Carta a um amigo petista

Edemilson Paraná

Tomo emprestadas as palavras do Frei Betto para manifestar meu total descontentamento com alvorecer de um dos principais partido de esquerda da história deste país, o PT.

Os incontáveis acontecimentos dos últimos anos somam-se a recém intervenção da cúpula nacional na decisão estudual do PT maranhense de apoiar a candidatura ao governo do deputado Flávio Dino (PCdoB). Sem dó, escrúpulo ou piedade com a própria história, a direção nacional do PT jogou o partido no colo da família Sarney em uma espúria e clientilista aliança pelo governo local. Uma lástima.

Aos petistas lutadores, honestos, coerentes e verdadeiramente sonhadores por um Brasil melhor, livre das velhas oligarquias (creio, ainda são muitos) força e coragem para lutar contra a degradação de seu próprio partido. Espero que consigam um dia recolocar o PT em sua trajetória histórica.

Carta a um amigo petista

Frei Betto

Meu caro: sua carta me chegou com sabor de velhos tempos, pelo correio, em envelope selado e papel sem pauta, no qual você descreve, em boa caligrafia, a confusão política que o atormenta.

Pressinto quão sofrido é para você ver o seu partido refém de velhas raposas da política brasileira, com o risco de ser definitivamente tragado, como Jonas, pela baleia…, sem a sorte de sair vivo do outro lado.

A política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível. O sábio italiano foi mais longe: eximiu a política de qualquer virtude e livrou-a de preceitos religiosos e princípios éticos. Deslocou-a do conceito tomista de promoção do bem comum para o pragmatismo que rege seus atores – a luta pelo poder.

Você deve ter visto o célebre filme “O anjo azul” (1930), que imortalizou a atriz Marlene Dietrich e foi dirigido por Joseph von Stemberg e baseado no livro de Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. É a história de uma louca paixão, a do severo professor Unrat (Emil Jannings) por Lola-Lola, dançarina de cabaré. Ele tanta aspira ao amor dela, que acaba por submeter-se às mais ridículas e degradantes situações. Torna-se o bobo da corte. Nem a cortesã o respeita. Então, cai em si e procura voltar a ser o que já não é. Em vão.

Me pergunto se o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem. Hoje, ele luta por governabilidade ou empregabilidade de seus correligionários? É movido pela ânsia de construir um novo Brasil ou pelo projeto de poder? Como o professor de “O anjo azul”, a paixão pelo poder não teria lhe turvado a visão?

Você se pergunta em sua carta “onde o socialismo apregoado nos primórdios do PT? Onde os núcleos de base que o legitimavam como autorizado porta-voz dos pobres? Onde o orgulho de não contar, entre seus quadros, com ninguém suspeito de corrupção, maracutaias ou nepotismo?”.

Nunca fui filiado a nenhum partido, como você bem sabe e muitos ignoram. É verdade que ajudei a construir o PT, mobilizei Brasil afora as Comunidades Eclesiais de Base e a Pastoral Operária, participei de seus cursos de formação no Instituto Cajamar e de seus anteparos, como a Anampos e o Movimento Fé e Política.

Prefeitos e governadores eleitos pelo PT me acenaram com convites para ocupar cargos voltados às políticas sociais. Tapei os ouvidos ao canto das sereias. Até que Lula, eleito presidente, me convocou para o Fome Zero. Aceitei por se destinar aos mais pobres entre os pobres: os famintos.

O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei o meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não Governamental. Tudo isso narrei em detalhes em dois livros da editora Rocco, “A mosca azul” e “Calendário do Poder”.

Amigo, não o aconselho a deixar o PT. Não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido.

Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho.

Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Quando o faz, perde o respeito a si mesmo, como o professor de “O anjo azul”. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

A história não tem donos. Muito menos os processos libertadores. Tem, sim, protagonistas que não se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro ou função. Nunca confunda alianças táticas com as estratégicas. Ajude o PT a recuperar sua credibilidade ética e a voltar a ser expressão política dos movimentos sociais que congregam os mais pobres e as bandeiras que exigem reformas estruturais no Brasil.

Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos.

Anúncios

O dilema Lula-Obama

Edemilson Paraná

No último dia 23, após uma longa semana de polêmicas por conta da assinatura do acordo nuclear Turquia-Brasil-Irã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se disse “desapontado” com o presidente Barack Obama.  Lula se referia, é claro, ao recrudescimento da posição norte-americana em relação às sanções ao país dos aiatolás. Pressionado a fazer dar certo o acordo que chancelou, o presidente disparou contra seu homônimo. Com toda razão, diga-se de passagem.

O desapontamento, segundo Lula, crescia à cada novo passo da política externa Yankee. Primeiro, o não aceno de diálogo esperado pelos latino-americanos em relação à Cuba e Venezuela, depois, as rusgas em Honduras. Em Copenhague, para Lula, Obama mostrou que cedia às pressões internas em detrimento do bem da humanidade. Por fim, as críticas ao recente acordo com o Irã seguidas da reafirmação pelas sanções mostravam que o colega norte-americano tinha cedido ao “conservadorismo tradicional para ter chance de se reeleger em 2012”. Para fechar, pontuou: “Obama deu um tiro no pé ao endurecer com o Irã. Isso não é atitude de quem ganhou o Nobel da Paz”.

Palmas para nosso presidente que soube mais uma vez, com maestria, aproveitar o bom momento que vive o país externamente para denunciar as contradições de um homem que “me diz uma coisa e faz outra, geralmente por meio da Hillary [Clinton, secretária de Estado]”.

Vale lembrar que o comentário foi feito no dia em que a Reuters noticiou uma carta de Obama à Lula, datada de duas semanas antes do acordo, em que o presidente americano pedia ao brasileiro para arrancar do Irã exatamente o que foi assinado no acordo duas semanas depois.

O tio Sam, claro, ficou em maus lençóis e Obama carrega o peso da contradição. Em 2008, durante a campanha, ele foi acusado de fraco e “amigo de terroristas” por defender o dialogo sem pré-condições (isso mesmo!) com o Irã.

Ora, a contradição é evidente, a decepção justificada e o prêmio Nobel ainda mais sem sentido. Mas é preciso entender um pouco mais a fundo o que leva Obama a defender tais posições externamente. Por que uma mudança tão grande em tão pouco tempo? Será que ele não se deu conta da contradição? Será que mudou tanto? Ou será que já no seu discurso ao receber o prêmio Nobel, quando defendeu o conceito de “guerra justa” e o envio de mais homens para o Afeganistão, Obama não deu sinais do que estava disposto?

O próprio Lula, em sua crítica, nos deu, sem querer, a resposta. Segunda ele, Obama deveria aplicar na política externa a receita que usou para aprovar no Congresso a reforma da saúde: remar contra a maré, enfrentando politicamente o Partido Republicano e parte dos democratas. Bingo! Disputa interna x disputa externa. Aqui está o nó que tentaremos desatar.

O Obama contraditório que soa meio esquizofrênico externamente é o mesmo Obama crente e defensor das propostas que o elegeram internamente, é o Obama que sacrifica sua popularidade em início de mandato para comprar briga com o país inteiro na reforma da saúde. O mesmo Obama que, não por acaso, enviou para o Congresso recentemente uma polêmica proposta de reforma do sistema financeiro do país. Mais briga, mais desgaste e dessa vez com o que há de mais vital na economia do país, arena onde os grupos de interesse estão mais organizados e enraizados no propósito do Estado. Brigar com banqueiros e capitalistas seria desaconselhado por qualquer analista político, ainda mais depois do desgaste que o governo enfrentou para aprovar o Health Care. E eis que o homem rema mais uma vez contra a maré, eis que luta para cumprir o que prometeu. Não acho que um político assim é levado a fazer algo diferente do que prometeu senão por uma obrigação que lhe pareça ainda maior e ainda mais justa.

É natural que discordemos. Mas a verdade é que Obama não pode, sob pena de acabar se juntando à Kennedy, comprar todas as brigas ao mesmo tempo. Trata-se do “império”, como disse Hugo Chávez.

Mas façamos, com isenção, um exercício para entender a estratégia do governo Obama.

Você é presidente da maior potência bélica do mundo, da maior economia, onde os interesses são mais difusos, complexos e ao mesmo tempo mais organizados, de um dos eleitorados mais conservadores e patriotas entre as democracias modernas. Deve ser difícil enfrentar isso tudo para fazer reformas que chegaram a ser chamadas de “comunizantes” em um país onde tal adjetivo sooa como xingamento. Compre briga mesmo assim. Enfrente tudo sem se preocupar com sua popularidade ou com a tranqüilidade futura do seu governo. Aprove a primeira dessas reformas.

Ok. Agora pegue um dos sentimentos que é mais caro ao povo americano: o patriotismo, o sentimento de grandeza e a noção de que nada nem ninguém pode deter o destino manifesto, “o povo escolhido” e diga a esse americano que a partir de agora vocês não mais atuarão na arena global como os donos da bola, como os maiorais, como aqueles que apontam, com força, o que deve ser feito. Pronto. Você acaba de criar a fórmula para, no mínimo, impedir a concretização do mínimo que prometeu fazer para os cidadão que o elegeram.

Esse é o dilema de Obama e com esse dilema foi que seu governo traçou a estratégia de comprar briga internamente cedendo ao conservadorismo externamente. Podemos discordar, mas não dá para dizer que não é razoável, ou compreensível. Políticos enfrentam pressões, tem escolhas difíceis a fazer e pensam sim em se reeleger (e não há nada de errado nisso). Obama fez a escolha dele. Se eu discordo? Claro! Se devemos protestar? Claro. Mas é preciso, para isso, sob pena de ineficácia, entender o que está por trás de suas ações.

Isso tudo prova, didaticamente, que um homem, ou mesmo um governo não pode, sozinho, fazer mudanças bruscas no caminho de uma nação se essa mudança não partir de um processo social amplo e forte o suficiente para sustentá-la.

Analisado Obama, voltemos para Lula.

Nosso “cara”, secretário geral ONU, presidente do BID, próximo Nobel da Paz, ou qualquer outra coisa que se festeje, virou ídolo pop. Sua política externa clara e coerente, voltada para uma nova hegemonia, uma nova disposição do processo decisório e uma nova legitimação através do diálogo, lhe valeu prestígio e reconhecimento global; para ele, e para o Brasil. Inauguramos, com uma importância crescente, também por conta de nossa economia, um nova ética de ação, em prol dos emergentes, em prol de nós mesmos. Sou um entusiasta da nossa política externa, ainda quando critico posições brasileiras em casos isolados.

Mas se Lula é o nosso compra-brigas lá fora, aqui dentro é da turma do “deixa-disso”. Enfrentar os privilégios de grandes latifundiários? Brigar com rentistas e o sistema financeiro? Com os bancos? Para quê, se ao não fazer isso eu posso formar uma base parlamentar fisiologísticamente ampla, ter 80% de aprovação e reeleger meu sucessor?

Se lá fora damos exemplo de progressismo, aqui dentro criamos uma conservadorismo à brasileira, que agrada e abarca a todos. Reforma tributária? Reforma Agrária? PNDH-3? Revolução na educação? Ataque frontal à discrepância entre remuneração do trabalho e renda (razão de nossa desigualdade abissal)? Nada! Seguimos nosso caminho.

É chato, toda vez que falo do governo, ter de reconhecer o que foi feito de bom sob pena ser acusado de fazer coro com conservadores ou com a direita. Isso mostra bem o porquê do meu texto. Mas passemos ao protocolo. Não há como não reconhecer os avanços sobretudo na orientação de foco das ações do governo, que hoje têm, sim, novas prioridades. Uma mudança que gerou, sim, vários avanços.

O papel da sociedade civil, dos grupos organizados e de quem se ocupa da política, no entanto, é criticar o que está errado e apontar o que poderia estar melhor sob pena de ser conivente com a conservação de privilégios, entre o pior deles a desigualdade social.

Finalizo com questionamentos, vários questionamentos.

No dilema Lula-Obama, que tipo de contradição preferimos? Conservação interna com mudança externa ou conservação externa com mudança interna? Será que só temos mesmo estas duas opções? Quem é pior, Lula ou Obama? Será que há como, dadas as atuais condições políticas e sociais dos dois países, seus presidentes serem 100% coerentes em todas as esferas? Ou será que a política na democracia é um eterno negociar de possibilidades, a arte do possível? Alcançaremos a coerência no longo prazo? A democracia representativa, institucional, tal qual está estabelecida é o limite ou precisaríamos de rompimentos na ordem estabelecida?

Se na academia nosso esforço é por teorização, na política trabalhamos com a contradição da ação, com a contradição do conhecimento dialético construído na prática. Desse modo carrego uma, e apenas uma certeza: não há mudança sem povo, não há transformação sem sociedade, não há poder sustentado sem legitimidade!

Os limites do Governo Lula

Por Gabriel Santos Elias

Em 1º de janeiro de 2002 a sociedade brasileira presenciava um momento único na história do país. O centro político do Brasil estava tomado por personagens de camisas vermelhas, que empunhavam cartazes de Che Guevara e, totalizando cerca de 150 mil pessoas, celebravam a posse do primeiro presidente de esquerda do país. Fidel Castro, que estava presente à festa, comparou aquele dia à tarde de 1959 quando, vitoriosa a revolução, tomou o poder em Cuba: “Fico feliz porque não detemos mais a exclusividade do 1º de janeiro”, disse ele.

Mas o discurso de posse que o Presidente Lula proferiu naquele dia já apresentava as contradições de um governo que acalmava as elites em busca do consenso “Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado, sem atropelos ou precipitações”.

A razão de toda aquela cautela com a imagem que ia passar no primeiro dia de seu mandato presidencial eram os compromissos firmados anteriormente a eleição. Para ilustrar tanto os compromissos firmados pela vitória, quanto as contradições aparentes naquele dia, basta observar a situação do homem escolhido para ser vice-presidente de Lula, um dos maiores empresários do Brasil, sendo vaiado pela população que celebrava aquela posse. Ao mesmo tempo, não é exagero dizer que foi a estratégia escolhida pelo PT que garantiu a festa que o Brasil viu naquele 1º de Janeiro.

Em 1988, Sérgio Abranches cunhou uma expressão para definir o sistema político brasileiro, chamou-o de “presidencialismo de coalizão”. Esse apelido pegou com a percepção cada vez mais clara de que o presidente, uma vez eleito, precisaria ter maioria no congresso para conseguir colocar em prática seu programa e que o sistema político brasileiro praticamente impossibilita que um partido sozinho tenha maioria no legislativo. A estratégia seguida então seria a de dividir os principais cargos do executivo com os principais partidos, formando uma coalizão do governo em troca do apoio no legislativo.

O PT conseguiu chegar ao poder. E mais, o primeiro partido de esquerda a governar o país conseguiu se reeleger e pelo que podemos ver completará todos os seus oito anos de mandato presidencial com Lula. Mas o PT conquistou realmente o poder?

Em sete anos de governo, o partido não conseguiu colocar em prática, através da presidência da república, várias de suas bandeiras históricas, como a reforma agrária, a descriminalização do aborto nem a punição dos torturadores do período militar ou até mesmo a abertura dos arquivos da ditadura.

A verdade é que mesmo com o acordo firmado através da coalizão, o governo não tem completo controle sobre as votações no legislativo e antecipa sua reação para cada tema. Ou seja, quando o governo sabe que para determinado projeto não contará com o apoio dos parlamentares opta por não mandá-lo para o congresso.

O PNDH-3 foi lançado com base em um amplo processo de democracia participativa, com a participação de organizações da sociedade civil através da Conferência Nacional dos Direitos Humanos. No PNDH-3 o governo avança em praticamente todas as bandeiras históricas do PT e da esquerda nacional. Mas, antecipando a reação contrária dos parlamentares, não envia o programa como projeto de lei para o congresso. Faz do programa nada mais que instruções para as ações do executivo. Além disso, prevendo reações da elite e dos meios de comunicação, lança o programa poucos dias antes das festas de fim de ano. A estratégia até funcionou. Naquele dia o que mais chamou atenção da mídia foram os cabelos da ministra Dilma.

Mas, mesmo com todo o cuidado do governo, as reações vieram. Inicialmente do próprio governo, através de seu ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), criticando a criação de uma comissão da verdade para investigação da prática de tortura na ditadura militar. A mídia adorou e entrou de cabeça no ataque ao plano, dizendo que esse pretendia censurar os meios de comunicação. Os ruralistas da CNA, endossados pelo Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes (PMDB), caíram em cima do que consideraram ser um ataque ao direito de propriedade e a igreja católica contestou a indicação de se retirar símbolos religiosos de espaços públicos.

Só de observar quem reagiu contra o programa, já podemos perceber que o programa era realmente bom e avançava em pontos importantes. Mas ao mesmo tempo não valia nada em termos práticos, por não efetivar diretamente nenhuma daquelas ações e para acalmar uma suposta crise entre militares e o governo o presidente ainda optou por mudar parte do texto, amenizando o problema.

A crise em torno do PNDH-3 também nos revela em que contexto o PT ocupa a presidência da república, de forma fragmentada e baseada na personificação do poder em torno do presidente Lula. O PT ganhou as eleições, mas não governa. Para se manter no poder e fazer uma política realmente progressista faz acordos políticos com partidos conservadores, o que limita excessivamente a capacidade de avanço do governo. Além do próprio governo, devemos analisar a conquista da opinião na sociedade civil. Infelizmente, boa parte da opinião pública ainda segue o que a elite econômica, através dos meios de comunicação propõe. Não foram poucas as declarações ridículas, mas amplamente reverberadas pela mídia, de que aquele programa era um golpe comunista no país. Por motivo parecido João Goulart foi deposto por um golpe militar e o Brasil sofreu por mais de 20 anos com uma ditadura cruel. Jango parecia mais comprometido com os ideais da reforma agrária que Lula, mas que estratégia resultou melhor para o país? Acontece que um dos pontos que mais geram críticas ao governo Lula é um dos pontos mais positivos. É um personagem conciliador, busca o consenso e por isso completará seu governo com máxima popularidade com avanços sociais positivos para o Brasil.

É possível perceber agora que boa parte das limitações do governo Lula são as limitações do próprio sistema político brasileiro. Mas então devemos questionar outro ponto. Martin Luther King, ativista que faria aniversário essa semana, dizia: “Um líder verdadeiro, em vez de buscar consenso, molda-o.” Naquele discurso de posse, em 2002, o presidente Lula prometeu para os quatro anos seguintes uma série de reformas, entre elas a reforma política. Hoje o presidente Lula conta com uma popularidade nunca antes vista na história do país, agradou tanto a gregos quanto a troianos – leia-se banqueiros e trabalhadores – tanto na área econômica quanto na área social, mas não consegue aprovar uma reforma agrária ou uma simples descriminalização do aborto. Lula atingiu o consenso, mas não o moldou. O Presidente sabe que um avanço concreto em reforma política sofreria muita resistência da elite econômica que se serve livremente do nosso sistema político e optou por não bancar esse desgaste. Preferiu manter uma popularidade alta para fazer sua sucessora. Mas teria feito Lula uma boa escolha ao preferir bancar uma candidatura que sofrerá dos mesmos ou de piores problemas que os que seu governo sofreu? Acredito que não. Entendendo as limitações do seu governo como limitações do próprio sistema político, a ação mais inteligente seria peitar o desgaste político de puxar uma ampla reforma do sistema com a finalidade de reduzir a interferência do poder econômico nos resultados políticos.

Essa seria uma contribuição importante do PT para o país. Essa atitude sim seria marcar com o símbolo da mudança o governo Lula, da mesma forma que ele nos prometeu em seu discurso de posse, em 2002. Mas Lula e o PT escolheram não fazer isso e nos fazem questionar se o continuísmo é realmente a melhor opção para os próximos anos. O que o partido deve nos responder é como será o governo Dilma nos próximos quatro anos, se eleita. E ele nos responderá através das ações que tomará neste ano. Ficaremos atentos.

Fome

Por Laila Maia Galvão

Em um dos encontros do grupo, realizamos uma dinâmica em que cada membro deveria ler um poema ou um trecho de livro com o qual tivesse alguma afinidade. Durante alguns dias, fiquei na dúvida sobre o que levar para o encontro do grupo. Logo me veio à mente um trecho de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, que eu havia lido ainda quando criança e que havia me sensibilizado bastante à época. Para mim, uma das mais belas passagens da literatura brasileira. Aproveito para transcrever alguns trechos: 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. (…) Chico Bento estirou-seno chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas. Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo.

– Ah! Minha rede! Ô chão duro dos diabos! E que fome!

Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa. E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir. A rede de Cordulina que tentava um balanço para enganar o menino – pobrezinho! O peito estava seco como uma sola velha! – gemia, estalando mais, nos rasgões. E o instestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum… (…)

Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho…

E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante.A vergonha da atitude o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: “Mãe, dá tumê…”

E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daqueloa miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo…

A temática da fome é algo que acompanha a sociedade brasileira durante séculos e que segue nos acompanhando no presente. Lula participou, na semana passada, de reunião em Roma sobre segurança alimentar. Afirmou não acreditar que exista uma verdadeira carência mundial de alimentos. Logo em seguida, definiu a fome como “a mais terrível arma de destruição em massa do planeta” e pediu que se vença esse problema para abrir caminho a um mundo “justo, livre e democrático”.

Criticou a enorme quantidade de dinheiro injetado no mercado em decorrência da crise financeira, que poderia ter sido utilizada também para erradicar a fome: “Com menos da metade desses recursos, seria possível erradicar a fome do mundo. A luta contra a fome segue, no entanto, praticamente à margem da ação dos governos. É, por assim dizer, invisível”. Dessa forma, o presidente aproveitou para apontar o descaso dos líderes mundias em relação ao enfrentamento do problema.

Ao final, Lula desabafa: “Muitos parecem ter perdido a capacidade de se indignar com um sofrimento tão distante de sua realidade e experiência de vida. Mas os que ignoram ou negam esse direito, acabam perdendo sua própria humanidade”.

Na mesma viagem, Lula foi homenageado pela ONG ActionAid Internacional, pelos bons resultados que o Brasil obteve nos últimos anos na luta contra a fome, e, também, quanto à diminuição em 73% do índice de desnutrição infantil.

No ano passado tivemos a comemoração do centenário de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome, de 1946. O famoso livro apontou que a falta de nutrientes na comida dos moradores das regiões Norte e Nordeste se dá por características climáticas, culturais e do solo, próprias de cada localidade, além do motivo principal: a concentração de terra na mão de poucas pessoas. À época do lançamento do livro, acreditava-se que a fome era um fenômeno natural e, de certo modo, irreversível. Falar sobre fome era um grande tabu, especialmente na sociedade brasileira. Josué de Castro e suas pesquisas foram muito relevantes para demonstrar que a fome e a miséria não são fenômenos naturais, mas sim criações de nossa sociedade, fruto de ação do homem e de suas opções políticas e econômicas.

Josué de Castro estudou profundamente a questão dos nutrientes necessários à subsistência humana e dos males advindos de uma má alimentação. Em decorrência de seus estudos, passou a abordar temáticas mais próximas das ciências sociais, passando a defender arduamente a inclusão social. Foi um dos precursores na defesa do salário mínimo e ajudou a formular a política de merenda escolar. Na luta pela agricultura familiar, foi um dos críticos dos latifúndios e pregou a reforma agrária.

Em uma época em que se falar de desenvolvimento sustentável e de ecologia ainda não era muito comum, Josué de Castro denunciou as agressões sofridas pelo meio ambiente. Recebeu o Prêmio Internacional da Paz e concorreu ao Nobel da Paz. Durante o regime militar, foi exilado. Morou em Paris por alguns anos e lá faleceu no ano de 1973.

São dele frases como: “Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”, “Metade da população brasileira não dorme porque tem fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”, “Só há um tipo verdadeiro de desenvolvimento: o desenvolvimento do homem”, “O que divide os homens não são as coisas, são as idéias de que eles têm das coisas, e as idéias dos ricos são bem diferentes das idéias dos pobres”, “Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas.”

Por mais bem-sucedidos que tenham sido os resultados dos programas do atual governo federal quanto ao combate à fome, é preciso lembrar que, de acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, ainda temos no Brasil por volta de 10 milhões de desnutridos. No mundo, 1 bilhão de pessoas passam fome. Chegamos ao século XXI e ainda temos a questão da fome pela frente. Obviamente, a fome é um dos aspectos relacionados a diversos outros problemas tais como concentração fundiária, miséria, desigualdade social entre outros. É evidente que todas essas questão estão interligadas e que se falar em fome é também falar de baixos salários, de exploração, de opressão e de indiferença. No entanto, a fome parece evidenciar, na minha opinião, de forma mais explícita e direta, as perversidades do mundo em que vivemos.

O enfrentamento do problema da fome e das demais injustiças do sistema pode parecer tarefa árdua e difícil. E é. No entanto, creio que fica a lição de Josué de Castro que, na dura experiência do exílio, se definiu, existencialmente, como um “homem profundamente interessado pelo espetáculo do mundo” com suas dores, suas mazelas, suas dúvidas, suas conquistas, suas potencialidades e suas esperanças. A desnaturalização do fenômeno da fome exposta por Josué faz com que possamos imaginar e lutar por um mundo em que não se admita a desnutrição, assassinato lento e cruel do ser humano, que o reduz a uma carcaça, anulando todas suas possibilidades e potencialidades.