Rolezinhos. Limpando o campo para pensar o papel de esquerda organizada

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Por Edemilson Paraná

Diagnóstico

Não, não são “protestos” por justiça-social (por mais que gostaríamos que fossem). São flashmobs, encontros de jovens onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings. É sobre curtir, azarar, cantar, viver (porque no capitalismo viver é, antes de tudo, consumir). O Funk Ostentação, trilha sonora dos eventos, não tem no seu conteúdo (ainda que ironicamente o tenha na sua forma, sobretudo por conta do “choque estético” que produz em certos setores) nada de flagrantemente contra-hegemônico do ponto de vista político – assim como hip-hop bling-bling nunca teve.

Apesar de não ser deliberadamente contestador em seu aspecto político, guarda uma contradição gritante: desejando acesso à sociedade do consumo, sem querer, esses jovens a denunciam de forma didática, abrindo um debate importante. A pane na fronteira entre querer/poder consumir em uma sociedade de consumo que os vê como subclasse de consumidores é em parte responsável pelo curto-circuito nas elites ao lidar com o fenômeno. Racismo e classismo se encontram na contraditória negação da “igualdade pelo consumo”, a utopia capitalista fundamental. Quer dizer, “pode consumir, mas só da forma que eu permitir, e onde eu permitir”.

Não é por acaso que os shoppings são espaço de encontro dos rolezinhos. A centralidade do consumo na nossa sociedade repercute nas nossas cidades com a desvalorização dos espaços públicos como locais de encontro e criação. A cada ano mais shoppings são levantados em áreas urbanas. Símbolo máximo (junto aos condomínios) da cidade segregada, formam ilhas de segurança em relação ao seu exterior. Além disso, como urbanistas já alertaram, são responsáveis por aumento no tráfego de veículos e pela falência dos pequenos comerciantes ao seu redor. A falta de direito à cultura, acesso à espaços públicos e equipamentos de lazer para vivências coletivas joga, portanto, um papel importante, mas sozinho não é capaz de explicar o fenômeno. Padecendo da mesma falta, as “tribos” da classe-média (emos, góticos, etc) já ocupam shoppings e suas entradas há um bom tempo. Parece bastante óbvio que, nessa sociedade, jovens prefiram se encontrar onde há lojas, lan-houses, cinemas e praça de alimentação.

As forças da ordem têm instrumentos de sobra para tentar enquadrar e domesticar, ao menos temporariamente, esse fenômeno. Se a burguesia e as elites empresariais e governamentais pensarem racionalmente (e não por meio de seus violentos atavismos coloniais e racistas mais primários) perceberão o quanto a tarefa é simples: antevejo propagandas, quadros do Fantástico e programas como os de Regina Casé, na Globo, louvando a “espontaneidade” e as “excentricidades” do fenômeno. Antevejo shoppings fazendo “promoções do rolezim”, promovendo grandes eventos, e até desfile de moda no São Paulo Fashion Week com as tendências do Funk Ostentação. Foi o que tentaram em Junho, e voltar a aplicar agora a mesma fórmula não seria muito difícil. Isso pode, em certa medida, ajudar a pacificar momentaneamente as coisas (já que há indícios de que há algo de mais tectônico acontecendo e que, portanto, pode voltar a se expressar de outras formas em breve).

Tudo somado, é parte de um interessante fenômeno do “Brasil de Lula”. Uma demonstração cabal de que o consumo, de certa forma (muitas vezes sustentado por trabalho precarizado e extenuante), chegou, mas a cidadania de direitos ainda está à léguas. Esse consumo que promete a todos igualar, sustentáculo da “esfera-pública neoliberal”, ironicamente vê cor, raça e local de origem ao barrar a entrada nos shoppings de jovens que não fazem nada além de ocupar um espaço simbólico que a todo momento essa sociedade os vende, encanta e apresenta como índice de “cidadania” e reconhecimento social. Dificilmente esses jovens aceitarão um não como resposta a seus anseios – ainda que tais anseios sejam passear no shopping e comprar um tênis de marca (e não há que se moralizar isso com a pecha simplista de “consumismo”). A negação, em especial a violenta, produzirá mais frustração, o que amplia a instabilidade do cenário.

O papel da esquerda organizada: pontes e diálogos

Campo limpo, é hora de pensar os desdobramentos políticos dessa história e o nosso papel (movimentos sociais e esquerda organizada) no processo. De antemão, para além de fatores de ordem moral e humanística, a denúncia cabal de que essa “esfera pública” da cidadania do consumo não é, nem jamais será, para todos, já presta um importante serviço à disputa política em que nos empreendemos.

Mais uma vez, a juventude se apresenta como força capaz de expressar os tensionamentos sociais latentes e há alguns sinais de que isso deve se ampliar no próximo período. Diferentemente da aposta tradicional, não se trata da esquerda universitária de classe-média e seus aparelhos estudantis, de certa forma distanciados do contexto dessas juventudes, mas de “redes” de jovens das periferias, mobilizados a partir de suas vivências e trocas culturais. A popularização do acesso à internet e às mídias sociais jogam, mais uma vez, papel organizativo importante. As características verificadas nos movimentos de junho (ausência de “líderes” e hierarquias, espontaneidade, performatismo, etc.) estão também presentes. Trata-se de um cenário, como sabemos, relativamente novo e desafiador para a esquerda organizada (seja na classe-média, seja nos movimentos populares), que ainda luta para se recuperar dos últimos anos de cooptação, capitulação, burocratização e fragmentação de sua capacidade de intervenção.

A preocupação assustada da polícia, da imprensa, do sistema de Justiça e dos governos é mais um índice de que algo de subterrâneo está acontecendo neste país, e os rolezinhos, ao seu modo, são apenas mais uma parte da confusão nestes “tempos estranhos”. Onde isso irá desembocar? Difícil saber. Mas nosso apoio (político e logístico) pode cumprir um papel relevante como catalisador de mais politização (e a esse respeito, a organização de “Rolezões” pelo MTST em São Paulo é uma ótima notícia). É nosso dever abrir e ampliar, da maneira mais parcimoniosa possível, diálogo com esses eventos, seus participantes e organizadores, construindo pontes onde for possível. Os resultados dessa articulação também estão em aberto e devem ser disputados por nós como parte do esforço para ampliar seu conteúdo de contestação. Investir em agitação humorística e cultural, nas redes e nas ruas, pode ser uma boa opção.

Para isso, não nos cabe – como não cabia em junho – retirar desses jovens o protagonismo de sua auto-organização e auto-expressão, tomar frente ou nos reivindicar lideranças deste processo. Ele é, com antes, complexo demais para ser enquadrado em esquemas teórico-organizacionais de uma ortodoxia vanguardista, e poucas ações seriam mais elitistas e equivocadas como esta. O momento pede compressão e diálogo para uma ação mais unificada e eficaz possível. Tal diálogo é e será bom para ambas as partes, sobretudo para uma esquerda organizada disposta a se renovar e oxigenar seu conteúdo, prática e estética de denúncia política e mobilização social.

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Irrupção, fim de ciclo e interregno

Vale a pena ler a excelente reflexão de Léo Lince sobre a conjuntura política que temos atravessado no Brasil, desde a explosão da revolta popular em junho. A íntegra pode ser lida neste link. Destaco, abaixo, algumas passagens.

Léo Lince

Léo Lince

“(…)

A irrupção contestatória

Henri Lefebvre, um marxista atento às réplicas da história, ao analisar ainda no calor das refregas a rebelião juvenil de maio de 68 na França, sacou conclusões que, talvez, possam nos ajudar na decifração do enigma atual. Estavam presentes na crise de então – as ‘barricadas do desejo’ em Paris e a greve geral que paralisou a sociedade francesa por semanas – todos os ingredientes que no protocolo da esquerda definem uma típica ‘situação revolucionária’. Mas, segundo Lefebvre, não haveria revolução. Sequer se produziria, como de fato não se produziu, uma momentânea ‘dualidade de poder’. Por conta de características elencadas em tempo real, a gigantesca onda contestatória que não desemboca em revolução ou contrarrevolução foi chamada por Lefebvre de irrupção.” (…)

A juventude, entendida menos como faixa etária e mais como um tipo determinado de relação com o mundo, é por excelência o agente da irrupção contestatória. Além do jovem, que ainda não foi “reduzido” a um papel social no interior do sistema, existe a multidão dos recusados pelo modelo “unidirecional”. Os que erram nas ruas, os fulminados, os subempregados, os discriminados, os criminalizados, os sem-teto, sem-terra, a enorme multidão dos “sem alguma coisa essencial” operam na mesma clava. Sem espaço e ou canais regulares de expressão, o descontentamento explode no aparentemente espontâneo, inimigo mortal de todos os poderes e instituições, pois remete sempre para o imponderável.

A irrupção contestatória é fenômeno urbano por excelência. (…)

A irrupção contestatória costuma semear novidades (novas lideranças, nova pauta de debates, novos sujeitos, nova morfologia na estrutura dos movimentos) que se destinam a produzir, como bombas de efeito retardado, alterações profundas na cultura política.  Nem sempre na conjuntura imediata, mas no entranhado das estruturas. Para fechar o tópico mais uma vez com Guimarães Rosa, não são mudanças “no bobo do corpo, mas no interno das coragens”. (…)

Mas, como no caso analisado por Lefebvre, a irrupção não se configura como um polo ordenado de lutas, no qual se condensam vetores orientados por alternativas programáticas bem delineadas. Pelo contrário. Há de tudo na babel de vozes que toma de assalto o espaço livre das ruas. Pululam postulações desencontradas. A falência do modelo dominante e o ocaso de um ciclo político não aparecem como resultante do acúmulo ordenado de pequenas mudanças. A crise se mostra na forma da fratura exposta. A explosão contestatória abala o mundo da política, desloca o eixo em torno do qual tal mundo gira, mas o seu clarão, por si só, não ilumina caminhos de mudança. É um fenômeno que, por sua própria natureza, dispara variáveis fora de qualquer controle. Diante do agito colossal, todos se assustam: ninguém hegemoniza e, ao mesmo tempo e pela mesma razão, de imediato ninguém se sente interditado por ele. Daí o espetáculo das múltiplas leituras interessadas, dos recuos táticos, da busca rápida de “agendas positivas” que possibilitem acertar o passo com o ritmo da novidade que chegou para ficar sem ter dito, ainda, a que veio.

(…)

Interregno

Antonio Gramsci, outro aprendiz atento das lições da historia, especulou ideias sobre períodos da vida política marcados por determinantes estruturais da incerteza. São períodos de crise sistêmica, nos quais a única clareza possível é a constatação inevitável de que o quadro está confuso.  A tais momentos, marcados pela emergência súbita de situações inesperadas, Gramsci deu o nome de “interregnum”. Uma situação que se estabelece, na definição mais simples do conceito, “quando um sistema de poder está em colapso, mas seu sucessor ainda não se formou”.

O interregno é o tempo da falência histórica de um ciclo da política, de um modelo, de um sistema até então dominantes. Mas é também o tempo da inexistência de nexos que articulem (projeto alternativo) os diferentes polos de condensação dos conflitos e das culturas criticas ao modelo que agoniza. São ocasiões, segundo Gramsci, propícias ao aparecimento de “sintomas mórbidos, fenômenos estranhos, criaturas monstruosas”. Habitado por bifurcações inesperadas e multiplicidades de rumos possíveis, ele é, por excelência, o território do imponderável, ao mesmo tempo fascinante e aterrador. Simulacro de caos, cheio de armadilhas.  Um tempo intenso, eletrizado e perigoso.

Um enorme quebra-cabeça de peças desencontradas.  Crise crônica, onde a dinâmica do equilíbrio social atravessa turbulências de um tipo singular. A tensão permanente entre conservação e mudança, em tais ocasiões, fica assentada no terreno pantanoso do rearranjo ou da desorganização mais ou menos profunda das estruturas.  O foco da análise de Gramsci busca desvendar processos localizados, exatamente, no intervalo que separa a falência histórica de um sistema da sua falência política efetiva. A reflexão sobre a diferença entre as duas falências é outra dimensão do conceito em pauta.  O que está definitivamente falido, do ponto de vista da história, só sai de cena quando de se articula, no concreto da política, a alternativa de superação: o rearranjo de forças de uma nova hegemonia.  Ou seja, a falência histórica só se consuma na falência política concreta: a emergência cabal e definitiva de outra “gramática do poder”.

Entre o crepúsculo do que já era e a aurora de novos tempos, encobertos pelo manto tenebroso da noite, vigem os riscos do interregno. O poder dominante, rarefeito de substância, não murcha ao se esvaziar.  Ao contrário dos balões, ele mantém luzidas suas formas vazias. Além do dom de iludir, conserva até o limite da extrema-unção o monopólio legal do uso da força.  O arreganho repressivo, replicado pela exasperação entre os artífices do novo, gera um cabo de guerra envolto pelo fascínio da violência, daí os “sintomas mórbidos” referidos por Gramsci.   O tempo de duração e os tumultos desta perigosa travessia serão definidos no campo aberto da luta política. Nada estará de antemão decidido. No interior do interregno, como no coração das trevas, tudo pode acontecer, inclusive nada. “

A violência das ruas e os Inocentes da Esquerda Leblon

“Eu tô vendo um monte de gente incomodado com o quebra-quebra na Toulon. Sei que é polêmico o que eu vou dizer, mas eu, como ex-vendedora de loja, que trabalhava de 12/14h por dia em dias de grande movimento, sem ganhar hora extra, sem salário fixo, sem descanso no fds, tendo que chegar cedo pra limpar loja, tendo a bolsa e o corpo revistado ao sair, obrigada a bater meta, sob ameaça de ser mandada embora constantemente se não fosse rentável, tradada como produto da loja, obrigada a estar impecável, com as unhas e cabelos feitos no padrão da empresa (nada mais violentador pra mim do que ouvir que eu era um produto tb), vou ser bem franca, se eu trabalhasse ali EU ADORARIA VER A LOJA ARDER. 

Acho que eu acordava às 6h da manhã sonhando com isso todos os dias enquanto eu trabalhava em loja. 

Imagino que muitos vendedores de loja de Ipanema hj acordaram pensando “Droga! Pq não foi a minha loja!

Esse depoimento foi dado por uma ex-funcionária da Toulon, sobre sua alegria ao saber da destruição da loja de luxo do Leblon (bairro grã-fino do Rio de Janeiro) no contexto de manifestações em meados de julho. Ela não o divulgou anonimamente: postou-o no seu perfil pessoal no Facebook, com a coragem de expôr seu nome para deixar bem claro que se trata de um relato e de um sentimento real, de uma trabalhadora de carne e osso, e não algum tipo de invenção publicitária.

Quem seria de fato violento? O Estado e as empresas, que exploram, aviltam, oprimem, degradam, geram infelicidade, matam cotidianamente… Ou quem se rebela atacando símbolos e patrimônios (e não pessoas) desse sistema destrutivo de acumulação de capital, competição e consumismo, dominação econômica e cultural, coisificação do ser humano e mercantilização da vida?

manequim

Poucos dias antes do “vandalismo” contra lojas do Leblon, dez pessoas foram assassinadas durante operação policial na favela da Maré, também no Rio. Adivinhe qual desses fatos foi mais repercutido e criticado pela mídia…

Mais importante do que julgar os atos de destruição de lojas de luxo, agências de banco, concessionárias de automóveis, etc, é tentar compreendê-los. A esquerda radical é aquela que busca as raízes dos problemas para nelas encontrar as possibilidades de sua superação, ao invés de atacá-los apenas em sua superfície evidente (e por vezes enganosa).

Claro, em alguma medida a sanha destrutiva da turba parece ter sido insuflada por policiais infiltrados (com a cumplicidade dos governos, para dizer o mínimo), interessados em acirrar o conflito para tentar justificar a violência brutal da repressão (que inúmeras vezes foi detonada contra massas pacíficas). Porém, também parece bem claro que não foi o único detonador dessas ações.

Ao depoimento da funcionária da Toulon poderiam se somar inúmeros outros, sem dúvida alguma: de ira contra o escancarado caráter explorador do sistema econômico (que se expressou pela depredação aos bancos); de raiva gerada pela frustração com a má qualidade de vida, objetificação e falta de (auto)reconhecimento e prestígio social produzidos pela sociedade competitiva e de consumo burocratizado (representada pelos ataques a lojas de luxo e concessionárias de automóveis); de revolta contra a violência policial sistematicamente utilizada pelo Estado contra a periferia, as mulheres, os povos indígenas, a juventude negra, a população LGBT ou contra a participação política contestadora. Continuar lendo