John Lennon – socialista, feminista, internacionalista

John Lennon revolucionário

Yoko e John em passeata com o jornal trotskista Red Mole. Na capa: “Pelo IRA contra o imperialismo inglês”.

Por Edemilson Paraná

Desde muito cedo gosto dos Beatles e especialmente de John Lennon. Foi literalmente minha primeira experiência musical “libertadora”, quando, aos 12 anos de idade, de livre e espontânea vontade, sem a recomendação de ninguém (meu contexto familiar passa muito longe do Rock), uma dessa epifanias inexplicáveis me fez brotar numa loja de discos na minha pequena cidade no interior do Paraná: “quero ouvir qualquer coisa dos Beatles”. Me lembro da cara estranha da atendente que, num misto de espanto e ternura, me apontou um CD: “só temos essa coletânea aqui”. Era a Beatles 1, recém-lançada. Desde então nunca mais parei.

Pouco tempo depois, conhecendo a história de cada um dos integrantes da banda, me deparei com a música Imagine, que se tornaria um tema de vida para mim. Na mesma época começava a tocar violão. Essa combinação simples de Dó com Fá e poucas variações em Lá Menor e Sol virou uma obsessão. Tocava em casa, na escola, em apresentações, entre os amigos. Os mais próximos chegaram a enjoar. Apressado em traduzi-la, me deliciei com o exercício imaginativo de pensar um mundo sem propriedade, sem países, sem religião, sem guerras. Como seria aquela maluquice? Longe de ser um socialista, de ter alguma consciência política progressista (na verdade era até um tanto conservador), sentia que aquilo me dizia muito a respeito.

A descoberta autônoma da música (não a que te dão, mas aquela que você busca e encontra), carregada de novidades estéticas e simbólicas, teve um papel importantíssimo na minha formação, na minha sensibilidade, na forma de como viria a sentir o mundo a minha volta. E aqui vale lembrar a importância transformadora da arte, da estética, da cultura pela sensibilização e movimentação intersubjetiva por um novo senso comum.

Cresci, andei por diferentes universos musicais, me fiz universitário longe de casa, cidadão consciente do meu papel político e socialista por convicção. Toda essa mudança, essa revolução interna pela qual gradativamente passei, no entanto, fez com que eu começasse a ver os Beatles de forma ambígua: próximos emocionalmente – por conta de toda essa carga subjetiva, mas um pouco distantes racional e politicamente em relação ao modo idealizado de como aquele garoto umuaramense os via desde o fatídico encontro na loja de CDs.

Para mim, do ponto de vista político, umas das categorias fundamentais pela qual passaria a experienciar e organizar o mundo a minha volta, John e os Beatles se tornaram mais um brilhante produto da indústria cultural, que domesticou o ímpeto subversivo e marginal do Rock em seus primórdios – e a canção Revolution, que expressa em versos o que seria essa decepcionante revolução cultural, comportada e adequada ao sistema, proposta por eles era a prova cabal disso. Junto dela, as fugas espirituais, sensoriais e alucinógenas do movimento Hippie, que individualizava e marginalizava a possibilidade de qualquer transformação sistêmica; um símbolo, enfim, da destruição criadora do capitalismo cultural que transforma toda forma de contestação em adequação mercantilizada.

John Lennon, o meu preferido, seria, deles, talvez o mais progressista; um pacifista, anti-guerra, um “aliado tático”, mas, ainda assim, parte desse processo todo de derrota política da contra-cultura. Com essa conclusão em mente, sem extremismos, segui ouvindo, tocando e me divertindo com a banda e suas músicas, mas certamente desencantado. Na minha cabeça, John, os Beatles e transformação radical não eram mais uma coisa só, como o fora para aquele menino que começava a descobrir o mundo.

De certo modo, isso não mudou. Mas hoje, ao descobrir por acaso uma entrevista de John Lennon concedida a Robin Blackburn e Tariq Ali, ligados à IV Internacional, para o jornal Trotskista Red Mole, me reconcilio, de alguma forma, com aquele garoto que um dia fui. Me dou conta de algo que para alguns talvez não seja novidade: John era – ainda que de modo ambíguo – um socialista convicto, e Imagine era expressão dessa convicção, “virtualmente o Manifesto Comunista”, segundo o próprio.

Na entrevista (aqui), que ficaria conhecida mais tarde como a “entrevista perdida”, John fala sobre sua origem de classe trabalhadora, as desilusões da fama, a necessidade de destruir o capitalismo, a emancipação das mulheres, o fim das guerras, entre outros assuntos pouco convencionais para um beatle bem comportado. Conforme conta Rômulo Mattos, em brilhante artigo no Blog Convergência (parte de uma série em duas partes aqui e aqui):

“no dia seguinte à entrevista concedida ao jornal Red Mole, um animado Lennon telefonou para Tariq Ali: “Olhe, fiquei tão entusiasmado com o que conversamos que fiz uma música para o movimento, para vocês cantarem nas passeatas”. “Power to the people” mostra uma mudança significativa em relação a “Revolution”. Nessa canção, o artista avisa aos revolucionários para não contarem com ele. Inversamente, em 1971, Lennon canta: “Diga que queremos uma revolução/ É melhor começar logo/ Se prepare/ E vá para as ruas” (“Say we want a revolution/ we better get on right away/ Well, you get on your feet/ And on the street”). A sua adesão aos movimentos revolucionários é ratificada em um verso como: “Nós temos de derrubar vocês/ Quando chegarmos à cidade” (“We got to put you down/ When we come into down”). As suas declarações no período vão no sentido de que o chamado Flower Power fracassara; por essa razão, era necessário começar novamente. Lennon dizia claramente: “Somos o começo da revolução […] Da América ela se espalhará pelo resto do mundo. Viva a revolução” (cf. LEAF, SCHEINFELD, 2006). O arranjo da música merece um rápido comentário. No início da gravação, lançada como single, a frase “Power to the people” é cantada em coro, sendo acompanhada por um provável som de palmas, simulando um protesto de rua”.

Apesar de saber a respeito da espionagem que o FBI teria feito com o cantor na época do movimentos anti-guerra e do boicote à sua permanência nos EUA pelo governo estadunidense que se recusou a renovar seu visto, não conhecia essa face, digamos, “revolucionária” de John Lennon. Havia tomado esse vigilantismo ianque contra John como parte da velha e  injustificada paronóia de controle dos norte-americanos. Pelo visto havia outros temores em Washington. Grata surpresa. Se há um John hippie e domesticado, há também um John em chamas – socialista, feminista, internacionalista. De volta a meus 12, fico com esse, fico com o John de Imagine.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole com sua entrevista concedida à Tariq Ali.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole que trazia sua entrevista concedida à Tariq Ali.

Abaixo, trechos da entrevista de John Lennon a Robin Blackburn e Tariq Ali (Red Mole).

Imagine como Manifesto
“A canção Imagine, que diz, ‘Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política…’ é virtualmente o Manifesto Comunista… Hoje Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar – uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, mas porque ela é suave é aceita.”


Luta das Mulheres

“E as mulheres também são muito importantes, não podemos ter uma revolução que não envolva e emancipe as mulheres. É sutil como se fala da superioridade masculina. Levou algum tempo para que eu compreendesse que o meu machismo estava cerceando certas áreas para Yoko. Ela é uma socialista radicalmente libertária (‘red hot liberationist’) e logo me fez notar como eu estava errado, mesmo quando parecia para mim agir naturalmente. Estou sempre interessado em saber como pessoas que se dizem radicais tratam as mulheres”.


Poder para o povo
“Eles me criticaram por cantar ‘Poder para o Povo’, dizendo que nenhuma facção pode deter o poder. Bobagem. O povo não é uma facção. Povo significa todas as pessoas. Penso que cada um deveria possuir tudo de forma igualitária e que o povo deveria ser também proprietário das fábricas e ter participação na escolha de quem as dirige e o que deve ser produzido. Estudantes deveriam ter o direito de escolher seus professores.”


Revolução

“(Para destruir o capitalismo na Inglaterra), penso que o único caminho é tornar os operários conscientes da sua sofrida posição a que estão submetidos, dos sonhos que os cercam. Pensam que estão em um maravilhoso país da liberdade expressão. Compram carros e televisões e acham que não há nada mais na vida. Estão condicionados a deixarem os patrões mandarem, a verem seus filhos massacrados nas escolas. Estão sonhando o sonho de outros, não é um sonho autêntico deles. Devem compreender que os irlandeses e os negros estão sendo reprimidos e que eles serão os próximos. Tão logo eles tomem consciência de tudo isso, podemos começar a fazer algo. Os trabalhadores têm de começar a assumir. Como Marx disse: ‘Para cada um segundo sua necessidade’. Penso que isto seria muito adequado aqui”.

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Reimaginar a esquerda: o chamado que também vem do Chile

A esquerda histórica está esgotada. Reimaginá-la implica pensar para além dos convencidos. Remete a pensar uma alternativa para amplos setores que não se definem de esquerda. Pensar o país – não só uma parte dele – e forjar uma vocação de disputa de consciências com uma direita que avança sob formas inéditas.

Há muito a assumir – e deixar de eludir – para abrir caminho a uma nova esquerda para um novo ciclo de lutas populares; as limitações dos chamados socialismos reais, de percursos que não socializaram o poder, que geram novas classes dominantes; as próprias derrotas locais da esquerda. Evadir esses problemas para buscar uma enganosa força moral, responsabilizar o inimigo de tudo, vitimizar-se como arremedo de identidade, apenas escondem o desarme político e o defensivismo conservador de magras burocracias. Assumir o fracasso das estratégias passadas para superar o capitalismo é um passo ineludível para criar outras novas capazes de fazê-lo.

Requerem-se novas estratégias. Não para administrar, mas para transformar. Esse esforço não pode reduzir toda sua luta à disputa pelo controle do Estado. O século XX nos ensinou duramente que a nova sociedade não se inventa depois da “tomada do poder”. A possibilidade de uma nova sociedade se define desde o presente. Está em jogo nas características dos atores políticos e sociais que impulsionam a luta transformadora. Ignorá-lo tem como consequência que em lugar de transformar, é a esquerda que é transformada, desnaturalizada e reduzida a sócia minoritária de projetos que terminam por aprofundar a ordem atual.

Desde hoje se prefigura o futuro buscado. Portanto, o que há que pôr no centro do debate, sem distrações, é a construção de uma força política e social transformadora, geradora de novas dinâmicas e espaços, o que implica superar o esforço centrado desmesuradamente no fortalecimento do partido e na monótona apelação ao que se quer destruir, no lugar daquilo a construir. Reduzir nossa identidade à antineoliberal, anticapitalista, antissistêmica, ignora a urgência de uma vontade construtiva e transformadora para uma nova esquerda como principal arma de superação da ordem atual.

A construção dessa força transformadora requer superar as velhas concepções de construção da organização política, em particular a lógica suplantadora das forças sociais. Estas são determinantes e insubstituíveis. Um processo de transformação social generalizado só pode ser sustentado por imensas maiorias determinadas a fazê-lo. Nisso não há atalhos possíveis. A crença ilusória em atalhos somente dilata essa marcha, e o curso da transição chilena [de superação da ditadura de Pinochet sem romper com seu modelo econômico] o exemplifica com brutalidade.

Para lograr abrir as portas de um novo ciclo histórico, esquivando-se de fechar qualquer parto na funerária da política esgotada, sem mais horizontes que a soma de cálculos burocráticos, hão de confluir, junto à vontade de ação e organização, enormes doses de imaginação histórica. Não se retornará à esquerda do século XX. Persistir hoje nesse formato apenas distrai nossa energia do desafio ineludível que a história pôs diante de nós: apropriar-nos do presente.

Carlos Ruiz y Francisco Figueroa

Fundación Nodo XXI

Tradução para o português de João Telésforo.

PS: este texto é a parte final do artigo “Izquierda para qué“, publicado pelos autores em julho de 2012 na edição chilena do “Le Monde Diplomatique”. Sugestões para aperfeiçoar a tradução livre feita por mim serão bem-vindas. Continuar lendo