Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito!

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Brasília, 04 de janeiro de 2013

Manifesto de Ocupação

O Movimento dos Trabalhadores sem Teto faz mais uma ocupação no DF. Aqui, na capital do país, onde a especulação imobiliária impera, onde o déficit habitacional não diminui, apesar das promessas, e, sobretudo, onde os movimentos sociais são brutalmente reprimidos. Não se pode achar, portanto, que os trabalhadores e as trabalhadoras vão parar de lutar! Isso seria menosprezar o histórico de lutas dessa classe esquecida pelo Partido que diz ser dos Trabalhadores. O MTST, ao contrário, sempre estará ao lado do trabalhador. Nas lutas, nos avanços, nas perdas. É por isso, então, que ocupamos, com as mãos do povo, para uma gestão coletiva, o famoso esqueleto abandonado do Pistão Sul, na região de Taguatinga.

Mais uma vez  estamos ocupando por um direito básico: moradia. E não reivindicamos nenhum direito desconhecido ou inovador. Pleiteamos o que está no nosso documento político principal, o que diz os rumos que nós, como povo e nação, quisemos traçar em 88. Pleiteamos o que está escrito na Constituição. Ocupamos terra, então, como mecanismo de luta por moradia digna para centenas de cidadãos constantemente tratados como se fossem menos cidadãos que aqueles do Lago Sul, que por anos ocuparam terras sem título e para os quais foram concedidos os terrenos. Ocupamos terra para mostrar que acreditamos na igualdade como princípio básico da convivência humana e que, por isso, não aceitamos que um projeto invista bilhões em um estádio de futebol, mas não se preocupe com a moradia das famílias pobres. Ocupamos terra, enfim, por acreditarmos mais na democracia que aqueles que hoje estão nos cargos públicos. Por acreditarmos que a minoria (não em quantidade de pessoas, mas em quantidade de dinheiro) ainda pode ser escutada. Por acreditarmos que nosso grito sensibiliza quem acredita na justiça social. Por acreditarmos que ainda é possível uma decisão correta pra quem sofre há anos. Somos famílias sem teto, milhares no DF, milhões no Brasil.

Assim como nossos direitos não nasceram ontem, mas são, sim, condição de existência, nossa luta é contínua: em 2010, ainda no governo tampão, houve uma ocupação nossa e um consequente acordo. Acordo cujo o governo traiu. Em 2011, consequentemente, ocupamos outra terra. Dessa vez, depois de quatro dias nessa terra (que foi assumida como sendo pública pela Terracap e hoje está a venda por um proprietário particular), passamos dois dias no Palácio do Buriti e nove dias no Ministério das Cidades. Houve mais um acordo, que consistia em bolsa aluguel e compromisso de garantia das casas. Ele também foi rasgado pelo governo em menos de dois meses.

Em 2012 as mesmas famílias, acrescidas de outras já desiludidas também com a espera, ocuparam uma terra na Ceilândia, num local que tinha uma suposta destinação específica há mais de 8 anos, e que poderia abrigar todas aquelas famílias. Depois de mais de um mês de ameaças, repressão, processo judicial e enrolação o GDF se comprometeu a cadastrar a entidade do movimento, viabilizar a construção das casas e estruturar uma política de auxílio-moradia. Em contrapartida, o MTST cumpriu sua palavra e junto com as famílias desocupou a área, que até hoje continua vazia. Após 3 meses de auxílio-vulnerabilidade para menos da metade das famílias do acampamento, o governo parou de cumprir todas as partes do acordo. Sugere prazos virtualmente impossíveis de se cumprir – mas que o movimento cumpre – e apresenta acompanhamentos que não significam nada de fato. Mas para os governos isso é um problema de leis e documentos, de projetos que se defendem.

O único programa habitacional que existe no DF já mostrou a que veio: enganar trabalhador. Os valores não estão de acordo com a renda das famílias que, para aceitar o financiamento do governo, teriam que comprometer quase toda sua renda. O GDF é, no mínimo, irresponsável ao afirmar que tem enfrentado a questão da moradia. Chamar famílias para apresentar documentos e apresentar propostas inviáveis não é fazer política habitacional. As escrituras que estão sendo distribuídas supostamente cumprem papel na efetivação do direito de propriedade, mas as milhares de famílias sendo despejadas no DF (valores que são impossíveis de se saber ao certo, pela falta de transparência do governo), a não construção de casas para as famílias (a maior parte já estava em andamento nos outros governos) e a proteção de um direito de propriedade desvinculado de sua necessária função social vão exatamente na contramão!

O esqueleto abandonado, onde agora se instala o Novo Pinheirinho, tem um título de posse de quase 30 anos, e quem mora no DF sabe que depois que houve uma construção há mais de 20 anos, aquilo está largado, só servindo para o enriquecimento dos donos através da especulação imobiliária. Nesses 30 anos o prédio já foi quase demolido, e continua sem cumprir a função social da propriedade, como manda a Constituição da República.

Esta região é central – o que a transforma num local adequado para a moradia de trabalhadores – e é foco da especulação imobiliária no DF: mais apartamentos para a classe alta, mais lucro para quem já é muito rico e os trabalhadores a ver navios! Ao invés de esperar o empresário se dar bem com todas as facilidades do governo, propomos que este esqueleto seja requalificado, se tornando moradia digna para centenas de famílias e que o DF tenha estruturada uma verdadeira política urbana!

O Novo Pinheirinho se desperta novamente. As famílias que agora fazem esta nova ocupação a fazem com um grito de Paz e um grito de Justiça. Paz porque não se faz ocupação por prazer, por diversão ou vandalismo. A ocupação ocorre para proporcionar vida digna às famílias. Vida onde as crianças podem ser educadas com qualidade, onde a violência passará longe. Por isto também, desde já repudiamos qualquer ação violenta contra o movimento.

Mas o Novo Pinheirinho também se desperta com um grito de Justiça, para denunciar a enganação do GDF! Para escancarar o compromisso dos nossos governos com a especulação imobiliária! Para representar toda a insatisfação do povo do DF com este governo! E o mais importante para efetivar o direito à moradia digna no Distrito Federal!

Ocupar e resistir por:

-Moradia digna para as famílias ocupadas;

-Requalificação do prédio abandonado, garantindo a construção de habitação social;

-Fim da criminalização movimentos sociais

O Novo Pinheiro está de volta por Liberdade, Justiça e Paz!

MTST! A Luta é pra Valer!

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Novo Pinheirinho (DF) apresenta suas armas

Por Edemilson Paraná

A intransigência do Governo do Distrito Federal pode produzir um desfecho trágico no acampamento Novo Pinheirinho em Ceilândia, a 25 km de Brasília. Certas de que a moradia digna é um direito, as 900 famílias acampadas – entre mulheres, jovens e crianças – preparam a resistência; e nada as convence do contrário. A ação de reintegração de posse já saiu e determina que as famílias deixem o local até essa sexta-feira (dia 4).

No acampamento, presenciei uma disposição para luta que jamais havia visto antes. Impossível não lembrar de Marx: eles tem pouco a perder, senão a próprias correntes. E não há que se falar em invencionisse irresponsável, em agitação pseudo-revolucionária. O destino dessa gente foi tomado à força, por eles mesmos nessa luta; daí o valor imenso da resistência:  a palavra cidadania, jóia de nossa retória política burguesa, se tornou sinônimo de terra, chão, suor e luta.

“Não temos mais nada a perder, já vivemos uma vida de muito sofrimento, meu filho”, disse-me uma senhora. “Se morrermos, virão outros e outros. Pra alguns aqui, morrer seria até um alívio”, disse-me outro morador. Sim, morador! É assim que eles passaram a se designar depois que muduram para QNQ/QNQ em Ceilândia. Se antes o quarto, o cortiço, a moradia alugada era chamada de “o lugar onde eu pago aluguel”, aqueles precários barracos de lona cravados no chão batido são orgulhosamente denominados “casa”. E entre olhares corajosos em sorrisos cansados ouvi que “está tudo bem”, que “até aqui está ótimo” viver no Novo Pinheirinho.

É contra a morte, a dor e a humilhaçao que a vida em Novo Pinheirinho apresenta suas armas: mãos calejadas, braços unidos, peitos abertos.

Novo Pinheirinho prepara resistência ao despejo

Do site do MTST

Diante da decisão do Governador Agnelo Queiroz em apostar no despejo e na repressão, ao invés de negociar solução habitacional para as famílias da Ocupação Novo Pinheirinho, em Ceilândia, os acampados iniciaram a preparação da resistência.

O terreno foi cercado de barricadas e os moradores se preparam para evitar um massacre. A ocupação já conta com mais de 900 famílias, muitas das quais não tem lugar para ir, em caso de despejo.

A postura do Governo Agnelo parece anunciar a versão petista do Massacre do Pinheirinho, feito pelo Governo do PSDB, em São José dos Campos. Se não recuar, o GDF transformará os questionamentos do PT ao despejo do Pinheirinho em retórica vazia. Mostrará ainda que as diferenças entre o PT e os tucanos no trato com as lutas sociais são bem menores do que parecem.

O MTST, diante da posição lamentável de Agnelo, expressa duas definições:

1. Organizaremos a resistência contra a tentativa de tratar o problema da moradia como caso de polícia.

2. Apelamos aos setores do PT que tenham compromisso com as lutas sociais que intercedam junto ao GDF para evitar o conflito que pode terminar em massacre.

3. Nossas ocupações em todo o Brasil estão de prontidão para fazer uma mobilização nacional em caso de ataque ao Novo Pinheirinho de Brasília.

NÃO PASSARÃO!

RESISTIREMOS!

MTST, A LUTA É PRA VALER!

Análise crítica do sistema de transporte do DF*

Por João Telésforo Medeiros Filho

PLANOS PILOTIS

duas asas partidas
duas pistas falsas
dois traços invisíveis

minha plataforma política
é a plataforma
da rodoviária

Nicolas Behr, Laranja Seleta. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.

O espaço urbano nasce sempre, historicamente, como um centro social, econômico e político. Parte fundamental do direito à cidade, assim, é o direito a participar de seu centro, a não ser periferia: a segregação urbana funciona simultaneamente como causa e consequência da dominação econômica e política e da desintegração social, num ciclo vicioso que perpetua a exclusão em todas as suas formas. Por ser pobre, o sujeito não tem condições econômicas de habitar regiões centrais, o que, por sua vez, gera novas dificuldades econômicas, devido à dificuldade de acesso a serviços públicos, ao dinheiro e tempo despendidos para locomover-se até o centro e à discriminação sofrida pelo fato de habitar a periferia. A apartação espacial aumenta também a dificuldade de formação de laços comunitários de solidariedade entre pessoas de classes distintas, reforçando a imagem dos excluídos como estranhos a serem desprezados e temidos.

A luta pelo direito à cidade é uma forma de combater simultaneamente todas essas formas de exclusão. A forte interdependência entre suas diversas facetas leva um avanço em cada uma das suas diversas dimensões a ajudar a quebrar o ciclo vicioso geral. Uma de suas pautas fundamentais, porém, provoca impacto especialmente relevante e disseminado: a do direito à mobilidade urbana, a ser efetivado por meio da garantia do transporte público.

O cidadão que mora na periferia está privado de serviços públicos de qualidade – ou, ao menos, com a qualidade existente no centro. Para solucionar esse problema, é preciso reduzir a desigualdade social e distribuir igualitariamente os serviços públicos essenciais, mantendo a qualidade em todas as regiões e incentivando a produção cultural das regiões periféricas para que sejam inteiramente auto-suficientes em relação aos centros urbanos. Enquanto isso não acontece, garantir transporte público a todos é ainda mais indispensável para que um cidadão da periferia tenha acesso aos seus direitos a saúde, educação, cultura e diversão.

Além do seu papel na materialização dos demais direitos fundamentais pelo acesso a serviços públicos, a garantia da mobilidade urbana avança em duas outras dimensões essenciais do direito à cidade: na instauração de um novo ritmo de vida diária e na possibilidade de reconstrução da unidade do espaço urbano.

A segregação da periferia é agravada, em Brasília, pelas grandes distâncias[1] e pela absoluta centralidade do transporte individual no planejamento da cidade. Antônio Carlos Carpintero verifica que o veículo individual é mencionado inúmeras vezes no projeto urbanístico da cidade, aparecendo claramente como “o principal elemento de organização, em torno do qual giram todos os outros”, enquanto, por outro lado, “Lúcio Costa não falou em nenhum momento, em sua proposta, a respeito de transporte coletivo de passageiros, apenas mencionou ônibus secundariamente”[2]. Eram os anos JK, e Brasília seria a vitrine da política de incentivo à indústria automobilística (e, em conseqüência, petrolífera).

O resultado é que, segundo informa Carlos Henrique Carvalho, pesquisador do IPEA, Brasília tem hoje uma parcela da frota nacional de veículos motorizados duas vezes maior do que a proporção de sua população em relação à população brasileira,  e é a única das grandes cidades do país onde o transporte coletivo tem participação menor que o individual: “nas cidades com mais de 1 milhão de habitantes, em média 36% das viagens são coletivas, e 30% individuais. No Distrito Federal são 33% contra 37%”[3]. Carvalho diagnostica que “esta forte vocação ao transporte individual, principalmente automóveis e motocicletas, gera muitos impactos negativos, como: poluição, acidentes, congestionamentos, e aumento no tempo médio de deslocamento entre a casa e o trabalho das pessoas”.

Em Brasília, 70% dos empregos concentram-se no Plano Piloto, enquanto 80% da população mora fora dele[4]. Devido à precariedade da rede de transporte coletivo e à hipertrofia do uso do transporte individual, os trabalhadores desperdiçam, diariamente, várias horas apenas para irem e voltarem do trabalho: na prática, são horas incorporadas à jornada, aumentando a sua exploração e reduzindo o tempo que teriam para dedicar à vida familiar e comunitária, ao lazer e à participação política. Além disso, comprometem com os gastos para locomover-se parte substancial de seu achatado orçamento.

Como efeito de todos esses condicionantes, o centro atualmente “não existe”[5] na vida dos excluídos. Bauman aponta que “a extensão ao longo da qual os de ‘classe alta’ e os de ‘classe baixa’ se situam numa sociedade de consumo é o seu grau de mobilidade – sua liberdade de escolher onde estar”[6]. Os avanços tecnológicos têm permitido que distâncias sejam encurtadas e virtualmente anuladas, em decorrência do desenvolvimento cada vez mais acelerado dos meios de transporte e de comunicação. Porém, o acesso à mobilidade e aos fluxos de informação tem severas restrições econômicas: no ano de 2006, computador era um bem presente em apenas 0,2% das casas de Itapoã, região mais pobre do Distrito Federal, que tinha então 45 mil habitantes, renda per capita de R$ 102 e taxa de desemprego de 29,2%[7]. Também não é difícil imaginar as restrições impostas ao uso do transporte público urbano, nesse contexto: fica dificultada até mesmo a busca de trabalho pelos desempregados[8], de modo que a segregação espacial e a barreira econômica à mobilidade reforçam a exclusão econômica, no ciclo vicioso a que já nos referimos.

Toda estratégia de dominação consiste em ampliar a liberdade do dominante e restringir ao máximo a liberdade de escolha do dominado[9] – tal como a liberdade de ir e vir, de apropriar-se do espaço, recriá-lo segundo seus desejos, utilizar serviços públicos, encontrar-se e agir com os outros. Para romper com o controle excludente da produção do espaço e da mobilidade das pessoas nela, é preciso que a cidade, toda ela, seja reconstruída como centro e unidade. O direito à cidade, diz Lefebvre, depende de seu uso simultâneo, requer reunião, encontro, para que se produza uma sociabilidade formadora da unidade espaço-temporal capaz de construir uma comunidade que se autodetermina.

A garantia da mobilidade urbana é indispensável nesse processo de resistência, na medida em que viabiliza o direito de todos a não permanecerem isolados na periferia, a se apropriarem de todo o espaço urbano e terem mais controle sobre o ritmo de sua vida cotidiana.

O transporte público, hoje, é extremamente deficiente nessa função. Em Auditoria Operacional no Sistema de Transporte Público do Distrito Federal[10] realizada em 2008, o Tribunal de Contas do DF verificou que 76% dos usuários avaliaram o tempo de espera no ponto de ônibus como regular ou ruim (38,2% disseram esperar mais de de 30 minutos na parada); a frota de ônibus é envelhecida, com mais da metade dos veículos com idade superior legal máxima para cada tipo de ônibus; em várias linhas, o número de viagens efetivamente realizadas é substancialmente menor do que o previsto; as condições de parte significativa das paradas são muito ruins; o usuário tem grande dificuldades de obter informações sobre os itinerários e horários das linhas; e a empresa Fácil dificulta o uso do passe estudantil, “impondo ao estudante prejuízo na sua mobilidade, acarretando a piora da qualidade de vida do usuário, sobretudo o mais carente”. No metrô, a auditoria verificou que, apesar de uma qualidade razoavelmente melhor e de menor insatisfação do usuário, o intervalo entre a passagem dos trens ainda é muito maior do que o necessário, em virtude da insuficiência de trens: em Maio de 2008, o metrô operava com 17 trens no horário de pico, em vez dos 29 necessários. Além disso, também não são disponibilizados mecanismos que informem em quanto tempo passará o próximo trem. Verificou-se, finalmente, que os dados operacionais fornecidos pelos diversos órgãos do governo, sobre diversos aspectos do funcionamento do sistema (condições da frota, linha, custos), são inconsistentes e por vezes contraditórios. Portanto, de baixa confiabilidade. E, ainda, que a fiscalização e efetiva sanção das recorrentes irregularidades cometidas pelas empresas operadoras são quase inexistentes, o que gera prejuízos à qualidade do serviço e perda de receita para o Estado.

Diante desse quadro, os auditores do TC-DF concluem que “muito ainda há que melhorar o serviço de transporte público para oferecer os serviços de qualidade que a população merece, cabendo especial papel aos gestores do sistema de transporte que, apesar de seus esforços, não têm conseguido cumprir a sua missão institucional” (grifamos). Fazem uma série de recomendações técnicas aos gestores, entre as quais não consta a de tornar participativa a gestão do sistema.

A qualidade do serviço de transporte público é de fato muito ruim, e essa é uma grande deficiência. Porém, na nossa perspectiva, o seu maior problema é que a administração está na mão das empresas e de uma política de Estado nada aberta à participação das pessoas impactadas pelo serviço. Esse é o requisito primeiro para que o transporte público sirva à mobilidade urbana numa perspectiva cidadã, pois só assim é possível que ele funcione voltado para as necessidades e desejos populares, tanto nos serviços oferecidos, como na forma de se financiar. Castells já observava que os modelos de gestão, de cobrança e o próprio meio de transporte estão relacionados à função a que servem na conjuntura social, e à diferenciação social[11].

Em Brasília, é fácil perceber que o transporte serve primordialmente como instrumento de produção capitalista. O serviço, em si, é explorado por grandes empresas que priorizam o lucro às necessidades dos usuários (basta ver as críticas feitas pelo relatório do TC-DF), e toda a lógica de funcionamento do sistema é voltada para transportar os trabalhadores apenas de casa para o trabalho. As limitações de horário de funcionamento, a falta de qualidade da frota, a demora para utilizar o serviço e os preços proibitivos são sinais disso. Um dos absurdos mais patentes é o fato de uma passagem do centro para uma região periféria custar em geral um real a mais (ou 50%) do que entre as regiões privilegiadas. Como efeito disso, um morador de Itapoã, com renda média de R$ 102, pagará R$ 3 para ir de Itapoã à região central da cidade. Obviamente, tenderá a permanecer ilhado em sua região.

Não é a medida técnica, a política A ou B que será capaz de reverter essa lógica. Ela só pode ser rompida se os próprios habitantes da cidade, organizando-se de modo contra-hegemônico, reivindicarem um transporte que sirva à sua mobilidade, e se apropriarem de sua gestão para abandonar o viés excludente de exploração capitalista do serviço, e instaurar uma forma de gestão, cobrança e serviço adequados à realização do direito à cidade. É justamente isso o que procura fazer o Movimento Passe Livre. Por isso, é importante observarmos a atuação desse grupo, sua crítica, suas propostas e sobretudo suas práticas de resistência e apropriação do transporte coletivo. Essa é a maneira pela qual pensamos que a ciência pode cumprir seu papel emancipatório: estudando os problemas concretos da realidade e observando a luta dos movimentos sociais contra eles, bem como os impactos de sua atuação, as possibilidades de construção de uma alternativa. Continuar lendo

Especulação imobiliária versus direito à moradia no DF

Estima-se que haja mais de 50 mil imóveis vazios no DF. A especulação imobiliária constitui barreira ao direito à moradia. É contra essa situação que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto luta.

DF tem a menor proporção de moradores donos de suas residências: apenas 59%

Diego Amorim – Correio Braziliense

Publicação: 26/06/2011 09:43 Atualização:

Na cidade onde uma quitinete chega a valer meio milhão de reais, fugir do aluguel é mais difícil do que em qualquer outro lugar do país. O Distrito Federal possui a menor proporção de moradores com imóvel próprio: 59%, contra uma média nacional de 70%, segundo radiografia feita pelo Correio com base em números do Censo 2010, consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O vizinho Goiás aparece em seguida no ranking, com 64%.

Enquanto no DF 30% dos domicílios são alugados, nas outras unidades da Federação a média não passa de 18%. Especialistas elegem como o principal motivo da discrepância a escassez de terras disponíveis para construção, o que distancia a oferta da demanda e serve de justificativa para o mercado cobrar preços salgados. Em áreas nobres, como em condomínios às margens do Lago Paranoá e no futuro Setor Noroeste, o valor do metro quadrado ultrapassa os R$ 10 mil.

Apesar de parecer um contra-senso o fato de Brasília — dona da maior renda per capita do país — ter a menor quantidade de imóveis próprios, os números não surpreendem o mercado. “A disponibilidade de terreno nunca foi suficiente para atender a demanda”, afirma o presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi-DF), Adalberto Valadão. Se há pouca oferta, a terra fica mais cara e o imóvel, também.

Para o economista e professor das Faculdades Integradas (Upis) Carlos Alberto Reis, é natural que os preços mais altos façam as pessoas optarem pelo aluguel. “A capacidade de investimento para ter a casa própria em Brasília supera a observada nos outros centros urbanos”, reforça ele, que desenvolve um estudo sobre brasilienses que até possuem imóveis em algum lugar do DF, mas preferem pagar aluguel para ficar perto do local de trabalho.

Há sete anos, a técnica em administração Vera Lívia Moreira de Miranda, 53 anos, adquiriu um apartamento na planta, em Águas Claras. Ela e a família, no entanto, vivem como inquilinos na Asa Norte. Alugam o imóvel próprio por R$ 1,2 mil e pagam R$ 2,3 mil onde moram, fora R$ 450 de condomínio. “A vida acaba ficando mais cara, mas hoje em dia é inviável para a classe média comprar um apartamento no Plano Piloto”, comenta.

Funcionalismo
Os servidores públicos que chegam a Brasília também ajudam a explicar as estatísticas. A maioria, apesar dos bons salários, começa morando de aluguel. “Não tem outro jeito: ou aluga ou mora muito longe de tudo”, diz o mineiro Daniel Gontijo, 31, que paga R$ 1 mil por mês para viver em um cômodo de 29 metros quadrados no Sudoeste, a 2,5km do prédio do Ministério Público, onde trabalha. “Com esse valor, alugaria uma casa em qualquer bairro nobre de Uberlândia (MG)”, compara.

Na próxima década, a quantidade de domicílios próprios no DF deve se aproximar da média nacional, na opinião do presidente do Sindicato da Habitação do Distrito Federal (Secovi-DF), Carlos Hiram. Ele acredita que a facilidade de financiamento e a abundância do crédito imobiliário são capazes de compensar a pouca oferta. “Apesar da enorme demanda reprimida, houve uma revolução no mercado nos últimos anos que mexerá nesse cenário”, afirma.

Imóveis vazios
O Secovi-DF não possui estatística oficial sobre quantos imóveis ociosos existem no Distrito Federal. Representantes do mercado, porém, estimam que esse número varie entre 50 mil e 60 mil, o que representaria até 7,7% do total de domicílios mapeados pelo Censo 2010. Havia uma expectativa de que, com a chamada Lei do Inquilinato em vigor — que diminuiu a burocracia no contrato de aluguel, até mesmo sem a obrigatoriedade de fiador em alguns casos —, mais da metade dos imóveis ociosos passaria a ser ocupada. A previsão não se confirmou. Muitos donos de apartamentos no Plano Piloto, por exemplo, ainda preferem contentar-se com a valorização a correrem o risco de amargar prejuízos com inquilinos.

Valorização crescente
O mercado reconhece que, após o boom dos últimos três anos, a margem de crescimento do valor dos imóveis será menor em 2011. No entanto, o presidente da Ademi-DF, Adalberto Valadão, nega estabilização dos preços. “Não existe isso, é conversa fiada. Agora, há uma tendência de crescimento menor, o que em algum momento iria acontecer”, afirma.

A valorização média dos imóveis em 2008 no DF foi de 50%. Apartamentos no Sudoeste protagonizaram casos emblemáticos, com saltos de até 80%. No ano seguinte, a variação atingiu 25% e, em 2010, ficou em torno de 20%. Este ano, a margem mínima já tem alcançado 15%. “Seguramente o percentual deste ano continuará batendo toda e qualquer aplicação financeira”, diz Valadão.

Para o mercado imobiliário, o limite de crescimento em Brasília está longe de ser alcançado. Segundo os especialistas, no Plano Piloto, por exemplo, a escassez de terrenos livres e as limitações impostas pelo tombamento justificam a continuidade do crescimento.

Palavra de especialistas

O que é mais vantajoso: alugar ou comprar?

Comprar
“Do ponto de vista de investimento, é claro que comprar imóvel em Brasília é melhor do que pagar aluguel. Quando se compara a valorização e o que o aluguel traz de rendimento, a constatação é que a compra é a melhor opção.”
Adalberto Valadão, presidente da Ademi-DF

Alugar
“Do ponto de vista econômico, faz sentido pagar aluguel em Brasília. O valor absoluto pode aparentar ser caro, mas ele está baixo. No DF, o aluguel varia entre 0,3% e 0,4% do preço do imóvel, enquanto em outras cidades fica entre 0,7% e 0,9%. Muita gente compra contando com a valorização, mas não faz essas contas.”
Adolfo Sachsida, economista e professor da Universidade Católica de Brasília

Depende
“O aluguel que se paga em Brasília ainda é baixo em relação ao preço do imóvel. Há espaço para crescimento e é o que deve ocorrer daqui para frente. No entanto, ainda há a ideia de que aluguel é dinheiro que vai para o lixo. E morar na casa própria continua sendo o sonho do brasileiro. Cada um deve analisar a situação e chegar a sua própria conclusão.”
Carlos Hiram, presidente do Secovi-DF