Castells em Barcelona: Medrosos de todo mundo, uni-vos pela rede!

Castells, o téorico das redes

Por Edemilson Paraná, do Blog do Paraná

A frase é de Manuel Castells – um dos maiores teóricos da Comunicação da atualidade – na palestra “Comunicação, poder e democracia” que proferiu em Barcelona na #acampadabcn em 27 de maio desse ano.

Parafraseando o dito imortalizado no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx, disse Castells:

“Precisamos superar o medo para imaginar uma nova sociedade. Se eu tivesse um slogan por um momento, ele seria: medrosos de todo o mundo, uni-vos pela rede! Vocês não tem nada a perder a não ser seu proprio medo”.

Na palestra, reproduzida nos quatro vídeos abaixo, Castells fala da crise representativa das instituições políticas no ocidente -e do vazio entre a política e sociedade- para advogar em favor da busca de modos alternativos, mais democráticos e inovadores, de participação cidadã. Para ele, movimentos como os que tomaram a Espanha e outros países recentemente são produtos de uma insatisfação extremamente necessária nessa construção.

O autor acerta em cheio no diagnóstico. Tenho dito que pensar a democracia para além do voto não é mais coisa de “esquerdista radical”, é coisa de gente que enxerga o óbvio. Algum partido brasileiro está enxergando isso? Não. O próprio Castells explica o porquê:

“É necessário levar para as ruas daqui e de todo o mundo a ideia de que é necessária uma reconstrução da democracia. Não uma destruição, mas um reconstrução da democracia. Mas essa reconstrução não pode ser realizada pelos os que representam a democracia neste momento, porque isso vai contra o seu interesse enquanto grupo profissional, enquanto grupo político e se há algum político bem intencionado dentro de um partido ele é logo podado. Então o problema não é meramente individual – desse ou daquele político – mas de um sistema entranhado por interesses poderosos. É esse sistema que está bloqueando as mudanças”.

Em tempos de discussão da reforma política no Brasil vale o questionamento. Quais interesses estão bloqueando as grandes mudanças? Se as instituições – incluídas aí os partidos políticos – já não dão conta de absorver e dar resposta aos anseios e angústias dos indivíduos (que por vezes sequer podem ser chamados cidadãos), um novo modo de fazer política surge no horizonte. Como será essa nova política? Isso dependerá apenas de nós. Não temos nada a perder a não ser o nosso medo.

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O Brasil que nasce na rua

Por João Telésforo Medeiros Filho

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

O grande mestre Tobias Barreto proferiu esse belo e irrefutável aforisma em 1877, no seminal “Discurso em mangas de camisa” (leia! Aqui, a partir da p. 99), no Clube Popular de Escada, pequena cidade de Pernambuco. Em apêndice (p. 139-140) a ele, detalhou o sentido da afirmação:

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

Há aqui a referência implícita à errônea opinião, geralmente acreditada entre nós, de que a história de um povo possa servir de norma para as ações de um outro. Assim vemos, ainda a esta hora, mais de um espírito culto, ou pretendido tal, reportar-se, ora à França, ora à Inglaterra, ora aos Estados Unidos mesmo, para ensinar a marcha regular do governo monárquico brasileiro! (…)

Ora, não precisa dizer, quanto esta instituição é acanhada e pueril.

Cada povo tem a sua história, e cada história tem os seus fatores. Tampouco se encontra duas nações com o mesmo desenvolvimento, como dois indivíduos com a mesma feição. (…)

a um povo não é lícito repetir ou imitar, nem a si mesmo, sob pena de cair no baixo cômico, inerente a todas as caricaturas. ‘Ai dos imitadores, se diz na poesia; porém três vezes mais dignos de lástima os imitadores políticos; eles são o presente mais perigoso, com que a cholera dos deuses pôde mimosear uma nação infeliz.’ Não hesito em fazer minhas essas palavras de K. Frenzel.

Assim, em suma, eu creio que não é lançando mão do programa revolucionário deste ou daquele país, nem trajando alheia roupa constitucional, que poderemos jamais elevar-nos e engrandecer-nos.

Alexandre Humboldt chamou a constituição inglesa um produto oceânico; nós seríamos ditosos, se também aquela que nos rege, pudesse pudesse por ventura qualificar-se de um produto selvático. A política autóctone, ingênita ao caráter do povo, é a única eficaz e vantajosa, por ser a única, também, capaz de desenvolvimento.”

O Grupo Brasil e Desenvolvimento compartilha firmemente da convicção de que o único caminho para o desenvolvimento brasileiro é a política autóctone. Trata-se da ideia de “pluralismo institucional”: instituições que tem êxito na organização de uma sociedade não necessariamente serão adequadas a qualquer outra, pois o contexto – cultural, econômico, social, político – no qual as instituições atuam, sob e sobre o qual  elas agem, varia de sociedade para sociedade. Podemos desmembrar analiticamente essa afirmação em duas: (i) instituições diferentes tenderão a surtir efeitos diferentes em sociedades diferentes (vide Dani Rodrik, Roberto Mangabeira Unger, Ha-Joon Chang, Marcus Faro de Castro, Joseph Stiglitz, David Kennedy…); (ii) as sociedades tem aspirações diferentes, padrões diferentes para  aferir se algo é positivo ou negativo – ou seja, determinado arranjo institucional que eventualmente gere em toda parte os mesmos efeitos pode ser legitimamente louvado por uma sociedade e repudiado por outra, pois os sistemas de valoração são diferentes, os projetos de sociedade são diferentes.

Precisamos, portanto, de um projeto à brasileira, segundo já se defendeu neste blog. Porém, o que é isso? Quem vai dizer o que é esse “à brasileira”? Como achar esse “caráter do povo” de que fala Tobias Barreto? Retomando indagação de Drummond reproduzida em outro post aqui: acaso existirão os brasileiros?

O desenvolvimento só pode ser fruto de uma política autóctone porque só ela poderá revelar para nós mesmos quais são nossas aspirações coletivas, qual sociedade desejamos construir coletivamente, qual povo queremos ser, qual povo somos. A identidade do povo brasileiro cria-se pelo processo cívico de engajamento coletivo na construção política da sociedade (e de autoconstituição do próprio povo). Essa identidade, numa democracia, é necessariamente dinâmica, aberta, reconstruída permanentemente pela participação cidadã, de descoberta e criação simultâneas de nossas identidades individuais e coletivas – que temos plena liberdade para mudar a todo momento. É isso que caracteriza a liberdade política de que falava Hannah Arendt, por exemplo, como possibilidade sempre aberta de natalidade, de aparecimento do novo no mundo, da recriação experimentalista de si e do todo social de que se faz parte. Reconhecer-se como parte de um povo é reconhecer-se como parte de uma dada comunidade política, e assim participar dessa esfera de invenção pública permanente daquilo que nos constitui. É ser parte (=participar) do poder instituinte da vida social. Negar esse direito de participação, de ser parte ativa do poder instituinte, é tornar impossível a cidadania. Continuar lendo