Para Putin: nossas cores, nossos beijos

por Hugo Fonseca e Fábio Felix

A Russia anda chamando a atenção não apenas pelo caso Snowden, última ação aplaudida deste país que concedeu asilo político temporário ao americano perseguido por denunciar a prática ilegal de invasão de dados praticada pelos Estados Unidos. Dessa vez, outro assunto toma a imprensa de todo o mundo e o país assume local de destaque, agora de forma lamentável. O governo de Vladimir Putin acaba de aprovar uma lei que tem sido entitulada de anti-gay, uma vez que proíbe e pune qualquer referência (propaganda) à homossexualidade por parte de movimentos sociais, telenovelas e publicidades de um modo geral. Fica decretado, com essa lei, o fim das paradas LGBTs e de qualquer iniciativa que tente expor de modo normalizado formas “não tradicionais de comportamentos”.

Essa não é a primeira medida que o governo russo toma contra os direitos da população LGBT. Em 2012, Putin proibiu que casais homossexuais pudessem adotar filhos/as, o que mostra que a onda homofóbica naquele país vem se consolidando cada vez mais. É revoltante que um país que tenha como política pública incentivar a violência institucional, fortalecer a opressão e o preconceito, contribuindo para a construção de uma cultura de intolerância, desrespeito e invisibilidade.

A lei anti-gay trata a homossexualidade como um mal a ser combatido. Isso fica muito claro quando vemos que o discurso para legitimá-la é de proteção às crianças. É importante a clareza de que nenhuma criança vai se tornar gay ou lésbica por assistir um casal homossexual de beijando na telenovela. Essas representações não são o que define nossa sexualidade. Se assim o fosse, o que dizer das pessoas que passaram a vida tendo contato com o beijo da “princesa e o príncipe”, com uma família com “papai e mamãe” e ainda assim são sexodiversas?

Não nos deixemos enganar: essa iniciativa do governo russo quer calar os históricos movimentos que lutam pela diversidade sexual e manter intacta a realidade homofóbica do país. Depois que o caso da lei aprovada veio à tona inúmeras notícias relacionadas ao ódio contra LGBTs na Rússia. Vários deles tratavam de atos de humilhação e violência explícita aos homossexuais russos, obrigadas/os a darem declarações para vídeos. A justificativa para todas essas atrocidades era de “combate à pedofilia”, comportamento que tem sido absurdamente relacionado à identidade LGBT.

Isso demonstra que a Rússia, assim como diversos outros países do mundo, não têm apenas um governo que patrocina a homofobia, mas uma introjeção dessa opressão no cotidiano, no senso comum da sua população. Circula pela internet um vídeo em que um apresentador de Televisão russo diz: “Eu acho que impor multas aos gays por propaganda homossexual para menores não é suficiente. Eles deveriam ser proibidos de doar sangue, esperma. E seus corações, em caso de acidente de automóvel, deveriam ser enterrados no solo ou queimados, como inadequados para a continuação da vida”

Essa situação nos chama a reagir. Precisamos estar organizadas/os nessa luta que não é só na nossa família, na nossa cidade, nem no nosso país. Se querem a nossa morte, devemos responder com a nossa vida, com a livre manifestação da nossa subjetividade, com nosso encanto. É por isso que convidamos a todas as pessoas LGBTs ou não a se manifestarem contra as medidas do governo russo e pela dignidade de milhares de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais do mundo todo. Não podemos achar que as coisas correm bem e estão melhorando “naturalmente”, nossos direitos apenas serão conquistados com nossa atuação coletiva permanente.

No próximo dia 23, sexta-feira, às 11 horas haverá Beijaço com Intervenções Artísticas em frente as representações da Rússia no Brasil (Evento do Facebook). Embaixada e consulados deverão ser tomados da nossa cor e da nossa alegria. Não admitiremos nenhum passo atrás na luta contra as opressões!

putin

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Da festa à catarse: gays, cidadãos, e não meros consumidores

Aconteceu neste último domingo, 10 de junho, a décima sexta edição da Parada Gay na maior cidade da América do Sul, com estimativa de ter recebido mais de 3 milhões de participantes. Curioso notar que um dia antes da realização da Parada Gay, aconteceu a Caminhada de Lésbicas e Bissexuais. Diferenças identitárias, fragmentações e segregações do amplo espectro LGBTTT à parte, a manifestação a cada ano colore as ruas com irreverência, alegria e diversidade.

Entretanto, também a cada ano, a festa vai assumindo os contornos do processo de “festificação”, e menos o de reconhecimento de direitos. Esse processo fica claro quando se pensa haver uma marcha contra a homofobia, separada da Parada do Orgulho Gay.

O sucesso da parada parece, muitas vezes, seguir a lógica cadente da massificação que se acompanha no estágio atual de desenvolvimento do capitalismo: toda constituição agigantada em massas torna-se nicho poderoso de interesse de corporações. Patrocinadores, marcas e divulgações assediam e se apropriam, diariamente, do quotidiano, de vontades e desejos das pessoas agregadas em identidades e quantidades,  transformadas em “nichos de mercado” para esses olhos, e nada mais que isso.

Um processo avassalador que observa orientação sexual, religião e raça como meios para a finalidade de lucro; valorizá-los obedece uma razão de proporcionalidade: quanto mais valorizados os direitos desses grupos, maior a relação de autoestima que se completa no consumo de mercadorias e na confiança depositada nas corporações que os seduzem. Continuar lendo

Observatório da violência policial contra manifestações políticas

Por Gabriel Santelli

Neste blog começamos, meio que naturalmente, um pequeno observatório da violência policial praticada contra movimentos sociais no Distrito Federal. Tudo começou quando nós mesmos estivemos em contato direto com essa violência nos diversos protestos que começaram no ano passado pedindo a saída e a devida punição aos corruptos encastelados no poder sob o mando de Arruda no Governo local. Naquele dia ficamos chocados com o nível da violência policial com a utilização de blindados do BOPE, cavalos e cachorros, bombas e tiros de “efeito moral” — que, como pudemos sentir na pele, não machucam apenas nossa moral — culminando em uma cena tragicômica em que um militante do movimento era atirado no chão em um golpe meio desastrado do próprio comandante da operação, o Coronel Silva Filho.

A batalha do Buriti, como ficou conhecida, pudemos ver aqui no blog através das escandalosas fotos dos diversos ataques.

Logo depois Gustavo Capela denunciou aqui no blog: Polícia Militar: Covardia Institucionalizada . O Professor Cristiano Paixão também escreveu brilhantemente sobre o fato em Dilema da Ação Política.

Não adiantou. Após a renúncia e a prisão de Arruda, quando elegeriam indiretamente na corrupta Câmara Legislativa do Distrito Federal o novo Governador do DF, o Movimento Fora Arruda e Toda a Máfia organizou um protesto em frente à Câmara. A reação da polícia novamente foi inacreditável em qualquer Estado que se queira minimamente democrático. Novamente expusemos aqui os fatos ocorridos. Publicamos tambem o relato da tortura sofrida pelo militante do movimento, Diogo Ramalho.

Mas não só a violência policial ocorrida no Distrito Federal acompanhamos por aqui. Recentemente Danniel Gobbi postou aqui vídeos chocantes da violência policial contra três protestos diferentes ocorridos em Santa Catarina.

Obviamente não tivemos a oportunidade de cobrir aqui outros diversos eventos, como a violência policial contra os manifestantes indígenas acampados na Esplanada, ou o despejo ilegal de manifestantes Sem Teto em Brazlândia, e tantos outros.

Na semana passada nos deparamos com essas imagens:

Nesse  vídeo podemos ver o momento exato [1:50] em que um participante da Parada Gay de Taguatinga se aproxima dos veículos da Polícia Militar para identificar quais eram os carros que acompanhavam o evento e os policiais que haviam supostamente agredido alguns dos participantes. Quando os policiais militares percebem que estão sendo fotografados perseguem o manifestante, prendem ele pelo pescoço e ainda dizem, ironicamente, “volta até o carro, vamos só conversar” enquanto o impedem de respirar, até que ele cai no chão desmaiado.

Quando outro policial vê um jornalista com a câmera [2:25] , ele diz: “Escuta aqui o que eu vou te falar, você vai apagar essas fotos que você tirou”. O jornalista, intimidado, apaga as fotos e o policial ainda pede para mostrar os arquivos do primeiro ao último, para se certificar de que nada daquela ação policial foi registrada.

Agora quero fazer as seguintes perguntas: com essas condições de segurança, como nós podemos exercer nosso livre direito de nos manifestar? A participação política, o interesse da população por temas de interesse social e nacional, não é afetada por essa constante repressão do Estado contra a sociedade?  Onde estão os responsáveis por essas ações ilegais? Onde estão os agentes do Estado que deveriam nos proteger dessas ações?

Devemos nos manter vigilantes para denunciar e dar visibilidade a essas ações. O nosso Blog está aberto para as denúncias necessárias.