Um Partido que vá além

PSOL manifestações

por Fábio Felix

Em tempos de desconfiança com as instituições, é preciso resignificar o papel da organização política capaz de contribuir com reais transformações do modelo social. Construir um Partido Político num regime no qual os partidos não possuem ideologia, seus programas são escritos pelas grandes corporações e as disputas são silenciadas pelo poder econômico não parece uma tarefa fácil. A situação fica ainda mais difícil quando se trata de um Partido Socialista.

A palavra “Socialismo” se tornou comum na nomenclatura partidária brasileira, mesmo que as práticas sejam distantes da crítica radical ao modelo econômico, social e político. É necessário darmos novo tom para a construção da experiência “organização política” socialista. Não há mais como mantermos modelos verticalizados que hegemonizam de forma silenciadora os movimentos sociais, as entidades sindicais e não ouvem as vozes do andar de baixo. Repensar a organização dos oprimidos e reinventar o socialismo de forma criativa significa apostar na construção de Partidos entrelaçados com os movimentos do povo, compromissados com a crítica radical e com capacidade para um debate consistente da realidade. Sonhar uma organização que busque fazer as discussões de forma profunda não significa rendição ao tecnicismo positivista, mas é uma busca no sentido de desconstruir a lógica de que a esquerda anticapitalista só é capaz de traçar debates de forma panfletária e por meio das “palavras de ordem”.

O capitalismo se mostra mais feroz do que nunca, com capacidade para continuar de forma avassaladora sua exploração contra os povos, se reorganizando para aprofundar a deterioração da vida humana. As novas faces mediadas e de conciliação das organizações ditas de esquerda dão novo fôlego político para o andar de cima e reforçam a escala de exploração e “modernização” conservadora da economia e da política. Construir novas respostas, organizações, movimentos sociais e Partidos nesta conjuntura não será uma tarefa tranqüila. Um novo horizonte pode se abrir para a esquerda radical com as recentes manifestações em todo o país, com esgotamento do Partido dos Trabalhadores e seu modelo de governança, com a crise econômica que se amplia, a insatisfação do povo e outros elementos. Este quadro não significa necessariamente nenhuma facilidade para a reorganização da esquerda mais radical, mas pode apontar para um ascenso. De todo modo, o momento é delicado e isso requer maturidade e iniciativas coletivas das organizações de luta, para além da autoconstrução.

O PT, partido que teve maior investimento histórico objetivo e subjetivo das forças com capacidade e sonho transformador, se tornou peça fundamental no fortalecimento do capitalismo social-liberal atual e suas novas faces de exploração. A reinvenção das privatizações, a era de ouro dos lucros bancários, o desmonte de carreiras estratégicas do serviço público, a burocratização sufocante das entidades sindicais, o atropelamento das populações indígenas, a traição à luta histórica da democratização do campo, o abandono das pautas progressista de Direitos Humanos, a pactuação com o setor mais atrasado da Igreja (o fundamentalismo), entre tantas coisas, são sintomas inegáveis da vitória do pragmatismo e da transformação do petismo atual em um novo peemedebismo com novos contornos.

Construir um campo antisistêmico e capaz de rearticular os oprimidos, trabalhadores/as, movimentos sociais, que tenha fôlego para reanimar a classe média progressista, intelectuais exige um esforço político enorme das forças já organizadas. As manifestações de Junho de 2013 demonstraram que as pessoas estão em crise com os modelos de organização, e atravessam uma profunda frustração com as opções daqueles que estão no poder. Não acredito que haja apenas uma solução ou receita para esquerda nesta conjuntura, mas o fato é que algumas apostas comuns precisam ser retomadas de forma rápida, o compromisso com a reorganização da esquerda radical e democrática deve ser retomado por todos os setores que têm atualmente identidade nas formulações.

Neste contexto, o PSOL, que nasce desta ruptura mais radical e em colisão direta com as concessões conciliatórias e centristas do Governo do PT, tem papel central nesta difícil tarefa política. Com uma representação parlamentar débil e muito descolada da vida partidária, uma inserção sindical pulverizada nos grupos internos, assim como sua juventude, precisa retomar um programa comum capaz de torná-lo um campo atrativo da esquerda democrática brasileira. Isto não significa limitarmos o processo de reorganização da esquerda a um único instrumento partidário ou a apenas um movimento social. No entanto, é preciso diferenciar as experiências distantes do programa transformador, mas que são aparentemente sedutoras como a REDE evangélico-modernóide de Marina, mas que requenta o modelo de conciliação petista em detrimento da construção de um modelo social com novas bases. O PSOL em escala mais massiva (mesmo não tendo perfil de massas), mas também o PSTU, PCB, outras organizações não partidárias e movimentos sociais precisam ser identificados e alinhados nesta complexa costura de retomada.

Neste desafio o PSOL precisa ser claro com o povo no que diz respeito à condenação ao projeto do Senador Randolfe para o Amapá e para o Partido. Não há como conviver com o pragmatismo excessivo das alianças com setores das elites mais cruéis com o pretexto de derrotar outra elite cruel. É preciso enfrentar a lógica da “figura pública” maior que a organização partidária e sem compromisso com as deliberações coletivas. Os parlamentares precisam respeitar as resoluções, política de alianças e principalmente os fundamentos do programa partidário. Assim como foi necessário apontar duramente os equívocos políticos de Heloísa Helena e seu personalismo solitário, é preciso que conjuntamente o Partido freie a prática política reiterada de Randolfe. Com isso não quero indiciar a APS (Tendência interna da qual Radolfe faz parte) como cúmplice, nem ter a compreensão rasa de que todos ali constituem um bloco monolítico, mas alertar para nossa responsabilidade histórica neste processo tão delicado de reorganização da esquerda socialista e democrática brasileira.

Algumas lições podem nos ajudar na construção de alternativas: a reinvenção do modelo partidário com mais democracia e abertura dos espaços de decisão; a criação de novas formas de diálogo com os movimentos sociais e movimentos autônomos; a superação do propagandismo sem conteúdo com formação política permanente e prioridade por juventudes preparadas para o debate; o combate ao oportunismo com a construção de uma vida partidária que mobilize e direcione os mandatos parlamentares e não o inverso; a construção de instâncias arejadas e que preparem a militância para as diversas conjunturas; respeito à autonomia dos movimentos sociais.

As lutas do último mês (junho) foram pedagógicas quando trouxeram para as ruas o lócus da mudança e para o povo o lugar de sujeito da transformação. Além de uma pauta essencialmente progressista que clamava por melhores políticas públicas, o fim da corrupção e questionava as instituições, cumpriu o papel de ensinar a uma geração não experimentada nas mobilizações que há espaço para incidir na agenda política brasileira e provocar um tremor no regime. Devemos ter clareza da investida da direita nas mobilizações, o que não significa fazer como aquela “esquerda” que prefere o povo acomodado em casa, enquanto supostamente “acumulam forças” nas negociatas com as elites mais atrasadas para realizar políticas sociais.

Nosso desafio está longe de ser explicado por uma ou outra organização em suas formulações isoladas, mas a conjuntura demonstra a necessidade de termos clareza que só seremos capazes de construir ferramentas de reagrupamento da esquerda radical brasileira com engajamento nas lutas diárias, com presença permanente nas disputas políticas, na construção de um programa que enfrente o capital e também as práticas sociais conservadoras e opressora de identidades e no fortalecimento de alternativas que possam novamente inspirar setores do povo. Uma nova estética, uma nova prática política, exercício do dialogo, superação dos hegemonismos são as primeiras de muitas lições que precisamos tirar para construir um partido que vá além.

Nenhum passo atrás. O Brasil precisa de mudanças profundas! Seguimos nas ruas

Ueslei Marcelino/Reuters

Dilma exibe o presente dado por Joseph Blatter, presidente da Fifa – Ueslei Marcelino/Reuters

Por Edemilson Paraná

Surpreendido com uma série de apressadas (e, em alguns casos, até desastrosas) medidas para conter o ímpeto das ruas, o Brasil se pergunta: o que será do futuro das manifestações que tomaram o país desde a semana passada? Elas serão capaz de seguir até que encontremos solução para os nosso mais graves e enraizados problemas ou arrefecerão diante da débil demonstração de um suposto interesse da classe política brasileira que até ontem dormia em berço esplêndido? A didática e o empoderamento das ruas serão engolidas, mais uma vez, pela política “mudar tudo para que o fundamental não mude”?

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Não! A hora é de seguir nas ruas. Nenhum passo atrás. O momento é de seguirmos em alerta e mobilização na luta por aquilo que há mais de um século pede o povo brasileiro: justiça social e o fim das nossas gritantes desigualdades, raiz dos nossos mais graves problemas, entre eles a corrupção e a nossa baixa qualidade de vida advinda da não garantia de direitos como saúde, educação, respeito aos direitos humanos, etc. Aprendemos que hoje, como sempre, as coisas só mudam através do empoderamento popular. Seguir em luta é demonstrar compromisso histórico com esse novo Brasil que teima em chegar e que pode ser abafado se deixarmos a rua. Lutemos por mudanças estruturais, pelas reformas de base abandonadas dos programas daqueles que chegaram ao poder defendendo-as. Está na hora de uma nova “carta ao povo brasileiro” e dessa vez quem a escreverá somos nós!

A todos entusiasma ver que a luta das ruas está arrancando do Executivo e do Congresso o passe livre estudantil nacional, 10% do PIB para a educação, 10 % do PIB para a saúde (ainda não aprovadas) e 100% do royalties do petróleo para gastos sociais – saúde e educação (já aprovado). Sinal de que podemos ainda mais. Entre a medidas imediatas ainda temos Marco Feliciano e sua “cura-gay” para derrubar, além da PEC 215, que coloca em cheque a demarcação de terras indígenas. Uma reforma política finalmente se avizinha e teremos muito trabalho pela frente, já que o maior dos nossos problemas, que é a hiper-influência do poder econômico na democracia (razão fundamental da corrupção eleitoral), sequer tem sido citado.

Entre as medidas ditas “moralizantes”, queda da PEC 37, corrupção como crime hediondo, ficha-limpa para servidores e funcionários públicos podem, em si, resolver as contradições históricas do Brasil?

Acabaram as ilusões. Apenas mudanças estruturais transformarão o Brasil

O governo do PT e sua coalizão está pagando um alto preço por não ter feito as reformas de estruturais, que sempre foram parte de seu programa político. As ruas – oportunisticamente apresentadas por setores conservadores como “sem pauta” – estão mandando um recado muito claro: não aceitaremos mais um país sem saúde pública capaz de atender com qualidade a todos os brasileiros, não aceitaremos uma educação pública débil, ineficiente e conservadora e não aceitaremos, sobretudo, viver em cidades que não são feitas para as pessoas, mas para carros, especuladores e mercadorias. Queremos cidades e serviços (públicos) para as pessoas. Queremos ser ouvidos, participar e garantir, com nossas próprias mãos, essas conquistas.

Se é a classe média “tradicional” – não beneficiada pelas políticas de transferência de renda, aumento do salário mínimo e acesso ao crédito popular implementadas nos últimos anos – quem compõe o grosso das manifestações; a classe C, nova classe trabalhadora ou “nova classe média” vê com grande simpatia e aos poucos adere também aos protestos. O sentimento de indignação toma, por fim, a todos e começa chegar às periferias.

A matemática é simples: tendo experienciado um aumento na renda e no consumo não acompanhado de empoderamento cidadão e acesso à direitos como saúde, transporte e educação, para eles, a situação também não está mil maravilhas. O país cresceu mas a vida pouco melhorou: trabalha-se muito (e precariamente) apenas para o consumo imediato enquanto padece-se diante dos serviços públicos que não melhoraram. As promessas de melhorias na mobilidade e infraestrutura urbana das cidades com a realização dos grandes eventos dá mostras de esgotamento: está claro que não serão cumpridas. Os estádios, construídos às custas de remoções forçadas de grandes contingentes urbanos, integralmente pagos com dinheiro público e que custaram muito mais do que o previsto, no entanto, ficaram prontos em tempo recorde. E tudo no “padrão FIFA”. Subestimou a capacidade de indignação do povo brasileiro os que acharam que isso tudo passaria desapercebido.

Some a isso uma profunda crise de representatividade por conta de um descolamento que há anos separa o povo da “classe política” (algo combatido em todo o mundo) e as novas possibilidades de organização política via internet e você terá algo muito simples: o senso comum resolveu tomar as ruas. A falta de trabalho de base de parte considerável da esquerda – que deixou as ruas para ocupar gabinetes de governo em aliança com os setores que sempre combateram – adicionou ainda mais tempero a essa mistura, contribuindo para que tomasse as ruas um sentimento anti-partido, anti-movimentos-sociais, anti-organização, vistos de modo simplificado (mas não de todo descolado da realidade) como “oportunistas” e “eleitoreiros” (e, claro, é difícil esperar que o grosso dos manifestantes – não familiarizados ao mundo das discussões e disputas políticas tradicionais – diferencie partidos e movimentos de oposição que sempre combateram tal alinhamento oportunista).

O que devemos propor

Vivemos uma escalada do facismo e da direita udenista que tomou as ruas? Não. Apesar da mídia e setores conservadores tentarem pautar um movimento iniciado fundamentalmente por reduções na taxa de transporte e pelo direito à livre manifestação da juventude, contra os abusos da polícia, não estamos diante de um quadro em que a direita organizada dirige as manifestações. Trata-se do senso comum nas ruas. Um senso comum que hora assusta por suas posições conservadoras e atrasadas, mas que também dá demonstrações de progressismo quando defende o Fora Feliciano, o apoio aos indígenas, o rechaço às manipulações da grande mídia, melhores serviços de saúde, educação e transporte. Estamos diante de uma juventude que nunca foi e que não está acostumada às ruas. Disputemo-as.

A hora é para disputarmos organizativa e programaticamente as redes (onde é gestada essa nova – e por isso confusa – política) e ruas; apresentar e articular pautas para uma nova agenda de transformações profundas. Uma grande avenida está aberta para que transformemos esse em um movimento por mudanças estruturais.

Para isso, é importante que articulemos pautas concretas e imediatas com mudanças profundas e de longo prazo. A janela de oportunidade são o passe livre/tarifa zero e a luta contra os abusos na realização dos grandes eventos. A luta por um transporte público, gratuito e de qualidade e pela auditoria cidadã dos gastos da Copa do Mundo e a não realização dos gastos com as Olimpíadas até que as nossas necessidades mais básicas sejam atendidas devem servir como ponte para o acúmulo de mobilização na luta pela grandes reformas que o país pede. A ser:

  • Reforma Urbana: por uma nova Lei do Inquilinato, pela federalização e cumprimento do estatuto das cidades, pelo IPTU progressivo e por medidas que combatam o déficit habitacional em detrimento da especulação imobiliária nas cidades. Por equipamentos de lazer, esporte, saúde e educação nas periferias. Por mais ciclovias, por infraestrutura urbana e investimento em transporte público de massa, integrado, público, gratuito e de qualidade
  • Reforma Política: que combata o mais grave dos nossos problemas políticos que é a corrupção advinda da hiper-influência do poder econômico no processo democrático. Por financiamento exclusivamente público de campanhas (perceberam como políticos e a imprensa sequer tocam no assunto?), por democracia interna nos partidos e por ampliação dos mecanismos de participação popular em direção a uma democracia direta (e há cada vez mais meios tecnológicos a facilitar essa proposta)
  • Reforma tributária: pelo fim da injustiça tributária, pela tributação progressiva e taxação de grandes fortunas. Por menos impostos ao consumo e mais à renda. Por menos impostos ao trabalho e mais ao Capital
  • Por um novo marco regulatório das comunicações: para democratizar a comunicação no Brasil, com distribuição democrática do espectro das comunicações, por mais rádios e TVs comunitárias e públicas, pela regionalização da produção, pelo controle e fiscalização democrática das teles, por banda-larga universal e de qualidade, pelo controle e participação social, contra a propriedade cruzada dos meios de comunicação, os oligopólios midiáticos e o coronelismo eletrônico, por incentivo ao software livre
  • Pela completa desmilitarização das polícias: pelo fim das violações aos direitos humanos, pelo fim do extermínio da juventude negra nas periferias, pela legalização das drogas – para que sejam tratadas como questões de saúde pública e não de polícia, pela legalização do aborto – para que seja legal e seguro, contra os abusos aos direitos humanos em presídios e por uma ressocialização cidadã, pelos direitos LGBTT, pelos direitos indígenas, pelo respeito às minorias e à diversidade
  • Reforma agrária: de modo a incentivar a ocupação e produtividade do campo por meio da agricultura familiar/camponesa (responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no país), contra o abuso de transgênicos e agrotóxicos, por uma ocupação racional e ambientalmente responsável do solo, pela revisão dos índices de produtividade contra o latifúndio improdutivo, contra a escravidão no campo, contra a especulação agrária
  • Reforma educacional: pelo acesso universal, público, gratuito e de qualidade. Por mais investimentos (10% do PIB). Por um modelo de educação emancipador, democrático e cidadão

Disputando as marchas, dialogando para a construção de um novo senso comum emancipatório, mobilizando a periferia e os mais pobres para que protestem e se organizem politicamente e pressionando nossos governos (regionais e federal) para cumprimento dessas reivindicações imediatas que apontem para mudanças profundas podemos aproveitar essa oportunidade ímpar de transformar de vez nosso país em um lugar mais justo, digno e igual para se viver. Nenhum passo atrás. Sigamos nas ruas.

A disputa pelo espólio político de Chávez e o futuro da revolução bolivariana

Chavez

Por Edemilson Paraná

Guardadas as devidas diferenças ideológicas, a morte de Hugo Chávez na Venezuela talvez seja equivalente no Brasil apenas à morte de Getúlio Vargas. Lá, como aqui, uma grande disputa pelo espólio político do “comandante” deve ocorrer e, com ela, o desenho de todo um rumo (novo?) para a nação. Chávez teve tempo de “organizar” minimamente sua morte? Deixou testamento político? Como se comportarão o Exército e a Suprema Corte, aliados da revolução?

Há disputas consideráveis dentro do Chavismo, e a direita – que vem se reorganizando há algum tempo – certamente se aproveitará delas. Os EUA, saudosos do tempo em que tinham no no país um petro-quintal, devem influenciar. Líderes latino-americanos devem reagir e uma crise se avizinha, mas tudo indica que o destino do país dependerá mesmo é do povo venezuelano e de como ele receberá os “significados” dessa morte. A revolução sobreviverá sem Chávez? As conquistas sociais estão vinculadas a ela no imaginário popular?

Nas últimas eleições, Henrique Caprilles, o candidato opositor, utilizando-se de um discurso moderado obteve expressivos 44% dos votos. Não é pouca coisa. Se a interpretação da Constituição do país que determina a convocação de novas eleições em 30 dias prevalecer, ele deve ser o candidato natural. E vem forte. Um chavismo dividido teria sérias dificuldades nesse cenário.

Com todos os limites, contrições e equívocos, Chávez foi um dos maiores líderes políticos de seu tempo. Promoveu mudanças profundas na vida da população e mudou para sempre a política venezuelana. Ícone da resistência latino-americana ao neoliberalismo, teve papel fundamental na construção de um outro equilíbrio de forças no continente. O impacto de sua morte ultrapassa as fronteiras da República Bolivariana.

Se episódios como os golpes em Honduras e no Paraguai, bem como a resistência colombiana, patrocinada pelos EUA, às mudanças no continente nos relembram as ameaças à soberania dos países da América do Sul, o tempo é de união, nacional e regional, em torno das conquistas democráticas e cidadãs das mudanças ocorridas na Venezuela.

Chavez sai da vida para entrar para a história. Os rumos de sua “revolução”, no entanto, seguem em disputa. Para que a Venezuela não sofra um retrocesso, mas, ao contrário, reafirme seu destino de país livre e soberano, será preciso unidade política. Que os erros – que não foram poucos – sejam corrigidos e as mudanças aprofundadas para o empoderamento histórico (e de fato) daquele que deve ser sempre o protagonista de toda mudança real: o povo!

B&D no Correio: A era do ativismo político via internet

A ampla sala da Casa 14 de um conjunto residencial do Lago Sul não recebe mobília definitiva há mais de um ano. A brancura das paredes é quebrada por cartazes de manifestações e bandeiras de movimentos sociais dispostos no ambiente. As bandeiras dos movimentos Sem Terra e Sem Teto dividem espaço com um cartaz de cores verde e rosa, em que o símbolo do sexo masculino é adornado pelas palavras “homem, deixe o feminismo te libertar”. Em um tripé mais adiante, um banner ostenta o slogan dos jovens moradores da Casa 14: “Imaginar para revolucionar”. Eles têm entre 22 e 26 anos. Quando mudaram para o imóvel de dois pavimentos, na tranquila rua da quadra QL 28, os rapazes pretendiam passar por uma vivência política intensa. Integrantes do Brasil e Desenvolvimento (BeD), grupo político que nasceu no universo estudantil da Universidade de Brasília (UnB), sonhavam interferir na realidade política e social do Brasil. “Revolução”, dizem, “é lutar por uma nova política, mais inclusiva e participativa, mais justa e mais humana”.

Assim começa a matéria a respeito do B&D e de vários coletivos que, em todo o país, se uniram para fazer política transformadora. O texto foi publicado na edição impressa de hoje (11) no jornal Correio Braziliense, o maior da capital. Publicamos, abaixo, o texto na íntegra.

Aqui, para ler no site do jornal: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,14/2013/02/11/interna_politica,349007/jovens-formam-grupos-para-fiscalizar-a-aplicacao-de-recursos-publicos.shtml

B&D - na Casa 14

Correio Braziliense: A era do ativismo político via internet 

Seja para discutir temas nacionais ou fiscalizar a aplicação de recursos públicos, jovens formam grupos com a mesma característica: o uso das redes sociais como ferramenta de mobilização

Juliana Colares

A ampla sala da Casa 14 de um conjunto residencial do Lago Sul não recebe mobília definitiva há mais de um ano. A brancura das paredes é quebrada por cartazes de manifestações e bandeiras de movimentos sociais dispostos no ambiente. As bandeiras dos movimentos Sem Terra e Sem Teto dividem espaço com um cartaz de cores verde e rosa, em que o símbolo do sexo masculino é adornado pelas palavras “homem, deixe o feminismo te libertar”. Em um tripé mais adiante, um banner ostenta o slogan dos jovens moradores da Casa 14: “Imaginar para revolucionar”. Eles têm entre 22 e 26 anos. Quando mudaram para o imóvel de dois pavimentos, na tranquila rua da quadra QL 28, os rapazes pretendiam passar por uma vivência política intensa. Integrantes do Brasil e Desenvolvimento (BeD), grupo político que nasceu no universo estudantil da Universidade de Brasília (UnB), sonhavam interferir na realidade política e social do Brasil. “Revolução”, dizem, “é lutar por uma nova política, mais inclusiva e participativa, mais justa e mais humana”.

O BeD funciona num modelo de coletivo voluntário, participativo e suprapartidário que não só é espelhado na agenda política do país, como ajuda a pautar agentes políticos, a imprensa e a própria academia. Formato que vem ganhando força e espaço no país, é movido por pessoas que querem interferir nas tomadas de decisão do poder, fiscalizar a atuação dos eleitos para representar o povo e propor mudanças ao ordenamento jurídico. Muitas vezes, não têm sede própria nem fontes de recursos que não sejam as próprias carteiras. Não à toa, o salão da Casa 14 chamou tanto a atenção de seis amigos que integram o BeD. Quando decidiram mudar para lá, eles já tinham a ideia de transformar aquele espaço em um lugar de discussão e troca de conhecimento, assim como a rede mundial de computadores.

“A internet é fundamental. É nossa principal ferramenta de articulação e participação política. Lá, postamos vídeos que suscitam discussões, publicamos artigos e nos conectamos com outras pessoas e até com outros coletivos, o que nos ajuda a montar e participar de ações mais amplas”, disse Edemilson Paraná, jornalista, mestrando em sociologia e analista de comunicação do Ministério Público da União que milita no BeD.

Entre as ações do grupo, pode-se listar desde consultorias jurídicas e logísticas gratuitas a movimentos sociais até vídeos humorísticos que usam a ironia para falar de conhecidas figuras da política nacional. “Não somos um movimento social. Somos um agrupamento de pessoas que acreditam num conjunto de pautas e defendem um modelo de sociedade. Grupos como o nosso possibilitam a oxigenação, de fora para dentro, da estrutura tradicional de representação política”, disse Paraná.

Denúncias
O sociólogo da UnB e pesquisador do mundo virtual Antônio Flávio Testa lembra o poder que esses grupos têm de interferir na agenda política, levantando debates, fomentando denúncias e até interferindo na criação de projetos de lei. “Discussões iniciadas por alguns movimentos na internet acabam desembocando em legislações e obrigando o Congresso a se posicionar sobre o assunto”, disse. Mas ele não acredita que ações pontuais consigam interferir de forma contundente nos complexos processos decisórios. “Não enquanto a população não acordar para discutir essas coisas. As pessoas não acompanham o dia a dia dos políticos. Se dá o voto, tem que acompanhar”, defendeu.

Os protestos e abaixo-assinados não foram capazes de impedir a eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) à presidência do Senado. “O Congresso não tem o direito de decidir contra o desejo da sociedade”, disse um dos diretores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Márlon Reis, pouco antes da confirmação do nome que irá comandar o Congresso nos próximos dois anos. Nos dias que antecederam a eleição, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), também disse o que pensa sobre o assunto, em entrevista publicada no Correio: “Isso (o movimento na internet contra Calheiros, que ontem somava 1,34 milhão de assinaturas) pode ter efeito externo, não aqui dentro”.

Mobilização
Conheça as propostas de alguns grupos da sociedade criados para acompanhar e influenciar a política

Ocupe a Câmara
Grupo nascido nas redes sociais depois que vereadores de Belo Horizonte tentaram aumentar o próprio salário em 61,8% no apagar das luzes de 2011. Internautas se organizaram nas redes sociais com a proposta de nunca deixar a Câmara Municipal vazia.

Brasil e Desenvolvimento (BeD)
Reúne jovens que têm o objetivo de estimular as discussões sobre política, pautando não apenas a academia, como a imprensa e a própria atividade dos legisladores.

Transparência Hacker
Apesar do nome, não são piratas virtuais. Os especialistas em computadores apenas trabalham com dados que são abertos. A ideia é divulgar informações governamentais que já são públicas, tornando-as mais acessíveis.

Direitos Urbanos (DU)
Fundado no Recife, o grupo promove discussões sobre políticas que envolvem a capital pernambucana, como urbanismo e trânsito.

Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral
Reúne 51 entidades nacionais de todo o país com foco no processo eleitoral. Foi responsável pela campanha que originou a Lei da Ficha Limpa. Hoje, trabalha com um projeto para a reforma do sistema político brasileiro.

A serviço da transparência 

Também nascido da vontade de provocar mudanças, um outro grupo, o Transparência Hacker, acredita no poder do conhecimento e trabalha coletivamente para munir a sociedade com informação. Com braços em São Paulo, Belém e Brasília, trabalha para transformar dados desconexos em textos passíveis de interpretação pelo cidadão comum. O grupo de Brasília reuniu, por exemplo, todas as emendas parlamentares rubricadas pelos deputados distritais em 2012 e montou um mapa geolocalizado que permite que o usuário saiba para quais ações os recursos estão sendo direcionados, possibilitando a consulta por região administrativa do Distrito Federal. O resultado está no site www.eufiscalizo.com.br. Agora, eles estão fazendo o mesmo com as emendas de 2013. O resultado está sendo publicado no emendas.crowdmap.com.

“A palavra hacker foi deturpada. Hacker é aquele que revela o que está velado, partindo do conceito de que o conhecimento pertence a toda humanidade”, disse o servidor público formado em telecomunicações e informática Dênis Lima, 37 anos. “Nós costumamos fazer hackerdays. Pegamos um dia e reunimos pessoas com conhecimentos em áreas diferentes, como contabilidade, gastos públicos, direito e informática, e criamos aplicativos em que a população consegue acessar informações, não apenas dados não processados”.

As reuniões do grupo são feitas em espaços cedidos ou até em praças de alimentação. O dinheiro para pagar os domínios dos sites e as hospedagens dos bancos de dados saem dos bolsos dos participantes. “Não é preciso ter sede. Pode-se simplesmente fazer uso das redes sociais, por exemplo”, diz Antônio Flávio Testa. (JC)

O modelo de cidade 

É nas redes sociais que o grupo recifense Direitos Urbanos (DU) se organiza, promove discussões que fomentam ações coletivas. A mais conhecida é a luta para evitar que um cartão-postal da capital pernambucana, o Cais José Estelita, hoje ocupado por armazéns há muito em desuso, dê lugar a 13 edifícios. A obra, defendem, alteraria a paisagem e impactaria o trânsito.

O DU conseguiu pautar a imprensa e chamar a atenção da sociedade recifense. “Esse fenômeno que estamos vivendo é novo e importantíssimo”, defende Raquel Rolnik, ex-diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo. Mas ela não doura a pílula quando fala na capacidade que esses grupos têm de interferir nas relações de poder. “Esses movimentos ainda são minoritários, mas estão crescendo. Quando eles vão ter força suficiente para incidir na agenda política real, veremos.” (JC)