Caso Edward Snowden: a liberdade na rede e o teatro da diplomacia global

Representando o grupo Brasil e Desenvolvimento, debati ontem ao vivo na Pós Tv com o pessoal do Partido Pirata sobre o caso Snowden e a liberdade na Internet. Segue abaixo, a íntegra da discussão em vídeo.

Ressaltei a importância de pensarmos a Internet a partir de seu papel no sistema global de produção e circulação de bens, serviços e, sobretudo informação – o grande ativo econômico do capitalismo informacional. Sob esse prisma, fica claro que estamos diante de um grande teatro da diplomacia global a respeito das revelações feitas por Edward Snowden, há cerca de um mês, de que existe um sistema global de monitoramento e vigilância de dados de governos, empresas e cidadãos levado à cabo por agências de inteligência estadunidenses. Quando o presidente Obama diz que os EUA não estão fazendo nada que os outros países não fazem é triste, mas é a realidade. Alemanha, França, China e até o Brasil (em diferentes níveis e de diferentes formas) espionam e monitoram em massa seus cidadãos.

Pós TV: Edward Snowden e a liberdade na rede

Edemilson Paraná (B&D), João Apolinário, Paulo Rená e Daniel Dantas (integrantes do Partido Pirata) debatem a liberdade na rede

Estados nacionais e empresas transnacionais atuam em intensa colaboração na produção desse sistema global de vigilância e controle – e o Google e o Facebook, como tantos outros, são parte do jogo. Há uma verdadeira corrida ciberarmamentista financiada pela indústria bélica em cooperação com os Estados – que comercializam entre si parte desses novos “produtos informacionais” de segurança. A Internet, que nasce e se desenvolve de modo descentralizado, passa por um processo brutal de centralização, controle e militarização tanto do ponto de vista técnico quanto econômico. O papo parece complicado, mas tem tudo a ver com nossas vidas e nossa liberdade. A Internet está deixando de ser uma esperança para se tornar um grande risco para a humanidade.

Se há alguma grande lição por trás dos últimos “escândalos cibernéticos” é a de que não há democracia, há capitalismo. Em nome dele, e por ele, são cometidas todas as atrocidades necessárias, inclusive a vigilância e monitoramento em massa.

Informação é dinheiro (Capital). Dinheiro é poder. Poder é política. Só com resistência política organizada é que derrubaremos esse estado injusto de coisas (que não começa agora, nem mesmo com a Internet). Um novo front para a luta de sempre. Nas redes e nas ruas, é hora de resistir!

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A política do Facebook e as tarefas da esquerda: a revolução se faz no presente

Por João Telésforo e Edemilson Paraná

facebookruaAutoconvocação de massas

Algumas análises têm observado como a mídia tradicional, em especial a Rede Globo, mostra-se capaz de influenciar as atuais manifestações, fortalecendo ou enfraquecendo agendas e grupos.  Não ignoramos esse fato. Porém, talvez se esteja superestimando a capacidade da grande imprensa – ou melhor, da velha mídia oligárquica – de dirigir os “movimentos” espontâneos dos últimos dias, por se desprezar um fator fundamental para a sua gênese e dinâmica política: as redes sociais, em especial o Facebook.

Meios de “autocomunicação de massas”, como Facebook, Twitter e Youtube, instauraram uma mudança estrutural na esfera pública. Até alguns anos atrás, não era tão fácil para uma massa de pessoas dispersas se comunicar e, portanto, ter capacidade de se autoconvocar. Dependia-se muito mais de uma direção, de um centro emissor forte engajado na mobilização: seja um canal de TV, grandes jornais, Igrejas ou outras organizações com capacidade aglutinadora criada por forte trabalho de base. Facebook e outros instrumentos da “rede” facilitam que uma massa amorfa e fragmentada se comunique sem depender da ação de um centro emissor e mesmo de “lideranças” que sirvam de referência objetiva e subjetiva para essa mobilização.

“Cidadania digital” e fragmentação do espaço público

A facilidade de mobilização, porém, não significa que essa massa tenha a mesma facilidade de se formar ou de se organizar de modo mais consistente por meio dessas ferramentas. Pelo contrário, pode ficar até mais difícil. Há mais de dez anos, diversos estudiosos têm constatado que a internet tende a incentivar as pessoas a praticamente só entrarem em contato com aquilo que concordam. As redes sociais fortalecem ainda mais esse processo de reafirmação de preferências. E o fortalecem, sobretudo, por meio de um direcionamento tecnicamente ancorado em algorítimos de seleção. Por trás da operação do Google ou o Facebook está uma busca empresarial e publicitária em apresentar e oferecer como conteúdo exatamente aquilo que mais agrada, aquilo que o usuário “receberá” e absorverá com mais facilidade, mantendo-o de modo confortável (e quase compulsivo) na plataforma.

O “cidadão 2.0” encontra no seu espaço público virtual uma série de opiniões discordantes. Porém, o debate a respeito parece não apenas não se aprofundar, mas nunca se apresentar de modo claro: perde-se em meio ao fluxo de informações e à torrente frenética de memes para todos os gostos. É da dinâmica desses instrumentos, pois, o imediato, o simples, o fugaz. O império da performance e do imagético diante do discursivo (ainda que imagem seja  também discurso) tem um impacto profundo na cognição dos debates virtuais e, portanto, na construção da dita “democracia digital”.

Formas mais tradicionais de mobilização eram construídas ou por uma direção que aprofundava a formulação política e era legitimada (ou se fazia legitimar) por uma base; ou por espaços como conselhos e assembleias, nos quais existe um ambiente de discussão entre diversos pontos de vista visando à tomada de uma decisão. Por mais que assembleias não correspondam ao sonho utópico – e com um quê de desumano – dos modelos deliberativos racionalistas, há nelas não apenas algum espaço para o convencimento com base em razões, mas, sobretudo, a busca da construção de convergências e divergências claras, a tentativa de construir sentidos comuns que favorece a politização, força à compreensão mútua dos sujeitos.

Seria o Facebook uma grande, gigantesca assembleia, com as dificuldades enormes que isso traria? Talvez. Porém, parece haver diferenças de qualidade, e não simplesmente de quantidade: a lógica “participativa” das redes sociais parece guiar-se não apenas por métodos, mas por propósitos consideravelmente diferentes  daqueles dos conselhos e assembléias.

Tudo indica que vivemos em um tempo contraditório (como sempre o são momentos de transição de uma realidade a outra), em que a lógica do broadcasting (grandes cadeias de rádio e televisão falando para as massas organizadas com base em seu lugar de trabalho e produção), da sociedade industrial e da lógica da comunicação “um para muitos” é paulatinamente substituída pela lógica do “muitos para muitos”, das redes sociais, da desterritorialização e desespacialização do trabalho no capitalismo informacional. Trata-se de um novo modo de comunicação para um novo modo de sociedade e vice-versa. Trata-se do tempo da “transmídia”: as televisões e rádios interferem nas mídias sociais, que interferem nas ruas, que voltam a interferir nas televisões e rádios; e assim por diante num ciclo que se retroalimenta. A linearidade cognitiva, discursiva e ideológica do século XX está posta em xeque.

Desafios da esquerda: que fazer?

Ante esse diagnóstico, a velha pergunta: que fazer? [E aí vai implícito, desde o nosso lugar de fala: o que nós, da esquerda revolucionária, devemos fazer?]

A pior postura que poderíamos assumir seria nos instalarmos numa posição saudosista dos velhos tempos, que amaldiçoa a “pós-modernidade” e as redes sociais. O mais curioso é que são justamente alguns supostos marxistas que parecem assumir essa atitude regressiva, que está em franca contradição com a teleologia progressiva de Marx, para quem a esquerda deve tratar de aproveitar as bases materiais e as contradições do capitalismo para movê-lo para o futuro.

Independentemente de teleologias, a esquerda precisa se reinventar, se quiser fortalecer seu projeto libertador de sociedade.

Primeiro, de modo mais imediato, apresenta-se como óbvia a tarefa de intervir na conjuntura atuando conforme a cognição que está implantada nas redes sociais. Tratemos de fazer mais memes, vídeos curtos, etc, em defesa de nossas bandeiras. “Ocupemos” a rede com política.

Segundo, é fundamental estender para o conjunto da população o acesso pleno à base material de que hoje as maiorias ainda são privadas no Brasil: internet de qualidade. Se nossa preocupação é com empoderar as classes subalternas, devemos lutar urgentemente pela internet banda larga universal e gratuita ou a preços extremamente acessíveis.

Terceiro: para democratizar a internet, não basta universalizar o acesso a ela. É necessário construir poder alternativo ao das grandes corporações que hoje a controlam em sua estrutura, base física e, em considerável medida, conteúdo. Facebook e Google, por exemplo, são empresas pautadas pelo lucro, e que muitas vezes têm posturas de conivência e colaboração com o vigilantismo dos governos – isso para não falar da invasão da privacidade dos usuários a serviço de seus interesses econômicos. Além disso, a produção de informação jornalística está cada vez mais concentrada em grandes agências, gerando um processo de oligopolização que também afeta a internet, e se mescla ao controle da infra-estrutura física da rede (cabos, servidores, distribuição, etc) pelas grandes empresas de telecomunicações. Trata-se, então, de uma luta contra o complexo comunicacional pautado pelo lucro e pelo vigilantismo, que atravessa Estados e grandes corporações da “velha” e da “nova” mídia.

Isso significa que a demanda pela democratização da internet exige a luta simultânea pela afirmação do princípio da neutralidade da rede (ou seja, que aquele que controla a infra-estrutura física da rede não possa condicionar seu conteúdo, escolher, com base em interesses de lucro e geopolíticos, quem os recebe ou não); pelo software livre; pelo fim do oligopólio das redes de rádio e TV no Brasil; pelo apoio e financiamento à comunicação comunitária; e pela construção autônoma de redes sociais autogestionadas, não pautadas pelo lucro nem controladas diretamente por grandes corporações e pela política externa de Washington e seus aliados. Dentre uma série de outras lutas convergentes…

Quarto, a luta se dá na esfera virtual (e na disputa pela sua base física) com cada vez maior centralidade, mas não apenas nela. É necessário aproveitar o momento de ascenso de massas, a valorização da participação na rua, para que o encontro no espaço público não seja apenas entre individualidades estanques, mas produtor de novas subjetividades coletivas, formadas pela cultura de colaboração, tomada de decisões pautada pela convivência, diálogo e conflito democrático no espaço público. Precisamos fortalecer a nossa capacidade coletiva de tomar decisões coletivas: construir autonomia política da sociedade não passa simplesmente por cada um/a ir à rua manifestar sua indignação individual, mas por interagir com os/as demais para formular e implementar projetos políticos comuns – mas sem a lógica totalitária de buscar identidades unas (a “luta contra a corrupção” que supostamente uniria a todos), que não apenas negam a alteridade e a pluralidade, mas deslegitimam o conflito, o grande produtor de democracia. Explorar as possibilidades de confluência dos movimentos saídos das “redes” virtuais com as diversas lutas urbanas, pelo direito à cidade em suas múltiplas dimensões, parece ser um dos bons caminhos para isso.

Quinto, é necessário retomar a velha e indispensável tarefa cotidiana do “trabalho de base”. No tripé clássico do trabalho revolucionário, formação e organização são tão importantes quanto mobilização. Boa parte da esquerda brasileira parece ter se esquecido disso, na medida em que se burocratizou e perdeu seu caráter e compromisso militante. Grupos conservadores como a direção das Igrejas neopentecostais não se esqueceram, o que certamente contribui para a hegemonia conservadora e o ascenso fundamentalista na sociedade brasileira.

O trabalho de base, porém, precisa ser criativo. Deve buscar na memória programática e organizativa da esquerda uma inspiração, mas não mais do que isso. É preciso buscar novas referências, métodos, e cultivar um espírito e práticas de abertura para colaborar com a construção de novos sujeitos – que, para serem efetivamente novos e terem capacidade de empreenderem suas próprias lutas, não poderão corresponder às imagens petrificadas trazidas de um passado distante. Para um nova configuração social e de comunicação, uma nova forma de fazer política e disputar a sociedade.

A revolução se faz no presente. E o tempo é de imaginar para revolucionar.

PS: os pontos três e quatro, da lista dos cinco, foram acrescentados posteriormente, a partir de comentários de Helena Martins e Natacha Rena… no Facebook.

PS2: este texto não objetivava propor um programa para a esquerda nas lutas atuais, mas discutir o estilo de trabalho a ser desenvolvido, à luz da leitura das condições materiais e sociais da configuração participativa posta. Acabamos enveredando por alguns pontos “programáticos”, particularmente no que diz respeito à democratização da internet, porque diz respeito de forma mais direta precisamente à infra-estrutura de participação pública que estamos analisando. Porém, sem perder a dimensão de totalidade, isto é, de que os problemas estão todos relacionados e a luta deve ser travada numa dimensão mais global, sabemos que a democratização da internet e das comunicações passa por uma série de outras questões.

B&D no Correio: A era do ativismo político via internet

A ampla sala da Casa 14 de um conjunto residencial do Lago Sul não recebe mobília definitiva há mais de um ano. A brancura das paredes é quebrada por cartazes de manifestações e bandeiras de movimentos sociais dispostos no ambiente. As bandeiras dos movimentos Sem Terra e Sem Teto dividem espaço com um cartaz de cores verde e rosa, em que o símbolo do sexo masculino é adornado pelas palavras “homem, deixe o feminismo te libertar”. Em um tripé mais adiante, um banner ostenta o slogan dos jovens moradores da Casa 14: “Imaginar para revolucionar”. Eles têm entre 22 e 26 anos. Quando mudaram para o imóvel de dois pavimentos, na tranquila rua da quadra QL 28, os rapazes pretendiam passar por uma vivência política intensa. Integrantes do Brasil e Desenvolvimento (BeD), grupo político que nasceu no universo estudantil da Universidade de Brasília (UnB), sonhavam interferir na realidade política e social do Brasil. “Revolução”, dizem, “é lutar por uma nova política, mais inclusiva e participativa, mais justa e mais humana”.

Assim começa a matéria a respeito do B&D e de vários coletivos que, em todo o país, se uniram para fazer política transformadora. O texto foi publicado na edição impressa de hoje (11) no jornal Correio Braziliense, o maior da capital. Publicamos, abaixo, o texto na íntegra.

Aqui, para ler no site do jornal: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,14/2013/02/11/interna_politica,349007/jovens-formam-grupos-para-fiscalizar-a-aplicacao-de-recursos-publicos.shtml

B&D - na Casa 14

Correio Braziliense: A era do ativismo político via internet 

Seja para discutir temas nacionais ou fiscalizar a aplicação de recursos públicos, jovens formam grupos com a mesma característica: o uso das redes sociais como ferramenta de mobilização

Juliana Colares

A ampla sala da Casa 14 de um conjunto residencial do Lago Sul não recebe mobília definitiva há mais de um ano. A brancura das paredes é quebrada por cartazes de manifestações e bandeiras de movimentos sociais dispostos no ambiente. As bandeiras dos movimentos Sem Terra e Sem Teto dividem espaço com um cartaz de cores verde e rosa, em que o símbolo do sexo masculino é adornado pelas palavras “homem, deixe o feminismo te libertar”. Em um tripé mais adiante, um banner ostenta o slogan dos jovens moradores da Casa 14: “Imaginar para revolucionar”. Eles têm entre 22 e 26 anos. Quando mudaram para o imóvel de dois pavimentos, na tranquila rua da quadra QL 28, os rapazes pretendiam passar por uma vivência política intensa. Integrantes do Brasil e Desenvolvimento (BeD), grupo político que nasceu no universo estudantil da Universidade de Brasília (UnB), sonhavam interferir na realidade política e social do Brasil. “Revolução”, dizem, “é lutar por uma nova política, mais inclusiva e participativa, mais justa e mais humana”.

O BeD funciona num modelo de coletivo voluntário, participativo e suprapartidário que não só é espelhado na agenda política do país, como ajuda a pautar agentes políticos, a imprensa e a própria academia. Formato que vem ganhando força e espaço no país, é movido por pessoas que querem interferir nas tomadas de decisão do poder, fiscalizar a atuação dos eleitos para representar o povo e propor mudanças ao ordenamento jurídico. Muitas vezes, não têm sede própria nem fontes de recursos que não sejam as próprias carteiras. Não à toa, o salão da Casa 14 chamou tanto a atenção de seis amigos que integram o BeD. Quando decidiram mudar para lá, eles já tinham a ideia de transformar aquele espaço em um lugar de discussão e troca de conhecimento, assim como a rede mundial de computadores.

“A internet é fundamental. É nossa principal ferramenta de articulação e participação política. Lá, postamos vídeos que suscitam discussões, publicamos artigos e nos conectamos com outras pessoas e até com outros coletivos, o que nos ajuda a montar e participar de ações mais amplas”, disse Edemilson Paraná, jornalista, mestrando em sociologia e analista de comunicação do Ministério Público da União que milita no BeD.

Entre as ações do grupo, pode-se listar desde consultorias jurídicas e logísticas gratuitas a movimentos sociais até vídeos humorísticos que usam a ironia para falar de conhecidas figuras da política nacional. “Não somos um movimento social. Somos um agrupamento de pessoas que acreditam num conjunto de pautas e defendem um modelo de sociedade. Grupos como o nosso possibilitam a oxigenação, de fora para dentro, da estrutura tradicional de representação política”, disse Paraná.

Denúncias
O sociólogo da UnB e pesquisador do mundo virtual Antônio Flávio Testa lembra o poder que esses grupos têm de interferir na agenda política, levantando debates, fomentando denúncias e até interferindo na criação de projetos de lei. “Discussões iniciadas por alguns movimentos na internet acabam desembocando em legislações e obrigando o Congresso a se posicionar sobre o assunto”, disse. Mas ele não acredita que ações pontuais consigam interferir de forma contundente nos complexos processos decisórios. “Não enquanto a população não acordar para discutir essas coisas. As pessoas não acompanham o dia a dia dos políticos. Se dá o voto, tem que acompanhar”, defendeu.

Os protestos e abaixo-assinados não foram capazes de impedir a eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) à presidência do Senado. “O Congresso não tem o direito de decidir contra o desejo da sociedade”, disse um dos diretores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Márlon Reis, pouco antes da confirmação do nome que irá comandar o Congresso nos próximos dois anos. Nos dias que antecederam a eleição, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), também disse o que pensa sobre o assunto, em entrevista publicada no Correio: “Isso (o movimento na internet contra Calheiros, que ontem somava 1,34 milhão de assinaturas) pode ter efeito externo, não aqui dentro”.

Mobilização
Conheça as propostas de alguns grupos da sociedade criados para acompanhar e influenciar a política

Ocupe a Câmara
Grupo nascido nas redes sociais depois que vereadores de Belo Horizonte tentaram aumentar o próprio salário em 61,8% no apagar das luzes de 2011. Internautas se organizaram nas redes sociais com a proposta de nunca deixar a Câmara Municipal vazia.

Brasil e Desenvolvimento (BeD)
Reúne jovens que têm o objetivo de estimular as discussões sobre política, pautando não apenas a academia, como a imprensa e a própria atividade dos legisladores.

Transparência Hacker
Apesar do nome, não são piratas virtuais. Os especialistas em computadores apenas trabalham com dados que são abertos. A ideia é divulgar informações governamentais que já são públicas, tornando-as mais acessíveis.

Direitos Urbanos (DU)
Fundado no Recife, o grupo promove discussões sobre políticas que envolvem a capital pernambucana, como urbanismo e trânsito.

Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral
Reúne 51 entidades nacionais de todo o país com foco no processo eleitoral. Foi responsável pela campanha que originou a Lei da Ficha Limpa. Hoje, trabalha com um projeto para a reforma do sistema político brasileiro.

A serviço da transparência 

Também nascido da vontade de provocar mudanças, um outro grupo, o Transparência Hacker, acredita no poder do conhecimento e trabalha coletivamente para munir a sociedade com informação. Com braços em São Paulo, Belém e Brasília, trabalha para transformar dados desconexos em textos passíveis de interpretação pelo cidadão comum. O grupo de Brasília reuniu, por exemplo, todas as emendas parlamentares rubricadas pelos deputados distritais em 2012 e montou um mapa geolocalizado que permite que o usuário saiba para quais ações os recursos estão sendo direcionados, possibilitando a consulta por região administrativa do Distrito Federal. O resultado está no site www.eufiscalizo.com.br. Agora, eles estão fazendo o mesmo com as emendas de 2013. O resultado está sendo publicado no emendas.crowdmap.com.

“A palavra hacker foi deturpada. Hacker é aquele que revela o que está velado, partindo do conceito de que o conhecimento pertence a toda humanidade”, disse o servidor público formado em telecomunicações e informática Dênis Lima, 37 anos. “Nós costumamos fazer hackerdays. Pegamos um dia e reunimos pessoas com conhecimentos em áreas diferentes, como contabilidade, gastos públicos, direito e informática, e criamos aplicativos em que a população consegue acessar informações, não apenas dados não processados”.

As reuniões do grupo são feitas em espaços cedidos ou até em praças de alimentação. O dinheiro para pagar os domínios dos sites e as hospedagens dos bancos de dados saem dos bolsos dos participantes. “Não é preciso ter sede. Pode-se simplesmente fazer uso das redes sociais, por exemplo”, diz Antônio Flávio Testa. (JC)

O modelo de cidade 

É nas redes sociais que o grupo recifense Direitos Urbanos (DU) se organiza, promove discussões que fomentam ações coletivas. A mais conhecida é a luta para evitar que um cartão-postal da capital pernambucana, o Cais José Estelita, hoje ocupado por armazéns há muito em desuso, dê lugar a 13 edifícios. A obra, defendem, alteraria a paisagem e impactaria o trânsito.

O DU conseguiu pautar a imprensa e chamar a atenção da sociedade recifense. “Esse fenômeno que estamos vivendo é novo e importantíssimo”, defende Raquel Rolnik, ex-diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo. Mas ela não doura a pílula quando fala na capacidade que esses grupos têm de interferir nas relações de poder. “Esses movimentos ainda são minoritários, mas estão crescendo. Quando eles vão ter força suficiente para incidir na agenda política real, veremos.” (JC)

A resposta da Islândia à crise “econômica”: a invenção democrática

Por João Telésforo Medeiros Filho

O povo islandês tinha dois caminhos a seguir, diante da forte recessão econômica que atingiu o país: abrir mão de direitos sociais e manter intocada a estrutura econômica da nação (como se tem imposto a países como Grécia, Portugal, Espanha, enfim, ao mundo inteiro); ou proclamar a soberania democrática sobre a economia, a apropriação comum das riquezas produzidas em comum pelo povo, para garantir a todos uma existência digna. Escolheu o segundo, mostrando ao mundo que existe uma alternativa – democrática, inclusiva e transformadora – ao receituário de precarização que costuma se apresentar como o único caminho.

A Islândia nos mostra que a crise econômica é, antes de tudo, uma crise política. Vivemos, no Brasil, em estado permanente de crise, pois somos uma das nações mais desiguais do planeta, enorme parte da nossa população não se apropria de quase nada da riqueza que produz e praticamente não é ouvida na definição dos rumos da nossa economia. A mudança desse cenário de exclusão estrutural, tal como aponta a Islândia, não virá de receituários pré-moldados que reforçam o sistema econômico como mundo separado das necessidades e aspirações sociais, mas da transformação política da economia, da democratização do sistema produtivo e de apropriação de riquezas.

Merece destaque ainda a grande e promissora inovação da forma como a intensa participação popular ocorreu no processo constituinte islandês, conforme apontam Deena Stryker e Daily Kos, no texto “A revolução popular na Islândia”:

“Para escrever a nova constituição, o povo da Islândia elegeu vinte e cinco cidadãos entre 522 adultos que não pertenciam a nenhum partido político, mas recomendados por pelo menos trinta cidadãos. Esse documento não foi obra de um punhado de políticos, mas foi escrito na Internet.

As reuniões dos constituintes foram transmitidas online, e os cidadãos podiam enviar seus comentários e sugestões vendo o documento, que ia tomando forma. A Constituição que eventualmente surgirá desse processo democrático participativo será apresentada ao Parlamento para sua aprovação depois das próximas eleições.”

Para uma visão mais aprofundada da Islândia e dos impactos da crise econômica nela, vale a pena ler um dos melhores trabalhos jornalísticos que já li na vida, de autoria de João Moreira Salles, na revista piauí: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-28/carta-da-islandia/a-grande-ilusao

A REVOLUÇÃO POPULAR NA ISLÂNDIA.

Deena Stryker

Daily Kos Continuar lendo