Governo ‘dos melhores’ e o ódio à democracia

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Então, Marina diz que vai governar com os melhores. E chama isso de ‘nova política’. Só que essa ideia tem alguns milhares de anos… Todo mundo deve ter aprendido nas aulas de História que “aristocracia” = aristoi (melhores) + cracia (poder, governo) = governo dos melhores…

Aristocracia é sinônimo de oligarquia? Supostamente, não. Naquela classificação aristotélica das formas de governo, oligarquia é a forma degenerada da aristocracia. É quando os supostos ‘melhores’ a rigor não o são, pois governam para seus próprios interesses, e não para o ‘bem comum’.

O grande problema é que, na história, é no mínimo remota a chance de se encontrar um regime supostamente aristocrático que não tenha sido, na realidade, oligárquico – e no mais das vezes, plutocrático. E tenho a impressão de que um possível governo Marina não fugiria dessa linha, a julgar por seu discurso, programa, compromissos, alianças, financiadores…

O tal governo ‘dos melhores’ é o governo dos que ‘têm as disposições que os tornam apropriados a esse papel’, diz Rancière, que complementa: e eles governarão aqueles que não teriam essas disposições, e sim as de serem governados…

É hora, mais uma vez, de afirmar a democracia: não o governo ‘dos melhores’, dos ‘técnicos’ (ah, Dilma…). E sim o poder do povo, da multidão. Ou seja, diz Rancière, a enunciação radicalmente igualitária do poder de qualquer um/a. O poder que não exige nem admite qualquer estatuto – de nascença, poder econômico, capital cultural, gênero, etnia – como condição para seu exercício. O que não significa afirmá-lo como “neutro”, cego ante as desigualdades, as relações sociais de dominação. Esse ‘qualquer um/a’ é, desde a Grécia, profundamente subversivo: significa a invasão democrática da pólis por quem dela fora excluído/a por não se encaixar nos critérios postos: mulheres, pobres, estrangeiros/as, escravos/as…

Democracia não tem nada a ver com governo dos ‘melhores’. Ela está por vir – hoje, e não em algum futuro indefinido -, mas é pelo poder ingovernável da ‘ralé’…

(Reflexão em meio à leitura de “O ódio à democracia”, livrinho-livrão de Jacques Rancière recém lançado no Brasil).

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Sobre a revolução: Jacques Rancière

Por João Telésforo Medeiros Filho

Transcrevo abaixo trecho de uma das melhores entrevistas que li nos últimos anos. Com Jacques Rancière, para a Revista Cult, edição 139, de agosto de 2009.

O mote da conversa é o livro “Le spectateur émancipé” (“O espectador emancipado”), lançado em 2009 na França e em 2010 no Brasil. Publico aqui as partes que dizem mais respeito a um tema muito caro ao B&D: a revolução, a transformação profunda das estruturas sociais.

Eu postara essa entrevista no meu blog pessoal em setembro de 2009, e é interessante perceber como a mudança do contexto muda a forma como a lemos.

“O presente não é tão alegre”, dizia Rancière em 2009. A boa notícia é que temos algumas razões para nos alegrarmos: desde o ano passado, temos visto sinais dos “novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação” manifestando-se na política – condições e sintomas de um momento revolucionário, segundo o pensador francês.

Assistimos a esse fenômeno recentemente no Egito e, com menor intensidade, na Espanha, em Natal (a “primavera potiguar” do #foramicarla), e também em Brasília – na revolucionária ocupação da Reitoria da UnB, em 2008, e nos atos do movimento Fora Arruda e Toda Máfia, em 2009-10. Merecem destaque ainda, entre os novos meios de fazer circular a informação, projetos como o Wikileaks e o Transparência Hacker.

“Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas”, afirma Rancière. Isso tem acontecido. Do mesmo modo, a criação e  o emprego, na política, de novas formas de comunicação – espera-se que, à semelhança do que aconteceu com o movimento operário no século XIX, isso implique novos poderes e direitos para o povo. Tal como em 1968, vemos agora “surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação”.

Nosso desafio é seguir fomentando e participando desses movimentos que rompem com os limites aparentes do possível e instituem novas formas de fazer política. Porém, isso não é suficiente. Rancière aponta também “novas formas de economia” como típicas dos momentos revolucionários. Não basta inventarmos uma nova política, se não tivermos a imaginação necessária para fundar uma outra economia, diferente deste sistema excludente e desigual no qual vivemos. Precisamos transformar nossa indignação em mudança; imaginar para revolucionar, a exemplo do que têm buscado fazer os manifestantes nas praças espanholas.

Anotem-se as palavras de Rancière: “Os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda“. A nova política e a nova economia que precisamos inventar devem incrementar reciprocamente suas capacidades de inovação. Precisamos descobrir/inventar a riqueza e o potencial emancipatório das redes horizontais, não-hierárquicas, na economia, não apenas na política. Isso começa a acontecer, mas é preciso ir além: disseminar, aprofundar, radicalizar esse processo criativo.

Fiquem com a entrevista para a Cult.

“(…) CULT – Continuar lendo