Jessé Souza, o MST e as mistificações do jornal O Globo

Por João Telésforo

A resposta do MST a O Globo sobre “por que o povo não sai às ruas contra a corrupção” (e que o jornal não publicou… ver abaixo) lembrou-me do que dizia o sociólogo Jessé Souza em trecho da entrevista ao Diplô Brasil que postei aqui faz alguns meses.  Vale a pena (re)ler os textos de ambos.

"A invisibilidade da desigualdade brasileira" - Jessé Souza.

Por que as lutas contra a desigualdade, nossa maior forma de corrupção, são tão invisíveis?

Jessé Souza, sobre “A balela do patrimonialismo estatal“:

“(…) Que os grandes bancos americanos tenham maquiado o balanço de incontáveis empresas nos últimos anos e até de países como a Grécia para obter lucros fantásticos é uma fraude de proporções planetárias mostrada no mundo todo, mas aqui continuamos repetindo a cantilena da corrupção apenas estatal. É uma tese infantil, falsa e contra todas as evidências empíricas, mas quando todos a repetem ela se torna verdade imposta. (…)

As falsas questões, no entanto, estão sempre no lugar de questões verdadeiras de modo a evitar que essas últimas sejam sequer percebidas e discutidas. Quase 70% do PIB nacional é ganho de capital (lucro e juros). Os pouco mais de 30% restantes são divididos entre nós, meros mortais que vivemos de salários. Nas sociedades europeias, essa relação é inversa. A balela do mercado virtuoso e do Estado corrupto permite que ‘esse escândalo’ – este sim verdadeiro e de alcance universal – jamais seja percebido ou discutido enquanto tal.

Outro ‘escândalo’ real e não fabricado é o Brasil possuir cerca de 1/3 de sua população sem qualquer chance de participar do mercado competitivo ou de defender seus interesses de longo prazo na política e na esfera pública. Esses são escândalos reais que sequer chegam a ser debatidos em eleições como a que acabamos de testemunhar.

Quem determina a ‘pauta’ das eleições não tem qualquer interesse nesses debates reais e que atingem a vida concreta de dezenas de milhões de brasileiros. É essa, a meu ver, a única função verdadeira da tese do ‘patrimonialismo estatal’: construir falsas oposições, como entre mercado virtuoso e Estado corrupto, para ocultar conflitos e contradições reais.”

Seguem abaixo respostas de Marina dos Santos, da Coordenação Nacional do MST. Neste momento, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) acampa no Ministério das Cidades, pelo direito à moradia. Por que será que O Globo não pergunta as razões de não haver milhares de pessoas presentes lá, apoiando a luta do MTST? Por que, ao invés disso, a Rede Globo mostrou em perspectiva criminalizadora a ocupação promovida faz uma semana pelos sem-teto?

Por que a população não sai às ruas contra a corrupção?

19 de julho de 2011

Da Página do MST

O jornal O Globo publicou uma reportagem no domingo para questionar por que os brasileiros não saem às ruas para protestar contra a corrupção.

Para fazer a matéria, os repórteres Jaqueline Falcão e Marcus Vinicius Gomes entrevistaram os organizadores das manifestações de defesa dos direitos dos homossexuais e da legalização da maconha. E a Coordenação Nacional do MST.

A repórter Jaqueline Falcão enviou as perguntas por correio eletrônico, que foram respondidas pela integrante da coordenação do MST, Marina dos Santos, e enviadas na quinta-feira em torno das 18h, dentro do prazo.

A repórter até então interessada não entrou mais em contato. A reportagem saiu só no domingo. E as respostas não foram aproveitadas.

Por que será?

Abaixo, leia as respostas da integrante da Coordenação Nacional do MST, Marina dos Santos, que não saíram em O Globo.

Por que o Brasil não sai às ruas contra a corrupção?

Arrisco uma tentativa de responder essa pergunta ampliando e diversificando o questionamento: por que o Brasil não sai às ruas para as questões políticas que definem os rumos do nosso país? O povo não saiu às ruas para protestar contra as privatizações – privataria – e a corrupção existente no governo FHC. Os casos foram numerosos – tanto é que substituiu-se o Procurador Geral da Republica pela figura do “Engavetador Geral da República”.

Não saiu às ruas quando o governo Lula liberou o plantio de sementes transgênicas, criou facilidades para o comércio de agrotóxicos e deu continuidade a uma política econômica que assegura lucros milionários ao sistema financeiro.

Os que querem que o povo vá as ruas para protestar contra o atual governo federal – ignorando a corrupção que viceja nos ninhos do tucanato – também querem ver o povo nas ruas, praças e campo fazendo política? Estão dispostos a chamar o povo para ir às ruas para exigir Reforma Agrária e Urbana, democratização dos meios de comunicação e a estatização do sistema financeiro?

O povo não é bobo. Não irá às ruas para atender ao chamado de alguns setores das elites porque sabe que a corrupção está entranhada na burguesia brasileira. Basta pedir a apuração e punição dos corruptores do setor privado junto ao estatal para que as vozes que se dizem combater a corrupção diminua, sensivelmente, em quantidade e intensidade.

Por que não vemos indignação contra a corrupção?

Há indignação sim. Mas essa indignação está, praticamente restrita à esfera individual, pessoal, de cada brasileiro. O poderio dos aparatos ideológicos do sistema e as políticas governamentais de cooptação, perseguição e repressão aos movimentos sociais, intensificadas nos governos neoliberais, fragilizaram os setores organizados da sociedade que tinham a capacidade de aglutinar a canalizar para as mobilizações populares as insatisfações que residem na esfera individual.

Esse cenário mudará. E povo voltará a fazer política nas ruas e, inclusive, para combater todas as práticas de corrupção, seja de que governo for. Quando isso ocorrer, alguns que querem ver o povo nas ruas agora assustados usarão seus azedos blogs para exigir que o povo seja tirado das ruas. Continuar lendo

Anúncios

Itamar Franco, amigo da reforma agrária e do MST

Por João Telésforo Medeiros Filho

Segue abaixo nota do site do MST, testemunhando o posicionamento favorável do ex-Presidente Itamar Franco ao movimento.

O exemplo de Itamar mostra que apoiar a reforma agrária e a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra por ela não é ato de extremismo, ao contrário da ideia que os setores reacionários tentam vender por aí.

Pelo contrário, apoiar o MST é querer “democratizar a concentrada estrutura fundiária, como condição de distribuição de riqueza, de geração de renda, de trabalho, de diminuição da violência e de preservação do meio ambiente”, tal como assinalou o ex-Presidente.

A trajetória política de Itamar pode ter apresentado contradições, mas nunca abandonou seu compromisso com a democracia, seja ao se opor à ditadura, seja ao apoiar a luta popular pela reforma agrária.

Itamar Franco, amigo de hoje e sempre

4 de julho de 2011

Da Página do MST
O presidente Itamar Franco foi convidado para participar do 5° Congresso do MST, realizado em junho de 2007, em Brasília.
Itamar não pôde participar, por problemas pessoais, mas enviou uma carta aos 18 mil trabalhadores acampados e assentados, que participavam da atividade.
“Reafirmo meu compromisso com a defesa irrestrita da Reforma Agrária, como condição para democratizar a concentrada estrutura fundiária, como condição de distribuição de riqueza, de geração de renda, de trabalho, de diminuição da violência e de preservação do meio ambiente”, escreveu Itamar.
O presidente morreu em decorrência de um acidente vascular cerebral na manhã de anteontem. Itamar estava internado desde o dia 21 de maio no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, quando foi diagnosticado com leucemia.Itamar completou 81 anos no último dia 28 de junho. Ele assumiu a Presidência após a renúncia de Fernando Collor de Mello e governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003.
Abaixo, leia a carta do ex-presidente Itamar Franco ao MST.
Do amigo de hoje e sempre
Parabenizo o Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra pela realização do 5° Congresso Nacional.
Manifesto meu afeto, respeito e admiração pela existência de uma democrática, legitima e autônoma organização representante dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. “Oxalá” que em nosso meio, a exemplo de vocês, eclodissem inúmeros, diversos movimentos sociais comprometidos com a organização e com o elevar do nível de consciência do povo Brasileiro.
Reafirmo meu compromisso com a defesa irrestrita da Reforma Agrária, como condição para democratizar a concentrada estrutura fundiária, como condição de distribuição de riqueza, de geração de renda, de trabalho, de diminuição da violência e de preservação do meio ambiente.
Orgulho-me de ter sido o primeiro presidente da República a receber o MST no Palácio da Alvorada.
Orgulho-me de, como Governador do Estado de Minas Gerais, termos juntos combatido a privatização de setores estratégicos como a usina hidrelétrica de  FURNAS e a Central Elétrica de Minas Gerais (CEMIG). Em Minas, em nossa gestão, não privatizamos as estradas e nenhum mineiro nunca pagou pedágio para trafegar em nossas rodovias.
Orgulho-me de, em minha gestão, nunca ter comprido nenhuma liminar de reintegração de posse contra aqueles que nada mais querem a não ser um pedaço de terra para o digno trabalho.
Mesmo quando o então presidente da república determinou que o exército invadisse nosso estado para enfrentar o MST que se encontrava nem sua fazenda. Em respeito à autonomia dos estados federativos solicitei que o exercito  não adentrasse o solo mineiro, porque com os sem terra tenho diálogo e respeito.
Determinei e cunhei a frase junto aos meus comandados da polícia militar “Reforma Agrária no meu governo não é caso de policia, mas de política”.
Como vocês, somo-me à justa trincheira da construção e defesa de um projeto nacional, democrático e soberano, que garanta o desenvolvimento, emprego e valorização do trabalho e que efetivamente melhore as condições de vida da nossa gente.
Parabéns MST, contem comigo,
Do amigo de hoje e sempre,Itamar Franco
Belo Horizonte 13 de Junho do ano de 2007.

Ruralistas reivindicam bolsa-desmatamento

Por João Telésforo Medeiros Filho

Em entrevista concedida hoje, João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), chama a atenção para o fato de que “o agronegócio está usando o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo [PC do B-SP] para alcançar dois objetivos básicos. Um é não pagar R$ 8 bilhões em multas que o Ibama aplicou por crimes ambientais. Em segundo lugar, liberar as áreas de fronteira agrícola da Amazônia e Cerrado para o capital internacional se apoderar”.

A estimativa de Stédile é otimista. Na avaliação do Ministério do Meio Ambiente, o custo da anistia contida no projeto Aldo-motossera de modificação do Código Florestal, caso aprovada, poderia chegar a R$ 10 bilhões.

O Estado não tem prestado o devido apoio a que os pequenos produtores têm direito; os avanços existem, mas são muito lentos – em itens essenciais reivindicados pelo MST como educação, assistência técnica, incentivo a práticas sustentáveis. Os governos alegam carência de recursos para cumprir seu papel.

Ora, a auditoria da dívida ecológica dos grandes devastadores e poluidores seria capaz de arrecadar bilhões. Só no Pará, em 2010, o IBAMA aplicou R$ 1 bilhão em multas. O problema é que elas não são pagas: menos de 1% do valor das multas por infrações ambientais foi pago entre 2005 e 2010 (v. aqui).

Cobrar dos grandes devastadores seria medida de desestímulo a novos desmatamentos e modo concreto de financiar políticas públicas para a agricultura sustentável.

E por que o Estado não faz isso? Por qual razão segue permitindo o descumprimento da lei e a destruição impune da nossa riquíssima biodiversidade, com graves consequências socioambientais? Porque, infelizmente, os grandes latifundiários sempre tiveram e seguem tendo muita força na política brasileira. Veja-se a situação do Congresso Nacional: na atual legislatura, segundo o DIAP, 217 Deputados e Senadores formam a bancada ruralista, que defende os interesses dos latifúndios e grandes multinacionais da área. Elegem-se em geral com base no poder econômico, no clientelismo, na exploração do analfabetismo político. No Congresso, a bancada atua de forma a tal ponto avessa aos direitos humanos, que se posiciona contra até mesmo a PEC do trabalho escravo.

Não é possível defender o desenvolvimento sustentável de modo coerente sem enfrentar os interesses em geral representados por essa bancada. Isso só pode ser feito mediante o combate à concentração econômica e o simultâneo trabalho de formiguinha na formação política do nosso povo: de uma cultura cidadã, de consciência social e ambiental – que implica o aprendizado também dos interesses que se contrapõem aos avanços nesses campos.

O grande adversário dessa bancada nos últimos anos tem nome: MST. A luta é inglória, Davi contra Golias. O agronegócio é rico e poderoso (veja-se, por exemplo, que um dos grandes latifundiários do Pará é o banqueiro Daniel Dantas…). O preço pago pela coragem dos sem-terra de desafiar o poder dominante é alto: são objeto de estigmatização midiática, violência simbólica constante. E também de violência física mesmo: não bastasse terem de se proteger de agressões da imprensa, precisam escapar de porrada de cacetete e bala de revólver.

No dia 17 de abril de 1996, faz precisamente 15 anos, 19 militantes do MST não conseguiram se esquivar das balas, e foram assassinados pela PM do estado do Pará, no massacre de Eldorado dos Carajás. Até hoje, os responsáveis não foram punidos.

Em memória daquela massacre, o Estado reconheceu esse dia oficialmente como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Hoje é dia de lembrar da luta dos sem-terra e da violência que sofrem. Dia de lembrar que o MST está do lado da cidadania, da justiça social no campo e na cidade, da sustentabilidade e da democracia. Dia de lembrar que apoiar a luta dos sem-terra é apoiar a mobilização social que será capaz de romper com o destino do Brasil como país que explora o seu povo para devastar seu meio ambiente e exportar matérias-primas. E que os interesses que instrumentalizaram o Estado e a polícia para executar aqueles 19 sem-terra encontram-se no lado oposto, e agem sistematicamente de modo violento.

Não se faz política sem tomar lado. Qual é o seu?

PS: clique aqui e descubra qual candidato à Presidência da República, em 2010, reivindicava a auditoria da dívida ecológica como forma de financiar o desenvolvimento tecnológico de formas alternativas de energia.

PS-2: O MST reivindica que o governo cobre as multas dos grandes proprietários infratores – grandes caloteiros – e crie “um programa de fomento, em que o governo pagaria para os pequenos agricultores reporem a floresta nas margens de rios e topo de montanhas, que recarregam o lençol freático”. Vale observar que a reforma agrária defendida pelo MST não consiste apenas na defesa da desconcentração da propriedade, mas no desenvolvimento de um modelo agrícola sustentável ambiental e socialmente, que requer, além de distribuição de terras, programas de políticas públicas de apoio, tal como esse.

Lições de Cidadania: a Justa-Raiva

Por João Telésforo Medeiros Filho

Segue mensagem do companheiro Lucas Sidrim, estudante de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Volto depois do vídeo.

“Envio para vocês um vídeo que os membros do Programa Lições de Cidadania/UFRN produziram em comunhão com moradores do Conjunto Habitacional Leningrado na divisa do Bairro Planalto com o do Guarapes aqui em Natal/RN, onde o núcleo Urbano do Programa atua.

A justa Raiva é componente básico do nosso trabalho de Educação e Assessoria Jurídica Popular, daí saiu esse vídeo simples, mas que mostra o contexto, os lutadores e lutadoras que nos ensinam bastante nessa Extensão Universitária.

Mas, afinal, o que é justa-raiva?


 

Notável o trabalho que vem sendo realizado pelo Lições de Cidadania. O projeto atua simultaneamente em quatro núcleos:

– Urbano, no Conjunto Habitacional Leningrado, no Bairro do Planalto, em Natal, em articulação com o MLB – Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas;

– Rural, no assentamento Resistência Potiguar, em Ceará-Mirim, em articulação com o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra;

– Penitenciário, no Presídio de Alcaçuz;

– EDHUPIN, Educação em Direitos Humanos Popular Infantil, com atuação transversal aos demais núcleos.

Nos quatro núcleos adota-se a perspectiva de educação popular de Paulo Freire,  caracterizada pela construção dialógica do conhecimento, em que “ambos são sujeitos na relação educando-educador e promove-se a inserção do indivíduo como membro ativo e transformador de sua comunidade, frente às violações e desigualdades encontradas no cotidiano das comunidades carentes da realidade potiguar”, segundo explica o blog do projeto (twitter aqui).

O B&D começou faz pouco tempo a atuar com o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) na luta pelo direito à moradia no DF (Brazlândia, em especial), e certamente temos muito a aprender com as experiências do Lições e outros grupos que têm procurado se unir aos movimentos sociais para transformar a injusta realidade brasileira e ir ao encontro dos anseios de libertação do nosso povo.