Direita volver: a caduquice do “Franciscanismo” de esquerda

Por Edemilson Paraná

Classe média faz revolução?

É dificil afirmar o contrário. Dos países árabes ao Chile, da Europa aos Estados Unidos, o grande ator político por trás das revoltas que sacudiram essas sociedades em 2011 e reabriram uma discussão considerada morta ou velha pelo pensamento liberal foi a classe média. Para o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn (leia aqui), “as ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos ‘exércitos postiços’, formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso”.

O fenômeno levanta uma série de dúvidas para a esquerda tradicional. O quê faz com que a mesma classe média esteja por trás de protestos e revoltas organizadas em países tão distintos econômica e socialmente como o Egito e o Estados Unidos, Espanha e Síria? Do que trata e o que pretendem exatamente esses protestos de estudantes e seus Macs, Iphones e câmeras HD a exgir uma nova sociedade?

Para o filósofo Slavoj Zizek (aqui) movimentos como esses trazem uma nova linguagem para a crítica social. Para Hobsbawn, não há dúvida se tratar de um processo revolucionário. Algo comparado simbolicamente ao ano de 1848 quando revoltas estouraram em toda a Europa; mas dessa vez uma revolução feita por estudantes, pela classe média incluída digitalmente. Segundo ele, “estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis – uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos”.

Quando direita e esquerda ortodoxa unem vozes

A reação conceitual às mudança propostas e exigidas “pelos filhos do capitalismo” não tardou a aparecer. Como há dificuldade em contrapôr um projeto civilizatório que desmascare o receituário liberal clássico e injustificável de combate às crises capitalistas (arrocho ao trabalho, incentivos amplos ao capital), optou-se por discutir o perfil dos contestadores em vez de suas ideias. A tentativa, carente de fundamento e, não por coincidência, partilhada entre a direita e parte da esquerda clássica, de desqualificar tais movimentos sustenta-se na suposta incorência de tais jovens que, munidos de educação formal de qualidade, acesso a bens de consumo e produtos tecnológicos, estão por trás de iniciativas que propõem igualdade material e o fim das opressões. Em oitavas diferentes do mesmo tom, a direita fala em hipocrisia enquanto parte da esquerda tradicional denuncia a contradição de um processo de transformação que não é gestado no seio das camadas genuinamente populares.

Em terras brasileiras, a ideia desembarcou com ares de crítica inteligente e divertida. No Facebook, o même (partícula de conteúdo viralizada na rede) “legal essa sua camiseta do Che Guevara. Você se comunica com seus amigos revolucionários por esse Iphone aí?”  foi compartilhado com ares de triunfalismo deboxado, como uma denúncia inquestionável da hipocrisia histórica da classe média de esquerda que se diz revolucionária.

E vc? Usa esse Iphone aí para reproduzir injustiças?

A direita e o “Franciscanismo” de esquerda como faces da mesma moeda

Se para a direita é hipócrita lutar com um smartphone mãos em prol dos que não tem o que comer, para a velha esquerda a prática antiga de estetização patriarcalista da pobreza produz uma recusa automática (e irracional) em levar a sério processos de mobilização e luta social convocados e organizados por jovens bem educados munidos de recursos tecnológicos de ponta. É o que eu chamo de “Franciscanismo” de esquerda, quando a cegueira dogmática leva à idealização da pobreza.

Em ambos os lados é evidente o equívoco na crítica à hipocrisa que pretensamente denunciam, mas reproduzem. À direita a descontrução é feita com menos dificuldade porque a crítica, nessa acepção, carece de um fundamento básico: lógica. Ou seja, a partir desse pensamento (?) para ser de esquerda de verdade deve-se abrir mão de tudo o que dispõe em prol da caridade ao pobres (“venda esse computador moderno e alimente famílias” é o que se ouve). Acontece, vejam só!, que abrindo mão de tais recursos aumenta-se ainda mais a desvantagem (como se ela já não fosse enorme) de progressistas em relação a conservadores na luta política contra privilégios e opressões. Ou seja, é coerente que um conservador utilize meios de comunicação eficientes para propagar politicamente a manutenção da realidade, mas é ilegítimo que alguém de esquerda utilize os mesmos recursos em prol de uma sociedade mais justa e igual.

Não faz sentido, ou melhor, faz sentido na lógica de manutenção do status quo. Sob tal compreensão, para ser coerente de verdade um esquerdista precisa voltar no tempo, se descolar da realidade em que está inserido e, no limite do paroxismo (quem define o que é ou não supérfluo nesses casos?), utilizar orelhão, rádio a pilha e mimeógrafo para fazer luta política, ou pior, terá de vender sua casa, seu carro, abrir mão de sua educação, etc., até fazer voto total de pobreza em prol da coerência caridosa, confundida por tais críticos (com toda desonestidade intelectual que disso decorre) com ser de esquerda. Essa compreensão primária da disputa política, que denota falta de capacidade de formulação de projetos de sociedade, abandona o que realmente importa –a discussão em torno de qual sociedade desejamos– em prol da desqualificação menor do polo erradiador de ideias contrárias. O que seria coerente? Não agir? Utilizar tais recursos apenas em benefício próprio? Deixar a atuação política? É o que essa crítica esconde: uma tentativa desqualificada de impedir a atuação transformadora de onde quer que ela se origine.

Ora, se por razões de ordem social, que no nosso caso é recheada de injustiças históricas, foi dada à classe média a possibilidade de acesso à educação formal, arte, esporte, bens de consumo e bens tecnológicos, nada mais justo (e necessário) que utilizem TODOS esses recuros materiais e imaterias na luta por transformação social, na luta contra tais injustiças que afetam a sociedade como um todo. Esse era o apelo da luta emancipadora do intelectual e político Darcy Ribeiro, para quem a universidade, os estudantes e a elite intelectual do Brasil tem o dever moral e o imperativo intelectual de utilizar seus conhecimento e potencialidades (que aqui podem ser vistos como privilégios de classe) em prol daqueles que não o tem, para a transformação. E aí, sim, é justo e necessário utilizar seu diploma universitário, seu smartphone que facilita a propagação de mensagens, seu computador capaz de editar peças gráficas e audiovisuais, o acesso às instituições, a boa localização em que vive, entre outros recursos, para lutar de todas as maneiras em favor de e em aliança com os movimentos sociais populares, em colaboração para seu empoderamento legal, conceitual e técnico; um empoderamento, aliás, que é mútuo na medida em que não há uma hieraquia dos aprendizados nessa relação. Pudera tivessem ainda mais recursos tecnológicos para colocar a disposição dos trabalhadores nessa batalha…

Desconstruída a crítica que vem da direita –que apela por uma caridade que esconde o conflito político e mantém injusta a base estrutural da sociedade, vamos à esquerda ortodoxa.

Para isso, é importante lembrar: Marx não teorizou sobre a distribuição da pobreza e sim da riqueza. Sendo superficial: não se trata de levar pobreza aos ricos, mas riqueza ao pobres. De sair do reino da necessidade, para o reino da liberdade, como dizia o próprio. E a ênfase na palavra liberdade aqui é importante, porque em nossa sociedade capitalista acesso ao consumo é também empoderamento político e mais uma etapa de inclusão cidadã. E por consumo entenda-se desde a obtenção de alimentos básicos até livros e computadores. Lutar contra a pobreza é lutar pela liberdade e lutar pela liberdade é combater a pobreza material e imaterial.

A política do quanto pior melhor (quanto mais fome e desgraça, mais revoltado tende a ficar o povo e mais próximo da revolução ele estaria) –típica da esquerda radical dogmática– é, além de incoerente (você supostamente quer o melhor para o povo mas na prática deseja que ele esteja cada vez pior até que chege o dia da revolução), cruel do ponto de vista humano. Achar que mais trajédia social é parte “natural” de qualquer processo de mudança política é uma escolha que a esquerda da qual eu faço parte se recusa a aceitar.

Se para nós o que interessa é a construção de uma nova hegemonia, de uma nova cultura, de uma nova compreensão das relações de poder na sociedade que inclua democraticamente a todos, para essa outra esquerda todo processo que não vem de quem sofre no limite mais profundo da opressão, de quem não é gestado e formado como indivíduo na disputa clássica entre capital e trabalho, deixa de ser legítimo. Trata-se de uma lógica excludente e autoritária que, tomada em sua compreensão fundamental, jamais será capaz de produzir mudanças reais.

Ao receber o prêmio World Food Prize em reconhecimento às políticas públicas que combateram a fome e levaram 40 milhões de brasileiros a ascenderam de classe social e 28 milhões a deixarem pobreza extrema, o presidente Lula deu uma declaração impactante (aqui disponível em vídeo):

“A fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão. E quem tem que ajudar os famintos não são só os famintos, somos nós que tomamos café de manhã, de tarde e de noite. Somos nós que precisamos, com muita humildade, estendermos a mão para ajudar aqueles que não tem força sequer para gritar que estão com fome”.

Apesar de contradito em parte pela história (a Russia revolucionária contou com um verdadeiro exército de famintos), o presidente mandou uma mensagem clara em seu discurso, mensagem essa que esteve implícita no discurso de vários revolucionários ao longo da história: a luta contra a fome é dever e responsabilidade de todos nós. A consolidação de uma revolução de bem alimentados e bem educados pode ser, quem sabe, mais bem sucedida que o exemplos fracassados que tivemos ao longo história.

“Ser um deles”

Outra dimensão dessa crítica é a visão romantizada do militante que recusa o conforto de sua vida para lutar com, viver sua realidade e até “ser” um oprimido quando da disputa política, para compartilhar e vivenciar com ele a mesma realidade. Sem entrar no mérito dessa decisão, não acho que seja uma escolha possível (ou cogitável) para milhões de brasileiros que simpatizam com ideias progressistas e podem contribuir à sua maneira para a transformação social na atual conjuntura. Se deixar o conforto pequeno burguês em prol da militância junto aos movimentos populares é mais uma escolha e uma estratégia carregada de fundamentação prática e teórica, não há de se apontar esse como o único meio coerente de produção de mudança social sob pena de reduzirmos drasticamente nosso alcance político.

Há ainda outro ponto que envolve a aliança classe média-trabalhadores: a formação subjetiva e a carga simbólica que cada uma dessas classes carrega em sua formação. Ora, por mais que um militante abra mão de todos seus privilégios em prol de somar forças aos setores populares ele jamais será um deles no sentido constitutivo. E não o será não porque não é capaz de socializar-se como um igual, mas porque construiu sua subjetividade em processos de socialização, aprendizagem e educação completamente distintos. A honestidade política em se querer igual tendo consciência das diferenças é fundamental para um relação saudável no interior desta aliança entre progressitas de diferentes classes sociais. A ignorância dessa sutileza (nada sutil) pode incorrer na imposição cega de uma subjetividade sobre a outra, reproduzindo no interior da luta política por emancipação uma nova opressão.

Para o sociólogo Jessé Souza, a superação da compreensão puramente econômica de classe social (seja pelo marxismo que a vê como um lugar no sistema de produção ou pelo liberalismo que a entende com base nos padrões de renda) é fundamental para entender o que se passa na sociedade e transformá-la  A determinação econômica de classe social seria portanto não uma mentira, mas uma meia verdade na medida em que ignora aspectos sociológicos relevantes. No livro “A Ralé”, ele discute a formação das classes sociais sob a ótica dos processos afetivos e emotivos de construção diferencial dos seres humanos, encobertos por essa associação puramente econômica (aqui em vídeo, Jessé debate a formação da nova classe média e as transformações no capitalismo brasileiro). Há um mundo de complexidades para além do marxismo teórico.

A necessidade dessa compressão se estende da questão de classe para obviamente tocar a identidade. Se não compartilhar da identidade do oprimido em questão não lhe dá o direito de apropriar-se de uma condição que não é sua, tampouco deve te impedir de apoiar, intervir, ajudar, contribuir e militar ativamente pelos direitos que envolvem a questão.

Política transforadora: incluir ao invés de apartar

É evidente que há várias limitações constitutivas que contribuem para o não envolvimento da classe média em ações revolucionárias. O militante do B&D, Gustavo Capela, elenca várias delas neste texto. Mas o fato é que de alguma forma isso parece estar mudando, e a classe média tem demonstrado um potencial considerável de mobilização seja no Brasil ou no resto do mundo. A explicação de Eric Hobsbawn para esse fenômeno de ruptura nos receiturários e modos tradicionais de compreensão das mudanças políticas vão ao encontro do argumento central desse texto. Para ele, “a esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível”.

O cenário é duvidoso e segue em aberto. Para uma nova sociedade, novas formas formas de mobilização, novos sujeitos políticos, nova alianças. Para injustiças políticas históricas, o resgate da velha tradição humanista. Tudo somado, mostra-se um equívoco estratégico enorme ignorar neste momento a classe média como força propulsora de mudanças reais. É preciso um discurso que inclua, ao invés de apartar, atores políticos distintos a se unirem pela transformação da sociedade.

E isso é especialmente relevante no Brasil, onde discute-se a gênese de um novo ator sócio-político, a chamada “nova classe média”. A oposição de direita aos poucos acorda para a realidade e exerga, através de um (talvez o único) de seus melhores quadros, essa como uma oportunidade para o avanço da modernização conservadora. Apesar de extremamente mal interpretado por seus pares, a clareza de Fernando Henrique Cardoso a respeito desse tema é cristalina:

“Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média.

(…)  Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas” (aqui, o texto na íntegra).

Vários autores discordam, entre eles o próprio Jessé Souza, da definição imprecisa dada ao termo “nova classe média”. Fala-se em nova classe trabalhadora, de uma classe com valores e posição social distintos da classe média tradicional. De qualquer maneira, é importante olhar esse fenômeno atentamente; é evidente que ela terá desdobramentos políticos consideráveis.

E nós, de esquerda, que desejamos uma transformação real e profunda desse país, como nos posicionaremos diante desse processo? Traremos para dentro do leque progressista esses que aos poucos empoderam-se como cidadãos, vindo a produzir o que pode se tornar no futuro nosso Ocupe Wall Street à brasileira, ou os designaremos como os novos privilegiados consumistas, como não dignos de nossos padrões de ação verdadeiramente revolucionários, jogando-os no colo da oposição de direita?

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Fome

Por Laila Maia Galvão

Em um dos encontros do grupo, realizamos uma dinâmica em que cada membro deveria ler um poema ou um trecho de livro com o qual tivesse alguma afinidade. Durante alguns dias, fiquei na dúvida sobre o que levar para o encontro do grupo. Logo me veio à mente um trecho de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, que eu havia lido ainda quando criança e que havia me sensibilizado bastante à época. Para mim, uma das mais belas passagens da literatura brasileira. Aproveito para transcrever alguns trechos: 

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. (…) Chico Bento estirou-seno chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas. Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo.

– Ah! Minha rede! Ô chão duro dos diabos! E que fome!

Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa. E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir. A rede de Cordulina que tentava um balanço para enganar o menino – pobrezinho! O peito estava seco como uma sola velha! – gemia, estalando mais, nos rasgões. E o instestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum… (…)

Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho…

E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante.A vergonha da atitude o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: “Mãe, dá tumê…”

E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daqueloa miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo…

A temática da fome é algo que acompanha a sociedade brasileira durante séculos e que segue nos acompanhando no presente. Lula participou, na semana passada, de reunião em Roma sobre segurança alimentar. Afirmou não acreditar que exista uma verdadeira carência mundial de alimentos. Logo em seguida, definiu a fome como “a mais terrível arma de destruição em massa do planeta” e pediu que se vença esse problema para abrir caminho a um mundo “justo, livre e democrático”.

Criticou a enorme quantidade de dinheiro injetado no mercado em decorrência da crise financeira, que poderia ter sido utilizada também para erradicar a fome: “Com menos da metade desses recursos, seria possível erradicar a fome do mundo. A luta contra a fome segue, no entanto, praticamente à margem da ação dos governos. É, por assim dizer, invisível”. Dessa forma, o presidente aproveitou para apontar o descaso dos líderes mundias em relação ao enfrentamento do problema.

Ao final, Lula desabafa: “Muitos parecem ter perdido a capacidade de se indignar com um sofrimento tão distante de sua realidade e experiência de vida. Mas os que ignoram ou negam esse direito, acabam perdendo sua própria humanidade”.

Na mesma viagem, Lula foi homenageado pela ONG ActionAid Internacional, pelos bons resultados que o Brasil obteve nos últimos anos na luta contra a fome, e, também, quanto à diminuição em 73% do índice de desnutrição infantil.

No ano passado tivemos a comemoração do centenário de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome, de 1946. O famoso livro apontou que a falta de nutrientes na comida dos moradores das regiões Norte e Nordeste se dá por características climáticas, culturais e do solo, próprias de cada localidade, além do motivo principal: a concentração de terra na mão de poucas pessoas. À época do lançamento do livro, acreditava-se que a fome era um fenômeno natural e, de certo modo, irreversível. Falar sobre fome era um grande tabu, especialmente na sociedade brasileira. Josué de Castro e suas pesquisas foram muito relevantes para demonstrar que a fome e a miséria não são fenômenos naturais, mas sim criações de nossa sociedade, fruto de ação do homem e de suas opções políticas e econômicas.

Josué de Castro estudou profundamente a questão dos nutrientes necessários à subsistência humana e dos males advindos de uma má alimentação. Em decorrência de seus estudos, passou a abordar temáticas mais próximas das ciências sociais, passando a defender arduamente a inclusão social. Foi um dos precursores na defesa do salário mínimo e ajudou a formular a política de merenda escolar. Na luta pela agricultura familiar, foi um dos críticos dos latifúndios e pregou a reforma agrária.

Em uma época em que se falar de desenvolvimento sustentável e de ecologia ainda não era muito comum, Josué de Castro denunciou as agressões sofridas pelo meio ambiente. Recebeu o Prêmio Internacional da Paz e concorreu ao Nobel da Paz. Durante o regime militar, foi exilado. Morou em Paris por alguns anos e lá faleceu no ano de 1973.

São dele frases como: “Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”, “Metade da população brasileira não dorme porque tem fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”, “Só há um tipo verdadeiro de desenvolvimento: o desenvolvimento do homem”, “O que divide os homens não são as coisas, são as idéias de que eles têm das coisas, e as idéias dos ricos são bem diferentes das idéias dos pobres”, “Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas.”

Por mais bem-sucedidos que tenham sido os resultados dos programas do atual governo federal quanto ao combate à fome, é preciso lembrar que, de acordo com a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, ainda temos no Brasil por volta de 10 milhões de desnutridos. No mundo, 1 bilhão de pessoas passam fome. Chegamos ao século XXI e ainda temos a questão da fome pela frente. Obviamente, a fome é um dos aspectos relacionados a diversos outros problemas tais como concentração fundiária, miséria, desigualdade social entre outros. É evidente que todas essas questão estão interligadas e que se falar em fome é também falar de baixos salários, de exploração, de opressão e de indiferença. No entanto, a fome parece evidenciar, na minha opinião, de forma mais explícita e direta, as perversidades do mundo em que vivemos.

O enfrentamento do problema da fome e das demais injustiças do sistema pode parecer tarefa árdua e difícil. E é. No entanto, creio que fica a lição de Josué de Castro que, na dura experiência do exílio, se definiu, existencialmente, como um “homem profundamente interessado pelo espetáculo do mundo” com suas dores, suas mazelas, suas dúvidas, suas conquistas, suas potencialidades e suas esperanças. A desnaturalização do fenômeno da fome exposta por Josué faz com que possamos imaginar e lutar por um mundo em que não se admita a desnutrição, assassinato lento e cruel do ser humano, que o reduz a uma carcaça, anulando todas suas possibilidades e potencialidades.