Marina Silva: desestabilização ou renovação do pemedebismo?

BeDMarina

A ELA, então B&D, promoveu debate com Marina na UnB, em 2010. Assista aqui: http://migre.me/ldknk

 
A irrupção de Junho e a ampliação do espaço para novas lideranças políticas
 
A irrupção de Junho não evidenciou somente a crise das instituições representativas brasileiras ou do sistema político formal. Entre outras tantas lições, escancarou também que não existe nenhum setor político organizado que seja socialmente reconhecido no Brasil, hoje, como capaz de canalizar a insatisfação com a institucionalidade política e com os limites e contradições do modelo de desenvolvimento em curso.

O PT exerceu esse papel ao longo de décadas, mas em Junho ficou explícito que a estratégia conciliadora, a burocratização e os anos no governo fizeram o partido perder, em larga medida, tal capacidade. A multidão que foi às ruas em junho, sobretudo de jovens, não estava protestando contra o governo Dilma ou o PT, simplesmente; mas tampouco identificava nesse partido uma alternativa que expressasse, no conteúdo e na forma, seus anseios – ainda que “difusos” – de radicalização democrática. Podem até encontrar no PT e seu governo um meio para melhorar de vida, mas dificilmente veem no partido uma alternativa para mudar o sistema, ou de uma nova práxis política, aberta à reinvenção pelos novos sujeitos em ação nas redes e nas ruas.

Alguns movimentos – como o MPL e depois o MTST – conseguiram maior exposição e reconhecimento, mas nenhum é amplamente visto por parte expressiva da população, por ora, como uma alternativa real de poder, ou de mudança do poder em escala nacional. Já as velhas vanguardas autoproclamadas tornaram-se, em geral, ainda mais patéticas, pelo abismo entre suas pretensões e sua baixa capacidade de servir como alternativa real de expressão e organização da revolta popular.

Quando amplas camadas da sociedade buscam ansiosamente o “novo” na política e não conseguem encontrá-lo em nenhuma referência coletiva organizada existente, abre-se um terreno fértil para que lideranças individuais assumam essa função, representando e mobilizando os anseios sociais de mudança política. Há quem interprete que foi numa situação até certo ponto análoga que se produziu a ascensão política de Hugo Chávez na Venezuela, por exemplo, no final da década de 1990.

Em Junho, vieram à tona com mais força algumas tendências que já se manifestavam antes, e que se tornaram ainda mais significativas e irrefreáveis a partir da nova qualidade adquirida pela conjuntura após a irrupção. A projeção de Marina Silva como liderança individual capaz de canalizar os anseios por mudanças na política e da política é uma dessas tendências que foi amplificada.

Se é ruim um indivíduo ter tanto peso assim no estímulo e canalização das esperanças e energias de mudança? Estou entre quem pensa que o ideal é que organizações coletivas e democraticamente organizadas exerçam esse papel. Não me filio, porém, às críticas abstratas e idealistas que condenam o “personalismo” como mal em si. Lideranças individuais, por vezes, cumprem um papel que referências coletivas não têm capacidade de desempenhar em dado momento. O processo pode se tornar virtuoso, e superar paulatinamente suas próprias contradições, caso a legitimidade e a energia mobilizadora desses indivíduos consiga ser canalizada para o fortalecimento de lutas coletivas organizadas desde baixo. Isso depende, obviamente, não apenas desses indivíduos – embora também deles, afinal são chave central nesse tipo de situação -, mas igualmente da capacidade de coletivos organizarem-se e fortalecerem-se a partir do que o/a líder simboliza, mas indo além dele, mediante um processo de expansão e ressignificação coletiva insurgente.

Marina Silva tinha e tem diante de si, portanto, uma grande oportunidade. A de impulsionar, a partir da projeção que adquiriu, uma agenda de mudanças reais ancorada em discurso de antagonismo capaz de mobilizar(-se com) amplos setores da sociedade para a luta política transformadora – como conseguiu fazer na Venezuela, até certo ponto, Hugo Chávez. Não parece ter sido esse, porém, o rumo que ela optou tomar até aqui, como veremos.

A potência do símbolo Marina Silva

Marina é um poderoso símbolo de mudança política. Depois de Lula, não apareceu outra personalidade, no Brasil, com potência sequer próxima à dela, da sua extraordinária capacidade de representar anseios e mobilizar esperanças por transformações na política e na sociedade.

Mulher, negra, acreana de origem muito pobre, alfabetizada aos 16 anos, companheira de luta de Chico Mendes em defesa dos povos e trabalhadore(a)s da Amazônia na década de 1980, defensora do meio ambiente, ex-Ministra de Lula, evangélica…

Cada uma dessas identidades portadas por Marina, e outras mais, que se inscrevem não somente em sua história, mas em seu corpo e em seu estilo, une-se para formar um amálgama que gera identidade ou fascínio entre milhões de brasileiros/as. A isso soma-se seu discurso arejado e democrático sobre a “nova política”, feita em rede, mediante ativismo autoral, (ou coautoral), etc. Eu mesmo não nego que pertenço ao grupo sobre quem o símbolo Marina Silva, assim como o Lula, exerce certo nível de fascínio (embora não os idealize, e apesar de todas as fortes diferenças políticas que tenho com ambos, hoje).

Dentre os diversos componentes da identidade e do símbolo Marina Silva, sua fé evangélica provavelmente é o mais polêmico, em especial na esquerda. Alguns setores parecem avaliar, implícita ou até explicitamente, que se é evangélica (ou de determinada vertente protestante específica), logo é conservadora… Curiosamente, a mesma associação automática pejorativa raramente é feita sobre políticos católicos, apesar do conservadorismo desta instituição e de sua grande força nos três Poderes da República – não haveria, aí, certo elitismo, já que há muito mais evangélicos/as entre os/as pobres?

Eu gostaria de viver num país em que a fé transcendental (ou a ausência dela) e a religião não interferissem no julgamento político que se faz de alguém, ou na capacidade de diálogo social de uma figura pública. Infelizmente, porém, não é assim, e é preciso lidar, na política, com as contradições da vida real, sem abrir mão de nossos princípios e ideias. Nesse contexto, sempre achei politicamente interessante o fato de Marina ser evangélica. Como já disse, não acho que isso implique, automaticamente, conservadorismo. Mas amplia, quase automaticamente, sua capacidade de dialogar e representar um setor da população brasileira que, além de grande e crescente – em especial entre os/as mais pobres e a nova classe trabalhadora (a mal chamada “nova classe média”) – , parece bastante organizado em comunidades de base, o que potencializa sua força política. E nessa organização de base provavelmente há muito mais multiplicidade e auto-organização do que imagina certa esquerda que emite juízos sem investigar a realidade.

Nunca vi como defeito o fato de Marina ser evangélica, mas como elemento amplificador de seu potencial político, que poderia fazer muita diferença positiva a serviço de causas de radicalização da nossa democracia. Um elemento que poderia ajudá-la a se conectar às redes da “nova classe trabalhadora”, estimular suas lutas e sua auto-organização política desde baixo, em sentido emancipador. 

As ideias conservadoras de Marina Silva

O problema não é qualquer aspecto simbólico da identidade de Marina, nem sua fé religiosa (muito antes pelo contrário). O problema é que ela optou por defender um conjunto de propostas conservadoras para o Brasil. “Autonomia” do Banco Central (o que significa dizer: entregá-lo de vez para ser gerido por tecnocratas alinhados com os bancos e grandes atores do mercado financeiro); continuidade do “tripé” da política macroeconômica vigente há vinte anos e que privilegia as classes mais abastadas; zero enfrentamento ao monopólio da mídia; posições conservadoras sobre direitos das mulheres e LGBTs; posições no mínimo ambíguas sobre diversos temas – inclusive meio ambiente -, conforme já advertia Edemilson Paraná em texto do início do ano passado.

É verdade que em inúmeras questões – inclusive nos temas políticas para mulheres e LGBTs -, as posições de Marina não são piores do que as políticas do governo Dilma (embora chegue a ser pior em um tema central, política macroeconômica, com sua defesa da “autonomia” do Banco Central, isto é, da ditadura do capital financeiro nesse órgão). Mas, é esse agora o parâmetro?! E mesmo com esse padrão rebaixado de comparação, fica difícil concluir que um governo Marina seria consideravelmente superior (ou inferior…).

“Marineiros/as” argumentam que é preciso “fazer concessões à governabilidade” para chegar à Presidência e promover algumas mudanças, assim como fez Lula. Mas Marina cedeu tanto, em tantos temas, que fica difícil dizer o que sobra… Qual compromisso concreto Marina assumiu, que a torne uma alternativa com algum conteúdo real de mudança?! Custo a encontrar.

Dizer que vai “cuidar da segurança” e “melhorar a saúde” (como Marina afirma na propaganda na TV) é um insulto… Até mesmo a defesa do passe livre estudantil é muito pouco, por sua vagueza. Até Renan Calheiros apresentou, em 2013, um Projeto de Lei para garantir o passe livre. Quero saber é segundo qual modelo de gestão e financiamento Marina implementará essa e outras políticas. Já sabemos que ela não vai mexer nos juros, pois dará “autonomia” ao Banco Central; logo, eles continuarão consumindo gigantesca fatia do Orçamento Público. Marina vai retirar os recursos de outros investimentos sociais? De quais? Vai produzir novos retrocessos nos direitos de aposentados/as? Ou tentará instituir, no Congresso Nacional, o Imposto sobre Grandes Fortunas e aumentará as alíquotas sobre grandes empresas, tal como propõem o PSOL e outros setores da esquerda? 

Marina Silva: renovação do pacto pemedebista?

A debilidade central da candidatura Marina Silva não é, porém, a proposta A ou B. Os recuos nas propostas são sintomas importantes do déficit mais grave, que é a estratégia política de Marina e de sua Rede.

O cerne do discurso e da estratégia/tática de Marina é o seguinte: (i) produzir “união” entre empresários, ambientalistas, trabalhadores/as, movimentos sociais… Enfim, fazer um governo de conciliação e busca do “consenso”; (ii) isolar os partidos “fisiológicos”, principalmente o PMDB, e fazer um governo “dos bons”, com direito a um realinhamento entre PSDB e PT, pondo fim à polarização que já dura vinte anos.

Marina poderá até governar sem o PMDB, mas o pemedebismo não morrerá junto. O elemento central do pemedebismo é justamente a negação da polarização, afirma Marcos Nobre, o cientista político que criou esse conceito para interpretar nosso sistema político-partidário (ver aqui). O que Marina promete é justamente isso, sob a falácia do velho discurso da “união nacional” que esconde os conflitos e termina por manter tudo como está, em suas grandes linhas.

Como bem disse Paulo Tayur, “não há nada mais ‘velho’ na política do que o discurso da ‘união de todos’. Nada mais velho – justamente por negar o conflito, as divergências e a luta entre desiguais – do que pregar uma falsa união, ou acusar adversários de ‘dividirem o país’. O problema de PT e PSDB não é que ‘dividem o país’, e sim o fato de serem muito mais iguais do que dizem ser, criando uma polarização muitas vezes falseada. Marina nega a polarização não pela exposição do que ela tem de falso, mas sim pelo contrário: dizer que não deveria haver polarização alguma”.

O PMDB certamente é adversário da sustentabilidade e do aprofundamento da democracia no Brasil, as duas bandeiras de Marina. Porém, também o são o PSDB, o DEM, o PSD, o PPS, além de dezenas de outros partidos e de amplos setores do próprio PSB, que abriga Marina (basta lembrar Bornhausen do PSB-SC ou Pastor Eurico do PSB-PE)… A questão não é a sigla A ou B. Os partidos, mais do que “bons” e “éticos” ou “maus” e “fisiológicos”, expressam interesses de classes e de grupos sociais. Quais classes e outros grupos Marina se dispõe a enfrentar? A resposta que ela dá sistematicamente, mediante seu discurso renitente e suas propostas é: nenhuma classe. O que significa dizer: vai ‘sobrar’ para as classes com menos poder na política institucional de hoje: as mais pobres.

As transformações profundas de que o Brasil precisa – desmilitarização da segurança pública, reformas urbana, agrária e política, democratização das comunicações, mudança da economia orientada pela transição energética para fontes renováveis e socialmente justas, etc – não nascerão de dentro do sistema pemedebista, ou de um mero rearranjo interno dele, de sua repactuação, que é a grande estratégia de Marina.

Por isso, fica difícil imaginar como um eventual governo seu corresponderia minimamente às esperanças de mudança nela depositadas. Mais ainda, não vejo razão para crer que a dança das cadeias que ocorrerá entre os ‘grandes’ partidos, caso ela seja eleita, terá algum impacto transformador ou de abertura democrática. Pelo contrário, parece aprofundar a lógica de pasteurização da política institucional brasileira.

Há quem ache que Marina deve ser apoiada, apesar de tudo, porque seu simbolismo mobiliza energias transformadoras da sociedade brasileira. Ora, mas mobiliza sem apresentar como caminho para essa energia o conflito social, mãe da democracia real… Sem articular o discurso, as subjetividades e as lutas para enfrentar os principais adversários da nossa democracia – pelo contrário, o discurso e a prática é de aliança com eles. Trata-se de uma mobilização que pode, então, acabar cumprindo um papel conservador, por desidratar outras vias, institucionais e não institucionais (sobretudo as últimas, hoje), que possam constituir força transformadora efetiva, não porque possam ganhar as eleições deste ano, mas porque contribuem para reinstalar e fortalecer na política as principais e diversas linhas de antagonismo social produzido desde baixo. Existe até mesmo o risco, por aprofundar a lógica de não-polarização, de Marina contribuir não só para a renovação, mas para o aprofundamento do pemedebismo.

Defendo a importância de se disputar as eleições a sério, mas para contribuir ao fortalecimento e articulação das lutas sociais para se expressarem com todo o seu vigor e conflitividade em todos os terrenos da política, e não para integrá-las ao sistema de modo domesticado e subordinado aos interesses dos nossos principais adversários na sociedade.  

A energia desestabilizadora de Marina Silva: esvaziar o discurso do medo

A estratégia política de Marina Silva e de sua Rede não me empolgam nem um pouco, portanto. Não acho que o caminho para produzir democracia real para o Brasil esteja por dentro do sistema pemedebista, na sua renovação ou rearranjo, que é a opção de Marina. Prefiro apostar em vias de polarização com os donos do poder, e não de conciliação subordinada a eles. Essas vias podem parecer mais longas, mas me parecem muito mais eficazes do que supostos atalhos que nos fazem gastar energia para caminhar em círculos e continuar no mesmo lugar, com pequenos ajustes.

Parece-me inequívoco, porém, que há algo de bastante positivo que Marina já trouxe com muita força para a campanha: a forte desidratação do PSDB como possível alternativa para a Presidência. Caso se confirme que os tucanos não passarão ao segundo turno, essa é uma grande contribuição viabilizada pelo fenômeno Marina, conforme argumentou Bruno Cava.

O PSDB só oferece possibilidades de continuidade e retrocesso, então é positivo que isso seja afastado da Presidência. Por mais que nas coalizões de Dilma e de Marina também seja difícil vislumbrar uma agenda de transformações reais, me parece que o PSDB está realmente em outro patamar, pois seu conservadorismo é muito mais homogêneo, não existem fissuras como as que há (mesmo que relativamente pequenas) nas bases do PT e de Marina.  

Além disso, e possivelmente mais importante, Dilma X Marina no segundo turno esvaziará, em grande medida, o discurso medíocre e conservador que o PT tem utilizado nas eleições há muitos anos: o discurso do medo, de que seria preciso votar em Dilma porque a alternativa é o retorno do passado, o fantasma do PSDB. Enfrentar Marina pressionará o PT a sair da zona de conforto, de sua posição que se contenta com acenar apenas para a continuidade do atual arranjo neodesenvolvimentista e de sua governabilidade conservadora. Talvez Marina e o PT busquem abraçar-se ainda mais à direita, mas de qualquer forma essa possibilidade já seria forte numa disputa Dilma X Aécio (como já aconteceu em 2010). Mas com Dilma X Marina, abre-se a chance, ainda que pequena, de ambas serem estimuladas a apresentarem alguma agenda transformadora. Isto é, talvez ocorra algum alargamento mínimo, por dentro do PT e da base de Marina, para o fortalecimento de setores ‘mudancistas’ (pois prefiro não utilizar a expressão ‘progressistas’).

Não sou nada otimista de que isso se processará de modo significativo por dentro do PT ou da Rede – o recuo da campanha de Marina no tema da democracia participativa é um dentre tantos sinais eloquentes. Avalio, porém, que a ausência do retorno do fantasma tucano como liderança do polo alternativo aumentará o espaço para que outras forças políticas, ao invés de terminarem se apresentando ou sendo percebidas como linhas auxiliares do continuísmo, apresentem um projeto alternativo, por fora e em contraposição à geleia geral do sistema pemedebista.

O enfraquecimento do medo do retrocesso como afeto na política implica a oportunidade de empoderar alternativas de mudança radical da sociedade brasileira. Para tanto, nós, que apostamos pela rota desde abajo y a la izquierda, devemos seguir cumprindo, na disputa eleitoral, o papel de repercutir os antagonismos produzidos pelas lutas sociais e servir à sua articulação, polarizando com os atores do sistema sem nos reduzirmos à posição estéril de linha auxiliar de qualquer um deles.

PS: a produção deste texto foi influenciada pelo diálogo com Bruno Cava e Idelber Avelar (o que não quer dizer identidade de pensamento sobre o assunto). Agradeço também a Octávio Torres por sua contribuições.

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PSOL: petismo das origens ou nova esquerda pós-petista?

Por Edemilson Paraná*

Qual é o papel do PSOL no cenário político brasileiro?

Entre primaveras e manifestações, lutas parlamentares e polêmicas apaixonadas, o ano de 2014 começou quente para o nosso pequeno PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) que, em alguns lugares do Brasil, como o Rio de Janeiro, por exemplo, começa a ganhar fôlego como uma alternativa real de poder. Como produto direto de uma conjuntura intensa e confusa, um conjunto de contradições, problemas, possibilidades e oportunidades se abre de forma avassaladora para nós. O partido cresce em tamanho e relevância, sobretudo nas juventudes. Mas para onde irá e em qual coordenada se instalará de fato o PSOL na cartografia política brasileira de nosso tempo?

As jornadas de junho, realizadas com nosso apoio e das quais parte de significativa de nossa militância foi protagonista, não deixou de produzir uma verdadeira ecatombe em nossa já movimentada vida partidária. É que se governos, entidades, sindicatos e movimentos sociais, cada um a sua maneira, viram-se fortemente questionados em seus potenciais reais de mudança social, não foi diferente para nós que, naquilo que há de positivo e/ou negativo, lutamos para nos consolidar, desde a recente fundação em 2005, como um partido político – instituição estruturalmente desgastada face ao “espírito do tempo”. 

Em nossa cozinha, há, também por isso, uma discussão intensa sobre o futuro da legenda. 

De um lado, setores mais ligados a suas “raízes”, defendem um “petismo das origens”, agarrado ao programa-estratégia conhecido como “Democrático-popular”. Aqui, a tese fundamental é de que uma vez abandonada pelo Partido dos Trabalhadores, seu principal defensor e impulsionador, que teria capitulado diante das elites dominantes nacionais e internacionais, a plataforma possível e necessária face à realidade política brasileira deve ser empunhada e levada adiante pela fatia da esquerda brasileira, desde 2005 no PSOL, que não aceitou tal rebaixamento político-programático em nome da governabilidade conservadora e que tem, portanto, a necessária autoridade política e moral para cumprir a referida tarefa. Não surpreende que, no tocante às alianças políticas, ao modo de gestão do partido e ao programa que deve ser defendido, esses setores mimetizem, de modo por vezes nostálgico, a vivência petista de outrora.

De outro, agrupamentos, sobretudo os mais enraizados nas juventudes, que alguns tem denominado de pós-petistas, acreditam na necessidade de um programa, estratégia e formas de militância radicalmente renovados, que superem de vez este ciclo histórico, iniciado a partir da década de 80, que, em sua leitura, dá mostras claras de desgaste político profundo e irreversível. A partir dessa interpretação, apostam na democracia radical, em novos instrumentos de luta e movimentos sociais, conectados com esse cenário de superação estrutural do projeto petista, como elemento de reconstrução da esquerda brasileira. Essas diferenças, aqui simplificadas, encontram eco em distintas apostas e leituras teóricas, concepções de modelos organizativos e lógica de funcionamento do partido e suas direções que remontam debates históricos das esquerdas.

Se tais diferenças que, aos olhos da maioria da população parecem insignificantes mas que desenham rumos importantes da vida interna do partido, conviveram, não sem conflito, até aqui, por meio de uma política interna de acordos mínimos, definida de tempos em tempos em congressos, a partir de junho de 2013 a coisas começam a mudar. A nova situação política, marcada por um alto grau de tensionamento social em vários espaços da sociedade brasileira, tem tornado esse equilíbrio interno cada vez mais frágil. Momentos de crise, com seus problemas e oportunidades, sabemos, desenham uma necessidade mais premente de apostas rápidas, robustas e eficazes, conectadas e capazes de responder com clareza aos desafios de seu tempo. Em muitos Estados, lideranças jovens, que em sua maioria compartilham dessa leitura, foram alçadas aos cargos de direção do partido.

É possível ler a partir dessa lente, como relativa a esse impasse, por exemplo, a crise instaurada no diretório do partido em São Paulo no que se refere à candidatura a governador de Vladimir Safatle e o seu agora nome alternativo, Gilberto Maringoni. Ambos defendem/representam mais ou menos, com um sério risco que todas as simplificações esquemáticas carregam, as diferentes leituras/teses acima apresentadas. O filósofo e professor da USP Vladimir Safatle, recém-filiado, não por acaso, tem sido defendido pela base do partido, sobretudo as juventudes, como o nome mais conectado com a conjuntura pós-junho. Gilberto Maringoni, jornalista e professor da UFABC, ligado ao grupo que tem apertada maioria nos diretórios estadual e nacional, não coaduna da tese de superação estrutural do ciclo político petista e é protagonista, por isso, de um diálogo mais próximo com a “esquerda” do PT (que caminha a passos largos para se transformar no bloco monolítico que não queremos ver o PSOL se transformar). Advinda dessa diferença, desdobram-se outros desencontros no que se refere aos significados de junho, nossa relação com certos campos políticos e sociais e seus movimentos, bem como o papel de nossas candidaturas nesse cenário.

Militantes do PSOL Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. Para além de figuras ou agrupamentos, eles representam diferentes leituras sobre o momento político que vive o Brasil.

Militantes do PSOL Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. Para além de figuras ou agrupamentos, eles representam diferentes leituras sobre o momento político que vive o Brasil.

É elucidativo – no que há de potente e limitado – que nosso partido ainda discuta o espólio do processo petista de organização da esquerda brasileira. Aí reside a crítica, inclusive, de muitos daqueles que seguem apegados a um PT que desmorona em seus valores e propostas. A crise, porém, dirá Antonio Gramsci, “consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. É, pois, nesse interregno que a política brasileira se encontra. E é na luta para superar o velho com a produção o novo que o PSOL hora se mobiliza.

Se, no entanto, em uma conjuntura de reconfiguração da luta social e do cenário político, estamos relativamente próximos de superar uma etapa defensiva, marcada por uma legenda que surge em 2005 basicamente à fórceps, para acolher os desterrados do projeto petista que acabou devorando seus próprios filhos, a pergunta que inicia esse artigo volta a impor-se com uma força avassaladora. Para onde vamos agora?

Em sua adolescência política, o PSOL busca, não sem dor, como é comum nesta fase, encontrar seu lugar no mundo. Pacificar-se com suas origens no intuito de superá-las em nome de uma existência política verdadeiramente autônoma é o desafio que agora se coloca diante de nós. A disputa interna no PSOL, ora lida, não sem alguma razão, de modo caricatural pelo conjunto da sociedade é, pois, parte da própria disputa político-social, externa, tomada em seu sentido amplo. É assim, afinal, que caminha a vida de um partido democrático e plural, que carrega a palavra liberdade em seu nome.

Mas que esquerda? Que PSOL?

A hora, no entanto, é de nos movermos em frente. Nossos desafios conjunturais são parte integrante dos desafios históricos da esquerda mundial no século XXI e não podem ser lidos separadamente, de modo esquemático ou etapista. É hora de superarmos o dirigismo e o burocratismo que, de certo modo, caracteriza os setores da velha esquerda (nos governos ou, fora deles, nos partidos radicais) e a estrutura partidária como um todo, em todo o espectro político.

A esquerda pós-muro de Berlim, que tropeça e vacila em seu caminhar, sobretudo no que se refere à força de seu projeto histórico de superação do capitalismo, precisa vencer a separação, que remete à 1968, entre esquerda tradicional – ligada às lutas econômicas por justiça social, e a esquerda das identidades e da diferença – conectada à critica cultural, dos costumes e das opressões identitárias. Apenas ancorada em uma crítica de fato (anti)sistêmica, a partir de uma leitura das totalidades, em que as opressões e violências são tomadas em seu sentido multicausal, é que podemos caminhar conjunta e unitariamente na construção de uma outra sociedade, sem invisibilizar nenhum de seus construtores e construtoras no interior dessas mudanças.

Além de um diagnóstico preciso e atual sobre a estrutura cruel de funcionamento do modo de produção capitalista em tempos de hiper-desenvolvimento tecnológico e dominância financeira, precisamos apontar caminhos (mesmo que através de novas formas de resistência) para a superação da crise civilizacional (porque social, cultural, política, econômica e ambiental) em que nos encontramos no início do século XXI. A dominação de um ser-humano por outro não pode ser lida separadamente de um diagnóstico profundo e autocrítico do significado que tem, na origem, a dominação da própria natureza por ele mesmo. Se não for verde, nem colorida e festiva, a esquerda do século XXI jamais encontrará o tom de vermelho que lhe parece faltar.

No que se refere aos direitos individuais, não nos cabe negar, seja qual for a justificativa, sua defesa. O sacrifício das liberdades democráticas e individuais em nome de um coletivismo autoritário e burocrático, produziu atrocidades que não podemos ousar defender ou justificar. Longe de reforçar o liberalismo econômico e político que compõe a farsa de nosso tempo, as liberdades sexual, de credo, costume, modos de vida e tantas outras, podem e devem caminhar juntas na defesa de uma sociedade igualitária para com suas maiorias sociais e minorias políticas. Longe de jogar o indivíduo na lixo da história, temos de defender que apenas em uma sociedade justa e igual no que se refere à organização de seu trabalho e produção social, somente com a garantia de liberdades coletivas que viabilizem e garantam de fato (e não apenas formalmente) a existência de uma pluralidade dos modos de vida, é que o indivíduo (não mais burguês) poderá realizar todo seu potencial enquanto tal. Somos, como defendia Rosa Luxemburgo, “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Devemos, por isso, ocupar nosso espaço no mapa político brasileiro como uma esquerda libertária e anticapitalista, que construa o poder popular por meio do impulsionamento de lutas sociais, bandeiras e reivindicações que dialoguem diretamente com a vidas cotidianas e concretas das pessoas. Um esquerda, em resumo, que não vacile e que, nas palavras de Vladimir Safatle, “não tenha medo de dizer seu nome”. E para isso, além de renovar nosso discurso e prática política sem abrir mão de nosso lado claro, é preciso imaginação, novas ideias e propostas claras. Temos de ser uma esquerda que mais do que propostas defenda e propague valores, e mais do que valores, seja capaz de apresentar propostas.

No interior do PSOL, precisamos reforçar nosso caráter de “frente ampla”. A hora é de ampliarmos ainda mais nossa pluralidade interna, servindo como um acolhedor guarda-chuva, democrático e aberto, a receber organizações, grupos, movimentos e agremiações que subscrevem nossas ideias e com os quais construímos a luta social. O cinturão apertado da unidade partidária incondicional, hierarquizada por um centralismo burocrático e aparelhista, não dá mais conta de sustentar as pressões transformadoras de nosso tempo. Não conseguiremos, de outra forma, reconstruir a esquerda brasileira em tempos fragmentação política profunda. O medo de perder o controle de sua direção não pode nos paralisar diante da possibilidade de fazer crescer e ampliar esse necessário instrumento de mudança.

O PSOL não é e não pode ser, portanto, um fim em si. Seu objetivo não é acumular mandatos parlamentares, deslocar oligarquias dissidentes ou avançar de etapa em etapa rumo à direção da maquina burocrática do Estado. Disputá-la é importante, é verdade, mas apenas como parte da disputa da própria sociedade em sentido amplo. Para não cometermos os erros da história recente, essa trajetória não pode se apartar da luta pela construção de um orgânico e enraizado processo de mobilização social. Chegar ao poder, de modos questionáveis e submissos, para só depois tentar mudar as regras do jogo não é uma tática que deve estar no nosso cardápio de opções.

Tudo somado, com todas as suas dificuldades, as disputas do PSOL compõem o quadro de um partido que ainda não jogou a toalha, que não se vendeu e que tem amor pelas ideias que defende. Sabemos o quanto isso é raro e especial em nosso tempo. Estamos inseridos nas principais lutas políticas nas redes e ruas, e nossos parlamentares estão entre os mais coerentes e combativos do país, utilizando seus mandatos como palanque para essas lutas, pautas e bandeiras. Nos Estados, temos avançado na defesa de ideias e práticas diferentes do mainstream político, e no plano nacional, a candidatura de Randolfe Rodrigues à Presidência será a única a defender o passe-livre no transporte público, os direitos LGBT e das mulheres, a legalização da maconha, a reforma agrária e a agricultura camponesa, o fim dos privilégios a banqueiros e ao capital financeiro no Brasil, a revisão da ilegítima e nunca aditada dívida pública brasileira, mais gastos sociais com saúde e educação pública, gratuita e de qualidade para todos, uma reforma política profunda, o fim de doações privadas de campanha, etc. O Brasil precisa de uma oposição de esquerda relevante e apenas nós podemos cumprir esse papel na atual conjuntura.

No contexto brasileiro atual, os desdobramentos disso em um programa político que combata sem tergiversar os fundamentalismos religiosos e sociais e defenda, na denúncia de nosso modelo econômico desigual e concentrador, um programa de mudanças sociais reais e profundas, que caminhem na direção da igualdade e dignidade, é um imperativo. Para isso, precisamos de um discurso de justiça social que fale para as maiorias sociais, disputando o debate político, sem abrir mão de suas ideias. Isso é possível e se manifesta em cada grito pela universalização de uma educação de qualidade, por sustentabilidade e respeito ao meio-ambiente, por uma saúde que não seja mercadoria, por um transporte que funcione e sirva a todos, entre tantos outros que ouvimos em junho passado. O cenário poucas vezes nos foi tão favorável como agora. É hora de nos reinventarmos para agirmos unitariamente. É hora de mudar.

*Edemilson Paraná, 25, vice-presidente do PSOL-DF, é jornalista e mestrando em sociologia pela Universidade de Brasília.