Do pobreza ao poder

Por Edemilson Paraná

Democracia ajuda a diminuir a pobreza no mundo

Foi lançado no último dia 18, aqui em Brasília, o livro “Da pobreza ao poder – Como cidadãos ativos e estados efetivos podem mudar o mundo”, de Duncan Greem, pesquisador da Oxfam na Grã-Bretanha. O livro foi lançado em outras 3 capitais brasileiras (Rio, São Paulo e Recife).

No livro, o pesquisador argumenta que será necessário promover uma redistribuição radical do poder, oportunidades e ativos para romper o ciclo da pobreza e da desigualdade e permitir que essas pessoas em situação de pobreza assumam o comando de seus próprios destinos. A tese do livro é de que cidadãos ativos e estados efetivos são as forças que estão impulsionando essa transformação.

A obra traz uma grande contribuição para um debate urgente e marcado por mudanças rápidas em torno do desenvolvimento, tema de importância central nas discussões deste blog. Sua análise baseia-se na experiência das organizações afiliadas de Oxfam International e contrapartes em mais de 100 países e em abrangentes discussões com diversos profissionais da área do desenvolvimento.  A Oxfam é uma associação de organizações internacionais que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no planeta.

O livro oferece uma visão de pessoas de todas as partes do mundo que tem educação, saúde e acesso a outros direitos bem como, dignidade e voz – e que são donos de seus destinos. Para que isso seja possível para todos, faz-se necessário o estabelecimento de um novo acordo global – um acordo para a redistribuição de poder, participação, oportunidades e ativos. A experiência da Oxfam, retratada no livro, nos permite concluir que a redistribuição necessária pode ser alcançada por meio de uma combinação de cidadãos ativos e Estados efetivos.

Por que cidadãos ativos? Porque pessoas em situação de pobreza devem ter o direito de participar de decisões que definam seu destino, de lutar por direitos e justiça na sua sociedade e de cobrar responsabilidades do Estado e do setor privado. Por que Estados efetivos? Porque a história revela que nenhum país prosperou sem uma estrutura estatal efetivamente capaz de administrar ativamente o processo de desenvolvimento.

É interessante a abordagem feita pelo autor da necessidade de participação política e uma cidadania ativa para que as reivindicações se convertam em transformações reais. A noção vem ao encontro da idéia, discutida e apresentada repetidamente pelos membros do B&D, de que a transformação social se dá, antes, pela politização da sociedade.

Nesse sentido, se torna claro o porquê uma cidadania ativa se faz necessária- e aqui mais uma vez as noções do grupo e do autor se encontram:  a repolitazação da sociedade deve levar ao empoderamento  popular, ou seja: é crucial que os cidadãos possam determinar o curso de suas próprias vidas, lutando por seus direitos e por justiça em suas sociedades.

O prefácio do livro é escrito por ninguém menos que Amartya Sen, economista ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998 e conselheiro honorário da Oxfam, outro grande nome de peso para este grupo, que resume “Por nos contar o que pode ser realizado por pessoas comuns por meio de ações organizadas, este livro gera esperança ao fortalecer o entendimento do que é necessário fazer para eliminar a pobreza. O mundo efetivamente precisa de esperança e know-how e temos razões para sermos gratos pelos fatos que este importante estudo nos apresenta a partir de um amplo conjunto de ações sociais colaborativas”.

Outro destaque de “Da Pobreza ao Poder” refere-se aos governos de países ricos. Segundo autor, eles devem concentrar-se, primeiramente, em colocar sua casa em ordem. Eles devem reprimir duramente em seus territórios atividades danosas, como o comércio de armas, a restrição ao fluxo livre de conhecimentos e tecnologia, a falta de ética das empresas, emissões de carbono que podem destruir o planeta.

“Essa agenda de ‘parar de prejudicar’ deve ser complementada por uma solidariedade ativa com a luta de pessoas em situação de pobreza e suas comunidades dentro dos países em desenvolvimento, que deve incluir uma maior ajuda humanitária em termos de quantidade e qualidade. Não pode haver uma causa mais louvável. A luta contra o flagelo da pobreza, da desigualdade e da ameaça de um colapso ambiental definirá o século XXI, como a luta contra a escravidão ou pelo sufrágio universal definiu eras pregressas. Se falharmos, as gerações futuras não nos perdoarão. Se formos bem-sucedidos nesse esforço, elas se perguntarão como o mundo tolerou essa injustiça desnecessária e sofreu seus efeitos por tanto tempo”, alerta Greem.

Algumas curiosidades nada curiosas apresentadas no livro

“A economia globalizada produz, anualmente, US $ 9.543 em bens e serviços por pessoa – 25 vezes mais que o valor de US $ 365 por ano que define a ‘extrema pobreza’ de um bilhão de seres humanos. Isso é mais do que suficiente para todos.”

“As mulheres cultivam de 60 a 80 por cento dos alimentos produzidos na maioria dos países em desenvolvimento, mas são proprietárias de menos de dois por cento da terra. Em Kerala, na Índia, quase metade das mulheres que não possuem qualquer propriedade relata que sofre violência física, contra apenas 7 por cento das que possuem alguma propriedade.”

“Pessoas que moram em favelas em Jacarta, Manila e Nairóbi pagam de cinco a dez vezes mais por unidade da água que consomem do que as que moram em áreas de alta renda em suas cidades – e mais que os consumidores pagam em Londres ou Nova Iorque.”

“Abaixo de um PIB de cerca de US $ 20.000 per capita, as expectativas das pessoas em relação à sua satisfação na vida aumentam constantemente com a renda. Acima desse valor, o gráfico se estabiliza: uma renda nacional mais alta não traz mais satisfação às pessoas.”

“Os países pobres estão perdendo cerca de US $ 385 bilhões por ano (quatro vezes o volume da ajuda humanitária global) em decorrência da sonegação de impostos.”

“Para cada pessoa que falece em decorrência de atentados terroristas, aproximadamente 25 mulheres morrem desnecessariamente no parto e outras 60 morrem em acidentes de trânsito, enquanto 175 crianças morrem de fome.”

“Se não forem tomadas medidas agora, o número de refugiados ambientais pode superar a marca dos 150 milhões até 2050 em função dos prováveis efeitos do aquecimento global.”

“Em 1900, a Nova Zelândia era o único país com um governo eleito por todos os seus cidadãos adultos. No final do século, o mundo tinha 120 democracias eleitas.”

Sobre o autor

Duncan Green, desde 2004 dirige a área de Estudos e Pesquisas de Oxfam Grã-Bretanha. É também Professor Visitante da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. O autor tem mais de 20 anos de experiência e de reflexão nos temas de desenvolvimento e de combate à pobreza e as desigualdades.

Formado em Física pela Universidade de Oxford, sua vida profissional mudou radicalmente quando realizou uma viagem para a América do Sul, no final dos anos 1970. Viveu e trabalhou em diversos países acompanhando como jornalista e ativista as dificuldades econômicas, políticas e sociais que caracterizaram a região nas décadas de 1980 e 1990. Essa experiência resultou na publicação de diversos livros sobre a América Latina, como, por exemplo, La Revolución Silenciosa, El auge de la economía de mercado en America Latina (Tercer Mundo editores, Colombia, 1997).

Em 1997, integrou os quadros da organização não governamental britânica CAFOD como Analista Político em Comércio e Globalização. Na ocasião, publicou diversos textos, sobre comercio internacional, pobreza e desenvolvimento. Esse novo desafio lhe possibilitou ampliar seus horizontes e conhecimentos para novas regiões do planeta, especialmente África e Ásia.

No ano 2004, Duncan assumiu o cargo de Assessor Sênior no Departamento de Desenvolvimento Internacional do Governo Britânico. Atualmente, Duncan vive em Brixton, no sul de Londres, com a esposa e dois filhos.

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Gustavo Dudamel e “El Sistema”: um projeto de engrandecimento do ser humano

Por João Telésforo Medeiros Filho

Senhoras e senhores, com vocês, Gustavo Dudamel e a Orquestra Juvenil Simón Bolívar de Venezuela, executando a belíssima Alma Llanera:

Extasiado e impressionado com esse vídeo (obrigado ao Thiago Tannous pela indicação!), fui procurar sobre o rapaz e a orquestra. Minha admiração cresceu ainda mais, e ultrapassou o aspecto musical: não sei se admiro mais a genialidade do regente ou a excelência e visão do programa social que propiciou a ele, à sua orquestra de talentos e a outros tantos jovens venezuelanos a oportunidade de conquistarem cidadania e desenvolverem suas aptidões  artísticas e humanas por meio da música.

No blog do Guaciara, Lauro Mesquita informa:

O maestro Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Juvenil Simón Bolívar são muita curtição. O maestro é o mais comentado da atualidade, e causa movimentação por onde passa. Muito por causa da musicalidade dele, mas muito por causa de sua performance. Dudamel rege para ser bem escutado e visto, principalmente em vídeos do YouTube.

Considerado uma promessa na música de concerto, suas performances não são nada burocráticas. Mesmo em interpretações de composições complexas como as de Mahler são  marcadas por um envolvimento pouco usual dos músicos com as peças. Pelo menos nos vídeos e no disco, o clima parece ser de grande descontração, de verdadeiras celebrações (que invariavelmente contagiam o público). (…)

Vale  pena ler os ótimos textos do nosso amigo Irineu Franco Perpétuo sobre o venezuelano. Com eles dá pra entender que é possível construir um modelo de orquestra de excelência a partir de um projeto social. (…)

E para os anti-chavistas mais exaltados, é bom avisar: El Sistema foi criado muito antes do Chávez tomar posse pela primeira vez. A rede de educação musical nos bairros pobres foi criada em 1975 pelo músico e professor José Antonio Abreu.

Para conhecer melhor o Sistema Nacional de  Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela, visite o site oficial e a página de Dudamel. Eis a missão do programa:

La Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela constituye una obra social del Estado Venezolano consagrada al rescate pedagógico, ocupacional y ético de la infancia y la juventud, mediante la instrucción y la práctica colectiva de la música, dedicada a la capacitación, prevención y recuperación de los grupos más vulnerables del país, tanto por sus características etárias como por su situación socioeconómica.

Dudamel teria se tornado o grande regente que é se não existisse esse programa? Não sei. Sei que El Sistema tem feito a diferença na vida de milhares de crianças e jovens venezuelanos, como Edicson Ruiz:

Edicson Ruiz se convirtió en el contrabajista más joven que jamás ha tenido la Filarmónica de Berlin a la edad de 17. Ochos años antes, el trabajaba medio tiempo empaquetando bolsas en un supermercado para complementar el sueldo de su madre. La calle, con el alcohol, las drogas y las peleas de pandillas, representaba un gran atractivo, y su comportamiento se estaba haciendo cada vez más violento. Entonces un vecino le contó acerca de la escuela de música local.

É bonito ver a chance que os jovens têm de desenvolver sua criatividade e superar os próprios limites:

“Ellos me dieron una viola y me sentaron en el medio de la orquesta, entonces escuche el sonido de los contrabajos, y pensé, si! ese es el instrumento para mi!” recuerda Ruiz, sonriendo.

“Alguno meses después me pusieron en la Orquesta Nacional Juvenil. Por supuesto yo no podía tocar todas las notas! Ellos siempre lo hacen así; te meten en medio de la orquesta.

Yo recuerdo que miraba la partitura en el atril en mi primer ensayo de orquesta. Era una sinfonía de Tchaikovsky. Y yo pensé, Ellos están locos! pero nunca me dijeron, tú no vas a poder hacer eso. Nunca nadie me dijo algo así en la orquesta. Nunca”

É isto que um modelo de desenvolvimento precisa construir: oportunidades para que cada pessoa faça de si mesma o melhor que possa ser, tenha a chance de criar e engrandecer a si própria, ao seu país e à humanidade, como faz Gustavo Dudamel.

É impossível ter noção da extraordinária dose de talento que o Brasil desperdiça ao deixar à míngua, carente de oportunidades de desenvolvimento, Continuar lendo

O direito à diferença: Homossexual em pauta.

O conceito de desenvolvimento sempre é algo a ser discutido, sendo difícil determinar, a priori, qual seria uma definição apta ao bem-estar de um povo. Do desenvolvimento deve se encarregar o estado, que nada mais é que um ente social encarregado de tomar decisões amplas que afetam todos em seu território e, hoje em dia, também o resto do globo. Vivemos em sociedade mundial,  isso não é segredo. Hoje em dia, tudo que é brasileiro afeta o argentino, o americano, o boliviano, a inglesa. Assim, para além da preocupação com o povo brasileiro, as decisões governamentais de nosso país devem se preocupar com o resto do mundo, com os efeitos, os exemplos, os modelos de vida que apresentamos à sociedade global.

É entendimento de alguns teóricos do desenvolvimento, como o Professor Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de economia, o professor de Harvard Mangabeira Unger, o intelectual brasileiro Celso Furtado, dentre outros, que o desenvolvimento deve se pautar por aquilo que é humano, por aquilo que se destina ao homem. Desenvolvimento não é mero crescimento econômico. Desenvolvimento é empoderar, emancipar, aumentar as capacidades do indivíduo para que este possa atingir seus anseios e, ao mesmo tempo, auxiliar o corpo social a se fortalecer para que ele(o corpo social) possa erguer com mais facilidade o indivíduo.  Torna-se imperioso, nesse sentido, abranger a estrutura social, o desenho institucional, de tal forma que o homem, no seu sentido humano, seja contemplado. Essa é uma ideologia antiga.  Ela faz coro à filosofia política do pós guerra, em especial nas vozes de Arendt, Sartre e Habermas.

A esfera social em que são pautados os princípios capazes de empoderar o indivíduo é a política. É lá, por excelência, que encontramos o espaço da pluralidade. O mundo político é o locus onde as diferenças se encontram para disputar, discutir e assentar os interesses. Sem respeito, sem abertura ao plural, não existe espaço político.  E sem esse espaço público diversificado, as regras criadas para delimitar a ação do outro, e impedir que ele restrinja minha liberdade, carecem de legitimidade. Em especial frente a um mundo onde o homem não é definido, não é uno e está repleto de diferenças. Numa democracia, é impensável uma análise que não aceite o diferente, o plural, o outro.

Aceitar o outro em seu sentido mais pleno faz parte de uma política de desenvolvimento mais humana, mais capaz de aderir aos anseios que dizem respeito à existência e às conseqüências das escolhas dos seres humanos. No mundo de hoje, o homossexual sofre de um mal que se alardeou pelo mundo em momentos diferentes da história contra a mulher, o negro, o índio: o preconceito. O preconceito contra o homossexual é a negação de tudo que é peculiar a uma sociedade aberta, democrática e politicamente ativa. Ele nega o direito a uma opção sexual que em nenhum momento afeta a liberdade dos outros. Digo mais, esse preconceito tem efeitos penosos e duradouros não só na pessoa que é afetada por ele, mas também numa sociedade que tem como uma de suas maiores características a pluralidade. O Brasil é um país continental que agrupa pessoas das mais diversas culturas, línguas, costumes. Negar assento a uma parcela da sociedade bem representada, não só no país, como no mundo, é negar o plural como capaz de compartilhar a única coisa que nos une na diferença: os direitos.

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