Um show de realidade

Por Izadora Xavier

Eu não tenho nada contra o Big Brother. O dia que eu conhecer alguém que não assista sua cota de bobagem na TV, saio correndo pro outro lado. Uma pessoa que só assiste alta cultura e informação profunda na TV deve ser alguém monstruoso, ou simplesmente muito chato de conviver. Eu não assisto BBB. Por outro lado, assisto mais do que a cota normal de bobageiras na TV, quem sou eu para falar do que os outros vêem.

Que no BBB nos confrontemos com episódios de racismo, homofobia ou machismo tampouco o faz algo ineditamente terrível na televisão. Que isso não seja único ou próprio ao BBB não me faz menos estupefata quando acontecem.

Quando um episódio de abuso é transmitido em rede nacional, faltam-me palavras para articular minha revolta. O pior não é só a ideia do que é sexo e consentimento na cabeça de um sujeito esteja tão deturpada que ele consiga se sentir confortável para fazer sexo com uma mulher desarcodada em frente às câmeras. Não estou dizendo que se ele fizesse escondido não haveria problema, óbvio que não.  Contudo, a revolta não se resolve com a demonização do sujeito, e a afirmação repetida de que ele está abissalmente errado (ajuda, é verdade). Pior ainda, esses panos quentes, esse acobertamento, essa transformação do episódio em algo normal (a moça diz que não se lembra de nada que aconteceu, e o apresentador do programa chama o que aconteceu de “amor”, depois do episódio editado e reproduzido), é isso que permite que a deturpação sobre o que é sexo e consentimento na cabeça dos sujeitos se reproduza, e que casos como esse se reproduzam. A violência do abuso, no caso como o da moça do BBB, não é apenas física, é sobretudo psciológica. Negar, com toda essa re-contação de fatos, é um segundo abuso. Sua subjetividade, vontade, desejo, enfim, sua humanidade, não foi negada apenas uma vez, pelo sujeito que abusa do corpo dela. Ela é negada uma segunda vez, quando o programa nos quer fazer acreditar que não participar do sexo que está sendo impingido sobre o seu corpo é normal, é “amor”.

Lembrar que violência requer desumanização do outro não é suficiente para dizer porque uma cena como a do BBB me revolta. Seria preciso entender e explicar o quanto é preciso de justificativas e naturalizações para reproduzirmos cotidianamente violências, e aí essas coisas se tornam inarticuláveis. Fica a revolta.

Uma ajuda para entender a realidade complexa dessas negações, e links para pessoas fazendo comentários mais articulados sobre o assunto.

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Político não pode ser dono de TV e rádio!

Por João Telésforo Medeiros Filho

Entre os vários pontos nos quais é preciso avançar para dar efetividade à previsão constitucional de uma comunicação livre, plural, diversa e democrática no Brasil, destaca-se a necessidade de impedir que parlamentares sejam proprietários de rádio e TV. Trata-se de evidente abuso, segundo explica o Ministro Paulo Bernardo:

É o Congresso que autoriza as concessões. Então, me parece claro que o congressista não pode ter concessão, para não legislar em causa própria. Os políticos já têm espaço garantido na televisão, nos programas eleitorais. E há também a vantagem nas disputas eleitorais, e o poder político e econômico.

É positivo que finalmente tenhamos um Ministro das Comunicações que se posiciona contra a lastimável situação de controle coronelista da comunicação no Brasil. Veja os dados do portal Donos da Mídia, e também – aqui (obrigado ao Thiago Maciel pela dica) – estudo da década de oitenta que mostra como em três anos e meio José Sarney e ACM (quando o primeiro era Presidente da República, e Antônio Carlos Magalhães, Ministro das Comunicações) utilizaram à exaustão a outorga de concessões de rádio e TV como moeda nas negociações com o Congresso – maneira nada republicana de reforçar clientelisticamente o próprio poder.

Um dos campeões do coronelismo eletrônico é, infelizmente, do meu estado, o Rio Grande do Norte: o Senador José Agripino Maia (DEM, ex-Arena, filho de ex-governador do RN), proprietário de uma TV (a retransmissora local da Record) e três rádios (veja aqui). A prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV, ex-PP, filha de ex-Senador do RN), é proprietária da retransmissora do SBT. A retransmissora da Globo, por sua vez, tem entre seus proprietários o agora Ministro Garibaldi Alves Filho e o Deputado Henrique Eduardo Alves (que já vai pela 10ª ou 11ª legislatura na Câmara, é o mais antigo por lá), ambos do PMDB, respectivamente sobrinho e filho do ex-Governador Aluísio Alves. Oligarquias que utilizam o controle da mídia como um dos trunfos para a perpetuidade no poder político – daí o nome coronelismo eletrônico.

Essa inadmissível situação se reproduz por todo o Brasil. 25% dos Senadores da legislatura encerrada em 2010 eram concessionários de rádio e TV.

Porém, o próprio Paulo Bernardo demonstra pessimismo nessa entrevista que deu à Folha:

Pretende abrir uma discussão pública sobre a presença de políticos na radiodifusão?
O projeto deixado por Franklin Martins sugere a proibição. Como depende do Congresso, vai ser difícil aprovar. É mais fácil fazer o impeachment do presidente da República do que impedir a renovação de uma concessão de rádio ou TV.

De fato, não é fácil forçar o Congresso a aprovar uma medida republicana que contraria o seu próprio interesse. É nosso papel, no entanto, fazê-lo! Mobilizar-nos com grande intensidade, para tornar mais custoso politicamente para os parlamentares não atenderem à nossa reivindicação.

Fala-se muito em reforma política, e normalmente o foco recai sobre a reforma eleitoral. Na minha opinião, dar efetividade às normas constitucionais referentes à regulação da mídia é a principal reforma política de que o país precisa. Teria grande efeito no empoderamento social e no enfraquecimento de sistemas coronelistas Brasil afora.

Quem, em sã consciência e de boa-fé, pode ser contra proibir parlamentares de serem proprietários de rádio e TV? Abrace essa causa!

“Joga a pedra na Geni”. A espetacularização do horror no caso Bruno

Edemilson Paraná

Não há como acompanhar a cobertura jornalística sobre o caso do goleiro Bruno e não observar a irresponsabilidade gritante da imprensa. O roteiro da cobertura midiática do suposto assassinato surpreende pela previsibilidade. O show de horrores, a hiper-exposição à informações irrelevantes e a especulação desmedida pouco diferenciam nossa “ultra-midiatizada” cobertura daqueles velhos tempos dos pasquins da imprensa marrom. Vende-se o interesse pelo próximo capítulo.

Um olhar mais atento sobre as tendências da cobertura revela o óbvio. Na primeira fase, quando o caso ainda começava a se delinear, o alvo era Eliza. Seu passado amoroso, o envolvimento com outros jogadores e a divulgação de declaração do goleiro Bruno, que disse à revista Veja ter conhecido Eliza em uma orgia, deram o tom da fase “joga a pedra na Geni”. Eliza, a “Maria-chuteira” era vista como uma amante “duvidosa”, chantagista. O goleiro Bruno, parte um golpe. Como se participar de orgias ou fazer um filho fossem atos de responsabilidade única e exclusiva de Elisa. O machismo, nesse ponto, é mais do que evidente. Bruno pode, Elisa não.

Abaixo, vídeo com entrevista de Eliza ao jornal Extra, do Rio sobre seu envolvimento com jogadores de futebol.

Antes disso, o envolvimento de Bruno em violência à Eliza e à prostitutas ou a declaração de que seria, de certo modo, natural bater em mulher não geraram grande comoção social. O caso Adriano e o caso Bruno foram rapidamente esquecidos ao tom de piadas e naturalização social do machismo. Triste ironia. Ninguém levou a sério as atitudes de Bruno, que meses antes teria obrigado Eliza a tomar abortivo e a ameaçado de morte.

Abaixo, depoimento de Eliza sobre ameaça de morte e a declaração de Bruno em relação ao colega Adriano.

Mas a fase “joga a pedra na Geni” durou pouco. A revelação, por um suposto participante do crime, um menor, sobre os requintes de crueldade com que Elisa foi torturada e morta alteraram substancialmente o foco da cobertura. A tese agora é “Bruno, o psicopata”. Não havia mais como culpar, ainda que implicitamente, a vítima.

Sandra Annemberg abriu edição do Jornal Hoje chamando de “monstruoso” o crime. Dias depois a Globo entrou ao vivo com participações de psicólogos e psiquiatras para discutir o comportamento do goleiro. Analisaram sua frieza, sua calma, sua crueldade, seu abandono pelos pais quando criança. Até ontem, Bruno era o capitão, um dos comandantes do Flamengo.

A TV Record, vejam só, fez o desserviço de ir ao interior do Piauí, conversar com o irmão do goleiro. Sem auxílio de advogado e sem recursos para se defender dos ataques fulminantes do microfone do repórter, o pobre se enrolou todo, disse que Bruno tinha abandonado a família. Rodrigo Fernandes, gari, de um português problemático, chorou, vestido com luvas de goleiro nas mãos (sim, a produção deve ter pedido para ele colocar) em frente às câmeras. Um técnico de Bruno, dos tempos do juvenil, também foi procurado, dessa vez pela Globo, para falar sobre os constantes problemas psicológicos do atleta.

Abaixo, vídeo da TV Record.

Mas se a tese mudou, o motor da cobertura seguiu ignorando a patologia social do machismo. A tese “Bruno, o psicopata” parece conveniente. É simples, superficial. O atleta seria um louco, desequilibrado, fora do padrão e não alguém que, do alto de sua posição de poder em uma relação opressiva de gênero, consentida socialmente, sente-se impune o suficiente para fazer o que bem entende. Quantos “casos Bruno” não acontecem todos os dias ao largo dos olhos da mídia e do resto da sociedade? Quantas mulheres não são barbaramente violentadas, mortas?

Os colegas da imprensa, no entanto, não parecem muito afeitos à contextualização de fato de informativa do acontecimento.Números? Estatísticas? Entrevistas com mulheres, líderes comunitários, cobranças às autoridades? Nada.

Faz sentido. O caso tem todos elementos de um bom thriller, desses que estampam de tempos em tempos um blockbuster de sucesso. O delegado espalhafatoso, que fala o que não deve, que acusa antes das provas e “que bota pra quebrar”. A Maria-chuteira. O psicopata. O menor influenciado. A esposa cúmplice e apaixonada. A sanguinolência da imagem narrativa de rotwaillers devorando pedaços de carne humana. O pai de Elisa, supostamente envolvido em um caso de estupro. A briga pela guarda da criança fruto do ato proibido. O caso deixaria com inveja qualquer roteirista dos casos Nardoni ou Mércia Nakashima, não menos espetacularizados pela mídia.

Abaixo, descrição detalhada do crime pela TV Globo.

A cada 5 minutos um flash informativo (sem informação) entra para dizer que Bruno comeu ou dormiu, entrou ou saiu da cela.

Dá para entender. Catarse vende e vende muito. Quando se transporta da arte, do imaginário, para a vida real, o alvoroço cresce exponencialmente. Tem gente que não desgruda o olho da TV. O reality show está formado.

O fato é que a imprensa, como instituição pública, dotada de função social, não pode, sob hipótese nenhuma, julgar, punir pelo espetáculo. A imprensa deve, como tal, colocar o evento no seu devido lugar: um jogador de futebol, figura pública, está sendo investigado por participação em um crime. E ponto. O resto é papel do judiciário. Quer vender o próximo capítulo de uma história intrigante? Não brinque com a vida das pessoas, faça uma novela. No mais, apresente apenas aquilo que lhe define como jornalismo: informação. E por informação entede-se contextualizar, com seriedade, o que há de público, de interesse social, neste caso de violência, e não os elementos picantes de uma trama psicótica.

“Isso é utópico. Você exige o impossível”, dizem meus colegas. “É natural que seja assim”, assumem. Utópico ou não, o fato é que o autoritarismo midiático, por vezes velado, emerge gritante em situações como esta. Aqui, a mídia revela o que há de mais obscuro porque vive e se alimenta do interesse do escândalo pelo escândalo, fazendo da informação, sua real matéria prima, algo secundário. Cobertura sem informação não é jornalismo.

Não preciso, portanto, fazer uma digressão profunda, depois disso, para o advogar o controle social e democrático dos meios de comunicação, uma legislação mais firme e eficaz, uma fiscalização dotada de poderes efetivos para que a imprensa, tal qual outras instituições sociais, cumpra o dever pelo qual justifica sua existência na sociedade. Em suma, para que nossa Constituição seja de fato cumprida.

Vários casos, como o da Escola Base em Brasília, do maestro Mozart em Sergipe, entre outros, mostram quão avassaladores são os danos que a espetacularização de um crime geram à sociedade e aos indivíduos que, por vezes erroneamente, são apontados como culpados. Se este é o caso do goleiro Bruno, pouco me importa. O fato é que a imprensa não deve, sob pena de macular a vida social e a democracia, julgar sem ter recebido autoridade para isso; fazer da informação um espetáculo de audiência.

Abaixo, vídeo com “Geni e o Zeppelim”, de Chico Buarque.

O Blog do Planalto e a política na era web 2.0

Por Edemilson Paraná

Hoje foi inaugurado o Blog do Planalto, o esperado e comentado Blog do presidente Lula. Pela manhã, o blog saiu do ar por não suportar o alto número de acessos. Resolvido o problema, o conteúdo pode ser conferido no endereço: http://blog.planalto.gov.br/

O Blog, no entanto, não será do presidente Lula, e sim da Presidência da República. Veja a descrição postada pela equipe do Blog:

Segunda-feira, 31 de agosto de 2009 às 14:00

Estamos aqui para compartilhar com vocês informações sobre o cotidiano da Presidência da República. A equipe do Blog do Planalto (ver foto) vai acompanhar de perto os eventos, atos e a agenda do Presidente para que você, seus amig@s, familiares e companheir@s de navegação na internet possam compreender melhor as ações, programas e políticas do governo.

A equipe coordenada pelo jornalista Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, precisará de boas idéias para não transformar o veículo em mais um despersonalizado portal de notícias sobre as atividade do presidente. A escolha foi clara, o Blog é do PLANALTO e não do LULA.

O blog tem vídeos, enquetes, mas peca ao não permitir comentários, um dos recursos centrais para o sucesso de blogs como fomentadores de debate público.

Conscientes do poder midiático e interativo dos novos meios digitais, nossos políticos começam a divulgar seus blogs, twitters e perfis em serviços da Web. O poder eleitoral dessas ferramentas é promissor, mas poucos testaram na prática.

Obama, que trabalha de forma genial sua imagem, foi um dos primeiros políticos a acordar para essa realidade e o que a vetorizou da melhor forma.

Os instrumentos liberados pelos recentes avanços tecnológicos abriram grandes possibilidades para a transformação da política e da relação representante-representado. Para além dos tradicionais meios de comunicação como a televisão e o rádio, a internet apresenta-se como uma meio cada vez mais abrangente e presente na vida das pessoas. A simultaneidade, convergência midiática e interatividade da web expandiram substancialmente a velocidade da produção e propagação de informações na sociedade contemporânea.

No âmbito da política, as discussões da transparência e participação ganharam espaço, permitindo ao eleitor e à imprensa proximidade cada vez maior não só do trabalho e atividades políticas do representante, mas também de sua privacidade. Nesse âmbito, a separação entre o público e o privado é cada vez menos clara. As discussões públicas no espaço da web potencializam o alcance das informações e suas múltiplas interpretações. Com o avanço da “midiatização” da sociedade, o trato com a informação torna-se, então, ainda mais estratégico.

Dessa maneira, avançamos rumo a um “comportamento midiático”. Os indivíduos, atores sociais, movimentos políticos e socais ocupam espaço na mídia de maneira ativa e racional produzindo conteúdo e informação que lhe são favoráveis. Muitos atos e falas, para além de sua real significação prática, têm como único objetivo construção de discurso, imagem e representação. A comunicação não é mais privilégio apenas das rádios, jornais e emissoras de televisão; e os atores sociais se tornam cada vez mais competentes em lidar com a imprensa e produção da imagem que desejam para si. O desenvolvimento e crescimento das assessorias de comunicação pessoais e institucionais inserem-se nesse movimento.

Reforçado pelas características intrínsecas à democracia liberal representativa em uma sociedade de massas, o debate político de maior relevância se dá, sobretudo, na esfera dos meios de comunicação de massa. E o sucesso das ações políticas acaba intrinsecamente ligado à construção da imagem e representação do agente que promoveu essa ação. Estar consciente e pronto para trabalhar com essa realidade torna-se fundamental a qualquer político.

Poderá a democratização da internet salvar a sociedade da despolitização? A era da ” política web 2.0 ”  determinará um novo tempo nos debates políticos? Alguns teóricos mais otimistas falam do poder reverberador e anárquico da rede. Um poder capaz de teletransportar-nos para a era da democracia direta.

Euforismos à parte, é preciso lembrar que a revolucionária campanha cibertnética #forasarney não foi capaz de estimular internautas a deixar suas cadeiras estofadas rumo à Esplanada dos Ministérios. E pergunta retorna: a internet favorece ou prejudica a mobilização social? Facilidade comunicacional ou letargia paralisante? Difícil responder, difícil prever.

Para Marshall McLuhan, um dos principais teóricos da Comunicação, “o meio é a mensagem”. O messianismo da frase de impacto alude à idéia de que a cognição dos meios de comunicação definem um modo de organização social específico. Assim a sociedade da escrita (Galáxia de Gutemberg) se desconfigura com a sociedade rádio-telegráfica (Galáxia de Marconi), e assim por diante.

É preciso tomar cuidado para não cairmos, diante dessa noção, nos exageros do determinismo tecnológico.Os meios de comunicação abrem  possibilidade para nova organização social, mas não podem ser vistos por si só como agentes dessa mudança. É a característica especifíca desse ou daquele meio de comunicação  que transformará a sociedade ou uso humano e racional das possibilidades comunicacionais liberadas por esses meios? Na dúvida entre homem e máquina, fico com o homem. Só nós seremos capazes de nos redimirmos,  só nós, humanos, poderemos mudar a política e a nossa sociedade. Seja via blog, twitter, internet, tv, rádio ou telégrafo, a inventividade e vontade do homem ainda determinam (e continuarão a determinar) a gênese e concretização de suas utopias.