A história te condenará

Por Edemilson Paraná

Em 1953, Fidel Castro, uma habilidoso advogado cubano, encasquetou que faria sua própria defesa perante o tribunal de Fulgêncio. Fidel e seus companheiros haviam atacado de assalto um quartel do exército em Santiago de Cuba. Entre outras acusações, respondiam por subversão, atentado à ordem e traição à pátria; típicas condenações em ditaduras.

E como não haveria de ser diferente, Fidel foi condenado à 15 anos de prisão. Sua defesa, uma espécie de auto-apologia de Sócrates, foi entitulada “A história me absolverá”. Em menos de um ano escreveu o livro homônimo, em menos de três foi anistiado e se exilou no México, de onde idealizou com Che Guevara a famigerada “Revolução Cubana”.

Qualquer semelhança com a ocasião da escrita e o tema da obra “Minha Luta” (Mein Kampf, escrito na prisão em 1933, por Adolf Hitler) não é mera coincidência. Em ambos os livros, os “líderes” comentam a injustiça da prisão e apresentam as razões para “uma luta maior”. As comparações mais profundas ficam para uma mesa de bar.

O líder de cá, latino, comunista, advogado, ótimo orador, tornou-se à fortuna da tal “história que absolve”, o presidente, líder, comandante, chefe, enfim, ditador da nação. A motivação? Justíssima. Fidel defendia “o direito dos povos lutarem contra a tirania e a opressão”.

E de repente Fidel era o Buda da esquerda latino-americana. O mensageiro da revolução (sobre Che Guevara, caberia um post à parte) de “los pueblos americanos”. É claro que não seria para menos. Pensemos no contexto da época. Eu, você, nós do B&D, também teríamos sido castristas.

Entre absolvições, condenações, discursos e mais discursos, Cuba tornou-se mais um trauma ideológico das esquerdas. Acanhados, uns e outros rebentam-se a comentar o sucesso educacional, os avanços na saúde ou as políticas sociais. Pura  esquizofrenia. Nada se fala da igualdade Cubana, que pende em favor dos que mamam na teta do Estado revolucionário. O bendito “direito dos povos lutarem contra a tirania e a opressão” simplesmente foi varrido das discussões.

Mais patético ainda é fazer coro ao bla-bla-bla castrista de que qualquer evento na ilha, desde a fuga de um boxeador ao tornado que varre o país, é culpa dos Estados Unidos e do bloqueio econômico.  Fidel criou “seu inimigo”. Todos os ditadores tem um (óbvio que o bloqueio é mais uma política nefasta do caquético imperialismo americano, mas não é disso que estamos falando aqui).

Sejamos francos na auto-crítica. A esquerda precisa desesperadamente disso.

Ora, se um de nossos grandes argumentos é que o sucesso econômico dos países desenvolvidos não justifica a opressão do sistema capitalista, por que uma meia dúzia de benefícios sociais justificaria a opressão em Cuba? Por que as mais bonitas bandeiras da esquerda são simplesmente relativizadas por ela mesma ao pensarmos sobre o que acontece na ilha?

Ainda mais patológico do que o comportamento de parte da esquerda saudosista são os comentários do presidente Lula.

Todos sabemos, Lula está longe de ser um grande esquerdista revolucionário. Adepto da mega-conciliação, o presidente abriu mão de muitas das velhas bandeiras em nome “da mudança possível”. Isso foi 80% bom para ele, como mostram as pesquisas de popularidade. Neste caso, o que lhe obrigaria a ignorar a situação dos presos políticos em favor de Fidel? Camaradagem? Companheirismo? Saudosismo? Ataque de esquizofrenia ideológica? Interesses “pragmáticos”?

Justiça seja feita à política externa deste governo. Ganhamos proeminência, visibilidade e acima de tudo mais respeito. Sou um militante deste Brasil que defende os brasileiros e chama uma nova liderança global para si, mas o episódio dos presos políticos em Cuba, não há como discordar, foi um tiro no pé.

Quer dizer, para denunciarmos os desmandos de países desenvolvidos em prol de uma política sul-sul temos voz e autoridade; para defendermos os direitos humanos não? O Brasil perdeu vários e vários pontos no crescente capital de “soft power” que vinha acumulando, perdeu parte da autoridade moral. E isso é ainda mais sério para um país que, no tabulero de War, tem mais a ganhar com a conversa do que mostrando os dentes.

Se queremos repensar a esquerda, se trabalhamos pela construção de uma nova sociedade, livre de todas as opressões, precisamos, antes de tudo, de honestidade e convicção, de clareza e coerência; precisamos de princípios e bandeiras reais.

Liberdade e dignidade não são valores “pequenos burgueses”. O fim da opressão do homem pelo homem está na gênese da idéia de esquerda. E não me venham com o papo de que educação, esporte, saúde e um pouco de ração dão dignidade a um povo que condena seus contestadores às masmorras da greve de fome. Ditadura é ditadura. Opressão é opressão, e ponto. Hasta la victoria, siempre!

Se uma coisa ficou clara há muito tempo é que, no caso de Fidel, a história não fará nada a não ser condená-lo.

Ironia do destino
Frases de Che Guevara que Lula poderia ter citado no encontro com Fidel Castro (em ordem de coincidência histórica).

“A farda modela o corpo e atrofia a mente”.

“Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira”.

“Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário”.

“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.

“O importante não é justificar o erro, mas impedir que ele se repita”.

“Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida”.

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O Brasil que nasce na rua

Por João Telésforo Medeiros Filho

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

O grande mestre Tobias Barreto proferiu esse belo e irrefutável aforisma em 1877, no seminal “Discurso em mangas de camisa” (leia! Aqui, a partir da p. 99), no Clube Popular de Escada, pequena cidade de Pernambuco. Em apêndice (p. 139-140) a ele, detalhou o sentido da afirmação:

Os cometas não percorrem a mesma órbita, as nações não seguem o mesmo caminho.

Há aqui a referência implícita à errônea opinião, geralmente acreditada entre nós, de que a história de um povo possa servir de norma para as ações de um outro. Assim vemos, ainda a esta hora, mais de um espírito culto, ou pretendido tal, reportar-se, ora à França, ora à Inglaterra, ora aos Estados Unidos mesmo, para ensinar a marcha regular do governo monárquico brasileiro! (…)

Ora, não precisa dizer, quanto esta instituição é acanhada e pueril.

Cada povo tem a sua história, e cada história tem os seus fatores. Tampouco se encontra duas nações com o mesmo desenvolvimento, como dois indivíduos com a mesma feição. (…)

a um povo não é lícito repetir ou imitar, nem a si mesmo, sob pena de cair no baixo cômico, inerente a todas as caricaturas. ‘Ai dos imitadores, se diz na poesia; porém três vezes mais dignos de lástima os imitadores políticos; eles são o presente mais perigoso, com que a cholera dos deuses pôde mimosear uma nação infeliz.’ Não hesito em fazer minhas essas palavras de K. Frenzel.

Assim, em suma, eu creio que não é lançando mão do programa revolucionário deste ou daquele país, nem trajando alheia roupa constitucional, que poderemos jamais elevar-nos e engrandecer-nos.

Alexandre Humboldt chamou a constituição inglesa um produto oceânico; nós seríamos ditosos, se também aquela que nos rege, pudesse pudesse por ventura qualificar-se de um produto selvático. A política autóctone, ingênita ao caráter do povo, é a única eficaz e vantajosa, por ser a única, também, capaz de desenvolvimento.”

O Grupo Brasil e Desenvolvimento compartilha firmemente da convicção de que o único caminho para o desenvolvimento brasileiro é a política autóctone. Trata-se da ideia de “pluralismo institucional”: instituições que tem êxito na organização de uma sociedade não necessariamente serão adequadas a qualquer outra, pois o contexto – cultural, econômico, social, político – no qual as instituições atuam, sob e sobre o qual  elas agem, varia de sociedade para sociedade. Podemos desmembrar analiticamente essa afirmação em duas: (i) instituições diferentes tenderão a surtir efeitos diferentes em sociedades diferentes (vide Dani Rodrik, Roberto Mangabeira Unger, Ha-Joon Chang, Marcus Faro de Castro, Joseph Stiglitz, David Kennedy…); (ii) as sociedades tem aspirações diferentes, padrões diferentes para  aferir se algo é positivo ou negativo – ou seja, determinado arranjo institucional que eventualmente gere em toda parte os mesmos efeitos pode ser legitimamente louvado por uma sociedade e repudiado por outra, pois os sistemas de valoração são diferentes, os projetos de sociedade são diferentes.

Precisamos, portanto, de um projeto à brasileira, segundo já se defendeu neste blog. Porém, o que é isso? Quem vai dizer o que é esse “à brasileira”? Como achar esse “caráter do povo” de que fala Tobias Barreto? Retomando indagação de Drummond reproduzida em outro post aqui: acaso existirão os brasileiros?

O desenvolvimento só pode ser fruto de uma política autóctone porque só ela poderá revelar para nós mesmos quais são nossas aspirações coletivas, qual sociedade desejamos construir coletivamente, qual povo queremos ser, qual povo somos. A identidade do povo brasileiro cria-se pelo processo cívico de engajamento coletivo na construção política da sociedade (e de autoconstituição do próprio povo). Essa identidade, numa democracia, é necessariamente dinâmica, aberta, reconstruída permanentemente pela participação cidadã, de descoberta e criação simultâneas de nossas identidades individuais e coletivas – que temos plena liberdade para mudar a todo momento. É isso que caracteriza a liberdade política de que falava Hannah Arendt, por exemplo, como possibilidade sempre aberta de natalidade, de aparecimento do novo no mundo, da recriação experimentalista de si e do todo social de que se faz parte. Reconhecer-se como parte de um povo é reconhecer-se como parte de uma dada comunidade política, e assim participar dessa esfera de invenção pública permanente daquilo que nos constitui. É ser parte (=participar) do poder instituinte da vida social. Negar esse direito de participação, de ser parte ativa do poder instituinte, é tornar impossível a cidadania. Continuar lendo

Corupção e o fim do Senado! O imediatismo autoritário

Por Edemilson Paraná

Meu post , diferente dos últimos,  será curto . Tentarei ser o mais conciso possível.  Meu objetivo hoje, antes de me aprofundar na questão e discutir os meandros do tema, como tenho feito, é gerar o debate em torno de um tema polêmico: O fim do Senado. O objetivo do post superficial é introduzir a questão, facilitar a leitura, estimular o debate em torno das idéias centrais, ainda que isso signifique interpretações dúbias de meus comentários. Apresentarei mais pontos em defesa de meus argumentos ao longo da discussão.

Algumas personalidades políticas, blogueiros, twitteiros e até juristas têm defendido o fim do Senado. O debate se intensificou com a recente crise da Casa. Alguns chegaram a dizer que o Senado é históricamente elitista e afastado da população e que por isso deveria ser extinto. Outros mencionam os altos gastos, a ineficência, lobby, patrimonialismo, nepotismo e todo o tipo de corrupção que lá é praticada. Alguns sugeriram uma “demissão coletiva forçada” dos Senadores.

Adianto que sou radicalmente contra a idéia. No meu post recente denominado “Em defesa do Senado” argumentei que a crise não é um fato novo e que a corrupção, por si só, jamais poderia ser pretexto para o fim do Senado.

Primeiro porque se esse argumento fosse válido teríamos que fechar a Câmara dos deputados (acreditar que a coisa é diferente por lá é ser ingênuo), o Palácio do Planalto, os governos estaduais, prefeituras, câmaras municipais…enfim, teríamos que fechar a democracia brasileira! E não acho que isso seja muito coerente.

O Senado, nos EUA, nasceu com o objetivo de harmonizar as grandes diferenças entre as províncias, conferindo estabilidade á jovem União Americana.

Atualmente, nos EUA e no Brasil, que adotou o modelo americano de democracia, o Senado tem muitas outras funções além dessa, e é bom que seja assim. O Senado é um peso a mais á conferir equilibrio na balança dos poderes.

Um país de dimensões continentais, como o nosso, e com alta amplitude em termos de densidade populacional, caso fosse unicameral, dificilmente escaparia da maldição de ser governado por 3 ou 4 estados brasileiros, com o automático fortalecimento político(ainda mais do que é hoje) de suas grandes cidades e regiões metropolitanas. Isso seria um desastre em termos de desenvolvimento, distribuição de renda e estabilidade da União, ainda mais em país flagelado por profundas diferenças regionais.

Exigir o fim do Senado é fugir do comprimisso cidadão de contrução da democracia, é se isentar da responsabilidade pelos políticos eleitos e mais do que isso, é tentar resolver o problema da corrupção pela consequência e não pela causa, o que é ilógico e beira a irracionalidade. Exigir o fim do Senado é esquecer que somos nós quem os elegemos, que é parte da mesma sociedade da qual somos co-responsáveis.

A crise de corrupção, que não revela nenhuma novidade, deveria servir de pretexto para exigirmos o fortalecimento e defesa da “Instituição Senado” em detrimento dos péssimos políticos que alí se instalaram. A defesa do fim do Senado por conta da corrupção se aproxima da autoritária defesa do fim da política, do fim da esfera pública.

Que falem as urnas! Que fale a vontade popular, o debate público, a politização… Que fale a democracia!

Parafraseando o Telésforo em sua inteligente utilização da frase espúria de Renan Calheiros, defender o fim do Senado é coisa de minoria com complexo de maioria.

Continuo um intrasigente defensor da idéia de que o melhor remédio para os problemas da democracia é mais democracia!

Mangabeira Unger fala sobre Brasil e Desenvolvimento no site da uol

Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2009/07/16/04023662E4B17346.jhtm?unger-no-brasil-sobram-partidos-mas-faltam-alternativas-04023662E4B17346=

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