“Esquenta!”, DG e a disputa pela representação da nova classe trabalhadora

A mãe de DG foi ao Esquenta, mas não teve espaço para vocalizar as críticas que vem fazendo às UPPs.

A mãe de DG foi ao Esquenta, mas não teve espaço para vocalizar as críticas que vem fazendo às UPPs.

Vejo o “Esquenta” como um dos retratos do empoderamento conquistado por uma classe subalterna durante os anos Lula, e também de seus limites (que parecem cada vez mais incontornáveis nos moldes da atual governabilidade conservadora).

Esse empoderamento veio, como se sabe, pela conquista de aumento do poder de consumo. Um empoderamento que pode ser frágil e sem dúvida algum contraditório, mas foi empoderamento, porque o acesso a esses bens ampliou as condições materiais de autocomunicação e auto-organização desses setores – veja-se os “rolezinhos”, um dos exemplos mais marcantes desse fenômeno. Frágil, porque é preciso analisar o peso do endividamento das famílias nessa expansão do consumo, e mais ainda porque basicamente não se tocou nas estruturas que concentram poder – material e ideológico – nas classes e setores dominantes.

Porém, embora não se tenha enfrentado essas estruturas, elas não ficaram imunes à maior inclusão desse setor subalterno no mercado de consumo. Não se promoveu a democratização dos meios de radiodifusão nem se mexeu, aparentemente, nos privilégios fiscais de Globo e cia, mas fica cada vez mais difícil para a Globo e cia ignorarem a existência dessa classe em relativa ascensão econômica.

Engana-se redondamente quem pensa que basta, para não perder a hegemonia ideológica e de mercado sobre esse setor, fazer propaganda dirigida para ele (o que tem acontecido bastante, claro). A Globo sabe que seu grande concorrente, cada vez mais, é a internet, com suas redes de autoprodução e difusão de cultura e entretenimento, inclusive entre esse segmento de trabalhadores pobres. Prova disso é a reformulação que está fazendo em diversos programas para tentar torná-los mais “interativos” e parecidos com as redes sociais – não assisti ao Fantástico de ontem, mas dizem que foi mais um marco nesse sentido. Então, preocupada com a hegemonia de audiência e ideológica sobre o setor pobre consumidor, o ‘consumitariado’, a Globo sabe que, cada vez mais, não bastará mostrá-lo como objeto; é preciso, tal como acontece nas redes sociais, promover sua inclusão como sujeitos produtores de cultura e entretenimento, em alguma medida.

O “Esquenta” é a principal resposta da Globo, até aqui, a esse duplo movimento: à ascensão consumidora de uma classe, e às mudanças forçadas pela nova lógica social de produção e comunicação, em escala global (cujas raízes não cabe examinar neste texto), que têm como grande símbolo as redes sociais.

Não é por acaso, então, que Douglas Silva, o DG, um dos jovens negros assassinados numa favela do Rio de Janeiro nessa semana, fosse um dançarino de destaque do Esquenta, e não do Fantástico, Domingão do Faustão, do programa do Luciano Huck, Fátima Bernardes, Ana Maria Braga ou Serginho Groisman. Obviamente, nesses outros programas também devem trabalhar jovens pobres e negros de favelas do Rio de Janeiro. Porém, muito provavelmente, não na mesma proporção do Esquenta, e o mais importante: não tanto diante das câmeras, e muito menos em posições de destaque e como porta-vozes da estética produzida pelos segmentos da periferia, como no programa de Regina Casé. Estética essa que não é homogênea, claro, e que é seletivamente recortada nas suas representações admitidas e priorizadas no “Esquenta!”.

O Esquenta é, pois, uma pequena abertura conquistada pelas lutas dessa classe em relativa ascensão. Conquistada pelas lutas, sim: as pequenas grandes conquistas do ciclo lulista – não só Bolsa-Família, mas, mais ainda, políticas como o aumento real sustentado do salário-mínimo – foram arrancadas do poder: respostas do Estado para tentar se legitimar diante de anos e anos de mobilização popular por justiça social. É claro que a resposta lulista foi limitada, deu-se nos marcos de não promover reformas estruturantes; e por isso mesmo, parece delinear-se não só sua precariedade, como seu esgotamento. Porém, isso não muda o fato de que esses parcos avanços foram obtidos pelas lutas, como tentativas dos poderosos de “dar os anéis (ou nem isso) para não perder os dedos”. De modo análogo, o programa “Esquenta”.

Dada a função que cumpre e sua composição social de classe (no palco e na audiência), o Esquenta não tinha como não se dedicar, hoje, à morte de seu dançarino Douglas DG, não tinha como não contextualizá-la como mais um episódio brutal da violência contra a juventude pobre e negra das periferias do Rio de Janeiro e do Brasil… Devemos comemorar, pois, que se tenha falado nesses assuntos, ainda que de modo passageiro e superficial, no programa de Regina Casé de hoje. Trata-se de um furo do bloqueio midiático sobre a discussão desses temas, conquistado pelas lutas dos movimentos negros, das periferias, de cultura, populares.

Porém, basta olhar com um pouco mais atenção para a edição de hoje do Esquenta para se perceber os limites e o caráter contraditório da “abertura” em que ele consiste. Praticamente não se falou da violência policial sistemática dirigida contra a população pobre e negra das favelas. Não se tocou no fato de que o Estado é um dos grandes instrumentos desse ciclo de criminalização da pobreza e da juventude negra.

O tom geral foi o de se falar da violência em abstrato, sem denunciar as políticas de segurança pública como parte fundamental desse quadro violento. Contraditoriamente, o discurso genérico “contra a violência” que marcou o programa de hoje pode alimentar justamente a legitimação da resposta policialesca que é parte do problema, e não de sua solução.  A resposta do governo do Rio à morte de DG, que tem indícios sérios de responsabilidade da polícia, é bastante eloquente sobre isso: na repressão ao protesto da população indignada da comunidade do Pavão-Pavãozinho, mais um jovem morto pela ação da PM: Edilson da Silva.

Não é uma coincidência que o Esquenta de hoje não tenha falado sobre Edilson. Não era conveniente para os interesses da Globo lembrar que insistir na resposta policial à violência só vem agravando-a ainda mais (perdi o começo do programa e posso ter tido algum lapso de atenção, mas, caso alguém tenha tocado no tema por lá, foi de modo extremamente passageiro e sem desdobrar a crítica). Mais conveniente era falar de combater a violência, em abstrato, e até mesmo a impunidade (!), como o fez Jô Soares no programa (e não para falar de impunidade de policiais…). Ou seja: a solução seria punir ainda mais… Como se os jovens das favelas já não estivessem sendo punidos, muitas vezes com a morte, por sua condição social e identidade racial.

Significativas, também, foram outras falas do Esquenta, como a de Fátima Bernardes. A apresentadora disse que o Estado tem de estar presente na favela também com educação. É claro que já é alguma coisa reconhecer-se a necessidade de superação da desigualdade no acesso à educação, saúde, etc. Porém, a armadilha desse tipo de discurso é que critica a omissão do Estado, mas silencia diante da outra face complementar dela: o inchaço de seu aparato repressor. Esse é o discurso que se tenta construir, agora, para legitimar a ocupação militarizada das favelas: o problema não estaria exatamente nela, mas na ausência das políticas sociais. Ou seja, uma vez que se “compense” a violência sistemática, a criminalização da pobreza, com “políticas sociais” (“UPP social”), aí o problema estaria resolvido… Como se não fosse preciso mudar radicalmente as políticas de segurança pública, como se elas e a omissão do braço social do Estado não fossem parte de uma mesma política.

O fato é que são. O projeto das UPPs mostra muito bem isso, como parte de uma lógica de gestão neoliberal da pobreza. Neoliberal?! Sim. O neoliberalismo produz a “ascensão do Estado penal”, “em resposta à crescente inseguridade social, e não à insegurança criminal”, diz o sociólogo Loïc Wacquant, autor da já clássica obra “Punir os pobres: o governo neoliberal da inseguridade social” (2009). O “neoliberalismo realmente existente”, diz Wacquant, consiste não na redução do Estado (conforme sua propaganda ideológica), mas em sua reengenharia, na “construção de um Estado forte capaz de opor-se de modo efetivo à resistência social à mercantilização e de moldar culturalmente subjetividades em conformidade com isso”. Trata-se, diz ainda o francês radicado nos Estados Unidos, de uma “articulação entre Estado, mercado e cidadania que direciona o primeiro para impor o selo da segunda na terceira”.

O Estado não diminui, mas ganha um novo perfil, ainda mais forte como máquina de estratificação social a serviço da mercantilização. No caso da “ocupação” das favelas, isso fica bastante claro: o projeto das UPPs envolve não apenas o disciplinamento político de uma classe via repressão explícita, mas também uma disputa econômica pelo controle do mercado consumidor e produtivo dos territórios “pacificados”… A retórica é de que o controle territorial pelo Estado teria por fim “levar serviços básicos” às favelas, mas o que se tem registrado não é isso.

A disputa pelo controle da economia dos territórios das favelas alcança não apenas a concorrência comercial pela prestação de alguns serviços, mas, de modo bastante central, a ofensiva de inclusão daquelas terras no mercado imobiliário dominado pelas grandes empresas “do asfalto”. Não por acaso, tem se registrado alta brutal de preços dos imóveis de favelas “pacificadas”, o que tem expulsado a pobreza para áreas mais periféricas do Rio e gerado lucros exorbitantes para o capital imobiliário.

Vale lembrar que em janeiro deste ano, o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro foi homenageado pelo Esquenta devido ao seu trabalho com as UPPs. Foram blocos e mais blocos que falavam dos benefícios das Unidades, contradizendo outros muitos veículos midiáticos populares que trataram do assunto.

UPPs, governos e Rede Globo (e suas concorrentes da grande mídia) estão, como é bastante notório, unidos nesse projeto. Controlar territórios pobres de modo militarizado, não para garantir a segurança daquela população, mas para discipliná-la como público consumidor e assujeitado. O “Esquenta” de hoje, ao não enfrentar a falência das UPPs ou enfrentar o tema da violência policial, mostrou-se como dimensão contraditória desse projeto. Contraditória porque esse programa, justamente por ser uma tentativa de disputar a representação simbólica da classe subalterna em ascensão (como parte do esforço de domesticá-la), precisa mostrá-la como sujeito, de alguma maneira – mesmo uma versão bastante parcial e disciplinada desse sujeito. Ao fazer isso, abre um terreno de disputa menos desvantajoso para a autoexpressão desse sujeito e de suas lutas do que a programação “comum” da Rede Globo e das demais grandes emissoras de TV.

Como disse o megainvestidor norte-americano Warren Buffett, lembrado outro dia pelo Vladimir Safatle: “Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo”. Não sei quem está vencendo, sei que precisamos refinar nossos instrumentos de análise, pois tanto as estratégias de resistência e produção subalterna, como as de tentativa de seu apassivamento, apropriação e direcionamento, têm se sofisticado. Mais útil do que celebrar as pequenas aberturas como se fossem revolucionárias, ou lamentar de modo impotente o fato de que não o são, é investigar a realidade dialeticamente, para pensar estratégias que alarguem a materialidade dessas frestas e evitem seu disciplinamento.

PS: este texto foi aprimorado pelo diálogo com o professor Edson Farias e por sugestões da Anne Botelho. Obviamente, porém, as opiniões registradas aqui, com as imprecisões que possam ter, são de responsabilidade unicamente minha.

Anúncios

Decifrando o Lulismo

Por João Telésforo Medeiros Filho

Imperdível o relato do Hugo Albuquerque sobre a banca de livre-docência do André Singer na USP. Reproduzo do blog O Descurvo:

 A Livre-Docência de André Singer: Lulismo, Socialismo e o Novo Brasil

Ontem, o Professor André Singer conquistou sua livre-docência – por unanimidade e com nota máxima – pelo Departamento do Ciência Política da FFLCH com um trabalho que é, na verdade, uma compilação do seu já clássico Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo com outro artigo seu, este bem mais recente, A Segunda Alma do Partido dos Trabalhadores e algo mais (ainda estou caçando o texto final do trabalho). A banca de arguição, presidida por Fernando Limongi, contou com a presença de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Maria Victória Benevides, Leda Paulani e Francisco de Oliveira – e, como não poderia ser diferente, gerou um belíssimo debate.
Singer é, sem dúvida, dos observadores mais atentos do Brasil atual. E o fato de ser um intelectual militante não prejudica em nada sua análise, ao contrário, só lhe proporciona uma visão privilegiada do Brasil contemporâneo. O centro gravitacional do trabalho de sua tese gira em torno do realinhamento eleitoral que ocorreu no Brasil nos últimos anos, fenômeno que ele credita às transformações socioeconômicas brasileiras promovidas pelas politicas do Governo Lula, cuja pedra de toque teria sido a ascensão política do chamado “sub-proletariado” no período – cujas implicações fazem se sentir dialeticamente (no sentido marxista) na formulação de novas políticas.
O realinhamento do modelo de Singer é explicado por gráficos que comprovam a mudança da base social petista – deixando de ser um partido dos trabalhadores profissionais e de pequenos burgueses instruídos para se tornar um partido votado por proletários, “sub-proletários” e mesmo pelo lúmpen, tornando-se um partido dos pobres. Em suma, é como se as bases sociais do eleitorado de Lula (em 2006) e Dilma tenham se tornado parecidas com as que elegeram Collor em 1989 – inclusive porque a ascensão junto as categorias de renda mais baixa não veio acompanhada de uma ascensão nas categorias de renda mais alta. Singer observa como esse fenômeno alterou o equilíbrio de forças entre os espectros políticos, alterando por completo a disputa política no país.
Na arguição de ontem, ele começou por estabelecer a diferenciação entre o fenômeno de Lula e o de Vargas em resposta à fala de Bresser, o que é uma obviedade tremenda, mas é preciso pontuar. Passado isso, tivemos os bons questionamentos de Maria Victória Benevides acerca daquilo que Singer considera por “conservadorismo social” do “sub-proletariado”, isso seria uma marca “ideológica” ou uma estratégia de sobrevivência? Esse questionamento é bastante válido, uma vez que ele é uma das frestas da tese de Singer – o que demonstra, precisamente, certas insuficiências do racionalismo em tentar explicar fenômenos de sujeição voluntária (ou, mais especificamente, de investimentos do desejo, e vice-versa, no campo social), descambando para alguma forma de moralismo.
Singer sustentou o caráter ideológico desse conservadorismo social: o que em outras palavras reforça o paradoxo de, apesar de considerar certos dados reais – e não abstrações ideais, como fazem, infelizmente, muitos dos nossos marxistas – para analisar a a disposição das forças políticas antes e depois do Governo Lula, acabar tangenciando a causa material de tanto, sem adentrar nela, superestimando a importância da consciência (ou a falta dela) no processo histórico e, inversamente, subestimando o desejo – o que alude a uma contradição em termos, na qual o posicionamento dos trabalhadores (e “sub-proletários”) é descrita com precisão, mas o próprio modo social que ele determina como tal acaba sendo idealizado, por ignorar a importância do desejo (e do recalque) na constituição do processo histórico.
Há muito desse “conservadorismo” que é em certa medida perversão do desejo gregário e há aquilo que, de fato, é a própria resultante da pragmática do ser humano posto frente a frente da escassez radical de recursos. A primeira parte do fenômeno não deixa de ser uma construção do poder soberano – ainda que a consciência seja apenas uma variável dele, nem a mais importante – e a segunda parte é uma colateralidade. Uma parte da história é política, a outra socioeconômica, mas o tal conservadorismo social é na verdade um rótulo que reduz uma ampla gama de fenômenos diferentes, nem sempre conexos.
Na bela arguição da professora Leda Paulani (FEA-USP), dois pontos centrais foram levantados, a saber, as dúvidas sobre a sustentabilidade econômica dos avanços do governo e, por fim, um questionamento sobre o próprio tamanho desses avanços, uma vez que a suposta distribuição funcional da renda pró-trabalho pode sofrer uma objeção se considerarmos os autônomos entre os trabalhadores – o faria a tese de Singer de que o Governo Lula produziu uma soma zero, fazendo o Trabalho ter, ao final de seu mandato, a mesma importância relativa do que no começo do Governo FHC -, o que faria com que o “reformismo fraco” que Singer atribui ao Lulismo fosse, na verdade, um reformismo neoliberal.
Singer, refutando o otimismo que Leda lhe atribuiu – e, de fato, não acho que ele seja propriamente otimista – ficou titubeante quanto a questão das séries históricas, já que ele não tinha considerado  a possibilidade de inclusão da renda dos autônomos como renda do trabalho – o que diminuiria o impacto do crescimento da renda do Trabalho, deixando seu desenvolvimento quase que em nível estacionário. Cá do nosso lado, é necessário considerar que a renda dos autônomos representa uma variável econômica importante, mas consideramos que ela não é propriamente renda do Trabalho, por menor que seja um meio de produção – e seu referente grau de controle de mercado -, a propriedade dele põe o sujeito em outra condição social em relação a quem não é proprietário – em suma, mesmo que o motorista de uma família de elite ganhe mais do que um taxista, eles estão condicionados a um regime de controle diferente, o que os põe em classes sociais diferentes.
Sobre a questão da estabilidade do processo de desenvolvimento econômico, Singer reiterou que seu trabalho não buscar focar exatamente nesta variável, mas sim no fato de que o Lulismo, pelo modo como se articula, se afigura como um instrumento político capaz de dirimir crises capitalistas com medidas ligeiramente anti-capitalistas, uma vez que dialeticamente, a crise seja inerente ao capitalismo – e reforçou, por fim, que o reformismo lulista é social, uma vez que mesmo que num grau fraco, ele não cria uma tendência de aumento da exploração do Trabalho pelo Capital como, por exemplo, propõe o projeto do PSDB.
Chico de Oliveira, com a sinceridade que lhe é peculiar, levantou como objeção à tese de Singer sua própria tese de hegemonia às avessas da classe trabalhadora – reavivando a polêmica que os dois estão travando há algum tempo na Academia -, o que, trocando em miúdos, seria o seguinte: é como se a classe trabalhadora tivesse chegado ao poder e, por meio dos seus representantes, estaria atuando para o desenvolvimento deste tipo de Capitalismo por meio da capacidade de investimento que os fundos de pensão possuem.
A resposta de Singer, aqui, foi categórica: é elementar, dentro do pensamento marxista clássico, que a classe trabalhadora, dialeticamente, faz expandir o mesmo Capitalismo com o qual ela estabelece tensão. Mais do que isso, que a participação dos fundos de pensão no desenvolvimento do capital privado brasileiro, na verdade, só pode ser devidamente analisado nos momentos de crise, quando a influência da classe trabalhadora – enquanto sócia imprópria desse capital – força que seus gerentes tomem medidas anticapitalistas como vimos no auge da crise de 2008. Só faltou Singer concluir o óbvio: só há Trabalho – logo, trabalhadores – porque há Capital, isto é, o Capitalismo é marcado, antes de mais nada, por uma clivagem do processo produtivo que estabelece uma cisão absoluta entre a produção do valor e sua realização, causando um permanente estranhamento entre trabalhadores e o produto de sua atividade.
Podemos dizer, à maneira de Marx, que a condição do trabalhador é sim contraditória (em sentido antagônico), pois em seu núcleo ontológico reside a negação dele mesmo em virtude de como se desdobra a práxis humana – proposição com a qual não concordamos inteiramente, uma vez que não admitimos o negativo enquanto elemento constitutivo do real, o que, em apertada síntese, seria o mesmo que dizer que Marx acertou por linhas tortas: a identidade subjetiva de trabalhador alude a uma clivagem no sistema produtivo que lhe é anterior e a qual ela serve e que é, na verdade, insustentável em termos reais – o sujeito proletarizado ao combater o sistema que ajuda a expandir o faz em circunstâncias diferentes, a primeira, escapando aos mecanismos (identitários) de captura e a segunda, quando não consegue fazê-lo. O Capitalismo, em outras palavras, é o sistema que afirma ontologicamente o trabalhador, do mesmo modo que o sistema de produção antigo fazia com o escravo.
Seja como for, mesmo discordando do método, concordamos com as linhas gerais da conclusão de Singer acerca da falácia contida na tese da hegemonia às avessas e, também, no que toca à própria condição prática do trabalhador em meio à História – em outras palavras, uma medida  tomada por trabalhadores, a favor de si mesmos, dentro do sistema capitalista consiste, inequivocamente, em uma medida anticapitalista, pois subverte a própria estruturação do domínio pela inversão de direção dos mecanismos deste sistema econômico (uma versão enfraquecida do que o próprio Marx propunha, aliás…).
No entanto, o conceito de “sub-proletariado”, criado pelo pai de André, o Professor Paul Singer, também nos parece questionável: se as classes sociais são grupos, dentro da sociedade, determinadas pela função que elas ocupam em relação à produção – embora relevemos a questão da consciência a um segundo plano -, então o sub-proletariado não existe, ele é como se fosse uma foto que tenta explicar o processo (acidentado) de formação do proletariado brasileiro.
A importância de pontuar isso vai para além de um mero preciosismo terminológico, ela visa estabelecer um norte que contemple o processo de produção da própria classe trabalhadora como tal para, assim, compreender porque mesmo debaixo do choque dos governos FHC, uma classe trabalhadora nacional propriamente atinge uma massa relevante e não só o PSDB termina derrotado como, antes mesmo, o paradigma de socialismo petista  (socialista europeu ocidental) se esgota – o que não quer dizer que a Carta ao Povo Brasileiro seja nem de longe a descoberta da roda por parte da hierarquia petista, mas sim que houve a percepção de que o modelo anterior não se conectava com a demanda que buscava encampar e, na falta de algo melhor, a pragmática viria a calhar, pelo menos temporariamente.
Ao nosso ver, não há “ascensão do sub-proletariado”, mas sim o surgimento do proletariado brasileiro como modo histórico e social, uma vez que a população camponesa incorporada pela industrialização tardia, finalmente se assenta (ainda que muito mal) na urbe estabelecendo um vínculo efetivo com o sistema de produção capitalista e assim se assumindo como parte dele. Isso é efeito de um efeito dominó inciado por Vargas e que nem mesmo o projeto de FHC foi capaz de deter, ao contrário, terminou por molda-lo, ainda que colateralmente.
A chegada ao poder do PT só foi possível porque, de alguma forma, se percebeu a impossibilidade de se levar a cabo o modelo socialista ocidental para o Brasil, pois isso não se constituía em um movimento real do e pelo próprio proletariado nacional. A Carta ao Povo Brasileiro foi o movimento que pôs, por vias tortas, fim ao mais pesado dessa dissonância e essa talvez seja a minha grande discordância quanto ao trabalho de Singer – e que eu externei pessoalmente para ele, há mais ou menos um ano.
A colocação final, de Rafael Limongi, foi bastante fraca. Levantar uma objeção de que a base social do petismo não mudou porque hoje o PT é votado, quase que de forma uniforme, por eleitores de todas as classes, não sendo propriamente o “partido dos pobres” é um equívoco, porque Singer, como ele próprio respondeu, estruturou sua análise na comparação de como era o eleitorado petista em 1989 e o que ele se tornou agora: se antes o eleitor petista era, reiteramos, o trabalhador profissional e o profissional liberal, hoje, o partido tem o grosso da sua votação entre os setores do “sub-proletariado” e, mesmo, do lúmpen, o que marca uma inequívoca alteração relativa da constituição social da base do partido.
Por fim, ao nosso ver, os méritos do trabalho de Singer repousam precisamente no fato de que os erros e equívocos nele presentes – e não são poucos – são eminentemente científicos, isto é, deixam as portas e janelas abertas para a contínua construção da obra, não se rendendo, pelo menos não metodologicamente, aos becos sem saída que o caminho fácil da ortodoxia produz. Ainda mais levando em consideração que os dados, relações análises que ele traz à baila sejam, sem dúvida, os itens fundamentais para a compreensão do Brasil contemporâneo, por mais que seu autor se fie por demais ao paradigma racionalista, assentado sobre instrumentais da filosofia alemã do século 19º e sua insistente sobrevalorização da consciência.
Nesse sentido, a obra de Singer é peça essencial, embora mereça ser relida considerando um elemento que surge nela a todo momento na forma de uma sombra misteriosa: o desejo e sua relação de mútua afetação com o social, ou seja, a própria produção inconsciente coletiva e sua relação com um dos maiores abalos já vistos em nossa história, no qual um fenômeno econômico, fruto de políticas específicas, pela primeira vez ameaçaram o equilíbrio social estamental, dando ensejo para mudanças mais profundas do que pode supor nossa vã filosofia.