Superar a capitulação da esquerda

Precisamos pensar a capitulação de Marina, que dá mais um passo em trajetória rumo à direita iniciada há anos, para muito além do Fla-Flu eleitoral. É necessário pensar mais uma vez também a capitulação do PT, ou de grande parte do partido, assim como do PSB, PCdoB e tantas outras forças. Para evitar que essa tragédia se reproduza como destino da nossa geração de militantes sociais com horizontes anticapitalistas e altermundialistas, é indispensável buscarmos a reflexão mais profunda sobre a cadeia de fatores que tem conduzido a esse beco sem saída diante da ordem estabelecida.

A aposta prioritária ou quase cega na disputa do Estado, em especial na via eleitoral, como principal e quase exclusiva forma de intervenção e transformação da realidade certamente é um desses fatores. E isso caracterizou fortemente a trajetória tanto do PT quanto de Marina nos últimos anos, não interessa o quanto façam discursos de apologia aos movimentos sociais ou às redes de ativismo social.

Não temos direito de reproduzir esse erro. E isso obviamente é um desafio muito maior para quem, como nós do PSOL, interpreta que continua sendo importante participar da disputa eleitoral na atual conjuntura, ainda que de forma não prioritária, e sim subordinada à construção do poder popular. Passar da “boa intenção” à coerência da práxis concreta neste assunto, como em tantos outros, é que são elas…

Outro fator que acho importante é a necessidade de retomarmos, na luta política cotidiana, a inquietação de compreensão profunda e atual da realidade, e, com ela, a apropriação e reconstrução de ferramentas teóricas necessárias para tanto. O espontaneísmo e postura anti-teoria de muitos/as militantes sociais da nossa geração não são novos, tal como diagnostica Paulo Arantes, que enxerga nesse achatamento da reflexão e do horizonte mais uma forma da capitulação à ordem, ainda que em nome de um discurso de emergência (que termina por “enxugar gelo” sem atacar o fundo das questões).

Como diz Bruno Cava Rodrigues (no rastro de muita gente mais), não são “a humanidade” ou “a sociedade” que produzem a hecatombe social, política e ambiental dos nossos tempos. É uma determinada forma de produção da vida social, que tem nome: chama-se capitalismo.

Se tentativas de superação do sistema do capital fracassaram nesse intento, ao longo do último século, isso não é razão para não seguir tentando. Um século é muito pouco na escala da história global. Outro mundo é possível, sim, porque a organização social da nossa vida não é um dado, ela é dotada de grande plasticidade, é um artefato social produzido historicamente e que podemos reconstruir, aliando grandes doses de imaginação e de rebeldia.

E tem mais: segundo enuncia Eduardo Viveiros de Castro, não precisamos apenas imaginar utopias, lugares não-existentes para inspirar essa luta construtiva “rumo ao futuro”. Podemos e devemos nutrir heterotopias, aprender com as experiências alternativas existentes de organização da sociedade, de outros mundos sociais efetivos hoje, como os de povos indígenas, notadamente. Outros mundos são possíveis e já existem no presente, resistindo à força homogeneizadora do capital, destrutiva da diversidade de formas de produção da vida social, cultural, econômica, de organização (e desorganização) do poder.

É preciso que voltemos a nos munir das armas da crítica radical, forjando a quente, a partir das lutas, a atualização das leituras do capitalismo global e de sua conformação no lugar onde lutamos (América Latina, Brasil, cidade, etc), bem como das estratégias para sua suplantação.

“As ferramentas do mestre nunca desmantelarão a sua casa. Elas no máximo nos permitirão derrotá-lo temporariamente em seu próprio jogo, mas nunca nos tornarão capazes de promover mudança genuína”. (Audre Lorde).

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Rolezinhos. Limpando o campo para pensar o papel de esquerda organizada

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Por Edemilson Paraná

Diagnóstico

Não, não são “protestos” por justiça-social (por mais que gostaríamos que fossem). São flashmobs, encontros de jovens onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings. É sobre curtir, azarar, cantar, viver (porque no capitalismo viver é, antes de tudo, consumir). O Funk Ostentação, trilha sonora dos eventos, não tem no seu conteúdo (ainda que ironicamente o tenha na sua forma, sobretudo por conta do “choque estético” que produz em certos setores) nada de flagrantemente contra-hegemônico do ponto de vista político – assim como hip-hop bling-bling nunca teve.

Apesar de não ser deliberadamente contestador em seu aspecto político, guarda uma contradição gritante: desejando acesso à sociedade do consumo, sem querer, esses jovens a denunciam de forma didática, abrindo um debate importante. A pane na fronteira entre querer/poder consumir em uma sociedade de consumo que os vê como subclasse de consumidores é em parte responsável pelo curto-circuito nas elites ao lidar com o fenômeno. Racismo e classismo se encontram na contraditória negação da “igualdade pelo consumo”, a utopia capitalista fundamental. Quer dizer, “pode consumir, mas só da forma que eu permitir, e onde eu permitir”.

Não é por acaso que os shoppings são espaço de encontro dos rolezinhos. A centralidade do consumo na nossa sociedade repercute nas nossas cidades com a desvalorização dos espaços públicos como locais de encontro e criação. A cada ano mais shoppings são levantados em áreas urbanas. Símbolo máximo (junto aos condomínios) da cidade segregada, formam ilhas de segurança em relação ao seu exterior. Além disso, como urbanistas já alertaram, são responsáveis por aumento no tráfego de veículos e pela falência dos pequenos comerciantes ao seu redor. A falta de direito à cultura, acesso à espaços públicos e equipamentos de lazer para vivências coletivas joga, portanto, um papel importante, mas sozinho não é capaz de explicar o fenômeno. Padecendo da mesma falta, as “tribos” da classe-média (emos, góticos, etc) já ocupam shoppings e suas entradas há um bom tempo. Parece bastante óbvio que, nessa sociedade, jovens prefiram se encontrar onde há lojas, lan-houses, cinemas e praça de alimentação.

As forças da ordem têm instrumentos de sobra para tentar enquadrar e domesticar, ao menos temporariamente, esse fenômeno. Se a burguesia e as elites empresariais e governamentais pensarem racionalmente (e não por meio de seus violentos atavismos coloniais e racistas mais primários) perceberão o quanto a tarefa é simples: antevejo propagandas, quadros do Fantástico e programas como os de Regina Casé, na Globo, louvando a “espontaneidade” e as “excentricidades” do fenômeno. Antevejo shoppings fazendo “promoções do rolezim”, promovendo grandes eventos, e até desfile de moda no São Paulo Fashion Week com as tendências do Funk Ostentação. Foi o que tentaram em Junho, e voltar a aplicar agora a mesma fórmula não seria muito difícil. Isso pode, em certa medida, ajudar a pacificar momentaneamente as coisas (já que há indícios de que há algo de mais tectônico acontecendo e que, portanto, pode voltar a se expressar de outras formas em breve).

Tudo somado, é parte de um interessante fenômeno do “Brasil de Lula”. Uma demonstração cabal de que o consumo, de certa forma (muitas vezes sustentado por trabalho precarizado e extenuante), chegou, mas a cidadania de direitos ainda está à léguas. Esse consumo que promete a todos igualar, sustentáculo da “esfera-pública neoliberal”, ironicamente vê cor, raça e local de origem ao barrar a entrada nos shoppings de jovens que não fazem nada além de ocupar um espaço simbólico que a todo momento essa sociedade os vende, encanta e apresenta como índice de “cidadania” e reconhecimento social. Dificilmente esses jovens aceitarão um não como resposta a seus anseios – ainda que tais anseios sejam passear no shopping e comprar um tênis de marca (e não há que se moralizar isso com a pecha simplista de “consumismo”). A negação, em especial a violenta, produzirá mais frustração, o que amplia a instabilidade do cenário.

O papel da esquerda organizada: pontes e diálogos

Campo limpo, é hora de pensar os desdobramentos políticos dessa história e o nosso papel (movimentos sociais e esquerda organizada) no processo. De antemão, para além de fatores de ordem moral e humanística, a denúncia cabal de que essa “esfera pública” da cidadania do consumo não é, nem jamais será, para todos, já presta um importante serviço à disputa política em que nos empreendemos.

Mais uma vez, a juventude se apresenta como força capaz de expressar os tensionamentos sociais latentes e há alguns sinais de que isso deve se ampliar no próximo período. Diferentemente da aposta tradicional, não se trata da esquerda universitária de classe-média e seus aparelhos estudantis, de certa forma distanciados do contexto dessas juventudes, mas de “redes” de jovens das periferias, mobilizados a partir de suas vivências e trocas culturais. A popularização do acesso à internet e às mídias sociais jogam, mais uma vez, papel organizativo importante. As características verificadas nos movimentos de junho (ausência de “líderes” e hierarquias, espontaneidade, performatismo, etc.) estão também presentes. Trata-se de um cenário, como sabemos, relativamente novo e desafiador para a esquerda organizada (seja na classe-média, seja nos movimentos populares), que ainda luta para se recuperar dos últimos anos de cooptação, capitulação, burocratização e fragmentação de sua capacidade de intervenção.

A preocupação assustada da polícia, da imprensa, do sistema de Justiça e dos governos é mais um índice de que algo de subterrâneo está acontecendo neste país, e os rolezinhos, ao seu modo, são apenas mais uma parte da confusão nestes “tempos estranhos”. Onde isso irá desembocar? Difícil saber. Mas nosso apoio (político e logístico) pode cumprir um papel relevante como catalisador de mais politização (e a esse respeito, a organização de “Rolezões” pelo MTST em São Paulo é uma ótima notícia). É nosso dever abrir e ampliar, da maneira mais parcimoniosa possível, diálogo com esses eventos, seus participantes e organizadores, construindo pontes onde for possível. Os resultados dessa articulação também estão em aberto e devem ser disputados por nós como parte do esforço para ampliar seu conteúdo de contestação. Investir em agitação humorística e cultural, nas redes e nas ruas, pode ser uma boa opção.

Para isso, não nos cabe – como não cabia em junho – retirar desses jovens o protagonismo de sua auto-organização e auto-expressão, tomar frente ou nos reivindicar lideranças deste processo. Ele é, com antes, complexo demais para ser enquadrado em esquemas teórico-organizacionais de uma ortodoxia vanguardista, e poucas ações seriam mais elitistas e equivocadas como esta. O momento pede compressão e diálogo para uma ação mais unificada e eficaz possível. Tal diálogo é e será bom para ambas as partes, sobretudo para uma esquerda organizada disposta a se renovar e oxigenar seu conteúdo, prática e estética de denúncia política e mobilização social.

Nós revolucionários, o Papa Francisco e a Igreja

Por Edemilson Paraná

Algo de diferente parece surgir no horizonte da Igreja Católica. Um líder espiritual que, ao que indica seu discurso, defende algum respeito à diferença, a abertura a certos questionamentos teológicos, a preocupação com a opressão e os mais pobres, contra os males de uma dominação econômica cruel. Um Papa do terceiro mundo para o terceiro mundo. Trata-se, no mínimo, de um “giro tático” da Igreja, e isso não é qualquer coisa. Apontamentos para uma Igreja progressista e renovada, dos pobres, pela libertação? Cedo demais para dizer. O fato é que o tempo impõe mudanças e a Igreja entendeu isso: ou se renova, ou deixa de existir. Se o obscuro passado político do cardeal Bergoglio e a estrutura da instituição da qual faz parte são motivos para algum ceticismo, não é de se ignorar que a mudança guarda um simbolismo interessante.

A Igreja Católica, no entanto, é a Igreja Católica e um Papa é sempre um Papa. É importante ter essa obviedade em mente na hora fazer críticas e pensar seu papel (e a charge de Laerte que ilustra, abaixo, o texto é muito didática a esse respeito). Trata-se de uma instituição humana milenar, dogmática, hierarquizada e politicamente organizada a partir da obediência intelectual e comportamental. É assim que fundamenta sua razão de existir e se legitima enquanto representante do poder divino na Terra.

Larte

Essa instituição, no entanto, não é monolítica. Apesar de seu núcleo dogmático constitutivo, é dividida em correntes de pensamento, congregações e uma miríade de complexidades. Há em seu interior setores conservadores e setores progressistas (a Teologia da Libertação, por exemplo, cumpriu um papel político importante na resistência às opressões na América Latina). E essa diferenciação não é irrelevante; há igrejas dentro da Igreja.

Como estrutura de poder político simbólico e material, no entanto, cumpre um papel de normatização e controle. Esse papel, evidentemente, impôs historicamente e impõe um pesado fardo objetivo e subjetivo à mulheres, indígenas, negros, homossexuais, pobres e tantos outros “desviados” do “caminho” que ela professa. E impôs, sobretudo, porque sua “filosofia”, sua interpretação do mundo e da humanidade, da vida e da sociabilidade, é um dos sustentáculos morais de todo um sistema que organiza cognitivamente (e justifica, em alguma medida) uma vida submetida a irracionais opressões materiais.

Postas as paixões políticas de lado, é importante compreendermos que um “espírito” (judaico)cristão diz respeito às nossas instituições, ao nosso Estado, nossa política, nosso sistema de valores, nossa sexualidade, nossa sociabilidade “ocidental”. É, pois, parte constitutiva de nós: de críticos a criticados, de ateus a crentes, porque somos parte da mesma sociedade. O nosso humanismo e nossa visão de respeito ao próximo estão assentados, em alguma medida, em relação a tal “espírito” (que não explica em si a história, mas é parte dela).

É contra as agouras desse espírito, no que ele manifesta de cruel, que se direciona a luta do pensamento radical nesse particular. É natural que como revolucionários desejemos um novo mundo, livre das opressões materiais e imateriais, desejemos a superação de todas essas formas de controle e dominação, seja as justificadas em nome de deus, seja as justificadas em nome dos homens e suas “coisas”. Mas é natural também que, como parte dele, carreguemos dentro de nós esse velho mundo. Essa é a contradição fundamental de todo revolucionário: produzir o amanhã vivendo o hoje. Quem ignora ou nega essa contradição fundamental não tem compromisso com a realidade.

Mas o papo é sobre Igreja, Papa, religião. Como lidar com isso tudo diante de tal contradição mencionada?

Primeiro, entendendo que a fé tem sua materialidade, mas é algo sobre o transcedental. Uma ansiedade constitutiva e uma necessidade primária da existência humana. Nos sentimos parte de um todo, de um cosmo inexplicado e injustificado racionalmente. A questão, pois, é como vivemos e lidamos com isso, por meio de quais expressões. Os cristãos, católicos, se relacionam com isso de uma dada forma. Devemos respeitá-la. Não há outra opção. Cabe substituir uma normatização por outra, impondo a não-crença? Não parece razoável (e tampouco seria efetivo). Liberdade imposta não é liberdade e os cristãos devem ter seu direito à religião garantido. Para entender isso é preciso alguma dose de crítica ao hiper-racionalismo que tantos males produziu ao longo do século XX.

Segundo, entender que a religião, o Estado e a Coisa Pública não podem se misturar sem diferenciação. Tem-se direito de crer no que crê? Sim. Tem-se direito de impor isso ao conjunto da sociedade? Não. O ímpeto evangelizador, o ímpeto militante de conversão e convencimento (que é parte também da política e outras esferas da sociedade) não pode se transmutar em imposição e submissão. Não podemos aceitar essa violência que, para além de um ataque aos não-crentes, representa um duro ataque às demais formas de viver e entender a espiritualidade bem como as demais religiões.

Terceiro, entender que toda instituição e todo discurso guarda em si sua superação. A contradição fundante da Igreja é deturpar os ensinamentos fundamentais de seu profeta (de amor, tolerância, respeito, paz, solidariedade, contras as injustiças do mundo) por meio de um sistema de poder mundano centrado no controle e na regulação de subjetividades por meio de justificativas transcedentais – um sistema que produziu e justificou preconceitos, guerras e violências de vários tipos. É possível crer em uma fé diferente, libertadora? Eu diria que é contra a essência da verdadeira fé não ser libertadora. A fé só é fé, enquanto tal, quando expressa a liberdade em sentido pleno. Se hoje não a expressa, devemos lutar para que expresse. Para que a fé seja, sobretudo, a fé na capacidade humana de ser livre.

Há, estou convencido, cristãos comprometidos com essa missão. Esses devem ter nosso apoio porque são irmãos na luta por um mundo mais justo, livre e igual. A isso significa dizer que a religião é neutra e pode ser igualmente revolucionária ou conservadora a depender da apropriação? Isso seria uma afirmação muito categórica. O buraco é bem mais fundo. Significa dizer, no entanto, que fé não é sinônimo de opressão e que não há nenhuma hierarquia intelectual ou política entre quem crê ou não crê em algo para além da existência material mais imediata.

Tudo somado, há de se receber positivamente, sem ilusões, claro, as posições do Papa, que esperamos se materialize em posições de toda a Igreja. Chegaríamos, com isso, a um mundo livre? Não, longe disso, mas certamente seria um avanço considerável.

Chegaremos ao dia em que irmanados na vida livre prescindiremos de religiões, Estados, nações e todas as demais formas de normatização e controle da vida social? Só a luta dirá. Até lá, na busca por esse horizonte, não podemos nos desumanizar, não podemos ignorar nossas contradições. Não temos outra opção de caminho e construção que não o respeito. Um mundo construído em outras bases não seria o mundo da nossa utopia.

Nenhum passo atrás. O Brasil precisa de mudanças profundas! Seguimos nas ruas

Ueslei Marcelino/Reuters

Dilma exibe o presente dado por Joseph Blatter, presidente da Fifa – Ueslei Marcelino/Reuters

Por Edemilson Paraná

Surpreendido com uma série de apressadas (e, em alguns casos, até desastrosas) medidas para conter o ímpeto das ruas, o Brasil se pergunta: o que será do futuro das manifestações que tomaram o país desde a semana passada? Elas serão capaz de seguir até que encontremos solução para os nosso mais graves e enraizados problemas ou arrefecerão diante da débil demonstração de um suposto interesse da classe política brasileira que até ontem dormia em berço esplêndido? A didática e o empoderamento das ruas serão engolidas, mais uma vez, pela política “mudar tudo para que o fundamental não mude”?

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Não! A hora é de seguir nas ruas. Nenhum passo atrás. O momento é de seguirmos em alerta e mobilização na luta por aquilo que há mais de um século pede o povo brasileiro: justiça social e o fim das nossas gritantes desigualdades, raiz dos nossos mais graves problemas, entre eles a corrupção e a nossa baixa qualidade de vida advinda da não garantia de direitos como saúde, educação, respeito aos direitos humanos, etc. Aprendemos que hoje, como sempre, as coisas só mudam através do empoderamento popular. Seguir em luta é demonstrar compromisso histórico com esse novo Brasil que teima em chegar e que pode ser abafado se deixarmos a rua. Lutemos por mudanças estruturais, pelas reformas de base abandonadas dos programas daqueles que chegaram ao poder defendendo-as. Está na hora de uma nova “carta ao povo brasileiro” e dessa vez quem a escreverá somos nós!

A todos entusiasma ver que a luta das ruas está arrancando do Executivo e do Congresso o passe livre estudantil nacional, 10% do PIB para a educação, 10 % do PIB para a saúde (ainda não aprovadas) e 100% do royalties do petróleo para gastos sociais – saúde e educação (já aprovado). Sinal de que podemos ainda mais. Entre a medidas imediatas ainda temos Marco Feliciano e sua “cura-gay” para derrubar, além da PEC 215, que coloca em cheque a demarcação de terras indígenas. Uma reforma política finalmente se avizinha e teremos muito trabalho pela frente, já que o maior dos nossos problemas, que é a hiper-influência do poder econômico na democracia (razão fundamental da corrupção eleitoral), sequer tem sido citado.

Entre as medidas ditas “moralizantes”, queda da PEC 37, corrupção como crime hediondo, ficha-limpa para servidores e funcionários públicos podem, em si, resolver as contradições históricas do Brasil?

Acabaram as ilusões. Apenas mudanças estruturais transformarão o Brasil

O governo do PT e sua coalizão está pagando um alto preço por não ter feito as reformas de estruturais, que sempre foram parte de seu programa político. As ruas – oportunisticamente apresentadas por setores conservadores como “sem pauta” – estão mandando um recado muito claro: não aceitaremos mais um país sem saúde pública capaz de atender com qualidade a todos os brasileiros, não aceitaremos uma educação pública débil, ineficiente e conservadora e não aceitaremos, sobretudo, viver em cidades que não são feitas para as pessoas, mas para carros, especuladores e mercadorias. Queremos cidades e serviços (públicos) para as pessoas. Queremos ser ouvidos, participar e garantir, com nossas próprias mãos, essas conquistas.

Se é a classe média “tradicional” – não beneficiada pelas políticas de transferência de renda, aumento do salário mínimo e acesso ao crédito popular implementadas nos últimos anos – quem compõe o grosso das manifestações; a classe C, nova classe trabalhadora ou “nova classe média” vê com grande simpatia e aos poucos adere também aos protestos. O sentimento de indignação toma, por fim, a todos e começa chegar às periferias.

A matemática é simples: tendo experienciado um aumento na renda e no consumo não acompanhado de empoderamento cidadão e acesso à direitos como saúde, transporte e educação, para eles, a situação também não está mil maravilhas. O país cresceu mas a vida pouco melhorou: trabalha-se muito (e precariamente) apenas para o consumo imediato enquanto padece-se diante dos serviços públicos que não melhoraram. As promessas de melhorias na mobilidade e infraestrutura urbana das cidades com a realização dos grandes eventos dá mostras de esgotamento: está claro que não serão cumpridas. Os estádios, construídos às custas de remoções forçadas de grandes contingentes urbanos, integralmente pagos com dinheiro público e que custaram muito mais do que o previsto, no entanto, ficaram prontos em tempo recorde. E tudo no “padrão FIFA”. Subestimou a capacidade de indignação do povo brasileiro os que acharam que isso tudo passaria desapercebido.

Some a isso uma profunda crise de representatividade por conta de um descolamento que há anos separa o povo da “classe política” (algo combatido em todo o mundo) e as novas possibilidades de organização política via internet e você terá algo muito simples: o senso comum resolveu tomar as ruas. A falta de trabalho de base de parte considerável da esquerda – que deixou as ruas para ocupar gabinetes de governo em aliança com os setores que sempre combateram – adicionou ainda mais tempero a essa mistura, contribuindo para que tomasse as ruas um sentimento anti-partido, anti-movimentos-sociais, anti-organização, vistos de modo simplificado (mas não de todo descolado da realidade) como “oportunistas” e “eleitoreiros” (e, claro, é difícil esperar que o grosso dos manifestantes – não familiarizados ao mundo das discussões e disputas políticas tradicionais – diferencie partidos e movimentos de oposição que sempre combateram tal alinhamento oportunista).

O que devemos propor

Vivemos uma escalada do facismo e da direita udenista que tomou as ruas? Não. Apesar da mídia e setores conservadores tentarem pautar um movimento iniciado fundamentalmente por reduções na taxa de transporte e pelo direito à livre manifestação da juventude, contra os abusos da polícia, não estamos diante de um quadro em que a direita organizada dirige as manifestações. Trata-se do senso comum nas ruas. Um senso comum que hora assusta por suas posições conservadoras e atrasadas, mas que também dá demonstrações de progressismo quando defende o Fora Feliciano, o apoio aos indígenas, o rechaço às manipulações da grande mídia, melhores serviços de saúde, educação e transporte. Estamos diante de uma juventude que nunca foi e que não está acostumada às ruas. Disputemo-as.

A hora é para disputarmos organizativa e programaticamente as redes (onde é gestada essa nova – e por isso confusa – política) e ruas; apresentar e articular pautas para uma nova agenda de transformações profundas. Uma grande avenida está aberta para que transformemos esse em um movimento por mudanças estruturais.

Para isso, é importante que articulemos pautas concretas e imediatas com mudanças profundas e de longo prazo. A janela de oportunidade são o passe livre/tarifa zero e a luta contra os abusos na realização dos grandes eventos. A luta por um transporte público, gratuito e de qualidade e pela auditoria cidadã dos gastos da Copa do Mundo e a não realização dos gastos com as Olimpíadas até que as nossas necessidades mais básicas sejam atendidas devem servir como ponte para o acúmulo de mobilização na luta pela grandes reformas que o país pede. A ser:

  • Reforma Urbana: por uma nova Lei do Inquilinato, pela federalização e cumprimento do estatuto das cidades, pelo IPTU progressivo e por medidas que combatam o déficit habitacional em detrimento da especulação imobiliária nas cidades. Por equipamentos de lazer, esporte, saúde e educação nas periferias. Por mais ciclovias, por infraestrutura urbana e investimento em transporte público de massa, integrado, público, gratuito e de qualidade
  • Reforma Política: que combata o mais grave dos nossos problemas políticos que é a corrupção advinda da hiper-influência do poder econômico no processo democrático. Por financiamento exclusivamente público de campanhas (perceberam como políticos e a imprensa sequer tocam no assunto?), por democracia interna nos partidos e por ampliação dos mecanismos de participação popular em direção a uma democracia direta (e há cada vez mais meios tecnológicos a facilitar essa proposta)
  • Reforma tributária: pelo fim da injustiça tributária, pela tributação progressiva e taxação de grandes fortunas. Por menos impostos ao consumo e mais à renda. Por menos impostos ao trabalho e mais ao Capital
  • Por um novo marco regulatório das comunicações: para democratizar a comunicação no Brasil, com distribuição democrática do espectro das comunicações, por mais rádios e TVs comunitárias e públicas, pela regionalização da produção, pelo controle e fiscalização democrática das teles, por banda-larga universal e de qualidade, pelo controle e participação social, contra a propriedade cruzada dos meios de comunicação, os oligopólios midiáticos e o coronelismo eletrônico, por incentivo ao software livre
  • Pela completa desmilitarização das polícias: pelo fim das violações aos direitos humanos, pelo fim do extermínio da juventude negra nas periferias, pela legalização das drogas – para que sejam tratadas como questões de saúde pública e não de polícia, pela legalização do aborto – para que seja legal e seguro, contra os abusos aos direitos humanos em presídios e por uma ressocialização cidadã, pelos direitos LGBTT, pelos direitos indígenas, pelo respeito às minorias e à diversidade
  • Reforma agrária: de modo a incentivar a ocupação e produtividade do campo por meio da agricultura familiar/camponesa (responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no país), contra o abuso de transgênicos e agrotóxicos, por uma ocupação racional e ambientalmente responsável do solo, pela revisão dos índices de produtividade contra o latifúndio improdutivo, contra a escravidão no campo, contra a especulação agrária
  • Reforma educacional: pelo acesso universal, público, gratuito e de qualidade. Por mais investimentos (10% do PIB). Por um modelo de educação emancipador, democrático e cidadão

Disputando as marchas, dialogando para a construção de um novo senso comum emancipatório, mobilizando a periferia e os mais pobres para que protestem e se organizem politicamente e pressionando nossos governos (regionais e federal) para cumprimento dessas reivindicações imediatas que apontem para mudanças profundas podemos aproveitar essa oportunidade ímpar de transformar de vez nosso país em um lugar mais justo, digno e igual para se viver. Nenhum passo atrás. Sigamos nas ruas.