sua voz é fundamental contra o retrocesso fundamentalista

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BASTA DE HOMOFOBIA!

OCUPEMOS AS RUAS DE BRASÍLIA!

A eleição do Dep. Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal é apenas um dos vários motivos para ocuparmos as ruas. A violência e a discriminação a que estamos submetid@s e o aumento do número de assassinatos de LGBTs são estimulados também pela omissão de governos e de parlamentares que se recusam a criminalizar a homofobia, a promoverem políticas públicas para a comunidade sexodiversa brasileira e pelos discursos de ódio produzidos por conservadores e fundamentalismo religiosos.

Cada vez mais articulados, estes grupos utilizam-se de argumentos morais e religiosos para justificarem que NÓS não podemos ter direitos iguais ao restante da população, nos renegando assim um lugar inferior na sociedade.

Aqui no Distrito Federal, esperávamos por 13 anos a regulamentação da lei nº 2.615 que penalizaria a homofobia, o que veio a acontecer no dia 09/05/13. Entretanto, o GDF cedeu às pressões da bancada fundamentalista da Câmara Legislativa, revogando o decreto horas depois de sua publicação no Diário Oficial.

A movimentação dos setores conservadores e fundamentalistas impede a ampliação de nossos direitos e coloca em risco os poucos que arduamente conquistamos.
Para fazer frente aos ataques à laicidade do Estado e aos Direitos Humanos, convocamos todos e todas a estarem presentes nas manifestações, atos e eventos que acontecerão em Brasilia na Semana Nacional de Luta Contra a Homofobia.

NÃO NOS JOGARÃO DE VOLTA PRO ARMÁRIO! NÃO DESSA VEZ!

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Do ambientalismo catastrofista à ecologia dos desejos

“O socialismo só pode chegar de bicicleta”, disse certa vez o socialista chileno José Antonio Viera Gallo. A realização do socialismo exige, hoje, que rompamos com a ideologia produtivista da sociedade industrial, simbolizada pelo automóvel individual motorizado. Seria ambientalmente viável garantir “carro para todos”? Isto é, faz sentido que o sonho socialista seja promover a inclusão de todos na sociedade de consumo tal como existe hoje? Ainda que quiséssemos isso, é provável que os ecossistemas deste nosso planeta não suportem 7 bilhões de pessoas consumindo bens materiais no nível, por exemplo, da classe média alta brasileira.

Construir uma sociedade justa e que garanta bem-estar a todos, então, exige de nós muito mais do que o desenvolvimentismo de esquerda tenta nos oferecer – isto é, crescimento econômico acompanhado de distribuição de renda. É preciso repensar e transformar as bases do nosso modo de vida, dos meios de transporte e fontes energéticas em que nos baseamos, dos bens que avidamente consumimos.

Talvez o caminho não seja consumir menos, mas de um jeito diferente; canalizar nossos desejos de outras maneiras, para outros e novos objetos. O socioambientalismo fracassará, se sua mensagem às pessoas for: “desejem menos“. Esse discurso ambiental catastrofista, que exerce o papel de superego da sociedade de consumo em massa, dificilmente poderá ser o parteiro de modos de vida diferentes. O máximo que conseguirá é que as pessoas passem a consumir com maior culpa – aliás, quem sabe não consumam ainda mais, em busca dos prazeres inconscientes de transgredir um dever, ou como mecanismo de fuga à ansiedade e depressão diante do fim-do-mundo-que-se-avizinha e da sua culpa por ele… Ou, então, talvez algumas delas limitem-se a mudar as suas condutas individuais, reproduzindo o velho mecanismo descrito pelo psicanalista Contardo Calligaris: “Além de dar sentido ao meu mundo, a culpa me oferece a ilusão de agir de maneira eficaz: como o flagelante, posso esperar que minha renúncia ao prazer suspenda a punição. De repente, doenças e catástrofes talvez parem diante de minha conduta meritória. Em vez (ou além) de procurar as condições de prevenir um terremoto ou de debelar um câncer resistente, rezarei noite e dia e me fustigarei em penitência. Se, de qualquer forma, o terremoto vier ou o câncer triunfar, será porque não me açoitei o suficiente.”

Claro que precisamos mudar padrões de consumo, e consumir menos carros, por exemplo, é parte importante disso. Porém, não será com pesadelos sobre o fim do mundo e discursos ascetas contra o consumo que seduziremos amplas parcelas da sociedade (a começar de nós mesmos) a desligarem os motores e pedalarem num rumo sustentável. Precisamos de sonhos, imaginários e desejos afirmativos, que não façam apologia do sacrifício individual em nome do combate ao mal coletivo, mas sim do engajamento (inter)pessoal em novas formas de convivência social, de relacionamento com os outros e com as coisas, que tragam mais oportunidades para uma vida mais plena, intensa, autêntica, singular – e, nesse sentido, feliz.

Não adianta dizer às pessoas: “o capitalismo é a felicidade, mas isso não é possível para todos, então sejam menos felizes, controlem seus impulsos consumistas, para ao menos sobreviverem”. É preciso diagnosticar como o capitalismo nos isola, nos põe uns contra os outros, destrói experiências de compartilhamento, esforça-se para homogeneizar e burocratizar tudo e todos, submetendo-nos à sua lógica implacável – para depois vender “diferenças” pasteurizadas e objetivadas sob a forma de mercadorias. Ou seja, o capitalismo é a destruição das culturas indígenas e do Cerrado nativo, no Distrito Federal, para que em seu lugar se construa um bairro “ecológico” de alta classe, o “Setor Noroeste”; é transformar a resistência em produto de boutique; é parasitar a alegria do jogo, do futebol, e usar uma Copa do Mundo como pretexto para despejar milhares de pessoas de suas casas, e bilhões de recursos públicos nos cofres de poucas empresas privadas… Essa não corresponde exatamente à minha imagem do que é felicidade…

Não basta, no entanto, ser “anticapitalista”, nem anti catástrofe ambiental e humana, nem nenhuma outra forma melancólica que se esgota no “anti”. “É preciso”, como afirma o Manifesto da Universidade Nômade, “resistir na alegria, algo que o poder dominador da melancolia é incapaz de roubar. Quando o sujeito deixa de ser um mero consumidor-passivo para produzir ecologias. (…) É preciso criar desvios para uma vidaMaisvida: sobrevida, supervida, overvida. Pausa para sentir parte do acontecimento, que é a vida”.

O sonho de comprar um carro não é o de ter um agregado de ligas metálicas e de borracha na sua garagem. É o desejo de mobilidade, por um lado; e, por outro, o de consumir um bem simbólico que agrega status, de diferenciar-se socialmente com base na capacidade de possuir coisas. A alternativa que precisamos construir à ideologia individualista do consumo e da competição deve oferecer a resposta a esse desejo material de locomover-se (assim como ao de educar-se, comunicar-se, etc), mas, mais do que isso, deve anunciar e compartilhar a alegria do comum: a alegria de que a minha diferença não implique inferioridade, menor diferença (menor poder de consumo, de possuir coisas, no capitalismo) do outro, mas potencialize ainda mais as suas diferenças; que essas diferenças se encontrem, se vejam, se multipliquem, entrem em diálogo e em conflito no espaço público. A alegria dos encontros, em oposição ao mundo higienizado e homogeneizado do capitalismo, cujo símbolo mais eloquente talvez seja, mais do que o carro, com seus vidros levantados contra a rua, o condomínio fechado, que já leva o ensimesmamento e aversão à diferença no próprio nome.

O que queremos é uma vida com mais prazer, e não com menos; ou melhor, com mais prazeres, para além da uniformidade dos shoppings centers. Prazeres compartilhados,  porque compartilhar alegria e prazer é a melhor forma de multiplicá-los. “Happiness is only real when shared”, como disse Christopher McCandless…

É preciso caminhar ou pedalar, alegremente, a dez por hora, e fazer disso não um gesto indvidual, mas de reconquista coletiva do espaço público, compartilhado, que nos foi usurpado. Canalizar desejos para novos objetos exige de nós que produzamos (isto é, sejamos) novos sujeitos, como de certa forma lembra o Bruno Cava. Construir essas novas subjetividades só pode ser obra de uma práxis transformadora, de singularidades que se constróem juntas, coletivos que proliferam “na rua, no meio do redemoinho”…

Sob inspiração dos encontros com as companheiras e os companheiros  do projeto 10porHora, do coletivo Rodamoinho, da Universidade Nômade

Doze regras para o bom debate político

Por João Telésforo Medeiros Filho

Aos amigos do Instituto Alvorada e do grupo Repensar a Esquerda, inspirado por nossos bons debates.

Mais do que uma conversa, o bom debate é uma dança. (Acima: La Danse. Henri Matisse, 1910.)

1. Antes de falar (ou escrever), ouça (ou leia) o que a outra pessoa tem a dizer.

2. Espere a outra pessoa terminar de falar, ouça-a atentamente até o fim, não a interrompa. Não suponha que você já sabe o que ela vai dizer, nem que ela não pode falar nada que tenha importância.

3. Desqualificar o seu interlocutor (ou interlocutora), seja lá no que for, não prova que o ponto que você defende esteja certo (a não ser que a discussão seja sobre os méritos do seu interlocutor, o que não costuma ser muito produtivo).

4. Vá além do Fla-Flu. Lembre-se de que, nas questões que vale mais a pena discutir, dificilmente existem apenas dois lados, um contra e um a favor. Preste atenção à variedade de posições existentes, às diferenças, grandes ou sutis, entre elas.

5. Esteja aberto a aprender com o seu interlocutor (ou interlocutora), e com o desenrolar da discussão. Disponha-se a considerar novos fatos e pontos de vista, e a criar, por meio do processo de diálogo, novas ideias, que não estavam no seu mapa mental antes. Essa é uma das principais razões para se discutir qualquer coisa.

6. Não compartilhe apenas opiniões e certezas com o seu interlocutor, mas também dúvidas, angústias e inquietações. Quando duas pessoas pensam a partir de perguntas, é maior a chance de que possam, juntas, dar passos adiante na compreensão das diversas respostas possíveis, bem como na imaginação de novas respostas e perguntas.

7. Evite usar rótulos pejorativos, como “reacionário”, “extremista”, “pelego” (e também, claro, “imbecil” ou “burro”), para enquadrar o interlocutor. Ainda que as opiniões dele realmente mereçam rótulos desse tipo, você vai ter mais sucesso em mostrar o seu ponto se conseguir expôr de outra maneira a falta de fundamento de uma ideia ou argumento, ou o seu teor nocivo.

8. Evite até mesmo rótulos que não tenham, necessariamente, sentido pejorativo (como liberal, comunista, pós-moderno, etc). Eles têm sua utilidade em diversos contextos, mas o seu uso, numa discussão, frequentemente acaba levando-a a ser mais sobre o rótulo (eu/você sou/não sou é/não é liberal/comunista/capitalista/pós-moderno), e menos sobre a questão em torno da qual se pretendia conversar. Então, é melhor usar um rótulo só se você estiver a fim de discutir isso (o que até pode valer a pena eventualmente, por diversas razões).

9. Encare a discussão como uma conversa, não como uma briga. Seu objetivo não é destruir o interlocutor, nem mostrar que ele é um bosta e você é foda (a não ser que você seja um completo idiota e costume conversar com os outros por essa razão – ops, se for esse o caso, acabo de rotulá-lo ;)). Não é melhor dialogar para pôr os próprios pontos de vista à prova do raciocínio de outras pessoas, conhecer perspectivas diferentes das suas, pensar novas ideias em conjunto com outras cabeças?

10. O desejo de convencer os outros também é legítimo, claro – e, por vezes, pode ser até um dever -, mas não se deixe cegar por ele. Não se torne dogmático, fechado à reflexão autocrítica, à curiosidade por ideias diferentes e novas, e à criatividade que pode emergir de uma boa discussão.

11. Não trate o seu interlocutor como um idiota, não use de didatismo exagerado. Por outro lado, também não pressuponha que ele conhece os seus pontos de partida ou concorda com eles. Quando se tratar de uma premissa fundamental à compreensão do seu raciocínio, cheque se ela está clara e compreensível, e a exponha bem.

12. E aí, o que achou destas regras?

PS: eu mesmo, infelizmente, tenho dificuldades para conseguir cumprir várias dessas regras. Quanto mais consigo fazê-lo, porém, percebo que mais proveitoso costuma tornar-se o debate. Então, este texto é literalmente de auto-ajuda: uma sistematização que escrevi para ajudar a mim mesmo.

Chopes, beijos e lutas

ou: De como podemos aprender com a história de um bar

Por: Luiz Eduardo Sarmento Araujo

Pouco antes de eu começar esse post, fiz uma pequena caminhada pela 407N, afim de organizar idéias dispersas em minha cabeça e finalmente definir um tema para meu já atrasado texto para esse blog.

Eis que me deparo com uma dessas pequenas surpresas cotidianas que só uma boa caminhada e uma boa cidade pode nos oferecer. Remexendo em uma banca de livros usados, promocionais, entre tantos livros ultrapassados de direito trabalhista, antologias poéticas de autores obscuros e qualidade idem, livros didáticos também ultrapassados (tudo  por apenas 1,99) eis que  Le Corbusier se sobressai entre aquele emaranhado de palavras ordenadas em milhares de páginas.

A nível de esclarecimento, Le Corbusier –  o Corbu – foi um dois mais influentes arquitetos do século XX, talvez o mais influente (provavelmente falarei mais dele em outros posts) sendo importante referência para entender o planejamento urbano do Plano Piloto.  O fato é, que como bom estudante de arquitetura que (normalmente) sou, peguei logo o livro para ver do que se tratava (bastante surpreso, imaginando que pela primeira vez na vida  poderia comprar um livro de arquitetura por um preço tão módico).

Não se tratava porém de um livro de arquitetura, mas um livro sobre a história do Bar Beirute (que para quem não é/não conhece Brasília, é um dos bares mais antigos e conhecidos da cidade), que citava o nome do Corbu na contracapa argumentando que o Beirute era exatamente o oposto de tudo o que pregava o arquiteto calvinista. Este bar é de certo modo a esquina da cidade sem cruzamentos, um ponto de encontro em uma cidade de tantos desencontros.

Apesar de seus preços a cada dia mais salgados, o Beiras é ainda um dos mais democráticos points do Plano Piloto. Por lá circulam as mais diversas tribos: artistas, intelectuais, pseudo-intelectuais, famílias tradicionais, famílias alternativas, idosos e idosas de todos os tipos, pessoas de “sexualidades alternativas”, como diz um dos textos do livro, além de toda a gama de turistas e famosos que tem ali uma parada obrigatória quando na cidade planejada.

Interessante para mim foi entender como esse espaço democrático, tolerante, foi construído. Não sendo de Brasília, quando cheguei aqui imaginei que o Beirute sempre foi o Beirute que conhecemos – um espaço de convívio dos diferentes, mas não foi, e isto é o mais fascinante de sua história.

Inaugurado em 1966, por candangos de origens árabes, já na década de 70 foi vendido e comprado por dois irmãos que eram garçons que ali trabalhavam. A assustadora dívida que assumiram na aquisição do bar e a fascinante tentativa de ascensão financeira dos dois despertaram a simpatia e a solidariedade dos brasilienses, que passaram a freqüentar o Beiras para ajudar aqueles corajosos garçons que haviam pulado para o outro lado do balcão.

O empreendimento de alto risco dos irmãos foi um sucesso, tanto é que o bar está ai até hoje, inclusive com uma também movimentada filial.

Dada a localidade da primeira sede, na 109 Sul (para os não iniciados no endereçamento cartesiano do Plano Piloto, explico logo que 109 Sul significa algo como um quarteirão, só que aos moldes modernistas, localizado na zona sul da cidade) o Beirute desde sempre atraiu um público alternativo. Está próximo ao Cine Brasília, à Escola Parque da Superquadra Modelo e do Espaço Cultural da 508 Sul – então o coração da cultura e contra-cultura de candanga – os freqüentadores destes espaços sempre davam uma esticadinha no Beiras, transformando aquele canto de tesourinha (outra especificidade de Brasília: trata-se um emaranhado de vias/contornos para evitar o cruzamento viário tradicional) no cerne boêmio da nova capital.

Obviamente que a presença de homossexuais ali era notável – todo tipo de gente livre se encontrava ali, transformando aqueles metros quadrados do quadradinho em sua própria “Cidade Livre” (nome original de um dos acampamentos dos construtores de Brasília, infelizmente substituído por Núcleo Bandeirante). Sendo até então um espaço que hoje seria chamado de gay friendly, as línguas preconceituosas logo o apelidaram de Gueirute.

Ofendido, o administrador do bar entrou em ação e proibiu que os garçons servissem mesas onde tinham homossexuais, no linguajar dele, mais afetados. Antes, quando alguns casais gays estavam abraçados  o dono do bar já havia dito que este “não era um comportamento adequado” em seu estabelecimento, que é aberto ao público.

Os garçons, a partir de então, sumariamente ignoravam freqüentadores que o chamavam, pelo simples fatos de serem gays –“Não atendemos mais os bichas”, disse algum.

Numa daquelas noites porém, quando os habitués daquela “esquina” já estavam assustados com a guinada reacionária do bar (que já havia proibido atender pessoas em trajes de banho e camisas sem manga) eis que chegou um grande grupo de “viados e sapatonas”, sentaram todos em uma  mesma mesa, pediram uma rodada de chope, foram atendidos até que um casal dentre eles deu um beijo. O dono do bar deu o sinal para os garçons não servirem mais chope para aquela mesa. Essa proibição gerou revolta dos presentes, que de acordo com reportagem do Correio Braziliense, começaram a bater nas mesas e sapatear… estavam visivelmente incomodados, feridos em sua dignidade. Aquele estabelecimento, nas palavras de seu então dono, não era uma zona, logo os homo não poderiam ali se beijar. Sendo namoro de casais trocando carícias algo comum desde sempre no Beiras, a ofensa foi tão grande, que nasceu ali, naquele momento, o “Movimento Beijo Livre”.

Estava aberta a discussão. O jornal Correio Braziliense publicou uma série de artigos denunciando a falta da liberdade no famoso bar, o movimento gay se organizou – foram debater a questão, colocaram o tema no espaço público, suas demandas pessoais. A discussão sobre a liberdade de expressão de sexualidades dissidentes se tornou o assunto do momento da nascente capital.

Uma rodada de chope negada e um beijo proibido geraram  o primeiro grande debate de sexualidade no distrito federal.

As pessoas tiveram a coragem de se assumirem, contornaram o medo da repressão, dos conservadores, da ditadura, da opinião pública – jogaram um problema que é público, social, para a sociedade, para o espaço público.

Não se guetificaram, não escolheram outro bar para freqüentar – em um subsolo escuro, em um beco qualquer- eles e elas, homossexuais sempre estiveram presentes ali, no bar mais famoso da cidade, e ali queriam ficar, se expressar, serem eles mesmos no espaço publico, olharem e serem vistos. Ora, se casais heterossexuais sempre se beijaram a vontade ali, porque os homossexuais não poderiam fazer o mesmo, diante dos olhos da cidade?

O fato, aparentemente fútil (a negação de uma rodada de chope), desencadeou um processo que vemos/vivemos o resultado – o Beirute hoje comporta todo tipo de público, dos mais conservadores aos mais liberais, e parece que ninguém se importa com quem está beijando quem. O beijo livre venceu o preconceito.

Essa história é para mim muito importante para nos encorajar enquanto integrantes de movimentos sociais e militantes de muitas lutas dos oprimidos e me lembra também uma história contada por uma amiga que morou no Canadá – após vários séculos de briga entre a igreja e as prostitutas de um bairro de Quebec, essas ganharam a briga e finalmente podem exercer seu direito ao trabalho. A liberdade venceu o preconceito.

Nesse começo de século XXI, parece que perdemos a coragem para o debate. Ficamos a mercê de uma conjuntura favorável vindoura para nos expormos. Ficamos com medo de debater o direito da comunidade LGBTS no espaço público, ficamos com medo de defender o aborto, a legalização das drogas, o direito reprodutivo e muitas outras causas importantíssimas que, são discutidas apenas em reuniões em pequenos guetos herméticamente fechados, entre iguais. O caso de intolerância aqui apresentado, ocorrido a mais de trinta anos  é, infelizmente, uma situação muito conteporânea, cotidiana.

Se não lançarmos os debates que a nosso ver são tão importantes, a conjuntura nunca será favorável, o dia ideal para discussão nunca vai chegar. Quantos mortos, quanto sofrimento será preciso para “batermos nas mesas e sapatearmos” na cara dessa sociedade hipócrita e a cada dia mais conservadora?

Os oprimidos não podem se calar, silencio só causa mais opressão, só nos distancia do debate público, a cada dia com mais presença de forças reacionárias bem sapateantes. Ficamos por isso mais longe de garantir direitos para os marginalizados do status quo,  para os dissidentes dos padrões determinados por essa sociedade arbitrária.

O chope já foi cortado e o garçom não nos atende mais e estamos calados esperando o dia que espontaneamente alguém nos traga um petisco e uma bebida gelada – sem beijo e sem liberdade.

O livro de que tanto falei é “Beirute – final de século” organizado por Fernando Fonseca , de 1994.