revogou por completo a Lei de imprensa e a obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

A discussão não podia ser mais polêmica. A Lei de Imprensa, editada em 1967, auge do regime militar, previa detenção para crimes de calúnia e injúria, recolhimento e apreensão de jornais e revistas que ofendessem a “moral e os bons costumes” e a punição para quem vendesse ou produzisse esses materiais, além da possibilidade de censura para espetáculos e diversões públicas e o famoso direito de resposta.  7 dos 11 ministros do STF concluíram que a Lei era incompatível com a democracia e a Constituição Federal de 1988. No bojo da discussão, acabou derrubada também pelo STF (8 votos a 1) a obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

Muita polêmica foi gerada mas, como de praxe, quase nada foi contextualizado devidamente. O tempo se encarregou de silenciar o debate, mas muitas dúvidas continuaram no ar: a Lei de imprensa protegia ou denegria a liberdade de opinião? A obrigatoriedade do diploma de jornalismo é um entrave ou avanço na garantia dessa mesma liberdade?

Antes de responder a essas perguntas precisamos remeter aos principais grupos de influência envolvidos na decisão. Por que e a quem interessa cada uma dessas decisões. Pois bem, em um exercício lógico, divido grosseiramente em três os atores: os donos dos órgãos de imprensa, os jornalistas e a sociedade (usarei uma abstração de sociedade como desejosa de maximização da liberdade de opinião e da defesa dos direitos individuais).

A Lei de imprensa

A Lei de imprensa, de modo geral, apresentava uma série entraves á liberdade de opinião, contudo, apresentava grandes avanços na defesa da reputação e imagem dos indivíduos. Não é difícil de imaginar por que: estamos falando de uma lei editada em pleno regime militar. Sua queda foi requerida pelos principais meios de comunicação do país e pelos jornalistas em sua grande maioria.

O fato de a lei ter sido editada em 1967 não pode deixar que reconheçamos seus avanços. O maior dos avanços dessa Lei se dava pelo direito de reposta. De acordo com o capítulo da Lei que tratava da questão, o indivíduo caluniado teria direito de publicar no mesmo órgão que o caluniou resposta de igual tamanho e destaque. É um grande avanço quando se trata da proteção do indivíduo perante a grande mídia. Foi dirigido, previsivelmente, contra esse capítulo o esforço militante da grande imprensa e de muitos jornalistas. Não é de hoje jornalistas, editores e meios de comunicação arcam com os custos desse capítulo da Lei. Em 1994, o direito de resposta do então governador do Rio, Leonel Brizola, contra o Jornal Nacional, da TV Globo, foi concedido pela justiça protagonizando um momento histórico na televisão brasileira. Veja o vídeo.

Há que se reconhecer que a legislação de imprensa no Brasil precisava ser alterada, ou refeita, e que a revogação viria em boa hora caso isso tivesse acontecido. Não foi. A queda da Lei de Imprensa foi positiva em muitos aspectos, mas gerou um grande vácuo legal sobre a o direito de resposta. Quem perdeu foi a sociedade, que vê repetidos ataques sumários contra as reputações (vide caso Escola Parque, em Brasília, e Orquestra dos Meninos, em Sergipe) sem punição. Quem ganhou foram os jornalistas e os órgãos de imprensa que não têm mais de responder pelos danos irreparáveis que causam.

O que se fará para tapar o buraco, pouca gente sabe. Ganhamos em liberdade de imprensa, perdemos em proteção ao indivíduo.  A mídia vendeu a queda da Lei de Imprensa como uma vitória de toda a sociedade. A opinião pública comprou, mais uma vez, a versão descontextualizada.

A obrigatoriedade do diploma de jornalismo

Meses depois caiu a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Como estudante de jornalismo e assessor de imprensa teria muitos motivos para engrossar o coro de jornalistas, sindicatos e associações profissionais contra a decisão. Ao contrário, comemoro a decisão. Meus colegas dizem não entender, mas o faço porque sei que, para além dos meus benefícios corporativos, a decisão foi positiva para o conjunto da sociedade.

Positiva porque amplia liberdade de imprensa sem ferir as garantias individuais, livrando pequenas rádios comunitárias e jornais populares da obrigação legal de ter a assinatura de um jornalista profissional, o que, na prática, alterava pouca coisa. Positiva porque permite o enriquecimento das redações com profissionais advindos das mais variadas áreas do conhecimento e porque aumenta a concorrência entre os profissionais melhorando a qualidade do serviço prestado.

Tenho certeza que, diante de filas e mais filas de jornalistas recém-formados á sua disposição, as empresas de comunicação jamais contratarão profissionais sem diploma universitário. Não seria lógico fazê-lo. Pouca coisa deve mudar na prática. Nenhum semi-analfabeto vai, a partir de agora, escrever o jornal que você lê.

Para além disso, vamos analisar o mérito da decisão do STF. Segunda ela a obrigatoriedade do diploma deveria ser revogada porque o exercício da profissão não gera nenhum dano a coletividade. O principal dano que o exercício do jornalismo gera a sociedade é a divulgação de informações falsas é a irresponsável destruição de reputações; em resumo: falta de ética. Devo concordar, ainda que a contragosto, com o Ministro Gilmar Mendes, de que falta de ética não é conhecimento técnico e que, portanto, não pode ser evitada com um diploma universitário. Isso, obviamente, difere da situação de médicos ou engenheiros, em que ter o conhecimento técnico evita sérios danos ás pessoas.

A isso somo a deplorável situação pedagógica dos cursos de jornalismo, do qual sou testemunha, que longe de promover o rigor ético reforça as práticas e rotinas produtivas do jornalismo sedento de informações confidenciais, obtidas não importa onde nem como, e pelo endeusamento do furo em detrimento do rigor e profundidade das informações. Penso que um jornalista deve ser, antes de tudo, um humanista, capaz de contextualizar e pensar os fatos que reporta. Nas faculdades de comunicação somos treinados para sermos “máquinas de escrever”.

O nosso diploma tem melhorado a qualidade da informação? Não tenho tanta certeza. Os melhores jornalistas que eu conheço não têm diploma. Em países como EUA, França, Itália e Alemanha não há obrigatoriedade e não acho que o jornalismo desses países seja pior do que o nosso. A defesa do diploma é corporativa e não encara de frente as reais conseqüências da queda ou manutenção da obrigatoriedade para a sociedade como um todo.  Sugiro ao nobres colegas, que tanto gostam de serem lembrados como defensores da sociedade, que pensem a situação para alem de seus salários.

Para além do nosso olhar

Voltando aos três grupos em que dividi o interesse pelas decisões, tomadas pelo STF, façamos o balanço final. Com a queda da Lei de Imprensa jornalistas ganham, meios de comunicação ganham e (com a queda do direito de resposta) a sociedade perde. Na queda da obrigatoriedade do diploma, sociedade ganha, jornalistas perdem e meios de comunicação ganham. Notaram quem saiu com o maior saldo ganhador? Os meios de comunicação e a grande mídia. A vitória da grande mídia foi soberana; ficou livre, em uma tacada só, das obrigações do direito de resposta, da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para os que trabalham em suas empresas e da regulamentação de seus funcionários.

Sim, em seu parecer sobre a questão, o Ministro Gilmar Mendes declarou que com a queda da exigência do diploma caía automaticamente a necessidade de regulamentação da profissão. Um grande absurdo, e esse sim, um grave ataque á liberdade de imprensa. Acostumados e conformados com sua situação histórica, jornalistas, sindicatos e associações nada disseram; preferiram continuar perdendo tempo a defender o diploma como se isso pudesse melhorar as condições da classe.

Tremendo engano. A regulamentação da profissão de jornalista é urgente e precisa ser feita por lei. Assim já é nos países que á pouco citei por não exigirem o de diploma. Por aquelas bandas não se exige diploma, mas se exige profissionalização e regulamentação. Precisamos de um conselho federal nos moldes do CREA, CRM ou OAB.

Os jornalistas sofrem, no exercício da profissão, graves violações de direitos trabalhistas, nas poucas vezes em têm o luxo de possuí-los, de grande insegurança e são ameaçados constantemente pelos editores e donos de meios de comunicação, pelo conteúdo das próprias palavras. Trabalham á exaustão por péssimos salários e baixo reconhecimento.

Defendo o fim da exigência de diploma sim, mas não há como defender só isso. Conjuntamente defendo a criação de um conselho federal forte que registre e regularize os profissionais. E vou além, acredito que nos moldes do que acontece com a OAB, os jornalistas deveriam se submeter a provas de admissão que exijam conhecimentos mínimos necessários ao exercício da profissão. Isso seria bom para os jornalistas e bom para a sociedade. Fim do diploma não quer, e não deve, dizer fim da profissionalização.

É obvio que toda essa problemática não foi devidamente contextualizada pela cobertura da grande mídia, e não sejamos ingênuos, dificilmente haveria de ser diferente. É preciso contextualizar a situação para além da realidade aparente. Se queremos entender as relações entre jornalismo, política e poder precisamos partir da premissa de que nesse jogo ninguém entra para perder.