Marchamos, marchemos e marcharemos.

As marchas tratam de uma intrépida construção. O que pode parecer, à primeira vista, aos olhos de desapegados, alheios e quejandos, um bando de gente gritando, sacodindo cartazes ou fazendo festa. Uma das críticas que oportuna, senão dolorosamente bate na ponta do nariz das esquerdas out-of-closet em tempos de identidades efêmeras, plásticas e líquidas. Dizem as línguas maledicentes, esquerda festiva.

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Não. Não é mera festa. E se for, que se festeje uma coisa: a mudança. Nem só de sobriedade e luta política vivem as esquerdas. É preciso, afinal, brindar e festejar as mudanças que representem efetivas conquistas.

Não estamos em tempos nos quais a ordem imperativa demolia exigências sociais, coletivas, organizadas. Nos quais liberdade resumia-se a estar conforme a normalidade. Nos quais o silêncio, a indiferença ou o medo encerravam-se em casa e fora dela, e tudo o que desafiasse essa atmosfera era colocado em porões escuros, expulso de sua terra, ou desaparecido. Continuar lendo

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Universidade contra a Homofobia

Pela liberdade de ser quem eu quiser ser, amar quem eu quiser amar e estar onde eu quiser estar

Começou hoje na Universidade de Brasília a II Semana Saúde contra a Homofobia. O evento vai até dia 25 (sexta-feira) e conta com rodas de conversa, cine-debate e um Happy Hour no melhor estilo UnB. 

A semana foi inaugurada com um festival de curtas, entre eles o formidável “Amanda e Monick”, de 17 minutos. Amanda é travesti e professora numa escola municipal em Barra de São Miguel, interior da Paraíba. Monick, também travesti, trabalha como prostituta em Santa Cruz do Capiberibe (PE) e aguarda um filho com sua companheira lésbica. Como é que é??? Isso mesmo que você leu: uma travesti e uma mulher lésbica têm um relacionamento amoroso e, em breve, terão um(a) filho(a). Histórias como esta nos obrigam a desconstruir todas aquelas caixinhas que utilizamos para definir (e limitar) o ser humano e a maneira com que ele se relaciona com o outro.

A quem e pra que servem essas caixinhas? Por que nos sujeitamos a elas? “Temos medo do sexo e nos custa aceitar que, neste incerto domínio, há opções e variantes que devam ser aceitas como manifestações da diversidade humana. Nesse aspecto da condição de homens e mulheres deve reinar a liberdade, permitindo que na vida sexual cada um escolha sua conduta e vocação sem outra limitação senão o respeito e a aquiescência do próximo.”, lembra Mario Vargas Llosa.

A semana passada também foi marcada pela temática do combate às opressões na Universidade de Brasília. Aproveitando o embalo da Marcha Internacional de Combate à Homofobia, o movimento LGBT da Universidade – com o apoio do Brasil e Desenvolvimento e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães – realizou o III UnB Fora do Armário. Fora do armário, fora das caixinhas, dos determinismos e do preconceito.

Saindo do Armário

Por Gustavo Capela

Hoje eu percebi.

Percebi o quanto o silêncio oprime e reduz os diferentes.

Percebi o quanto a frase “cada um tem sua opinião” é sinônimo de conservadorismo e inaptidão para o debate.

Descobri que até entre amigos, até entre universitários, bem formados, bem “educados” o preconceito reina como se normal fosse.

Não estou falando, dessa vez, de negros, de índios, de estrangeiros, de judeus, mas em algum momento histórico já foi de algum deles que estaria aqui falando. Estou falando dos homossexuais. Eles são a bola da vez. A eles é negado, dentre outros, um direito básico à vida humana: o direito ao sexo.

Aliás, o que seria esse direito ao sexo? Ele existe, afinal?

Os direitos sexuais envolvem um feixe de prerrogativas de índole sexual ou não que se vinculam ao desejo sexual de uma ou outra forma. São, portanto, “coisas que fazemos quando gostamos e temos interesse sexual por alguém”. Alguns exemplos “vulgares” que representam esse aspecto da vida e supostamente “atentam contra o pudor público” são o andar de mãos dadas, as amostras públicas de carinho, o beijo apaixonado ou o mero olhar e aparentar apaixonado. Todas essas atitudes são os chamados “exageros” que alguns homossexuais cometem e geram a ira dos paladinos da moral e razão.

Fato é que aparentemente o desejo de alguns é que o sexo seja permitido e praticado por uma parcela restrita da população (sounds familiar?). Se não me sinto atraído por aquilo que é socialmente aceitável, devo simplesmente esquecer a vida sexual.

Desde a escravidão sexual, que data da antiguidade, perpassa a idade média, mantém-se na era colonial e se expande no mundo globalizado de hoje, uma parcela da sociedade (branca, masculina e com poder aquisitivo alto) entende-se no direito de ditar quem pode e quem deve se relacionar sexualmente com quem (não fazem isso com mais nada, né?). As artimanhas variam, mas não se alteram ao longo do tempo. Da força física até à moral, várias são as tentativas de dizer quem devo desejar, com quem posso me envolver e, por fim, o que é aceitável socialmente.

O argumento mais ouvido atualmente que tenta desestabilizar a orientação sexual homo é o da “naturalidade”. Ouço, e vocês devem ouvir também, que o ato homossexual é anti-natural e contraria o biologicamente constituído. Devo perguntar a essas pessoas quantas delas fazem sexo simples e puramente com a finalidade de reprodução humana. Também pergunto se, por conta desse argumento, a pílula anticoncepcional, a camisinha, e outros instrumentos que impedem a gravidez são “anti-naturais” e, se o são, se essas pessoas vão parar de usa-los. Caso tudo que seja “anti-natural” seja indesejável, nos termos do que é considerado “anti-natural” por essas pessoas, quantas coisas mais teremos que parar de fazer?

A sexualidade, assim como todos os outros mecanismos corporais, as máquinas que utilizamos e as ferramentas que nos envolvem, são desenvolvidas e apuradas dentro de um arcabouço explicador socialmente constituído. Isso é dizer, a sexualidade, assim como a biologia e todas as outras ciências, é construto social e assim deve ser encarada.

A questão e as analogias podem parecer exageradas, mas o são porque o argumento “anti-natural” é exageradamente absurdo. Desde quando o prazer sexual é anti-natural? Desde quando o prazer sexual entre dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, é anti-natural? A “natureza” nada tem a ver com a opressão apresentada pelo preconceito dessas pessoas e deveria parar de ser invocada. Isso porque a real razão do preconceito contra homossexuais simplesmente inexiste. Qual é o problema, por exemplo, de uma mulher sentir atração sexual por outra? Exato. Nenhum.

Volto, então, ao ponto inicial. Percebi, como Heidegger, o quanto o silêncio fala. O quanto o silêncio cala, inclusive. Porque por trás de um véu ignorante e apaziguador, vigente em nossa sociedade, está um conservadorismo raivoso pronto para apedrejar aqueles que, sem ferir ou impedir acesso a direitos de qualquer um, tem uma orientação sexual divergente. Ou seja, porque um homem sente-se atraído sexualmente por homens ele é relegado à condição de cidadão de segunda categoria.

Com tudo isso em vista, reforço minha idéia anterior que a homossexualidade é, antes de mais nada, um ato corajoso e autêntico-libertador. Os homossexuais são espécies de super-homens de Nietzsche por combaterem uma moralidade massificadora e lutarem pela concretização de novos valores. Valores emancipatórios que respeitam e apreciam a autenticidade e pluralidade inerentes ao ser humano e que buscam na “natureza” um ponto de partida, não seus limites.

Deveríamos seguir o exemplo e sairmos, todos, do armário.