Por uma nova brasilidade

Por Edemilson Paraná

Pouca gente discute o Brasil sem retomar a circularidade de eternos clichês: “o país do futuro”, “os dois Brasis”, a cultura diversa, as belezas naturais, os eternos problemas. E nessa celeuma de preconceitos seguimos tecendo um país descrente, contraditório em si mesmo. O “povo que não desiste nunca” contra o “bando de preguiçosos”, o “povo de fé” contra” contra o “povo da festa”, “a próxima potência” contra a “casa da mãe Joana”.

Mais um momento de oba-oba, mais um momento de nos enfrentarmos enquanto brasileiros. Lula, Pré-Sal, Olimpíadas, Copa do Mundo, fim da crise, crescimento econômico, reposicionamento externo. E agora, José? Apegaremos-nos aos mesmos preconceitos para pensar o Brasil? Se restringir ao presente não é novidade no país do futuro. Até aí nada de novo. A Amazônia de nossos problemas nunca se adaptou ao Arizona de nossas soluções. Importamos regras, exportamos benefícios e duvidando de nós mesmos, seguimos rezando por soluções milagrosas. Precisa ser assim?

Se pensar o futuro é olhar para si mesmo, está na hora de abandonarmos o derrotismo colonizado, de refundarmos a brasilidade. Muito além de uma ode ao ufanismo juvenil, de um Brasil da camisa amarela, precisamos nos redescobrir pela anarquia criadora, pelo sincretismo insurgente, pela imaginação excêntrica. Precisamos, para falar de características reconhecidamente brasileiras, de fé e persistência no enfrentamento de nossos problemas e de “jeitinho” e imaginação na concepção de soluções inovadoras, de soluções realmente nossas. Precisamos de reformulação radical, de experimentalismo institucional, de desapego à cognição do presente.

Tomar esse destino nas próprias mãos é ser desobediente, bater o pé contra a despolitização generalizada, contra o imobilismo social. E no estímulo ao protagonismo popular, precisamos desesperadamente de política, de democracia intensa, e de planejamento para a mudança. As idéias de que “nada tem jeito nesse país” ou de que “tudo e todos são corruptos” não são mais do que brisas agradáveis da conservação; não passam da manutenção das desigualdades de sempre, do prevalecer de benefícios espúrios.

Muita coisa melhorou na última década, é verdade. O país cresceu, sofisticou-se, dividiu parte da renda, ganhou em poder e prestígio internacional. Construímos, também, alguns consensos sociais mínimos que nortearão as políticas do futuro – pouca gente discorda que o combate à fome e à desigualdade deve ser a prioridade de qualquer governo e de que precisamos de educação – mas precisamos de mais.

Necessitamos de uma educação transformadora, que não seja a negação de nossa natureza, necessitamos de distribuição de renda, de igualdade de condições, do fim dos preconceitos, de justiça social. Mas necessitamos acima de tudo abandonar as velhas convicções, se desprender das amarras do senso comum acrítico. Crer no futuro, crer no potencial e na força de uma nova geração é crer na possibilidade de uma nova auto-estima, na possibilidade de uma nova brasilidade, que só poderá se redescobrir através da participação de todos.

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Político na UnB

Por Gustavo Moreira Capela

Hoje o professor Roberto Mangabeira Unger vai  à Universidade de Brasília discutir sua proposta para o futuro do país. Mangabeira é um intelectual de grande porte. É gênio declarado desde muito novo, virou professor de Harvard aos 23 anos, escreveu livros que são comentados pelos maiores pensadores do mundo, foi elogiado por nomes como Richard Rorty e já foi considerado dono “da teoria social mais poderosa da segunda metade do século vinte”. Certamente, não é pouca coisa.

Não há dúvidas que seus anseios políticos o levam à UnB. Unger nunca escondeu sua vontade de se lançar na política, tendo como frustrada a tentativa de adquirir um assento na Casa do povo pelo Rio de Janeiro e de se lançar como candidato à presidência pelo PDT em 2002. Agora, com as eleições se aproximando, Mangabeira  já mudou de partido – agora é filiado ao PMDB, antes era do PRB – e buscará apoio para uma candidatura própria. Seu grande sonho é ser presidente do país.

Entretanto e não obstante todos os argumentos elencados acima, a prática de um evento nos moldes do que ocorrerá amanhã na Universidade de Brasília deveria ser transformada em costume. A universidade é um centro de produção de conhecimento. Deveria ser também o lócus de um debate amplo e  exaustivo entre os anseios políticos de um partido, de um indivíduo ou de um movimento social, e as teorias que os sustentam. Essa é uma forma de aproximar a Universidade e seus teóricos da área de humanas ao mundo concreto que nos envolve. Discutir os rumos do país e as mudanças estruturais que precisam ser pautadas em cada uma das áreas traz ganhos incomensuráveis para qualquer uma das partes. Enquanto o político (indivíduo,partido ou movimento social) ganha respaldo ou repensa sua estratégia, os estudiosos ganham subsídios fáticos para suas pesquisas.

Pensar um país não é algo a ser feito individualmente, setorialmente ou regionalmente. Assim como o país é pluralíssimo, as idéias que acompanham as diferenças também são as mais diversas. A universidade tem a função social de representar essa diversidade através da produção do conhecimento voltada para os anseios coletivos. Um plano nacional deve, pelo menos, passar pelo crivo dessas instituições n que tange às suas idéias.

Vejam, não defendo que a Universidade seja o único sujeito da fiscalização de idéias. A universidade, se imbuída de sua real função, terá contatos freqüentes e constantes com os movimentos sociais, estará atento às demandas dos mais diversos atores da sociedade, será  um ambiente plural e representativo, de acesso a todas as classes, e produzirá conhecimento voltado para o bem da coletividade, não pelo acúmulo da capital.

Claro que, para isso, é necessária uma reforma abrupta em todos os segmentos sociais. Não há reforma nas diretrizes educacionais que perpasse a lógica de um sistema que não presenteia conhecimento alheio ao acúmulo de capital. Até lá, entretanto, faz-se mister elogiar a iniciativa do ex-ministro. Quem possui idéias e quer construir um plano, uma estratégia de alternativa, tem que submetê-la ao crivo da crítica pública. Tem que expor suas razões e ouvir as do outro. Para além de permitir alterações com base no que ouve, é capaz de refletir com atenção ao que aprendeu com a vivência de compartilhar uma idéia própria.

Numa universidade, discutir com intelectuais que possuem planos concretos para a transformação, mudança, ou até manutenção das formas sociais é importante. Debater os planos políticos de um indivíduo que projeta idéias para sua atuação é indispensável.

Esperamos todos lá! Com idéias, planos e críticas à “Alternativa” que nos será apresentada.

Projeto à lá brasileira

Por Gustavo Capela

Numa reunião do fórum de extensão da Universidade de Brasília, realizada na semana passada, um professor “progressista” anunciou aos alunos que a extensão como parte do tripé universitário (ensino, pesquisa e extensão) ainda precisava alcançar o século XX. Criticava o argumento da menina que, com os olhos brilhando em razão do projeto que ela desenvolvia junto com seus colegas, autonomamente, dizia querer mudar o mundo. “Antes de mudar o mundo”, dizia ele, “precisamos nos ocupar em trazer a universidade ao século XX”.

Esse pensamento ilustra o que muitos encaram como uma crítica de quem se preocupa com os rumos do país, de quem pensa, estuda e vive a tentativa de transformação da sociedade. Clamam pelo aprimoramento tecnológico, científico, educacional, chamando o país, em síntese, de atrasado. Mas, que mal lhe pergunte, atrasado em relação a o quê? Em relação, claramente, a um modelo de mundo imposto, dado, por situações diferentes da nossa, em locais diferentes do nosso e com culturas – institucionais ou não – diferentes da nossa. Existe, nesse sentido, atraso?

Não entendam errado. Mudança é necessária. E antes que os conservadores de plantão perguntem por que raios d’água uma sociedade com nosso nível de desigualdade, com nossas perspectivas de ascensão social, e com o grau de analfabetismo que temos precisa mudar, digo logo que é por uma questão de ideologia. A grande questão é o tipo de mudança que queremos. Queremos ser uma Suécia tropical? Um estados unidos da América latina? Um reino unido brasileiro? Se sim, realmente, estamos muitíssimos atrasados. Até porque, ainda precisamos vivenciar toda a história deles.

A mudança que o grupo Brasil e Desenvolvimento defende se respalda na necessidade do país se encarar como ele é antes de mais nada. As nossas diferenças regionais, nossas várias línguas, nossas culturas e climas amplíssimos, nosso gosto musical peculiar e nossa forma de resolver tudo com o famoso “jeitinho” são peculiaridades que não coexistem em nenhum outro lugar do planeta. O projeto que busque alterar as estruturas sociais que oprimem o brasileiro comum deve enfrentar, antes de mais nada, os problemas que são especificamente nossos. Os países e nações de sucesso histórico devem servir de exemplo em algumas ocasiões, certamente, mas jamais figurarem como modelo a ser buscado.

Não nos tornamos os melhores jogadores de futebol do planeta jogando como os ingleses nos ensinaram. Não tocamos música como um americano, não importamos a bossa nova. Não fazemos comida como os italianos, nossas pizzas têm chocolate e cream cheese – ao mesmo tempo! Guimarães Rosa não virou o melhor escritor da língua tentando ser o próximo Mark Twain, ou Dostoiévski. Temos um estilo próprio, temos uma forma de agir própria e as instituições sociais deveriam se adequar ao que nos faz brasileiros. Ao invés de importar modelos prontos, deveríamos privilegiar nossas jabuticabas e nos lançarmos no experimentalismo institucional que um país diversificado como o nosso requer.

A política e as conseqüentes políticas públicas devem sim almejar a mudança do mundo e não diminuir o atraso segundo uma concepção que não nos tem ao centro. Estamos aqui, vivemos em sociedade aqui, em nosso país. É sempre a partir (desde) dele que deveríamos enxergar o mundo.

Política X Filosofia

Por Gustavo Capela

Dois autores são de vital importância para o grupo: Hannah Arendt e Antonio Gramsci. No entanto, os dois discordam em algo que é fundamental ao desenvolvimento tanto do país quanto do Brasil e Desenvolvimento. Isto é, a aproximação entre filosofia e política.

Arendt expõe em entrevista concedida a Gunter Gaus, posteriormente publicada no livro “Compreender: Formação, exílio e totalitarismo”(e aqui faço homenagem ao colega Gustavo Cordeiro, que me indicou a leitura), que o político e o filosófico não se confundem. Enquanto um busca um conhecimento abstrato e complexo sobre algo que é(uma espéice de “ser”), o outro se preocupa com as ações, atos e posicionamentos que uma pessoa “deve ter”. Segundo ela, a filosofia tenta demasiadamente ser neutra para poder se posicionar.São discussões sobre o que é plausível, o que é lógico, o que faz sentido dentro de um esquema teórico, enquanto o político se importa mais com o que faz sentido dentro de um aspecto mais real, mais concreto.

Claramente, Arendt não nega a importância do pensamento à ação. Tampouco nega a importância da filosofia à atitude política. O que ela questiona é a semelhança entre o “fazer” política e o “fazer” filosofia. Segundo ela,  a atuação política pressupõe aspectos que não são condizentes com a filosófica

Já aqui podemos fazer alguns questionamentos. Há, de fato, um aspecto mais real e um mais abstrato? Se sim, eles não se comunicam? É possível falar de um sem falar do outro? Conheço pessoas que tentam viver no mundo abstrato, no que se distancia do real e que em nada acrescenta à prática. Considero essas pessoas péssimas filósofas. Arendt se posiciona dessa forma ao ser taxada de filósofa, o que, aparentemente para ela, não é elogio e sim um afronte às suas posições diretas e concretas sobre os acontecimentos mundanos.

Gramsci, por outro lado, entende que a hegemonia por trás de toda busca pelo poder atrela diretamente o conhecimento filosófico à prática política. Não há, segundo ele, conhecimento apolítico. O desenvolvimento de idéias e teses está sempre relacionada a uma busca por dominação, por prevalência de sua tese em todos os estratos sociais, para amparar o domínio exercido. Sendo assim, não há conhecimento não-ideológico. E ideologia aqui é entendida no sentido forte da palavra, assim como crítica a é. Ideologia é a tentativa de impor suas vontades contra a de outros em um espaço político. É argumentar contra os atos de poder argumentativos, no bom e velho esquema marxista. Crítica, visão crítica, é tida como uma análise que lembra os aspectos de classe e os encara apesar da classe em que o interlocutor se encontra. Isso porque, quem escreve e dá opinião, pelas atribuições do próprio sistema, sempre faz parte da classe dominante. Ser crítico é agir criticamente. É ir de encontro com o que lhe é dado como correto por uma estrutura opressora que busca esconder problemas que a envolve.

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