Greve nas universidades: oportunidade para produção de conhecimento!

Muita gente imagina que uma greve seja útil, como instrumento de luta dos trabalhadores, apenas pelos prejuízos que causa ao empregador – que se vê pressionado, assim, a atender à pauta grevista. Com base nesse raciocínio é que muitos criticam greves de professores universitários: elas prejudicariam mais os estudantes do que o empregador (o Estado, no caso das universidades públicas), e portanto teriam utilidade limitada.

O que muitas vezes se esquece é que a greve oferece uma outra grande possibilidade: ela libera o tempo dos trabalhadores para que se organizem e se mobilizem pela sua causa. Greve não é igual a férias! Caros e caras professoras, servidoras e colegas estudantes: o objetivo de uma greve não é ficar de pijama em casa ou adiantar a produção daquele artigo cujo prazo está vencendo… O objetivo é avançar na luta pelos direitos à educação e ao trabalho digno.

Que atividades de mobilização podem ser feitas? Duas ideias clássicas em greves docentes são (i) passeatas, manifestações em frente ao MEC ou ao Ministério do Planejamento (em especial para greves da UnB); e (ii) aulas públicas de certos professores. Porém, o fato é que ir a uma passeata, participar de, digamos, uma Assembléia-Geral por semana e dar uma aula pública uma vez na vida durante a greve ainda é muito pouco, comparando com todo o tempo livre que um professor e um estudante passam a ter quando estão em greve. Compartilhar cartazes no facebook é legal, dá uma forcinha ao movimento, mas também está longe de ser suficiente para alcançar vitórias reais que tornem a educação e a valorização do trabalho eixos estratégicos centrais para um projeto de transformação da realidade brasileira.

Pode ser que muitos professores e estudantes não façam mais do que isso – ou não façam sequer isso – por pura preguiça ou individualismo. Porém, tenho a impressão de que muitos não fazem mais porque não têm ideia do que fazer.

Tenho uma sugestão a apresentar, a partir do aprendizado recente com o movimento estudantil chileno: que sejam criadas comissões para pensar a universidade e a educação pública no Brasil, produzir diagnósticos e propostas.

No ano passado, os estudantes permaneceram meses em greve em inúmeras Faculdades no Chile, no contexto da luta nacional do movimento estudantil pela educação pública, gratuita e de qualidade. Talvez você esteja pensando: “Greve dos estudantes? Qual é o sentido disso?”. O sentido é, além da pressão política produzida pelo só fato de entrar em greve, liberar o tempo dos estudantes para se mobilizarem!

Mas, se mobilizarem como? Aí é que tive minha maior surpresa positiva em terras chilenas: a qualidade dos trabalhos produzidos pelas comissões criadas pelos estudantes durante a greve, para analisar e levantar propostas em diversas frentes imbricadas com o direito à educação. Dentre todas, a Comissão cujo trabalho foi mais frutífero – porque perseverou durante vários meses, inclusive após o término da greve – foi a Comissão sobre Reforma Tributária criada por estudantes de Direito e por estudantes de Economia da Universidad de Chile – não para pensar uma reforma tributária em abstrato, mas para pensar uma reforma condizente com os princípios e objetivos da luta política do movimento estudantil. Os estudantes, desempenhando papel de legítimos “intelectuais orgânicos”, produziram um documento extremamente aprofundado (comentarei-o em breve por aqui), que mostra que o movimento estudantil é capaz de ir muito além de palavras de ordem, e mobilizar seus conhecimentos e capacidades para propor transformações concretas.

A Universidade de Brasília, onde estudo, é depositária de imensa reserva de conhecimentos, capacidade de pesquisa e de criação. É hora de colocá-la a serviço do projeto de emancipação social do Brasil, como sonhava Darcy Ribeiro. A greve não está aí para atrapalhar esse projeto, mas para potencializá-lo.

É verdade que as greves de pijamas realizadas nos últimos anos têm obtido apenas pequenas conquistas. Não podemos tomar isso como se fosse o destino inevitável de qualquer greve. Se pusermos o tempo liberado pela greve a serviço da mobilização, seremos capazes de alcançar resultados muito mais expressivos, capazes de lançar novas bases para a valorização do professor, da universidade e da educação brasileira.

Mobilizemo-nos nas ruas, nas Assembléias, nas redes sociais, mas também, produzindo conhecimento!

Não estou querendo que ninguém diga ao filósofo o que ele vai fazer. Quero é dizer ao filósofo que participe do debate com o matemático, com o economista, com o geólogo: o Brasil é nossa causa. A luta contra o atraso é nossa guerra e nessa guerra a universidade toda está envolvida, a filosofia também.” Darcy Ribeiro, “Universidade Para Quê?”, 1986.

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Quando o repressor é reprimido

Por João Vitor Loureiro

Acompanhamos os desdobramentos do movimento grevista da Polícia Militar no Estado da Bahia, deflagrado na última semana. Cerca de três mil apoiadores do movimento, entre familiares e os próprios PMs ocupam a Assembleia Legislativa em Salvador, cercados pela Força Nacional de Segurança. Uma situação progressivamente tensa vai sendo desenhada no desenrolar dos acontecimentos, em que a repressão ao movimento busca, a todo custo, decidir pela volta a “tudo como era dantes, no quartel de Abrantes” : uma corporação poderosa, uma maquiagem do conflito social baiano, a repressão à pobreza, o vaticínio da paz urbana e a felicidade de todos os trabalhadores (inclusive os policiais), trabalhando por seus soldos de sobrevivência.

Propagandeou-se, via mídias sociais e tradicionais, o caos da situação decorrente do movimento grevista: saques, furtos, comércios sendo fechados, arrastões e toda sorte de violência e atividades criminosas em curso.

Ordem e paz no abismo do caos e das iniquidades

Dessa situação, nos vem a primeira pergunta à tona: qual a verdadeira dimensão da “paz urbana” que alcançamos em nossas grandes cidades? Não seria ela um verdadeiro embuste do conflito, em que os agentes de mudança potenciais são, a todo momento, invisibilizados pelas forças de repressão? É evidente o esforço de debilitação, enfraquecimento e desmantelamento de uma parcela da população já completamente alijada de direitos e perspectivas, cuja única luta oferecida como possível é a luta por sua sobrevivência: alienar sua força de trabalho em subempregos e jornadas estafantes. Silenciados, a essa parcela são oferecidos como integração ao surreal espaço urbano das iniquidades, a periferia, o isolamento em guetos e a irracional mordaça de alguns imperativos: “seja um cidadão de bem”, “reverta sua liberdade em esforço pessoal para ser alguém na vida”, “obedeça à lei” e, caso atropelem diariamente direitos seus, “fique em silêncio, pois a polícia vem aí”.

Não é possível acreditar que toda a ordem social e paz nas cidades são garantidos pelas forças policiais. Primeiro, porque ordem social e paz são conceitos já equivocados: a cidade é um espaço abusivo, repleto de abismos, iníqua, e o conflito nela é lançado, muitas vezes, para as áreas periféricas. “Ordem social” e “paz” não existem. São por isso conceitos extremamente míopes, que insistem em ver ordem no caos urbano, nada enxergam senão a plácida pasmaceira da zona de ausência de conflito, onde residem as classes dominantes.

O medo em Salvador não é nada mais que a ruptura com a suposta garantia policial dessa falsa ordem. O medo em Salvador é o colocar dos óculos no conceito de paz social, passando a enxergar o conflito existente. O medo em Salvador é o rasgar da frágil tela que separa os silenciados dos privilegiados, os excluídos dos já-faz-tempo-inclusos.

Segurança Pública? Qual nada! Reprimir é a ordem

Não podemos ignorar o fato de existirem interesses muito claros no conflito desenhado na Bahia e em outros conflitos ocorridos Brasil afora. Redes de contato e parcerias entre grupos do crime organizado e policiais, a existência de milícías e de atividades simbióticas entre as corporações militares e traficantes de armas e drogas são fartos exemplos. Não há “bandido” sem polícia, não há polícia sem “bandido”.

As polícias militares foram ressignificadas no Brasil nos anos de chumbo. Tornaram-se um poderoso instrumento de repressão política, categoria de manobra dos interesses espúrios de legitimação da ordem então vigente. Revestiram-se de armamentos, tornaram-se forças de repressão, e não de segurança. Tinham, àquela época, um inimigo definido, os tais subversivos. No entanto, com o fim do autoritarismo, perderam o sentido de sua existência repressora. Fez-se necessário eleger um inimigo público: passou a ser o pobre, o completamente alijado de direitos em luta por sua conquista, sobre os quais a força dos cassetetes e as ordens de prisão pesam, continuando a conferir sentido à existência das PMs.

As PMs vaticinaram o projeto de paz social ocultando o conflito, focando suas ações nas favelas e guetos, partindo do pressuposto de garantidora da paz social, criminalizando os pobres e desdobrando suas ações táticas em lamentáveis eventos, como foi na inauguração do Relógio da Copa do Mundo 2014, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, em setembro de 2011, na qual a polícia daquele Estado tratou a gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha professores em greve que manifestavam por melhores salários. Ou como foi o trágico despejo dos moradores da favela Pinheirinho, em São Paulo, no qual a Polícia arrogou-se estar em estrito cumprimento da ordem judicial e da lei. Esqueceram, contudo, de qualquer princípio maior de direitos humanos, fundamentais, sociais. Atropelaram com apetite voraz casas, sentimentos, identidades, com o propósito de atender a uma ordem judicial que por sua vez, atendera aos interesses mais escusos do Município de São José dos Campos e do capital especulativo imobiliário de Naji Nahas.

O conflito é pedagógico

A situação na Bahia pode nos trazer importantes lições. Os policiais estão no lado de cá, no lado da luta por conquistas, no flanco da batalha por direitos, e isso implica ressignificar o papel da polícia. Implica que os agentes que recebem ordens, e não mais que ordens, possam entender o papel que exercem na vida em sociedade, ao cumprirem essas mesmas ordens. A que ordens cumprem, que ordem legitimam e que ordem reproduzem?

É fundamental que passem a entender a dimensão exata de suas ações quando reprimem qualquer movimento grevista. Quando reprimem qualquer “invasor“ou “perversor” da velha ordem urbana abissal. Quando reprimem qualquer professor que lute por condições de trabalho mais dignas. Quando reprimem favelados, “ocupando” (e não invadindo?) favelas, quando cumprem ordens de despejos, expurgando a pobreza dos olhos dos arquitetos da ordem. Quando dissimulam a cidade para os grandes eventos, para a Copa do Mundo, para o grande capital.

Os conflitos inevitáveis de um sistema executado e arquitetado pelos riscos das dicotomias expõem suas vísceras mais doentes e anacrônicas. A polícia militar precisa ser repensada enquanto instituição: repensada num papel humanitário, em defesa dos direitos humanos e de um espaço urbano plural, de um espaço da alteridade. Basta de truculência, repressão, silenciamento.

Quando o repressor passa a ser o reprimido é que ocorre a verdadeira revolução: alterar a ordem tida por “natural” das coisas, compartilhar experiências comuns, entender o outro, afogar-se em dramas semelhantes, como a baixa remuneração e a necessidade de lutar pela mudança e conquistar direitos. Apoderar-se de sentidos reveladores e, a partir deles, operar críticas sobre sua própria existência: eis os primeiros passos para uma transformação necessária.

Por que voto Dilma? Pelo diálogo, abaixo a violência de Serra!

Por João Telésforo Medeiros Filho

Vejam esta matéria sobre o enfrentamento, pelo governo FHC, da grande greve dos trabalhadores da Petrobrás de 1995, em resistência contra a quebra do monopólio estatal da empresa:  http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_31051995.shtml. Serra era o Ministro do Planejamento e coordenava os processos todos de privatização, estando diretamente envolvido nesse enfrentamento violento (segundo mostra a matéria). Ficam claros os métodos que o governo FHC utilizou para sufocar os trabalhadores em greve: “‘Se tiver que atirar, vou atirar para manter a integridade das instalações’, disse o general Antonio Araújo de Medeiros, comandante da 5ª Região Militar“.

E ainda: “O ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, esclarece que nesse conflito se empregou até uma técnica terrorista no delicado momento em que o governo resolveu demitir 67 funcionários. Brito é quem explica: na hora de fazer a lista de quem ia ser mandado embora, escolheram-se os piqueteiros, os líderes da greve e também aqueles funcionários exemplares, antigos e de bom desempenho, que nunca faltam ao trabalho – a não ser quando quem pede é o sindicato. “O segredo dessa estratégia é semear o medo da demissão em todo mundo. Numa refinaria todos se conhecem. Se um funcionário exemplar é demitido, quem está em dúvida quanto à determinação do governo vai pensar duas vezes antes de aderir”, relatou Brito a um colega de governo.

Que governo bacana, hein?!

A veja aplaude o uso desses métodos pelo governo, embora ela mesma os chame de terroristas (e que o próprio Ministro, aparentemente, chamava assim).

Eu não esperaria outra coisa dessa revista, mas não é esse o Brasil que eu quero. Para além da discussão do acerto ou não dos trabalhadores quando fazem uma greve ou o mérito de suas reivindicações, eu quero um governo que trate a greve como um direito dos trabalhadores, ouça as suas reivindicações, negocie e traga-as para o debate com toda a sociedade. Não aceito um Estado que se utilize de técnicas terroristas para combater movimentos pacíficos; não aceito um Estado que trata movimentos sociais a bala.

O PSDB e o DEM continuam tratando a questão social como caso de polícia – e até de exército e combate terrorista! Essa é uma razão fundamental para eu não votar em José Serra, e votar em Dilma. Com o governo Lula, tivemos pelo menos o tratamento dos trabalhadores pela via do diálogo, e não da ameaça e do uso da pancadaria. Isso continuará com Dilma lá, enquanto com a volta de Serra e dos demotucanos, a perspectiva é oposta.

Por um país democrático e civilizado, voto Dilma!