Direito à cidade. Por que lutar pelo Passe Livre?

Por Gabriel Santos Elias

“A cidade, onde tantas necessidades emergentes não podem ter resposta, está desse modo fadada a ser tanto o teatro de conflitos crescentes como o lugar geográfico e político da possibilidade de soluções.”- Milton Santos

Pensar direito a cidade é essencial no contexto atual da sociedade, onde os direitos fundamentais à saúde, educação, cultura, entre outros, são demandas constantes de movimentos sociais. Pensar o Direito à Cidade é conectar todas essas demandas através de uma estrutura ideal e possível de organização da cidade.

Duas questões são essenciais ao se defender o Direito à Cidade: a descentralização dos serviços e a mobilidade urbana.

A segregação espacial é um dos pontos cruciais para se entender a realidade das cidades hoje. Desde que pedaços de terra viraram uma simples mercadoria, a conseqüência lógica foi a exclusão dos pobres dos centros urbanos, onde se encontram os serviços essenciais da cidade. A lógica de mercado sobre a cidade gera uma segregação que remete os pobres a uma situação de desamparo, que aprofunda a desigualdade social.

Em Brasília especialmente a especulação imobiliária causa uma situação grotesca em que muitos imóveis permanecem vazios nos centros urbanos, aumentando o valor da moradia e excluindo ainda mais pessoas dessas regiões que ocupam indevidamente o solo das periferias das cidades, causando danos ambientais e aumentando as distâncias a serem percorridas nas cidades.

A partir da constatação do aumento das distâncias a serem percorridas pelos mais pobres nas cidades é imperativo pensar na importância da mobilidade urbana que também é claramente afetada pelo recorte de classes, onde os ricos transitam em seus carros e pobres dependem do transporte público. Mesmo assim, o alto preço e recorrente aumento exclui boa parte das pessoas que dependem exclusivamente desse meio de transporte.

Além do recorte da divisão social e econômica que afeta a mobilidade, está o problema do direcionamento do transporte público nas cidades à produção econômica. Funcionam bem para levar e trazer trabalhadores para o emprego, mas inexistem para jovens que buscam se divertir à noite, aos fins de semana e feriados. Essa característica do atual modelo de transporte se afasta do ideal de Direito da população, mas o transforma em mais um benefício do Estado aos empresários da cidade.

Além de injusto, o atual modelo hegemônico de transportes nas cidades é ineficaz. Tornando o transporte público coletivo mais atraente para todos os setores da sociedade não seriam necessários tantos carros, muitas vezes ocupados por uma só pessoa, transitando nas ruas e causando congestionamentos e poluição. Segundo dados de 2009, Brasília tem um carro para cada 2,37 habitantes. Considerando ainda que boa parte dos Brasilienses ainda não tem condições de comprar um carro, temos uma realidade de muitos carros para poucas famílias ocupando as vias enquanto pessoas pobres têm de vir aos centros em ônibus desconfortáveis e ainda pegando o engarrafamento causado pelos muitos carros dos mais ricos.

Para solucionar esse problema é preciso pensar o desenvolvimento das regiões descentralizadas da cidade, para que contem com todos os benefícios de se viver no centro. Para isso precisamos reduzir a desigualdade social e distribuir igualitariamente os serviços públicos essenciais, mantendo a qualidade em todas as regiões e incentivando a produção cultural das regiões periféricas para que sejam inteiramente auto-suficientes em relação aos centros urbanos.

Enquanto não temos uma cidade inteiramente autônoma e descentralizada, ter um transporte público, gratuito e de qualidade é essencial. Um transporte que garanta o acesso de todos a todos os lugares da cidade, garantindo seus direitos fundamentais a saúde, educação, cultura e diversão.  Também o incentivo a novos meios de transporte, principalmente com a construção de ciclovias que garantam a segurança e o livre acesso dos ciclistas à sua cidade.

No Distrito Federal conquistamos um avanço no Direito à Cidade recentemente, quando o Governo local instituiu o Passe Livre estudantil. Foi uma vitória limitada. O atual Passe Livre estudantil institui um número máximo de passagens as quais os estudantes têm direito, limita o direito apenas ao trajeto Casa-Escola-Casa, ignorando o fato de que jovens não aprendem apenas na escola e que também devem ter direito a diversão. O Passe Livre estudantil passou por uma manobra dos empresários locais para que, antes de beneficiar os estudantes, beneficiasse a eles próprios. A máfia dos transportes local deturpou a lógica do Passe Livre e agora o Governo do Distrito Federal diz não ter mais condições de sustentar a conquista dos cidadãos, quer reduzir nossos direitos ao invés de rever a lógica de benefício aos empresários através da Fácil.[i]

Mas Direito não se retira, se amplia! E por isso não vamos aceitar a manobra do governador ilegítimo do GDF, Rogério Rosso. Vamos lutar pela ampliação do Passe Livre estudantil para que seja ilimitado, garantindo o direito total de ir e vir dos estudantes. Esse é um passo importante para que avancemos na efetivação do Direito à nossa Cidade.  Passe, passe, passe livre já!


[i] A Fácil é controlada pelos donos das empresas de ônibus, entre eles o próprio presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Público, Wagner Canhedo Filho, que comanda a Viplan. E também por Victor Foresti, da Viação Planeta.

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Nossa política e os partidos políticos.

Por Gabriel Santos Elias

 Os partidos têm grande importância na organização política nacional. São eles os responsáveis por captar os debates importantes à sua base no âmbito institucional e transformá-los em debate na sociedade. Na mesma medida em que são eles que devem captar os anseios da sociedade civil, construir um projeto coletivo para o país e disputá-lo no parlamento, no executivo ou mesmo judiciário, através dos meios possíveis. Mas o partido deve fazer ainda mais que isso. O partido deve servir como meio de organização da sociedade preocupada em ditar coletivamente os rumos de seu país.

 Gramsci extrapola brilhantemente um conceito já existente na teoria política italiana chamando o partido político de O Príncipe moderno, inspirado em Maquiavel. O Partido é o responsável pela ação política, ação necessariamente coletiva e, como Maquiavel, Gramsci entende que a política tem sua autonomia e obedece a leis próprias, não derivando da moral tradicional. A ação política coletiva cria uma nova moral.

 É o mesmo Gramsci que vai introduzir o tema que abordo hoje. A crise dos partidos políticos. “A um certo ponto de sua vida histórica, os grupos sociais se afastam de seus partidos tradicionais, isto é, os partidos tradicionais como forma organizativa determinada, com homens que os constituem, os representam e os dirigem, não mais são reconhecidos como expressão própria de sua classe ou fração de classe. Quando essas crises acontecem, a situação imediata se torna delicada e perigosa porque o campo está aberto às soluções de força, à atividade de potências obscuras, representadas por homens providenciais ou carismáticos”.

 A situação que Gramsci descreve me parece bem real observando o cenário político brasileiro atual. Nossa política está tomada por personalismos, brigas de egos e disputas por recompensas materiais. Esse é um efeito da incapacidade dos partidos políticos atuarem como tal. O partido deve ter um projeto coletivo para o país e deve lutar por sua implementação.  

 O sistema político brasileiro incentiva a existência de pequenos partidos, o que facilita a utilização destes como meio para atingir objetivos políticos pessoais, são os famosos partidos de aluguel. Minha opinião é que não deveria ser fácil criar um partido, nem deveriam existir tantos partidos. Um partido político, além de meio, deve ser resultado de um processo social profundo de politização da sociedade em torno de princípios comuns. As leis atuais não exigem esse processo para a criação de um partido e incentivam partidos que passaram por esse processo a deixarem princípios de lado para obter resultados políticos concretos.

 Por que afinal Lula é aliado de Collor, Sarney e Renan? Primeiramente, em um sistema político presidencialista como o brasileiro, em que para governar você deve se coligar a outros grupos, é impossível impor um projeto de país.  Além disso, na política personalista brasileira os grupos com os quais se alia para conseguir governar não são necessariamente partidos. Podem ser os afilhados políticos de um coronel, um grupo de ruralistas, ou outros grupos existentes dentro de um ou vários partidos buscando não o atendimento de seus projetos coletivos, mas seus interesses pessoais (ainda que políticos)(1).

 Os partidos políticos devem ser um espaço público de disputa de poder da sociedade civil na construção de um projeto de país coletivamente. Nesse espaço deve disputar o ambientalista, o militante do direito das mulheres, o militante do software livre e qualquer outro grupo social com algum interesse na implementação de um projeto de país. Esse projeto coletivo deve ter alguma garantia de que será defendida por seus representantes nos cargos públicos para o qual foram eleitos. É necessário o reconhecimento de maior controle partidário. São os partidos que devem garantir internamente através de suas próprias disputas em mecanismos democráticos a representatividade em seu meio, levando essa prática para o sistema político em disputa.

 Por dois meios distintos deve-se mudar a forma como vemos os partidos: Primeiramente e anteriormente a qualquer coisa, através da nossa percepção da necessidade da construção coletiva como único meio para atingir um resultado positivo para a sociedade. Mas também com um reforma política profunda no sistema brasileiro.

 Devemos, para isso, abusar do experimentalismo, entender que os políticos brasileiros não são os mesmos que os americanos, alemães ou franceses, e que devemos adaptar nossas leis tanto a nossas necessidades como a nossa realidade. Devemos também desmistificar os partidos políticos como algo externo a sociedade. Entender que o partido é parte da sociedade civil e que aumentar a importância de um instrumento coletivo como o partido é melhor para a democracia que manter as raízes patrimonialistas e personalistas na nossa política. Assim poderemos desmistificar também instrumentos necessários em uma reforma política, como o uso de lista fechada, somente para dar um exemplo.

  A nossa percepção da necessidade da construção coletiva como único meio de se conseguir implementar mudanças concretas na sociedade deve vir antes das reformas pelo simples fato de nossos representantes – responsáveis por essa mudança –  estarem adaptados a um sistema personalista e individualista da política. Logo, qualquer mudança nesse sistema não deve depender da vontade dos que nos representam hoje, mas de uma pressão para que essas regras que sustentam nossa política mudem e privilegiem projetos coletivos de país.

 Mas o que nossa política tem a ver com os partidos políticos? Não nos enganemos, a mudança deve vir primeiro da nossa ação. Somos tentados o tempo todo pela facilidade de pensar individualmente e de sustentar ganhos pessoais. Antes de qualquer coisa é a nossa forma de ver as disputas que deve mudar. Não percebemos a força que a construção e luta coletiva tem, seja em um partido, uma ONG ou um movimento social(2). Não se conquista nada de realmente importante sozinho e qualquer um que tenha em mente mudar nossa realidade politicamente deve ter clareza da necessidade de se modificar a forma como se faz política também. Se não nossos objetivos estarão cada vez mais distantes da realidade que estamos construindo.

 1- De forma alguma quero defender essa tosca aliança, apenas acredito que o sistema político atual favorece esse tipo de estratégia política por não viabilizar outras alternativas.

2 – Não descarto as outras formas de organização coletiva, pelo contrário, acredito que com o fortalecimento dos partidos políticos – como intermediadores da sociedade com a institucionalidade – as organizações da sociedade civil também serão beneficiadas.

Do pobreza ao poder

Por Edemilson Paraná

Democracia ajuda a diminuir a pobreza no mundo

Foi lançado no último dia 18, aqui em Brasília, o livro “Da pobreza ao poder – Como cidadãos ativos e estados efetivos podem mudar o mundo”, de Duncan Greem, pesquisador da Oxfam na Grã-Bretanha. O livro foi lançado em outras 3 capitais brasileiras (Rio, São Paulo e Recife).

No livro, o pesquisador argumenta que será necessário promover uma redistribuição radical do poder, oportunidades e ativos para romper o ciclo da pobreza e da desigualdade e permitir que essas pessoas em situação de pobreza assumam o comando de seus próprios destinos. A tese do livro é de que cidadãos ativos e estados efetivos são as forças que estão impulsionando essa transformação.

A obra traz uma grande contribuição para um debate urgente e marcado por mudanças rápidas em torno do desenvolvimento, tema de importância central nas discussões deste blog. Sua análise baseia-se na experiência das organizações afiliadas de Oxfam International e contrapartes em mais de 100 países e em abrangentes discussões com diversos profissionais da área do desenvolvimento.  A Oxfam é uma associação de organizações internacionais que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no planeta.

O livro oferece uma visão de pessoas de todas as partes do mundo que tem educação, saúde e acesso a outros direitos bem como, dignidade e voz – e que são donos de seus destinos. Para que isso seja possível para todos, faz-se necessário o estabelecimento de um novo acordo global – um acordo para a redistribuição de poder, participação, oportunidades e ativos. A experiência da Oxfam, retratada no livro, nos permite concluir que a redistribuição necessária pode ser alcançada por meio de uma combinação de cidadãos ativos e Estados efetivos.

Por que cidadãos ativos? Porque pessoas em situação de pobreza devem ter o direito de participar de decisões que definam seu destino, de lutar por direitos e justiça na sua sociedade e de cobrar responsabilidades do Estado e do setor privado. Por que Estados efetivos? Porque a história revela que nenhum país prosperou sem uma estrutura estatal efetivamente capaz de administrar ativamente o processo de desenvolvimento.

É interessante a abordagem feita pelo autor da necessidade de participação política e uma cidadania ativa para que as reivindicações se convertam em transformações reais. A noção vem ao encontro da idéia, discutida e apresentada repetidamente pelos membros do B&D, de que a transformação social se dá, antes, pela politização da sociedade.

Nesse sentido, se torna claro o porquê uma cidadania ativa se faz necessária- e aqui mais uma vez as noções do grupo e do autor se encontram:  a repolitazação da sociedade deve levar ao empoderamento  popular, ou seja: é crucial que os cidadãos possam determinar o curso de suas próprias vidas, lutando por seus direitos e por justiça em suas sociedades.

O prefácio do livro é escrito por ninguém menos que Amartya Sen, economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998 e conselheiro honorário da Oxfam, outro grande nome de peso para este grupo, que resume “Por nos contar o que pode ser realizado por pessoas comuns por meio de ações organizadas, este livro gera esperança ao fortalecer o entendimento do que é necessário fazer para eliminar a pobreza. O mundo efetivamente precisa de esperança e know-how e temos razões para sermos gratos pelos fatos que este importante estudo nos apresenta a partir de um amplo conjunto de ações sociais colaborativas”.

Outro destaque de “Da Pobreza ao Poder” refere-se aos governos de países ricos. Segundo autor, eles devem concentrar-se, primeiramente, em colocar sua casa em ordem. Eles devem reprimir duramente em seus territórios atividades danosas, como o comércio de armas, a restrição ao fluxo livre de conhecimentos e tecnologia, a falta de ética das empresas, emissões de carbono que podem destruir o planeta.

“Essa agenda de ‘parar de prejudicar’ deve ser complementada por uma solidariedade ativa com a luta de pessoas em situação de pobreza e suas comunidades dentro dos países em desenvolvimento, que deve incluir uma maior ajuda humanitária em termos de quantidade e qualidade. Não pode haver uma causa mais louvável. A luta contra o flagelo da pobreza, da desigualdade e da ameaça de um colapso ambiental definirá o século XXI, como a luta contra a escravidão ou pelo sufrágio universal definiu eras pregressas. Se falharmos, as gerações futuras não nos perdoarão. Se formos bem-sucedidos nesse esforço, elas se perguntarão como o mundo tolerou essa injustiça desnecessária e sofreu seus efeitos por tanto tempo”, alerta Greem.

Algumas curiosidades nada curiosas apresentadas no livro

“A economia globalizada produz, anualmente, US $ 9.543 em bens e serviços por pessoa – 25 vezes mais que o valor de US $ 365 por ano que define a ‘extrema pobreza’ de um bilhão de seres humanos. Isso é mais do que suficiente para todos.”

“As mulheres cultivam de 60 a 80 por cento dos alimentos produzidos na maioria dos países em desenvolvimento, mas são proprietárias de menos de dois por cento da terra. Em Kerala, na Índia, quase metade das mulheres que não possuem qualquer propriedade relata que sofre violência física, contra apenas 7 por cento das que possuem alguma propriedade.”

“Pessoas que moram em favelas em Jacarta, Manila e Nairóbi pagam de cinco a dez vezes mais por unidade da água que consomem do que as que moram em áreas de alta renda em suas cidades – e mais que os consumidores pagam em Londres ou Nova Iorque.”

“Abaixo de um PIB de cerca de US $ 20.000 per capita, as expectativas das pessoas em relação à sua satisfação na vida aumentam constantemente com a renda. Acima desse valor, o gráfico se estabiliza: uma renda nacional mais alta não traz mais satisfação às pessoas.”

“Os países pobres estão perdendo cerca de US $ 385 bilhões por ano (quatro vezes o volume da ajuda humanitária global) em decorrência da sonegação de impostos.”

“Para cada pessoa que falece em decorrência de atentados terroristas, aproximadamente 25 mulheres morrem desnecessariamente no parto e outras 60 morrem em acidentes de trânsito, enquanto 175 crianças morrem de fome.”

“Se não forem tomadas medidas agora, o número de refugiados ambientais pode superar a marca dos 150 milhões até 2050 em função dos prováveis efeitos do aquecimento global.”

“Em 1900, a Nova Zelândia era o único país com um governo eleito por todos os seus cidadãos adultos. No final do século, o mundo tinha 120 democracias eleitas.”

Sobre o autor

Duncan Green, desde 2004 dirige a área de Estudos e Pesquisas de Oxfam Grã-Bretanha. É também Professor Visitante da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. O autor tem mais de 20 anos de experiência e de reflexão nos temas de desenvolvimento e de combate à pobreza e as desigualdades.

Formado em Física pela Universidade de Oxford, sua vida profissional mudou radicalmente quando realizou uma viagem para a América do Sul, no final dos anos 1970. Viveu e trabalhou em diversos países acompanhando como jornalista e ativista as dificuldades econômicas, políticas e sociais que caracterizaram a região nas décadas de 1980 e 1990. Essa experiência resultou na publicação de diversos livros sobre a América Latina, como, por exemplo, La Revolución Silenciosa, El auge de la economía de mercado en America Latina (Tercer Mundo editores, Colombia, 1997).

Em 1997, integrou os quadros da organização não governamental britânica CAFOD como Analista Político em Comércio e Globalização. Na ocasião, publicou diversos textos, sobre comercio internacional, pobreza e desenvolvimento. Esse novo desafio lhe possibilitou ampliar seus horizontes e conhecimentos para novas regiões do planeta, especialmente África e Ásia.

No ano 2004, Duncan assumiu o cargo de Assessor Sênior no Departamento de Desenvolvimento Internacional do Governo Britânico. Atualmente, Duncan vive em Brixton, no sul de Londres, com a esposa e dois filhos.

Lula e a personalização da política brasileira

Por Edemilson Paraná

A relação do presidente Luís Inácio Lula da Silva, com o poder e o povo brasileiro diz muito sobre nossa cultura política e as perspectivas de desenvolvimento para o futuro.

Afora o velho preconceito de classe, pouca gente discorda de que o atual presidente é um verdadeiro gênio político. Lula é um político como há muito tempo não se vê no país; e para aguçar a polêmica, me arriscaria a dizer mais: nosso atual presidente é um político do escalão de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

É importante lembrar que quando coloco Lula no mais alto escalão da habilidade política na história do Brasil, o faço pensando única e exclusivamente em fatores de habilidade para ação e para a disputa de poder (virtú) no sentido maquiaveliano do termo. Me interesso em analisar a genialidade, o talento de Lula para lidar com o jogo político e aqui não me preocupo se esse talento é nobre ou cruel, de direita ou esquerda, bom ou ruim.

Um amigo, cujo pai tem vasta história na política brasileira e no PT e hoje ocupa um alto cargo no governo, certa vez nos comentou sobre as reuniões de seu pai como o presidente. Cito as palavras dele: “Meu pai gosta de dizer que o Lula é um dos caras mais otimistas que ele conhece. Ele cansou de ir á reuniões para debater disputas políticas, dadas como perdidas, onde as pessoas estavam tensas. Quando o Lula entrava na sala e discursava todo mundo se entusiasmava e saía com a impressão de que muito possivelmente eles levariam mais aquela”. Nada mais ilustrativo do que isso.

O otimismo é uma grande moeda de troca na conquista da confiança e da parcimônia. JFK, Ronald Reagan e mesmo Hitler, Churchill e Fidel, para citar pólos distintos, usaram magistralmente do otimismo na política. Obama usou e abusou do “Yes, We can” e o presidente Lula acabou contagiando, em 80% de aprovação, a nação com seu otimismo à brasileira.  Mensalão, escândalos , reeleição, crise econômica, Lula sobreviveu a tudo isso por meio da arte de mostrar que “tudo tem um lado bom”.

Lula, não por acaso, é o político mais popular da atualidade. Mais do que otimista, “o cara” sabe se comunicar. Sua linguagem simples, fácil, direta, baseada em metáforas e inferências comuns ao imaginário da cultura popular ultrapassou a barreira da imprensa e alcançou o povo nas ruas. Quanto mais a imprensa debocha, mais o povo entende e aplaude. O povo se sente parte de Lula. Lula é nordestino retirante, foi metalúrgico, torce pelo Timão, nunca desistiu da presidência e toma cachaça.

Some a isso uma história apoteótica digna de filme, que, aliás, está pra ser lançado com a benção do próprio presidente, um carisma inigualável e uma fantástica habilidade de gerar consenso; pronto: o país foi silenciado.

O Brasil se encontra em um silencio ensurdecedor. Nossos problemas continuam latentes, a corrupção continua sendo o câncer de ontem, o Estado não foi reestruturado, mudanças profundas não foram realizadas e a estrutura de sócio-política permanece a mesma, as desigualdades continuam reproduzidas. As promessas de reforma agrária, reforma tributária, e tantas outras ficaram esquecidas nos folhetos de campanha em 2002. Os movimentos sociais? Foram engolidos por esmolas e desmobilizados pela base. MST? CUT?UNE? Pesquise um pouquinho e verá o que se foi feito deles: se tornaram parte do governo. Empresários? Intelectuais?Estudantes? Pouco se brada no Brasil silenciado.

Não acho que Lula tenha, sozinho, silenciado o país. A aliança foi ampla e dizer o contrário seria superestimar o papel do presidente. Mas a bem da verdade é que a situação ficou favorável pra muita gente. O governo formou um pacote partidário tão amplo que mesmo quando a oposição ganha, ele também ganha. Lula leiloou ministérios, aglutinou o congresso, trouxe a elite pro seu lado e deu ao povo a sensação de que era possível acreditar novamente.

Seu governo teve muitos avanços reais, é preciso admitir, avanços, aliás, que há muito tempo não se viam e que talvez não fossem possíveis sem um governo de matriz ideológica de esquerda, voltado para o aspecto social. Avanços também em democratização. Mas discuti-los não é o meu objetivo aqui.

Se comparei Lula a Getúlio, o faço novamente. Getúlio, como bom leitor de Maquiavel, foi temido e amado, articulou e desarticulou, promoveu políticas para o país de modo que o povo jamais tivesse o sentimento de conquista, mas sim o de premiação. Lula está longe do autoritarismo de Getúlio, mas em muito lembra a habilidade do “pai dos pobres”.

O PT, um dos responsáveis pela construção de Lula, também foi silenciado. Foi obrigado a apoiar Sarney, mesmo sem querer, a referendar Dilma como candidata, mesmo sem querer, e hoje amarga o esvaziamento de seu histórico projeto de poder, o cair da própria ideologia. Lula não precisa tanto do PT, quanto o PT de Lula. O projeto de poder, se é que há um, é agora “lulista” e não mais “petista”.

O problema dessa aglutinação é sério: é personalista e reproduz os velhos males da política brasileira. Em nome de permanecer no poder e ganhar novas eleições, o governo não enfrenta os problemas do país de frente, não toma opções polêmicas na construção do futuro e pouco avança rumo a um país mais igual. Para manter a governabilidade, o governo aceita a contradição político-ideológica. Em nome da manutenção do poder todo mundo se cala. Por um lado, isto traz tranqüilidade social ao país, mas por outro adiamos a solução de nossos reais problemas. E seguimos, brasileiramente, evitando dividir, evitando discordar.

Encarar problemas de frente e pensar nosso desenvolvimento com responsabilidade significa ter um projeto de país definido claramente para além de qualquer figura carismática. Significa estar disposto a ser opção, estar disposto a dividir e ser coerente com o que se defende. Pensar a política de maneira séria e honesta é estar comprometido com soluções de longo prazo.

Alguns irão dizer que isso significa ignorar a dinâmica do poder, a real politik. Pois eu digo que o poder não é única peça do tabuleiro político.Nesse jogo existem inúmeras combinações capazes de nos levar o mais próximo possível daquilo que desejamos, basta sermos criativos.

Mais isso é assunto para outro post.