“Por que você defende a legalização do aborto?”

As respostas à pergunta acima parecem-me, às vezes, algo automáticas e irrefletidas. Algumas publicações nas redes sociais sobre o dia 28 de setembro, Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Legalização do Aborto me incomodaram bastante. O curioso é que não eram publicações contra a legalização do aborto ou a própria existência da referida data, pelo contrário: eram a favor. Por que me incomodaram, então? Não sou eu defensora dos direitos da mulheres e do direito à saúde? Pois aí está: justamente por isso. Grande parte das publicações defendiam a legalização do aborto sob o (único) argumento de que é uma questão de saúde pública. E é mesmo. Mas este não é o único motivo pelo qual devemos lutar pela sua legalização. Nem sequer o principal.

Qual é, então?

Fonte desconhecida.

 
Satisfatória a hora em que me deparei com a figura acima. Ela sintetiza de forma incrivelmente simples o que pode justificar a interrupção de uma gravidez indesejada: a vontade da mulher. “Só isso?”, questionam. Sim, só isso. Isso, a vontade – ou, no caso, a falta dela -, é motivo suficiente para qualquer mulher interromper uma gravidez indesejada. Destaco “qualquer” por que, sim, mesmo aquelas bem informadas, que têm acesso a diferentes métodos contraceptivos e “mesmo assim” engravidam devem ter, sim, direito a escolher se querem ou não prosseguir com a gestação. Nenhum método anticoncepcional é 100% eficaz e, portanto, estamos todas as mulheres sexualmente ativas sujeitas a uma gravidez indesejada.
 
Mas é ou não é uma questão de saúde pública? Também. E com claro (e trágico) recorte de classe: “as ricas abortam, as pobres morrem”, denunciava um dos cartazes que o B&D exibiu na Marcha das Vadias do DF de 2012. Inúmeras pesquisas sobre aborto no Brasil já comprovaram aquilo que todos nós sabemos, mas poucos admitimos: a mulher brasileira aborta. A diferença é que a rica tem acesso a clínicas privadas clandestinas, enquanto à pobre resta recorrer a métodos baratos e extremamente inseguros, que põem em risco sua saúde e sua vida. E mais: estas pesquisas também mostraram que, ao contrário do que o conservadorismo preconceituoso esperava, o perfil médio da mulher que aborta é “casada, mãe e com religião”, e não “solteira e ‘irresponsável” que não tem parceiro sexual fixo e esqueceu-se de (ou foi forçada ou constrangida a não) usar camisinha. E se fosse esta segunda mulher, aliás, e daí? Ela seria menos “merecedora” do direito de interromper uma gestação indesejada? Não. Mas a caracterização da mulher que aborta no Brasil como a primeira (casada, mãe e com religião) foi fundamental para desmascarar a enorme hipocrisia que distorce o debate público e trava avanços significativos sobre o tema no país.
 
Logo, é, o aborto realmente é uma questão de saúde pública no Brasil, mas, antes, é também uma questão de direito (da mulher) ao próprio corpo, à sua autonomia, à escolha. E este direito deve ser garantido a todas elas: jovens, maduras, solteiras, casadas, pobres, ricas, com ou sem religião. 
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Marcha das Vadias – o B&D marcha junto

A Marcha das Vadias é uma mobilização contra o hábito recorrente em nossa sociedade de culpar as mulheres pela violência cometida contra elas. A violência doméstica e a violência sexual são crimes para os quais não existe justificativa. Nenhuma mulher gosta de apanhar e nenhuma mulher “pede” o próprio estupro – nem quando anda só na rua, nem quando usa saia curta, nem quando são vadias. Todas as mulheres merecem uma vida sem violência, sem medo e sem culpa.

O B&D sabe que a luta das mulheres é a luta de toda a sociedade. O empoderamento social, a inclusão e a cidadania das mulheres requer o fim da violência contra elas. A tomada de consciência e a mudança de atitude é trabalho para todos. Essa também é a nossa revolução. Por isso, o B&D marcha com as vadias, para imaginar um novo senso comum: a igualdade entre mulheres e homens. Se ser livre é ser vadia, somos todos vadias!

Junte-se a nós, próximo sábado, dia 26/05. Concentração às 13hs, em frente ao CONIC.

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012

 

Por que marchamos?

Em 2011, fomos duas mil pessoas marchando por uma sociedade sem violência contra a mulher. No DF, marchamos porque houve cerca de 684 inquéritos policiais em crimes de estupro – uma média de duas mulheres violentadas por dia -, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos. Marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são abusadas sexualmente ao longo desses trajetos.

Dia 26 de maio deste ano, continuaremos marchando porque, no Brasil, aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano e, mesmo assim, nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro. Marchamos porque o nosso Superior Tribunal de Justiça inocentou um homem que estuprou três meninas de 12 anos alegando que elas já se prostituíam, culpabilizando as vítimas, ignorando sua situação de vulnerabilidade e negando a falência do próprio Estado, incapaz de garantir uma vida digna para que meninas tão novas não fossem levadas a serem exploradas sexualmente. Marchamos porque vivemos em uma sociedade onde homens são capazes de planejar e executar um estupro coletivo de seis mulheres como “presente de aniversário”. Marchamos pelo direito ao aborto legal e seguro, porque não queremos Legislativo, Judiciário ou Executivo interferindo em nossos úteros para nos dizer que um aborto é pior que um estupro. Marchamos principalmente para que as mulheres pobres, que abortam em condições desumanas, não continuem sendo criminalizadas e levadas à morte pela negligência e perseguição do Estado, como no caso recente em que o Tribunal de Justiça de São Paulo levará uma mulher acusada de aborto a Juri Popular a pedido do Ministério Público. Marchamos porque o Brasil ocupa, vergonhosamente, o 7 º lugar em homicídio de mulheres e porque, a cada 15 segundos lendo este Manifesto, uma mulher é agredida em algum canto do país.

Continuaremos marchando porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens. Continuaremos marchando porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos – voltada ao prazer masculino – se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas/os filhas e filhos. Continuaremos marchando porque mulheres ainda são minoria em cargos de poder e recebem em média 70% do salário dos homens. Continuaremos marchando porque há trabalhos desempenhados por uma maioria feminina que não são reconhecidos, nem dotados de valor econômico, porque as trabalhadoras domésticas são invisibilizadas, exploradas, discriminadas e não têm assegurados alguns dos direitos fundamentais mais básicos do trabalho. Continuaremos marchando porque prostitutas fazem parte do funcionamento de uma sociedade machista e hipócrita que, ao mesmo tempo em que se utiliza de seus corpos, insiste em negar suas cidadanias.

Marchamos contra o racismo porque durante séculos nós, mulheres negras, fomos estupradas e, hoje, empregadas domésticas são violentadas, assim como eram as mucamas. Marchamos pelas crianças negras que são hostilizadas pela cor de sua pele, por seus cabelos crespos e são levadas a negar suas identidades negras desde a infância, impelidas a aderir ao padrão de beleza racista vigente. Marchamos porque nossa sociedade racista prega que as mulheres negras são “putas” por serem negras, tratando-nos como mulas, mulatas e objetos de diversão, desprovidas de dor e pudor. Marchamos porque nós negras vivenciamos desprezo e desafeto reduzindo nossas possibilidades afetivas; “Vadia” enquanto estigma recai especialmente sobre nós negras, por isto marchamos em repúdio a esta classificação preconceituosa e discriminatória de nosso pertencimento étnico-racial.

Marchamos pela saúde das mulheres negras, porque temos menos acesso aos serviços de saúde, porque nos negam pré-natais, cesarianas e anestesias por acreditarem que somos animais e não sentimos dor, porque sofremos tentativas de extermínio ao sermos submetidas a esterilizações cirúrgicas sem nosso consentimento, porque somos as que mais morremos em virtude de abortos clandestinos e de complicações no parto, porque nos oferecem atendimento inadequado por terem nojo de nossos corpos negros. Marchamos pelas cotas raciais nas universidades públicas, porque temos menos acesso à informação e ao ensino superior e queremos ser mestras, doutoras e ter autoridade do argumento para escrever nossas próprias histórias. Marchamos para exigir providências contra as ameaças dirigidas a nós da Marcha das Vadias e às/os estudantes da Universidade de Brasília, proferidas por grupos de ódio que insultam mulheres, negros/as e homossexuais. Marchamos porque não vamos deixar que o medo nos silencie.

Marchamos também porque as mulheres indígenas lideram os índices de mortalidade materna e há mais de quinhentos anos sofrem agressões e estupros como arma do genocídio social e cultural de seus povos. Marchamos porque mulheres e meninas indígenas têm suas necessidades específicas ignoradas pelo governo, que negligencia o fato inaceitável de que, no mundo, uma em cada três indígenas é estuprada durante a vida e que, no Brasil, muitas mulheres e meninas indígenas são levadas à prostituição e ao trabalho escravo pela condição de extrema pobreza em que vivem.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que devem ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual. Marchamos porque, como reflexo desse cenário de opressão e subordinação, 70% das mulheres com deficiência intelectual, como a síndrome de down, já sofreram abuso sexual, cometido muitas vezes por seus próprios cuidadores e/ou familiares. Marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo. Marchamos porque há poderes institucionalizados que banalizam todas essas violências, porque o Estado não toma todas as medidas necessárias para prevenir as nossas mortes e porque estamos cansadas de sentir que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente.

Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque não seguimos o que a sociedade ou a nossa família esperava de nós,  já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar e em todos os regimes carcerários antes e depois disso. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos mais uma vez para dizer que não aceitaremos que palavras e ações sejam utilizadas para nos agredir. Nenhuma palavra mais vai nos parar, impedir, restringir ou dividir, pois os direitos das mulheres são de todas. Enquanto, na nossa sociedade machista, algumas forem invadidas e humilhadas por serem consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres para ser o que quisermos! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência, o direito à expressão da própria sexualidade e a autonomia sobre o próprio corpo são alguns dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desses direitos fundamentais que marchávamos há um ano, marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Marcharemos para que não restem dúvidas de que nossos corpos são nossos, não de qualquer homem que nos assedia na rua, nem dos nossos pais, maridos ou namorados, nem dos pastores ou padres, nem dos Congressistas, nem dos médicos ou dos consumidores. Nossos corpos são nossos e vamos usá-los, vesti-los e caminhá-los por onde e como bem entendermos. Livres de violência, com muito prazer e respeito!

Negras, brancas, indígenas, estudantes, trabalhadoras, prostitutas, camponesas, transgêneras, mães, filhas, avós. Somos de nós mesmas, somos todas mulheres, somos todas vadias!

Você, mostre sua cara!

Por Rafael de Acypreste

O receio de colocar em foco as pautas progressistas não pode ser mais um palco de vitória conservadora. Depois de um ano em retrocessos de questões importantes (código florestal, Brasil sem Homofobia, Belo Monte, entre outras), o ano começa com mais um alerta: a MP 557, aqui já questionada, ameaça ser mais uma derrota.

Porém, a sociedade civil, os movimentos feministas, parlamentares de esquerda, e todas as pessoas interessadas devem agir (e já o estão calorosamente) de diversas formas, de acordo com suas afinidades e facilidades, para garantirmos uma vitória contra a bandeira do reacionário. Basta de retrocesso! Já se passou um ano de governo Dilma, maior popularidade para um primeiro ano de governo. É hora de relançarmos as pautas progressistas e cobrar da presidenta e do governo o compromisso feito com quem apoiou sua eleição. Não aceitamos o peemedebismo. As pautas de direitos sexuais reprodutivos das mulheres e aborto precisam voltar à tona, precisam ter voz. E é a hora para a inquietação tomar forma e fôlego e enfrentar a corrente reacionária e direitista que mostra suas garras diariamente.

Diante disso, necessária se faz uma ofensiva, firme e coesa, de pautas apagadas em 2011. Não podemos ter medo de bancar os avanços que queremos e de refortalecer nossas lutas. Vamos assumir a nossa bandeira (aqui vai um texto de uma querida amiga fazendo-nos um convite). Ataquemos por todas as frentes. Vamos fazer pressão popular, desenvolver estratégias, agir com seriedade e buscar a coesão, pois o inimigo é forte, mas a militância é corajosa, engajada e amorosa. Construir o lugar que queremos não é pouco, mas é possível imaginar e é possível fazer.

Não queremos a MP 557! Queremos que as discussões avancem; que direitos das mulheres não sejam tabus se não forem consenso. Sem medos! E movimentação e articulação não faltarão.

3a. Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres – uma avaliação

Por Izadora Xavier

A 3a. Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, acontecendo essa semana em Brasília, pretende ser o fechamento de um ciclo. Pensar políticas públicas para as mulheres de maneira consistente e sistemática, reservando-lhes uma dotação orçamentária específica, é uma preocupação recente do Estado brasileiro. Essa preocupação pode ser identificada com a transformação da antiga Secretaria Nacional da Mulher, que funcionava subordinada ao Ministério da Justiça, em Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, com status ministerial, subordinada diretamente à Presidência da República, em 2003.

Um dos principais resultados dessa evolução institucional foi sentido com a aprovação da Lei Maria da Penha, em 2005. Além disso, a SPM foi responsável por capitanear o esforço de organização da Primeira Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, no final de 2004. Uma vez que a própria criação da Secretaria resultou de um trabalho antiquíssimo de mobilização e pressão do movimento de mulheres brasileiro, a Primeira Conferência Nacional, e o documento que dela resultou, o Primeiro Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, foi a cristalização de uma série de demandas históricas. O I PNPM estabeleceu 239 diretrizes de ação organizadas em cinco capítulos: autonomia, igualdade no mundo o trabalho com inclusão social; educação inclusiva e não sexista; saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; enfrentamento à violência contra as mulheres; gestão e monitoramento do plano. Dois anos depois, em 2007, a II CNPM adicionou, a esses cinco pontos, os temas de: participação nos espaços de poder e decisão; desenvolvimento sustentável; direito à terra, moradia digna e infraestrutura social; cultura, comunicação e mídia; enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia; enfrentamento das desigualdades geracionais; além do tópico de revisão orçamentária.

A inclusão do tema de participação nos espaços de poder foi apontada como uma das maiores evoluções do primeiro para o segundo plano. É preciso apontar, também, que, ao contrário das diretrizes mais gerais do I PNPM, o II PNPM elaborou ações específicas a serem realizadas pelo governo. A partir desses dois planos, algumas iniciativas são dignas de nota: os Plano e Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher; a expansão das redes de atendimento à mulher vítima de violência, com a criação do ligue 180; as Política e Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas; o PRONAF mulher; o programa Pró-Equidade de Gênero, para as empresas; a edição da carteira indígena, do MDS e MMA, que contemplou apenas projetos a serem executados por mulheres; o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural; o GT Interministerial para avaliação do impacto socioeconômico da ampliação dos direitos das trabalhadoras domésticas; o estabelecimento do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero; entre outras.

A III CNPM não apresenta como principal foco aprovar novas diretrizes ou ações. Ela pretende, sobretudo, avaliar os sete anos de SPM e seus impactos sobre o poder das mulheres de trabalharem por e exigirem a melhoria da sua situação em casa, no mercado de trabalho, na educação, na saúde pública, nos espaços formais da política.

Talvez seja conveniente que a Conferência seja mais avaliativa do que propositiva. Desde o início do governo Dilma, os prospectos para a SPM não têm sido os mais positivos. Esse ano, o orçamento reservado à Secretaria sofreu uma diminuição em relação ao ano de 2010, ano no qual ele também já havia sido relativamente diminuído. É comum ouvir que, para secretarias como a SPM, ou a SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), cujos mandatos objetivam a transversalização de questões de gênero pelas políticas de todo o executivo, a diminuição de orçamento pode ser um bom sinal: significa que as ações para o avanço da igualdade entre homens e mulheres estão sendo dispersadas pelo orçamento dos demais ministérios. A realidade do executivo federal, infelizmente, não permite a afirmação de que os ministérios estão suficientemente sensibilizados em relação a políticas para as mulheres. Certamente não o suficiente para que a SPM se torne um órgão de coordenação e monitoramento em vez de execução.

Ontem à noite, na abertura da Conferência, a presidenta afirmou que a SPM é um instrumento fundamental para o seu governo e que informações sobre o fim do Ministério ou sua fusão com as outras Secretarias da Presidência (Igualdade Racial, Direitos Humanos) eram infundadas. A presidenta garantiu que a SPM não vai acabar. Esse foi o ponto alto e a maior novidade trazida pela seu discurso. Ainda que seja reconfortante ter a garantia da continuação da SPM, um contexto no qual a melhor coisa que as 3.000 delegadas em Brasília podem ouvir da boca da presidenta é simplesmente que a SPM não vai acabar não é o mais animador dos contextos. De fato, nesse cenário, a luta da sociedade civil se torna uma em prol da manutenção do mínimo necessário para sustentar a arquitetura já existente. Que se poderá dizer sobre garantir o suficiente para ir rumo à etapa seguinte: a transversalização efetiva das questões de gênero por toda a estrutura do executivo federal? Vindo da presidenta, pelo menos, não muito.

Não obstante, o governo da presidenta Dilma Roussef demonstrou, reforçou ontem à noite, e deixou claro, desde o início do seu mandato, que sua preocupação está, sobretudo, em focar a dimensão da autonomia econômica das mulheres.  Apesar de haver outras dimensões que poderiam também ter sido priorizadas pelo governo, como o debate urgente e, no entanto, sempre adiado, sobre direitos sexuais e reprodutivos, ou o vergonhoso déficit de participação política, o foco na economia tem pelo menos um grande efeito positivo: a multiplicação de dados e estatísticas bastante esclarecedores sobre o papel estrutural do racismo e sexismo para a persistência da desigualdade e da pobreza na sociedade brasileira.

Os dados da última PNAD, desagregados por gênero e raça pelo Retrato das Desigualdades, contam uma só história: a da hierarquia social da sociedade brasileira, na qual o lugar mais alto é ocupado pelos homens não negros e o mais baixo, reservado às mulheres negras. As mulheres são 51% da população – entra essas, 49,9% são negras. Ou seja, aproximadamente ¼ da população brasileira é de mulheres negras. Entre os homens, 49% da população, 47% são brancos, representando, em termos demográficos, apenas um pouco menos da população do que as mulheres negras. Em termos de rendimento médio, contudo, os homens não negros ganham três vezes mais que as mulheres negras. O rendimento médio destes é de 1.543 reais; o das mulheres não negras, 1.001 reais; o dos homens não negros, 839 reais; finalmente, o das mulheres negras, 558 reais. Da mesma forma, a taxa de desemprego das mulheres negras é mais que o dobro da dos homens brancos: a taxa de desocupação deles, em 2009, era de aproximadamente 6%; a dos homens negros, 7%; a das mulheres brancas, 9%; a das mulheres negras, 12%. Dos homens ocupados, 75,2% têm carteira de trabalho assinada, 20 pontos percentuais acima da média das mulheres negras, que sofrem muito mais com a informalidade. Apenas 56% das mulheres negras ocupadas têm sua carteira de trabalho assinada.[1]

O levantamento desses dados tem um papel importante. O reconhecimento estatístico é o primeiro passo para expandir o foco das políticas para além das demandas das mulheres brancas, urbanas e de classe média – o “centro” do movimento de mulheres, que colocou em marcha e ainda sustenta grande parte dessa arquitetura institucional. Identifica-se, já desde o II PNPM, esforços para incluir nas políticas a ideia de interseccionalidade. A ideia de interseccionalidade serve principalmente para problematizar o próprio ponto de partida dessa discussão: a elaboração de políticas “para as mulheres”. Pensar políticas para as mulheres negras, indígenas, quilombolas, portadores de necessidades especiais, jovens, idosas, lésbicas e transgêneros, camponesas, entre outras, demonstra que as políticas “universais” para as mulheres são, de fato, políticas para “algumas mulheres” – geralmente, o “centro” do movimento feminista. Reverter essa práxis, centralizar as demandas das mulheres mais vulneráveis, requer um órgão de mulheres capaz de identificar quem são e onde estão as mulheres dessas interseções, e transversalizar suas demandas nos demais órgãos do executivo federal. A SPM tem se movido nessa direção, mas é necessário reconhecer o crédito onde ele é devido, e ele é devido a outros movimentos não tão centrais: o de mulheres negras, indígenas, camponesas, quilombolas. Todavia, esses grupos ainda encontram dificuldades para participar dos arranjos institucionais. Isso fica claro quando os vemos competindo por espaços que deveriam ser capazes de incluir a todas – é o caso da discussão sobre a formação de delegações para 3a. CNPM, acontecendo nos bastidores do evento. Não obstante, os espaços vão sendo criados, para o benefício do próprio movimento de mulheres, que quer ser plural e inclusivo. Ë preciso ainda que esses espaços sejam pressionados para além dos limites presentes – o que provavelmente será o resultado da avaliação dessa Conferência.

Houve dois bons momentos no discurso da presidenta, ontem à noite. O primeiro foi quando ela disse que sua presidência não havia sido conquistada apenas pore la mesma, na eleição do ano passado. Sua presidência foi conquistada lentamente, por cada uma das brasileiras que buscaram afirmar o lugar da mulher na política nacional. Depois, ao fim da sua fala, ela repetiu algo que eu já ouvira da boca de uma feminista francesa: o feminismo foi a maior revolução pacífica da história. Sem nunca fazer qualquer conquista de forma violenta, as mudanças no papel da mulher, que vimos século passado, são simplesmente formidáveis. Nós (feministas) tendemos a subestimar o quão formidável são essas conquistas, porque elas estão dispersas em cada experiência cotidiana e de cada luta pessoal de mulheres. Não há 18 Brumário do feminismo, há apenas cada uma das datas do calendário e a luta cotidiana de todas as mulheres – particularmente daquelas que mais lutam, as que são mais marginais. A Presidenta perdeu a oportunidade de dizer, ainda, que nesse sentido, fazer avaliações do quanto avançamos é particularmente importante. Mais importante, ela esqueceu de dizer que avaliações são importantes porque, do mesmo jeito que nossos avanços são dispersos, as ameaças de retrocesso também são cotidianas e difíceis de identificar, para combater. A cada ciclo que se fecha, um recomeça. E não pretendo essa frase como metáfora biologizante, mas como referência à Anne Sexton, grande poeta das mulheres que transbordam as construções sociais pré-definidas e, nunca satisfeitas com apenas garantir o que já se conquistou, querem sempre mais. Pretendo essa frase as if cycles and children and islands weren’t enough.  


[1] Estou tratando apenas de questões econômicas aqui, porque é esse o foco do governo. Contudo, muitas outras estatísticas/capítulos entram na história da hierarquia social do Brasil, e valeriam a pena comentar. Por exemplo, o Brasil é a 110a. posição no ranking de 192 países das Nações Unidas sobre participação política de mulheres no legislativo. Na América Latina, em termos de participação feminina, o Brasil só ganha do Haiti e da Colômbia, perdendo para todos os outros países. Dentro desse universo, as mulheres negras são ainda mais sub-representadas: elas são apenas 0,6% da Câmara dos Deputados, e nenhuma das senadoras. Segundo pesquisa do CFêmea, os homens são aproximadamente 92% da legislatura, sendo 60% dele brancos.