A conversão do PT em partido da ordem: o discurso de Lula nos 10 anos de governo “democrático e popular”.

Anteontem, em evento de comemoração dos dez anos da chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo federal, ficou evidente, no discurso do ex-Presidente Lula, como o PT converteu-se explicitamente em um partido da ordem, abdicando de servir como instrumento de organização, formação e mobilização popular por um modelo alternativo de desenvolvimento, tal como o partido defendia em seu antigo – e efetivamente abandonado – programa “democrático e popular”.

Vejamos:

1. Política macroeconômica. Lula revela que, em 2002, se negou durante dez dias a assinar a “Carta ao Povo Brasileiro“, que terminou por subscrever no dia 22 de junho daquele ano. O ex-Presidente afirmou claramente, no seu discurso de anteontem, que esse ato constituiu uma ruptura com sua história e a do partido que liderava, e que não foi nada fácil fazê-lo. E não é por acaso que fazer essa ruptura foi tão dramático: a tal “Carta ao povo brasileiro” era na realidade, como se sabe, uma carta aos banqueiros. Buscava sinalizar claramente para o empresariado, e muito especialmente para o mercado financeiro, que a política econômica do governo do PT honraria o legado tucano e não deixaria de priorizar esse setor, antes de qualquer outro.

O candidato Lula afirmava explicitamente, na carta: “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário“. A política de superávit primário, que o PT combatera ao longo de todo o governo FHC, equivale a priorizar “o quanto for necessário” o pagamento de uma pequena classe privilegiada de rentistas, às custas de investimentos sociais e produtivos que beneficiariam a  maioria da população brasileira. Significa abdicar de construir uma nova política macroeconômica. Não por acaso, o escolhido para chefiar o Banco Central ao longo dos governos de Lula foi Henrique Meirelles, eleito, em 2002, Deputado Federal pelo PSDB-GO, e que aterrissava no Brasil após décadas de serviços em altos cargos dos maiores bancos do mundo, os quais depositavam nele inteira confiança.

O PT cumpriu a promessa, e priorizou a pequena classe riquíssima de rentistas em cada ano de seus governos. Em 2012, por exemplo, 47,19% do orçamento da União foi destinado a pagar juros da dívida pública, enquanto os gastos com saúde ficaram em 3,98%, de acordo com a Auditoria Cidadã da Dívida.

2. Reforma agrária. Lula afirma, em seu discurso, que também não foi fácil, para ele, abandonar a demanda histórica por uma “reforma agrária ampla e radical sob o controle dos trabalhadores” e passar à reforma agrária que ele denomina “tranquila e pacífica”. O significado desse “tranquila e pacífica” é deixar de encarar e pautar a reforma agrária como um instrumento para construir uma nova forma de organização produtiva, social, política e ambiental no campo.

A reforma agrária reorganizadora, pauta histórica e atual da esquerda, exigia e exige o confronto do agronegócio e da sua lógica de mercantilização da terra, exploração do trabalho, depredação ambiental, concentração de poder e reprodução da secular condição do Brasil como país dependente, com economia rural baseada na monocultura para exportação, e não na segurança alimentar e na produção com alto valor agregado por meio do desenvolvimento tecnológico sob controle popular (e não por meio da posição dependente assumida frente à Monsanto e outras transnacionais).

Os governos do PT não incomodaram o agronegócio; pelo contrário, dispuseram-se, desde o início, a apoiá-lo fortemente, o que estava presente no discurso de posse de Lula em 2003. Desde o primeiro dia do governo Lula até hoje, o Ministério da Agricultura esteve sob o comando de pessoas e partidos de confiança do Agronegócio, e sua responsabilidade foi apoiar esse setor.

A reforma “tranquila e pacífica” significou a redução da reforma agrária a uma política marginal e compensatória, incapaz de realizá-la como instrumento de democratização da propriedade e de construção de um modelo alternativo de desenvolvimento.

3. A redução do PT a uma máquina eleitoral.

Algumas pessoas argumentam que o caminho que o PT escolheu se justificaria naquele momento; mas, depois de vários anos no governo implementando as políticas estruturais de seus adversários, em algum momento o partido poderia voltar a exercer o seu antigo papel de polarização em termos de projeto. Infelizmente, não é para isso que as evidências da realidade têm apontado. O processo é de despolitização do debate, burocratização dos processos internos do partido e crescimento da cultura personalista.

No discurso de Lula anteontem, isso voltou a ficar explícito. O ex-Presidente conclui afirmando: “A resposta que o PT deve dar a eles é a gente dizer para eles que eles podem se preparar, eles podem juntar quem eles quiserem, porque se eles têm dúvida, nós vamos dar como resposta a eles a reeleição da Dilma em 2014 nesse país. É essa a consagração da política do Partido dos Trabalhadores.”

A consagração da política do PT, pois, é vencer eleições. Pode-se argumentar que isso significa que a consagração seria a aprovação popular a esse projeto. Porém, esse reducionismo não se sustenta, quando se compreende os defeitos estruturais das eleições no interior do nosso sistema político e socioeconômico, dominado pelo poder econômico e ideológico das classes dominantes. Vitória eleitoral nunca foi sinônimo de mudanças estruturais, ou sequer de progressismo.

Consagração real do processo seria constatar sua contribuição ao fortalecimento de processos de organização e ascenso das lutas populares de sentido emancipatório, o que vai muito além das eleições, embora possa ter também nelas um espaço de disputa e projeção.

Essa fala de Lula não é isolada, e é reflexo consciente da estratégia assumida pelo PT: entender a disputa eleitoral por ocupação de espaços no Estado como prioridade superior a qualquer outra, e em nome da qual instaura-se o vale-tudo, todo tipo de concessão programática, organizativa e ética (e não me venham petistas chamar de “moralista”, pois a esquerda nunca deixou de valorizar a ética, como dimensão principiológica, estratégica e pedagógica de seu projeto).

4. Superar o PT, construir novos instrumentos

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Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

#2 texto da série: Análise de Conjuntura Nacional

O grupo político Brasil & Desenvolvimento traçou, neste início de 2012, o que considera fundamental para qualquer intervenção crítica na realidade: uma análise de conjuntura. Na semana passada, publicamos o primeiro texto da série, sobre o contexto internacional do ano passado, com suas convulsões e primaveras. Hoje, postamos a análise da conjuntura brasileira em 2011, na qual se destaca a compreensão dos limites do governo Dilma Rousseff e, para além disso, do modelo econômico e político nacional-desenvolvimentista. Figuram no nosso texto, ainda, comentários sobre o quadro partidário e sobre os atores e lutas sociais emergentes no país.

Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

Análise de conjuntura nacional

Grupo Brasil e Desenvolvimento

2011 começou com a histórica recepção da faixa presidencial por uma mulher. Iniciou-se o governo Dilma, o nono ano da coalizão encabeçada pelo PT, partido nascido da união de diversos movimentos populares em 1980 e envelhecido nas amarras das atuais instituições de poder estatal quanto a avanços profundos nas conquistas sociais. Quando os projetos de esquerda são profundamente associados ao desenvolvimentismo e medidos a partir de parâmetros econômicos, os avanços sociais passam a ser restritos à ampliação do acesso a bens de consumo. Essa tendência, já forte no governo Lula, intensifica-se ainda mais com  Dilma: afinal, simbolicamente, o Brasil deixa de ser para todos, para ser um país rico, entenda-se, sem miséria.

Ao longo do seu primeiro ano, o governo perdeu diversas oportunidades de se reaproximar da militância progressista e dos movimentos sociais, priorizando a relação com setores reacionários da sociedade, como os ruralistas e as organizações religiosas conservadoras.

A condução da votação do novo Código Florestal, o recuo na reforma agrária devido ao atraso na política de assentamentos e o cancelamento da distribuição do material de combate à homofobia nas escolas ilustram essa movimentação, assim como a displicência com as pautas trabalhistas – terceirização, precarização, desregulamentação da demissão imotivada, entre outras.

O alinhamento com o grande empresariado se escancarou quando inaugurada a Câmara de Gestão e Competitividade – conhecida como “Conselho do Gerdau” – instalada com o objetivo de pensar a gestão pública a partir da lógica da eficiência de mercado. Aprimorar a capacidade de gestão do Estado é fundamental, desde que sob o viés da criação e do fortalecimento de mecanismos que possibilitem a efetiva participação popular no planejamento, execução e avaliação das políticas públicas, algo que tem se mostrado ausente até mesmo e com frequência, do discurso do governo Dilma.

Se Lula, apesar de condicionado por limitações semelhantes às do governo atual, inovou ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES, o “Conselhão”) e apostar na multiplicação das Conferências Nacionais, Dilma retrocede com sua agenda e sua retórica da eficiência tecnocrática-empresarial, deixando de promover as reformulações e avanços necessários ao aprofundamento das experiências iniciadas anteriormente. Em vez disso, percebe-se um crescente desprezo às Conferências Nacionais como instâncias vinculativas das políticas de Estado – os retrocessos do governo Dilma na área de segurança pública, em grande medida decorrentes do desprezo aos resultados da 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (CONSEG), são marcantes a esse respeito. Aguarda-se que, em 2012, o governo finalmente retome as propostas da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM) sobre o marco regulatório da mídia, para dar cumprimento às previsões constitucionais que proíbem, por exemplo, a propriedade cruzada no setor.

O modelo da política pública em formato de pacote, entregue à sociedade pronto, sem discussão prévia, sem construção coletiva, passa por cima de complexidades sociais e peculiaridades locais. Exemplos não faltam: Plano de Enfrentamento ao Crack, Minha Casa Minha Vida e o Cadastro de Acompanhamento e Vigilância das Grávidas.

Na área da cultura, a tendência de alinhamento com grandes grupos empresariais culminou na nomeação de uma Ministra alinhada com uma visão conservadora de direito autoral, e aprofundou-se pelo corte no orçamento do setor, que atingiu programas importantes, em especial os Pontos de Cultura, que representavam um avanço na política cultural e um modelo inovador de relação democrática entre Estado e sociedade.

Em um governo desenvolvimentista “cimento e tijolo”, a cultura fica restrita à artificialidade da praça construída pelo PAC, sendo irrelevante a produção autêntica e autônoma do povo-artista, a espontaneidade de sua espacialidade.

A preparação do país para os mega eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, constrói uma prática política em conflito com o povo. As recorrentes remoções das ocupações urbanas e a orientação higienizadora dos choques de ordem colocam em andamento ações governamentais que protegem os interesses dos ricos por meio do ataque aos pobres e da criminalização de suas vidas – um viva para a construção anunciada de vários novos presídios!

Por certo, avanços pontuais podem ser identificados, como a aprovação da limitada Comissão da Verdade, da ousada Lei de Acesso à Informação, e o envio ao Congresso do Marco Civil da Internet. Porém, o governo deixa claras suas prioridades quando apressa-se em atender às exigências draconianas da FIFA, enquanto trabalhadores de Jirau, as populações indígenas de Belo Monte e os cidadãos do Haiti seguem submetidos a angustiantes condições, aguardando alguma solução para seus problemas.

Com este governo, é possível fazer uma “faxina” ética de seus  membros e fortalecer os órgãos de controle interno e externo, mas não se avança no combate à corrupção estrutural, decorrente da relação entre Estado e Capital. É possível fazer UPP’s, mas não se questiona com profundidade o fracassado viés policialesco da política de combate às drogas.

O nacional-desenvolvimentismo, se já se mostrou superior ao neoliberalismo para promover crescimento econômico e combater a miséria, também revelou, ainda mais em 2011, os seus limites. Para um governo afeito a números, aqui estão alguns dados preocupantes e reveladores: (i) o número de moradores de favelas aumentou no Brasil na última década (compreendendo os oito anos do governo Lula), segundo estudo do Censo 2010 do IBGE publicado no fim de 2011; (ii) segundo o mesmo Censo, 25% da população brasileira têm renda mensal de até R$ 188, e 50% da população, de até R$ 375; (iii) a desigualdade racial agravou-se no Brasil entre 2009 e 2010 (v. aqui o elucidativo relatório produzido por grupo de pesquisa da UFRJ); (iv) 45% dos municípios brasileiros não coletam esgoto. Enfim, a lista de estatísticas que podemos apresentar é extensa, e contempla não apenas a manutenção ou melhora tímida dos nossos elevados padrões de desigualdades, mas até mesmo, em alguns casos, o seu recrudescimento.

Economia brasileira: a grande transformação ainda está por vir.

Em meio a uma crise do capitalismo que convulsiona o mundo, a política econômica ao redor do planeta, salvo raras exceções, quando não se converteu em redução da qualidade de vida dos mais pobres, manteve-se estável.

Por décadas, instituições financeiras de toda natureza se engajaram em atividades de altíssimo risco e lucraram quantias vultosas, distribuídas a seus acionistas e executivos. Quando, recentemente, o risco se converteu em gigantescas perdas, os governos ao redor do mundo transferiram a conta aos trabalhadores e socorreram a elite financista, sem qualquer contrapartida.

No Brasil, apesar de um índice razoável de crescimento econômico e da relativamente baixa taxa de endividamento/PIB (cerca de 58%), pagamos uma das taxas de juros mais altas do mundo, o que significa desaceleração do crescimento econômico e desvio de renda para uma elite financista improdutiva.

A política econômica brasileira naturalizou a percepção de que a sociedade está a serviço da economia e não o oposto. A prioridade orçamentária que permanece é garantir o religioso pagamento do serviço da dívida, mesmo que, para isso, se sacrifique o acesso de cada brasileiro e brasileira a seus direitos constitucionais, como educação, saúde e moradia.

A leve queda nas taxas de juros, enquanto o país deslancha suas modestas taxas de crescimento econômico, demonstra uma preocupação do governo brasileiro em realizar melhorias na estrutura de crédito, desde que se mantenham os privilégios do setor financeiro.

Entre os avanços tímidos da economia, destaca-se a política de valorização do salário mínimo atrelado ao crescimento econômico. Tímido porque a valorização depende do crescimento, quando deveria ocorrer independentemente disso e com maior vigor, como instrumento de redução da desigualdade social.

A propósito, o Brasil ainda é o 3º país mais desigual do mundo, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O salário mínimo —referencial remuneratório para a maior parte dos brasileiros assalariados — é ainda muito inferior ao valor necessário para se aproximar do verdadeiro salário mínimo: uma renda capaz de garantir que os trabalhadores e trabalhadoras tenham acesso a saúde, moradia, educação e lazer.

Prevalece ainda, como já apontado, uma pauta trabalhista conservadora, que ignora os efeitos perversos da terceirização (em prol de um suposto ganho de eficiência) e a existência de um enorme contingente de trabalhadoras domésticas oficialmente inferiorizadas, dada a ausência de garantia legal de certos direitos trabalhistas, consequência da inafastável discriminação de gênero e, na maior parte das vezes, da discriminação racial nas relações de trabalho.

A política industrial brasileira também expõe a opção pelos grandes conglomerados, que recebem renda pública via juros subsidiados do BNDES (quem não se lembra do polêmico e abortado financiamento do BNDES para a fusão do Pão de Açúcar e Carrefour?), enquanto os pequenos produtores ainda têm difícil acesso ao crédito e pagam juros bem maiores.

A decadente indústria automobilística estrangeira, instalada em grandes parques industriais no Brasil, é aqui agraciada com a maior taxa de lucro do mundo. Essa mesma indústria continua com proteção governamental e vantagens tributárias de toda natureza, a vender-nos produtos de baixíssima qualidade e segurança a preços muito acima daqueles praticados em outros mercados.

Enquanto isso, a grande maioria da população padece de péssimas condições de uso do transporte coletivo, que não figura no rol de prioridades do Estado – seja por meio da melhoria das condições existentes ou da criação de meios alternativos de transporte urbano. Esse modelo cujos esforços e prioridades centram-se na funcionalidade do automóvel individual demonstra-se bastante tímido no estímulo ao desenvolvimento de uma “economia verde”, sustentável.

Enfim, apesar de êxitos relevantes na economia, como a redução do desemprego e o aumento da formalização no mercado de trabalho, não se pode dizer que estejamos no rumo certo enquanto não enfrentarmos o crônico aparelhamento do Estado brasileiro pelos grandes grupos capitalistas – setores estratégicos são balançados por meio de políticas que instrumentalizam o aparelho estatal, garantindo a dominação da máquina pública. Tratam-se de formatos distintos da associação Estado e Capital, estampados, por exemplo, na entrega de milhões de barris de petróleo e da hegemonia tecnológica da Petrobrás ao grupo de Eike Batista, “agraciado” pela descoberta do Pré-Sal, cujas riquezas, se fossem adequadamente revertidas em investimentos públicos em setores como saúde e educação, certamente trariam enormes benefícios a nossa população.

É esse aparelhamento do Estado brasileiro por grandes grupos capitalistas que está na raiz das nossas carências na educação, na saúde, no trabalho, na transparência pública…

O esgotamento dos partidos políticos

Após 20 anos de inquestionável importância do PT na organização dos movimentos socais do país e uma mudança para oito anos de um governo encabeçado pelo partido, seu objetivo político principal segue sendo garantir a mera governabilidade. Há oito anos, em vez de buscar respaldo nos movimentos sociais organizados, o PT optou preferencialmente por alianças com partidos que pudessem lhe garantir apoio parlamentar. O PT, assim, garantiu a continuidade do que o cientista político Marcos Nobre chama de peemedebismo: para garantir a governabilidade, o partido no poder dá espaço aos partidos adesistas que buscam espaços na máquina pública e impedem que temas polêmicos entrem em pauta decisória.

Apesar de não ser novidade do ano, 2011 teve um momento simbólico na questão partidária. Após ter tentado uma estratégia de mudar sua imagem de PFL para Democratas, o partido símbolo da Ditadura Militar e principal aliado do Governo do PSDB sofreu um duro golpe com a criação do PSD, em sua maioria surgido do antigo PFL. Esse fato evidencia a força do peemedebismo, sendo o partido uma estratégia para arregimentar mais políticos, que, antes na oposição, passam em seguida a aderir à base, o que também reforça o caráter conservador da aliança governista. A direita que está na oposição se enfraquece, sem sucesso em articular uma frente coesa, que se contraponha ao Governo. Enquanto isso, a direita que está dentro do Governo se fortalece e ali vem se mantendo, livre de uma oposição da esquerda, até o dia em que lhe parecer conveniente.

Os partidos da oposição de esquerda, por sua vez, não mostram efetividade em suas estratégias. O PSol, partido parlamentarista que busca pautar o debate público de forma contundente, não o faz. Não acumulou nenhuma vitória parlamentar que não tivesse sido organizada pela direita, nem conseguiu apoio e mobilização da opinião pública em temas que superem a tão batida pauta ética. Os demais partidos de esquerda sem representação no parlamento continuam não mostrando capacidade de formar maioria com seu discurso e suas ações, mantendo-se no gueto da eterna minoria.

Em síntese, no ano de 2011 se evidenciou a falta que faz aos partidos políticos a inovação esperada pela sociedade, o que foi denunciado pelos diversos movimentos sociais que marcaram o ano. Mas o descrédito dos partidos tem origem na falência da democracia liberal, que os utiliza como meros instrumentos eleitorais, e na equivocada estratégia dos partidos de esquerda quando optam pela estratégia exclusivamente eleitoral. A força do partido está na estrutura de organização e coordenação das demandas da sociedade, dos movimentos sociais organizados, enfim, está na força criadora e na capacidade de mudança a que se propõe.

Novos atores sociais, novas lutas

2011 foi marcado por ocupas também nas ruas do Brasil. Além dos acampamentos na Cinelândia, no Rio de Janeiro, e no Viaduto do Chá, em São Paulo, várias cidades integraram-se ao circuito mundial de protestos, compartilhando criativamente linguagens e métodos de mobilização semelhantes – foi o caso, por exemplo do movimento “primavera sem borboleta”, na capital potiguar, que nasceu nas redes sociais e passou às ruas, tendo chegado a promover um vitorioso acampamento de 11 dias na Câmara Municipal de Natal.

Ainda que muitas vezes distantes dos partidos, céticos quanto à organização institucional, os manifestantes foram às ruas. Nas grandes cidades, marchas libertárias – das Vadias, da Maconha, pela liberdade na internet – dividiram espaço com a ambígua e limitada marcha contra a corrupção (que nunca chegou perto de confrontar as raízes da corrupção estruturante do Estado brasileiro, decorrente do fato de ele servir prioritariamente aos interesses dos grandes grupos capitalistas, e não à autogestão democrática do povo).

As manifestações contrárias à reforma do Código Florestal e à construção de Belo Monte mobilizaram a luta ambientalista e indígena e trouxeram para a ordem do dia essas demandas, mas também mostraram a força avassaladora dos adversários dos direitos socioambientais no Parlamento e no governo.

Fortes movimentos de outrora, como o MST e as maiores centrais sindicais, não se destacaram em 2011, apresentando dificuldades de mobilização – seja por paralisante alinhamento com o governo, no caso de entidades como a CUT; por acúmulo da falta de vitórias e desidratação da sua base, no caso do MST; ou por inabilidade na construção de unidade e no desenvolvimento de uma estratégia de luta inovadora e convincente, no caso de centrais sindicais ligadas a partidos de esquerda como PSOL e PSTU. No caso do MST, porém, merece destaque positivo (do ponto de vista programático e estratégico) a crescente atenção que vem sendo conferida por sua prática e militância à agroecologia, à defesa da agricultura social e ambientalmente sustentável.

Se as grandes centrais sindicais, assim como os partidos, não atravessam boa fase, os trabalhadores não deixaram de se mobilizar em novas frentes. Além de acontecimentos relevantes e promissores como a revolta dos milhares de trabalhadores da Usina Hidrelétrica de Jirau, merecem destaque os movimentos de trabalhadores sem-teto, que conquistaram maior visibilidade em sua luta contra a perversidade da especulação imobiliária vivenciada em todo o país.  A formação dos comitês populares da Copa indica que a luta pelo direito à cidade seguirá sendo central nos próximos anos, denunciando as arbitrariedades decorrentes da organização dos megaeventos e lutando pela produção democrática do espaço urbano.

A “nova classe média” – ou melhor, a nova classe trabalhadora, que em grande parte continua na pobreza, apesar de ter superado a linha de 2 dólares por dia –, cantada em verso e prosa aos quatro ventos, emerge como protagonista de valores contraditórios e, em grande medida, ainda desconhecidos. Tornou-se a nova menina dos olhos do mercado e de partidos políticos de diversos matizes, os quais buscam seduzi-la e conquistá-la.

Discursos religiosos conservadores e reacionários invadem a política e ganham frentes organizadas de seguidores e fanáticos. Mesmo assentados sobre velhos dogmas, muitos desses discursos ganham força em diferentes segmentos sociais. Deus se torna o grande negócio de muitos empreendimentos Brasil afora, capazes de reacenderem juízos moralizantes e anacrônicos, apegados ao ódio e ao preconceito, e desapegados à questão central da alteridade.

Porém, se discursos e práticas em prol do engessamento de certos valores ainda conquistam a opinião pública, lentamente alguns flancos se abrem para o respeito dos iguais na diferença: uniões homoafetivas têm deixado de ser tabu para muitos (a vitória no STF foi um grande marco para essa luta), a igualdade de gênero tem se tornado aos poucos mais visível no mundo do trabalho (apesar do enorme caminho que ainda há a percorrer no rumo da igualdade), a recomposição dos núcleos familiares brasileiros tem deixado cada vez mais de lado a figura patriarcal e lentamente outras questões sobre a diversidade vão ganhando espaço.

A prisão de manifestantes, os despejos ilegais, o recrudescimento da violência contra indígenas, a atuação da PM nos campi universitários e fora deles mostram que a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais continua sendo uma realidade.

Num contexto em que as nossas cidades seguem fortemente marcadas pela segregação socioespacial, o conflito é inevitável, e cresce a esperança no herói policialesco, vigilante permanente da paz e da ordem, e a euforia por instrumentos punitivos que só agravam os problemas que dizem combater. Para confrontar essa cultura do medo, precisamos de uma  integração social emancipatória, fundada na alteridade, no pluralismo e na aceitação de que a luta por  direitos iguais é legítima e deve ser equacionada politicamente, e não por meio da violência repressiva.

É preciso confrontar as bases de reprodução das nossas crônicas injustiças sociais. Nesse sentido, o atual modelo de desenvolvimento (?) levado a cabo pelo Estado brasileiro, em estreita cooperação com os grandes grupos capitalistas, não tem combatido essa realidade. É preciso imaginar e viabilizar politicamente novas alternativas. Conforme já apontamos na análise de conjuntura internacional, não é dos gabinetes dos burocratas do Estado ou dos escritórios das grandes empresas, mas da efervescência das ruas que há de surgir esse impulso de criação rebelde.

Justiça não é pacificação.

Por João Telésforo Medeiros Filho

Em artigo publicado hoje na Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari critica moradores do Pinheirinho por supostamente não terem aceitado proposta de pagar de R$ 3.000 a R$ 6.000 para adquirir seu lote na área, diferentemente de milhares de outras famílias, que teriam feito acordos nesse sentido. Gaspari critica a “estratégia da tensão” pela qual optaram aqueles que não aceitaram o acordo, afirmando que eles poderiam ter evitado o conflito.

O jornalista da Folha compartilha da perspectiva comum de que a solução justa é a que “pacifica” a questão, ainda que com prejuízos à parte mais fraca – na verdade, com o maior prejuízo possível que ela seja capaz de aceitar. Se a parte não aceita o “acordo” que se busca impor a ela, e como resposta recebe a violência, a culpa do conflito é dela! Lembrou-me uma música do grande sambista João do Vale (autor de clássicos como Carcará e Pisa na Fulô):

“Eu fui pedir aumento ao patrão
Fui piorar minha situação
O meu nome foi pra lista
Na mesma hora
Dos que iam ser mandados embora”

Pra que isso de pedir aumento, né? Só falta depois, no contexto da música, os operários inventarem de fazer greve em solidariedade aos que foram demitidos, gerando conflitos “desnecessários”. Justo seria eles não provocarem tensão alguma e se conformarem a receber salários aviltantes por toda a eternidade… ¬¬

É admirável a postura dos moradores do Pinheirinho que resistiram bravamente a ter de subtrair milhares de reais de suas já baixíssimas rendas para terem direito a algo que a sociedade deveria lhes garantir, por se tratar de direito humano: a moradia digna. Esses moradores optaram por impor um limite à negociação de seus direitos, buscando exigi-los, numa ação de autoempoderamento, de dar direitos a si, e não de trocá-los por uma “paz” qualquer.

Trata-se de defender, sim, a “estratégia da tensão” diagnosticada e criticada por Gaspari, porque justiça não consiste em “pacificação” de conflitos, mas em dar a todos a possibilidade de experimentação do conflito e equacioná-lo em termos democráticos, igualitários, o que implica assumir prioritariamente a ótica dos oprimidos sobre os direitos a que têm direito.

Seria melhor para os moradores terem aceitado um acordo que precarizasse seus direitos, em vez de resistirem em busca de sua satisfação integral? Ora, quem realmente tem todas as condições para dizer que sim ou que não são os próprios moradores: são eles que têm de lidar com a falta de dinheiro para pagar pela passagem de ônibus, a dentadura para o pai, o livro para a filha… São eles, também, que têm de lidar com a violência que sofrem quando se rebelam contra as imposições do Estado e do capital especulativo.

Não me entendam mal: não acho que nós, que não moramos no Pinheirinho, não possamos fazer avaliações estratégicas sobre as melhores saídas para a situação, e inclusive compartilhá-las com os moradores, pondo-nos ao seu lado em sua luta. Só não consigo aceitar a crítica que culpabiliza os moradores, seja aqueles que fizeram o acordo, seja aqueles que não o fizeram; em ambos os casos, agem acossados por fortes pressões e violências. Não culpar os moradores não significa irresponsabilizá-los politicamente pelas ações que escolhem tomar, mas precisamente o oposto: respeitar a responsabilidade que cabe primordialmente a eles. Sobretudo, não dá pra aceitar que pessoas que corajosamente não abrem mão de seus direitos sejam culpabilizadas pela violência policial que são obrigadas a enfrentar.

Gerar tensionamentos para garantir direitos

Finalmente, Elio Gaspari critica o PSTU, dando a entender que não teriam sido os moradores que não teriam aceitado o tal acordo, mas o partido, falando em nome deles ou influenciando-os a assumir essa postura. Tenho várias divergências programáticas e estratégicas com o PSTU, mas preciso discordar fortemente de Gaspari em dois aspectos, nesse sentido. Primeiro, sua visão tende a infantilizar os moradores, como se o fato de supostamente se relacionarem com um partido ou contarem com seu auxílio em sua organização significasse que eles deixariam de saber julgar por si mesmos o que é bom e aceitável ou não para si. A relação não é simplória como Gaspari faz parecer: se de fato algumas famílias optaram por contar com a ajuda do PSTU para organizarem sua resistência política pelo direito à moradia, não foi porque o partido fez lavagem cerebral nelas, mas porque elas concordaram com a estratégia de luta apresentada ou representada por ele; se o PSTU optou por apoiar essas famílias, do mesmo modo, é porque concordou com as demandas que apresentaram e a forma de exigi-las, o que é de todo legítimo. É isso o que se espera de um partido político, que seja um dos instrumentos de organização política da população para exigir direitos e determinar sua vida social.

Segundo, a postura do PSTU de apoiar os setores populares que se dispõem a resistir por seus direitos e gerar tensionamentos, em vez de aceitar “pacificações” quaisquer, não é errada. A estratégia do tensionamento nem sempre é a melhor, mas recusá-la por princípio é nada mais do que afirmar a conservação social como princípio. Aliás, o cientista político Marcos Nobre tem alertado que o grande problema atual da política brasileira é o “peemedebismo”, isto é, a tendência de praticamente todos os partidos e grupos políticos majoritários (inclusive o PT, nos últimos anos) a evitarem tensionamentos que gerem as polarizações capazes de transformar nossa vida social (v. post de Gabriel Santos Elias sobre esse assunto aqui no blog).

Foi por meio de muito tensionamento, enfrentando muita violência, que trabalhadores, mulheres, negros e outros amplos grupos conquistaram o reconhecimento social sobre os seus direitos, gerando um movimento de crescente ampliação e ressignificação da cidadania. Para cada uma das incontáveis greves, revoltas e gritos de protesto que foram reprimidos violentamente na história, poderia se fazer o comentário de que aquilo não era necessário, de que os trabalhadores, ou as mulheres, ou os habitantes da periferia poderiam ter aceitado menos e assim “evitado” a violência. Sim, podiam. Mas também podiam não ter aceitado, e foi isso que afirmaram por meio de cada revolta, de cada ato de resistência: contrariamente ao que se quer nos impor, nós podemos. Por meio dessa afirmação de potência, alargaram as fronteiras do possível, inventaram novos direitos, criaram poder popular e nos deixaram um legado de luta social que foi honrado pelos moradores do Pinheirinho.

A resposta da Islândia à crise “econômica”: a invenção democrática

Por João Telésforo Medeiros Filho

O povo islandês tinha dois caminhos a seguir, diante da forte recessão econômica que atingiu o país: abrir mão de direitos sociais e manter intocada a estrutura econômica da nação (como se tem imposto a países como Grécia, Portugal, Espanha, enfim, ao mundo inteiro); ou proclamar a soberania democrática sobre a economia, a apropriação comum das riquezas produzidas em comum pelo povo, para garantir a todos uma existência digna. Escolheu o segundo, mostrando ao mundo que existe uma alternativa – democrática, inclusiva e transformadora – ao receituário de precarização que costuma se apresentar como o único caminho.

A Islândia nos mostra que a crise econômica é, antes de tudo, uma crise política. Vivemos, no Brasil, em estado permanente de crise, pois somos uma das nações mais desiguais do planeta, enorme parte da nossa população não se apropria de quase nada da riqueza que produz e praticamente não é ouvida na definição dos rumos da nossa economia. A mudança desse cenário de exclusão estrutural, tal como aponta a Islândia, não virá de receituários pré-moldados que reforçam o sistema econômico como mundo separado das necessidades e aspirações sociais, mas da transformação política da economia, da democratização do sistema produtivo e de apropriação de riquezas.

Merece destaque ainda a grande e promissora inovação da forma como a intensa participação popular ocorreu no processo constituinte islandês, conforme apontam Deena Stryker e Daily Kos, no texto “A revolução popular na Islândia”:

“Para escrever a nova constituição, o povo da Islândia elegeu vinte e cinco cidadãos entre 522 adultos que não pertenciam a nenhum partido político, mas recomendados por pelo menos trinta cidadãos. Esse documento não foi obra de um punhado de políticos, mas foi escrito na Internet.

As reuniões dos constituintes foram transmitidas online, e os cidadãos podiam enviar seus comentários e sugestões vendo o documento, que ia tomando forma. A Constituição que eventualmente surgirá desse processo democrático participativo será apresentada ao Parlamento para sua aprovação depois das próximas eleições.”

Para uma visão mais aprofundada da Islândia e dos impactos da crise econômica nela, vale a pena ler um dos melhores trabalhos jornalísticos que já li na vida, de autoria de João Moreira Salles, na revista piauí: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-28/carta-da-islandia/a-grande-ilusao

A REVOLUÇÃO POPULAR NA ISLÂNDIA.

Deena Stryker

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