Direita volver: a caduquice do “Franciscanismo” de esquerda

Por Edemilson Paraná

Classe média faz revolução?

É dificil afirmar o contrário. Dos países árabes ao Chile, da Europa aos Estados Unidos, o grande ator político por trás das revoltas que sacudiram essas sociedades em 2011 e reabriram uma discussão considerada morta ou velha pelo pensamento liberal foi a classe média. Para o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn (leia aqui), “as ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos ‘exércitos postiços’, formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso”.

O fenômeno levanta uma série de dúvidas para a esquerda tradicional. O quê faz com que a mesma classe média esteja por trás de protestos e revoltas organizadas em países tão distintos econômica e socialmente como o Egito e o Estados Unidos, Espanha e Síria? Do que trata e o que pretendem exatamente esses protestos de estudantes e seus Macs, Iphones e câmeras HD a exgir uma nova sociedade?

Para o filósofo Slavoj Zizek (aqui) movimentos como esses trazem uma nova linguagem para a crítica social. Para Hobsbawn, não há dúvida se tratar de um processo revolucionário. Algo comparado simbolicamente ao ano de 1848 quando revoltas estouraram em toda a Europa; mas dessa vez uma revolução feita por estudantes, pela classe média incluída digitalmente. Segundo ele, “estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis – uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos”.

Quando direita e esquerda ortodoxa unem vozes

A reação conceitual às mudança propostas e exigidas “pelos filhos do capitalismo” não tardou a aparecer. Como há dificuldade em contrapôr um projeto civilizatório que desmascare o receituário liberal clássico e injustificável de combate às crises capitalistas (arrocho ao trabalho, incentivos amplos ao capital), optou-se por discutir o perfil dos contestadores em vez de suas ideias. A tentativa, carente de fundamento e, não por coincidência, partilhada entre a direita e parte da esquerda clássica, de desqualificar tais movimentos sustenta-se na suposta incorência de tais jovens que, munidos de educação formal de qualidade, acesso a bens de consumo e produtos tecnológicos, estão por trás de iniciativas que propõem igualdade material e o fim das opressões. Em oitavas diferentes do mesmo tom, a direita fala em hipocrisia enquanto parte da esquerda tradicional denuncia a contradição de um processo de transformação que não é gestado no seio das camadas genuinamente populares.

Em terras brasileiras, a ideia desembarcou com ares de crítica inteligente e divertida. No Facebook, o même (partícula de conteúdo viralizada na rede) “legal essa sua camiseta do Che Guevara. Você se comunica com seus amigos revolucionários por esse Iphone aí?”  foi compartilhado com ares de triunfalismo deboxado, como uma denúncia inquestionável da hipocrisia histórica da classe média de esquerda que se diz revolucionária.

E vc? Usa esse Iphone aí para reproduzir injustiças?

A direita e o “Franciscanismo” de esquerda como faces da mesma moeda

Se para a direita é hipócrita lutar com um smartphone mãos em prol dos que não tem o que comer, para a velha esquerda a prática antiga de estetização patriarcalista da pobreza produz uma recusa automática (e irracional) em levar a sério processos de mobilização e luta social convocados e organizados por jovens bem educados munidos de recursos tecnológicos de ponta. É o que eu chamo de “Franciscanismo” de esquerda, quando a cegueira dogmática leva à idealização da pobreza.

Em ambos os lados é evidente o equívoco na crítica à hipocrisa que pretensamente denunciam, mas reproduzem. À direita a descontrução é feita com menos dificuldade porque a crítica, nessa acepção, carece de um fundamento básico: lógica. Ou seja, a partir desse pensamento (?) para ser de esquerda de verdade deve-se abrir mão de tudo o que dispõe em prol da caridade ao pobres (“venda esse computador moderno e alimente famílias” é o que se ouve). Acontece, vejam só!, que abrindo mão de tais recursos aumenta-se ainda mais a desvantagem (como se ela já não fosse enorme) de progressistas em relação a conservadores na luta política contra privilégios e opressões. Ou seja, é coerente que um conservador utilize meios de comunicação eficientes para propagar politicamente a manutenção da realidade, mas é ilegítimo que alguém de esquerda utilize os mesmos recursos em prol de uma sociedade mais justa e igual.

Não faz sentido, ou melhor, faz sentido na lógica de manutenção do status quo. Sob tal compreensão, para ser coerente de verdade um esquerdista precisa voltar no tempo, se descolar da realidade em que está inserido e, no limite do paroxismo (quem define o que é ou não supérfluo nesses casos?), utilizar orelhão, rádio a pilha e mimeógrafo para fazer luta política, ou pior, terá de vender sua casa, seu carro, abrir mão de sua educação, etc., até fazer voto total de pobreza em prol da coerência caridosa, confundida por tais críticos (com toda desonestidade intelectual que disso decorre) com ser de esquerda. Essa compreensão primária da disputa política, que denota falta de capacidade de formulação de projetos de sociedade, abandona o que realmente importa –a discussão em torno de qual sociedade desejamos– em prol da desqualificação menor do polo erradiador de ideias contrárias. O que seria coerente? Não agir? Utilizar tais recursos apenas em benefício próprio? Deixar a atuação política? É o que essa crítica esconde: uma tentativa desqualificada de impedir a atuação transformadora de onde quer que ela se origine.

Ora, se por razões de ordem social, que no nosso caso é recheada de injustiças históricas, foi dada à classe média a possibilidade de acesso à educação formal, arte, esporte, bens de consumo e bens tecnológicos, nada mais justo (e necessário) que utilizem TODOS esses recuros materiais e imaterias na luta por transformação social, na luta contra tais injustiças que afetam a sociedade como um todo. Esse era o apelo da luta emancipadora do intelectual e político Darcy Ribeiro, para quem a universidade, os estudantes e a elite intelectual do Brasil tem o dever moral e o imperativo intelectual de utilizar seus conhecimento e potencialidades (que aqui podem ser vistos como privilégios de classe) em prol daqueles que não o tem, para a transformação. E aí, sim, é justo e necessário utilizar seu diploma universitário, seu smartphone que facilita a propagação de mensagens, seu computador capaz de editar peças gráficas e audiovisuais, o acesso às instituições, a boa localização em que vive, entre outros recursos, para lutar de todas as maneiras em favor de e em aliança com os movimentos sociais populares, em colaboração para seu empoderamento legal, conceitual e técnico; um empoderamento, aliás, que é mútuo na medida em que não há uma hieraquia dos aprendizados nessa relação. Pudera tivessem ainda mais recursos tecnológicos para colocar a disposição dos trabalhadores nessa batalha…

Desconstruída a crítica que vem da direita –que apela por uma caridade que esconde o conflito político e mantém injusta a base estrutural da sociedade, vamos à esquerda ortodoxa.

Para isso, é importante lembrar: Marx não teorizou sobre a distribuição da pobreza e sim da riqueza. Sendo superficial: não se trata de levar pobreza aos ricos, mas riqueza ao pobres. De sair do reino da necessidade, para o reino da liberdade, como dizia o próprio. E a ênfase na palavra liberdade aqui é importante, porque em nossa sociedade capitalista acesso ao consumo é também empoderamento político e mais uma etapa de inclusão cidadã. E por consumo entenda-se desde a obtenção de alimentos básicos até livros e computadores. Lutar contra a pobreza é lutar pela liberdade e lutar pela liberdade é combater a pobreza material e imaterial.

A política do quanto pior melhor (quanto mais fome e desgraça, mais revoltado tende a ficar o povo e mais próximo da revolução ele estaria) –típica da esquerda radical dogmática– é, além de incoerente (você supostamente quer o melhor para o povo mas na prática deseja que ele esteja cada vez pior até que chege o dia da revolução), cruel do ponto de vista humano. Achar que mais trajédia social é parte “natural” de qualquer processo de mudança política é uma escolha que a esquerda da qual eu faço parte se recusa a aceitar.

Se para nós o que interessa é a construção de uma nova hegemonia, de uma nova cultura, de uma nova compreensão das relações de poder na sociedade que inclua democraticamente a todos, para essa outra esquerda todo processo que não vem de quem sofre no limite mais profundo da opressão, de quem não é gestado e formado como indivíduo na disputa clássica entre capital e trabalho, deixa de ser legítimo. Trata-se de uma lógica excludente e autoritária que, tomada em sua compreensão fundamental, jamais será capaz de produzir mudanças reais.

Ao receber o prêmio World Food Prize em reconhecimento às políticas públicas que combateram a fome e levaram 40 milhões de brasileiros a ascenderam de classe social e 28 milhões a deixarem pobreza extrema, o presidente Lula deu uma declaração impactante (aqui disponível em vídeo):

“A fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão. E quem tem que ajudar os famintos não são só os famintos, somos nós que tomamos café de manhã, de tarde e de noite. Somos nós que precisamos, com muita humildade, estendermos a mão para ajudar aqueles que não tem força sequer para gritar que estão com fome”.

Apesar de contradito em parte pela história (a Russia revolucionária contou com um verdadeiro exército de famintos), o presidente mandou uma mensagem clara em seu discurso, mensagem essa que esteve implícita no discurso de vários revolucionários ao longo da história: a luta contra a fome é dever e responsabilidade de todos nós. A consolidação de uma revolução de bem alimentados e bem educados pode ser, quem sabe, mais bem sucedida que o exemplos fracassados que tivemos ao longo história.

“Ser um deles”

Outra dimensão dessa crítica é a visão romantizada do militante que recusa o conforto de sua vida para lutar com, viver sua realidade e até “ser” um oprimido quando da disputa política, para compartilhar e vivenciar com ele a mesma realidade. Sem entrar no mérito dessa decisão, não acho que seja uma escolha possível (ou cogitável) para milhões de brasileiros que simpatizam com ideias progressistas e podem contribuir à sua maneira para a transformação social na atual conjuntura. Se deixar o conforto pequeno burguês em prol da militância junto aos movimentos populares é mais uma escolha e uma estratégia carregada de fundamentação prática e teórica, não há de se apontar esse como o único meio coerente de produção de mudança social sob pena de reduzirmos drasticamente nosso alcance político.

Há ainda outro ponto que envolve a aliança classe média-trabalhadores: a formação subjetiva e a carga simbólica que cada uma dessas classes carrega em sua formação. Ora, por mais que um militante abra mão de todos seus privilégios em prol de somar forças aos setores populares ele jamais será um deles no sentido constitutivo. E não o será não porque não é capaz de socializar-se como um igual, mas porque construiu sua subjetividade em processos de socialização, aprendizagem e educação completamente distintos. A honestidade política em se querer igual tendo consciência das diferenças é fundamental para um relação saudável no interior desta aliança entre progressitas de diferentes classes sociais. A ignorância dessa sutileza (nada sutil) pode incorrer na imposição cega de uma subjetividade sobre a outra, reproduzindo no interior da luta política por emancipação uma nova opressão.

Para o sociólogo Jessé Souza, a superação da compreensão puramente econômica de classe social (seja pelo marxismo que a vê como um lugar no sistema de produção ou pelo liberalismo que a entende com base nos padrões de renda) é fundamental para entender o que se passa na sociedade e transformá-la  A determinação econômica de classe social seria portanto não uma mentira, mas uma meia verdade na medida em que ignora aspectos sociológicos relevantes. No livro “A Ralé”, ele discute a formação das classes sociais sob a ótica dos processos afetivos e emotivos de construção diferencial dos seres humanos, encobertos por essa associação puramente econômica (aqui em vídeo, Jessé debate a formação da nova classe média e as transformações no capitalismo brasileiro). Há um mundo de complexidades para além do marxismo teórico.

A necessidade dessa compressão se estende da questão de classe para obviamente tocar a identidade. Se não compartilhar da identidade do oprimido em questão não lhe dá o direito de apropriar-se de uma condição que não é sua, tampouco deve te impedir de apoiar, intervir, ajudar, contribuir e militar ativamente pelos direitos que envolvem a questão.

Política transforadora: incluir ao invés de apartar

É evidente que há várias limitações constitutivas que contribuem para o não envolvimento da classe média em ações revolucionárias. O militante do B&D, Gustavo Capela, elenca várias delas neste texto. Mas o fato é que de alguma forma isso parece estar mudando, e a classe média tem demonstrado um potencial considerável de mobilização seja no Brasil ou no resto do mundo. A explicação de Eric Hobsbawn para esse fenômeno de ruptura nos receiturários e modos tradicionais de compreensão das mudanças políticas vão ao encontro do argumento central desse texto. Para ele, “a esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível”.

O cenário é duvidoso e segue em aberto. Para uma nova sociedade, novas formas formas de mobilização, novos sujeitos políticos, nova alianças. Para injustiças políticas históricas, o resgate da velha tradição humanista. Tudo somado, mostra-se um equívoco estratégico enorme ignorar neste momento a classe média como força propulsora de mudanças reais. É preciso um discurso que inclua, ao invés de apartar, atores políticos distintos a se unirem pela transformação da sociedade.

E isso é especialmente relevante no Brasil, onde discute-se a gênese de um novo ator sócio-político, a chamada “nova classe média”. A oposição de direita aos poucos acorda para a realidade e exerga, através de um (talvez o único) de seus melhores quadros, essa como uma oportunidade para o avanço da modernização conservadora. Apesar de extremamente mal interpretado por seus pares, a clareza de Fernando Henrique Cardoso a respeito desse tema é cristalina:

“Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média.

(…)  Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas” (aqui, o texto na íntegra).

Vários autores discordam, entre eles o próprio Jessé Souza, da definição imprecisa dada ao termo “nova classe média”. Fala-se em nova classe trabalhadora, de uma classe com valores e posição social distintos da classe média tradicional. De qualquer maneira, é importante olhar esse fenômeno atentamente; é evidente que ela terá desdobramentos políticos consideráveis.

E nós, de esquerda, que desejamos uma transformação real e profunda desse país, como nos posicionaremos diante desse processo? Traremos para dentro do leque progressista esses que aos poucos empoderam-se como cidadãos, vindo a produzir o que pode se tornar no futuro nosso Ocupe Wall Street à brasileira, ou os designaremos como os novos privilegiados consumistas, como não dignos de nossos padrões de ação verdadeiramente revolucionários, jogando-os no colo da oposição de direita?

Decifrando o Lulismo

Por João Telésforo Medeiros Filho

Imperdível o relato do Hugo Albuquerque sobre a banca de livre-docência do André Singer na USP. Reproduzo do blog O Descurvo:

 A Livre-Docência de André Singer: Lulismo, Socialismo e o Novo Brasil

Ontem, o Professor André Singer conquistou sua livre-docência – por unanimidade e com nota máxima – pelo Departamento do Ciência Política da FFLCH com um trabalho que é, na verdade, uma compilação do seu já clássico Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo com outro artigo seu, este bem mais recente, A Segunda Alma do Partido dos Trabalhadores e algo mais (ainda estou caçando o texto final do trabalho). A banca de arguição, presidida por Fernando Limongi, contou com a presença de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Maria Victória Benevides, Leda Paulani e Francisco de Oliveira – e, como não poderia ser diferente, gerou um belíssimo debate.
Singer é, sem dúvida, dos observadores mais atentos do Brasil atual. E o fato de ser um intelectual militante não prejudica em nada sua análise, ao contrário, só lhe proporciona uma visão privilegiada do Brasil contemporâneo. O centro gravitacional do trabalho de sua tese gira em torno do realinhamento eleitoral que ocorreu no Brasil nos últimos anos, fenômeno que ele credita às transformações socioeconômicas brasileiras promovidas pelas politicas do Governo Lula, cuja pedra de toque teria sido a ascensão política do chamado “sub-proletariado” no período – cujas implicações fazem se sentir dialeticamente (no sentido marxista) na formulação de novas políticas.
O realinhamento do modelo de Singer é explicado por gráficos que comprovam a mudança da base social petista – deixando de ser um partido dos trabalhadores profissionais e de pequenos burgueses instruídos para se tornar um partido votado por proletários, “sub-proletários” e mesmo pelo lúmpen, tornando-se um partido dos pobres. Em suma, é como se as bases sociais do eleitorado de Lula (em 2006) e Dilma tenham se tornado parecidas com as que elegeram Collor em 1989 – inclusive porque a ascensão junto as categorias de renda mais baixa não veio acompanhada de uma ascensão nas categorias de renda mais alta. Singer observa como esse fenômeno alterou o equilíbrio de forças entre os espectros políticos, alterando por completo a disputa política no país.
Na arguição de ontem, ele começou por estabelecer a diferenciação entre o fenômeno de Lula e o de Vargas em resposta à fala de Bresser, o que é uma obviedade tremenda, mas é preciso pontuar. Passado isso, tivemos os bons questionamentos de Maria Victória Benevides acerca daquilo que Singer considera por “conservadorismo social” do “sub-proletariado”, isso seria uma marca “ideológica” ou uma estratégia de sobrevivência? Esse questionamento é bastante válido, uma vez que ele é uma das frestas da tese de Singer – o que demonstra, precisamente, certas insuficiências do racionalismo em tentar explicar fenômenos de sujeição voluntária (ou, mais especificamente, de investimentos do desejo, e vice-versa, no campo social), descambando para alguma forma de moralismo.
Singer sustentou o caráter ideológico desse conservadorismo social: o que em outras palavras reforça o paradoxo de, apesar de considerar certos dados reais – e não abstrações ideais, como fazem, infelizmente, muitos dos nossos marxistas – para analisar a a disposição das forças políticas antes e depois do Governo Lula, acabar tangenciando a causa material de tanto, sem adentrar nela, superestimando a importância da consciência (ou a falta dela) no processo histórico e, inversamente, subestimando o desejo – o que alude a uma contradição em termos, na qual o posicionamento dos trabalhadores (e “sub-proletários”) é descrita com precisão, mas o próprio modo social que ele determina como tal acaba sendo idealizado, por ignorar a importância do desejo (e do recalque) na constituição do processo histórico.
Há muito desse “conservadorismo” que é em certa medida perversão do desejo gregário e há aquilo que, de fato, é a própria resultante da pragmática do ser humano posto frente a frente da escassez radical de recursos. A primeira parte do fenômeno não deixa de ser uma construção do poder soberano – ainda que a consciência seja apenas uma variável dele, nem a mais importante – e a segunda parte é uma colateralidade. Uma parte da história é política, a outra socioeconômica, mas o tal conservadorismo social é na verdade um rótulo que reduz uma ampla gama de fenômenos diferentes, nem sempre conexos.
Na bela arguição da professora Leda Paulani (FEA-USP), dois pontos centrais foram levantados, a saber, as dúvidas sobre a sustentabilidade econômica dos avanços do governo e, por fim, um questionamento sobre o próprio tamanho desses avanços, uma vez que a suposta distribuição funcional da renda pró-trabalho pode sofrer uma objeção se considerarmos os autônomos entre os trabalhadores – o faria a tese de Singer de que o Governo Lula produziu uma soma zero, fazendo o Trabalho ter, ao final de seu mandato, a mesma importância relativa do que no começo do Governo FHC -, o que faria com que o “reformismo fraco” que Singer atribui ao Lulismo fosse, na verdade, um reformismo neoliberal.
Singer, refutando o otimismo que Leda lhe atribuiu – e, de fato, não acho que ele seja propriamente otimista – ficou titubeante quanto a questão das séries históricas, já que ele não tinha considerado  a possibilidade de inclusão da renda dos autônomos como renda do trabalho – o que diminuiria o impacto do crescimento da renda do Trabalho, deixando seu desenvolvimento quase que em nível estacionário. Cá do nosso lado, é necessário considerar que a renda dos autônomos representa uma variável econômica importante, mas consideramos que ela não é propriamente renda do Trabalho, por menor que seja um meio de produção – e seu referente grau de controle de mercado -, a propriedade dele põe o sujeito em outra condição social em relação a quem não é proprietário – em suma, mesmo que o motorista de uma família de elite ganhe mais do que um taxista, eles estão condicionados a um regime de controle diferente, o que os põe em classes sociais diferentes.
Sobre a questão da estabilidade do processo de desenvolvimento econômico, Singer reiterou que seu trabalho não buscar focar exatamente nesta variável, mas sim no fato de que o Lulismo, pelo modo como se articula, se afigura como um instrumento político capaz de dirimir crises capitalistas com medidas ligeiramente anti-capitalistas, uma vez que dialeticamente, a crise seja inerente ao capitalismo – e reforçou, por fim, que o reformismo lulista é social, uma vez que mesmo que num grau fraco, ele não cria uma tendência de aumento da exploração do Trabalho pelo Capital como, por exemplo, propõe o projeto do PSDB.
Chico de Oliveira, com a sinceridade que lhe é peculiar, levantou como objeção à tese de Singer sua própria tese de hegemonia às avessas da classe trabalhadora – reavivando a polêmica que os dois estão travando há algum tempo na Academia -, o que, trocando em miúdos, seria o seguinte: é como se a classe trabalhadora tivesse chegado ao poder e, por meio dos seus representantes, estaria atuando para o desenvolvimento deste tipo de Capitalismo por meio da capacidade de investimento que os fundos de pensão possuem.
A resposta de Singer, aqui, foi categórica: é elementar, dentro do pensamento marxista clássico, que a classe trabalhadora, dialeticamente, faz expandir o mesmo Capitalismo com o qual ela estabelece tensão. Mais do que isso, que a participação dos fundos de pensão no desenvolvimento do capital privado brasileiro, na verdade, só pode ser devidamente analisado nos momentos de crise, quando a influência da classe trabalhadora – enquanto sócia imprópria desse capital – força que seus gerentes tomem medidas anticapitalistas como vimos no auge da crise de 2008. Só faltou Singer concluir o óbvio: só há Trabalho – logo, trabalhadores – porque há Capital, isto é, o Capitalismo é marcado, antes de mais nada, por uma clivagem do processo produtivo que estabelece uma cisão absoluta entre a produção do valor e sua realização, causando um permanente estranhamento entre trabalhadores e o produto de sua atividade.
Podemos dizer, à maneira de Marx, que a condição do trabalhador é sim contraditória (em sentido antagônico), pois em seu núcleo ontológico reside a negação dele mesmo em virtude de como se desdobra a práxis humana – proposição com a qual não concordamos inteiramente, uma vez que não admitimos o negativo enquanto elemento constitutivo do real, o que, em apertada síntese, seria o mesmo que dizer que Marx acertou por linhas tortas: a identidade subjetiva de trabalhador alude a uma clivagem no sistema produtivo que lhe é anterior e a qual ela serve e que é, na verdade, insustentável em termos reais – o sujeito proletarizado ao combater o sistema que ajuda a expandir o faz em circunstâncias diferentes, a primeira, escapando aos mecanismos (identitários) de captura e a segunda, quando não consegue fazê-lo. O Capitalismo, em outras palavras, é o sistema que afirma ontologicamente o trabalhador, do mesmo modo que o sistema de produção antigo fazia com o escravo.
Seja como for, mesmo discordando do método, concordamos com as linhas gerais da conclusão de Singer acerca da falácia contida na tese da hegemonia às avessas e, também, no que toca à própria condição prática do trabalhador em meio à História – em outras palavras, uma medida  tomada por trabalhadores, a favor de si mesmos, dentro do sistema capitalista consiste, inequivocamente, em uma medida anticapitalista, pois subverte a própria estruturação do domínio pela inversão de direção dos mecanismos deste sistema econômico (uma versão enfraquecida do que o próprio Marx propunha, aliás…).
No entanto, o conceito de “sub-proletariado”, criado pelo pai de André, o Professor Paul Singer, também nos parece questionável: se as classes sociais são grupos, dentro da sociedade, determinadas pela função que elas ocupam em relação à produção – embora relevemos a questão da consciência a um segundo plano -, então o sub-proletariado não existe, ele é como se fosse uma foto que tenta explicar o processo (acidentado) de formação do proletariado brasileiro.
A importância de pontuar isso vai para além de um mero preciosismo terminológico, ela visa estabelecer um norte que contemple o processo de produção da própria classe trabalhadora como tal para, assim, compreender porque mesmo debaixo do choque dos governos FHC, uma classe trabalhadora nacional propriamente atinge uma massa relevante e não só o PSDB termina derrotado como, antes mesmo, o paradigma de socialismo petista  (socialista europeu ocidental) se esgota – o que não quer dizer que a Carta ao Povo Brasileiro seja nem de longe a descoberta da roda por parte da hierarquia petista, mas sim que houve a percepção de que o modelo anterior não se conectava com a demanda que buscava encampar e, na falta de algo melhor, a pragmática viria a calhar, pelo menos temporariamente.
Ao nosso ver, não há “ascensão do sub-proletariado”, mas sim o surgimento do proletariado brasileiro como modo histórico e social, uma vez que a população camponesa incorporada pela industrialização tardia, finalmente se assenta (ainda que muito mal) na urbe estabelecendo um vínculo efetivo com o sistema de produção capitalista e assim se assumindo como parte dele. Isso é efeito de um efeito dominó inciado por Vargas e que nem mesmo o projeto de FHC foi capaz de deter, ao contrário, terminou por molda-lo, ainda que colateralmente.
A chegada ao poder do PT só foi possível porque, de alguma forma, se percebeu a impossibilidade de se levar a cabo o modelo socialista ocidental para o Brasil, pois isso não se constituía em um movimento real do e pelo próprio proletariado nacional. A Carta ao Povo Brasileiro foi o movimento que pôs, por vias tortas, fim ao mais pesado dessa dissonância e essa talvez seja a minha grande discordância quanto ao trabalho de Singer – e que eu externei pessoalmente para ele, há mais ou menos um ano.
A colocação final, de Rafael Limongi, foi bastante fraca. Levantar uma objeção de que a base social do petismo não mudou porque hoje o PT é votado, quase que de forma uniforme, por eleitores de todas as classes, não sendo propriamente o “partido dos pobres” é um equívoco, porque Singer, como ele próprio respondeu, estruturou sua análise na comparação de como era o eleitorado petista em 1989 e o que ele se tornou agora: se antes o eleitor petista era, reiteramos, o trabalhador profissional e o profissional liberal, hoje, o partido tem o grosso da sua votação entre os setores do “sub-proletariado” e, mesmo, do lúmpen, o que marca uma inequívoca alteração relativa da constituição social da base do partido.
Por fim, ao nosso ver, os méritos do trabalho de Singer repousam precisamente no fato de que os erros e equívocos nele presentes – e não são poucos – são eminentemente científicos, isto é, deixam as portas e janelas abertas para a contínua construção da obra, não se rendendo, pelo menos não metodologicamente, aos becos sem saída que o caminho fácil da ortodoxia produz. Ainda mais levando em consideração que os dados, relações análises que ele traz à baila sejam, sem dúvida, os itens fundamentais para a compreensão do Brasil contemporâneo, por mais que seu autor se fie por demais ao paradigma racionalista, assentado sobre instrumentais da filosofia alemã do século 19º e sua insistente sobrevalorização da consciência.
Nesse sentido, a obra de Singer é peça essencial, embora mereça ser relida considerando um elemento que surge nela a todo momento na forma de uma sombra misteriosa: o desejo e sua relação de mútua afetação com o social, ou seja, a própria produção inconsciente coletiva e sua relação com um dos maiores abalos já vistos em nossa história, no qual um fenômeno econômico, fruto de políticas específicas, pela primeira vez ameaçaram o equilíbrio social estamental, dando ensejo para mudanças mais profundas do que pode supor nossa vã filosofia.

Brasil no 60 minutes da CBS News

Por Edemilson Paraná

Abaixo, edição especial sobre o Brasil, em dezembro de 2010, do programa 60 minutes, um dos mais importantes da televisão estadunidense. Os entrevistados? Lula, Ekie Batista e Eduardo Bueno. É o Brasil crescendo, mudando e despertando cada vez mais interesse lá fora. Impressionante ver o modo de como eles retratam o governo e o ex-presidente Lula.

Battisti fica!

Os jornais anunciam que, felizmente, Lula deve anunciar ainda hoje que o escritor e refugiado político Cesare Battisti não será extraditado. Decisão acertada, a ser comemorada! Extraditá-lo seria uma grande injustiça. E observo que não há qualquer ilegalidade na decisão de Lula, que tinha o direito de decidir pela não-extradição, conforme lembrava Carlos Ayres Britto depois da decisão do STF.

O B&D engajou-se fortemente, em 2009, na campanha em prol da libertação de Battisti. Participamos de audiência e de vigílias no STF, colaboramos com a organização de um evento na UnB, fomos à Papuda…

Relembre essa mobilização – e os seus motivos – nos posts seguintes:

Lula e o futuro de Battisti

Liberdade para Cesare Battisti – Carta de Bernard-Henri Lévy

Carta aberta ao Presidente Lula

Cesare Battisti e os fundamentos da República

Essa semana conheci Cesare Battisti

Violência

Vigília por Battisti

Mobilização – Caso Cesare Battisti

B&D vai ao Supremo para discutir Battisti

Battisti e a Revolução

Reflexões de Luís Roberto Barroso sobre o caso Cesare Battisti

Manifesto contra a extradição de Battisti