Da festa à catarse: gays, cidadãos, e não meros consumidores

Aconteceu neste último domingo, 10 de junho, a décima sexta edição da Parada Gay na maior cidade da América do Sul, com estimativa de ter recebido mais de 3 milhões de participantes. Curioso notar que um dia antes da realização da Parada Gay, aconteceu a Caminhada de Lésbicas e Bissexuais. Diferenças identitárias, fragmentações e segregações do amplo espectro LGBTTT à parte, a manifestação a cada ano colore as ruas com irreverência, alegria e diversidade.

Entretanto, também a cada ano, a festa vai assumindo os contornos do processo de “festificação”, e menos o de reconhecimento de direitos. Esse processo fica claro quando se pensa haver uma marcha contra a homofobia, separada da Parada do Orgulho Gay.

O sucesso da parada parece, muitas vezes, seguir a lógica cadente da massificação que se acompanha no estágio atual de desenvolvimento do capitalismo: toda constituição agigantada em massas torna-se nicho poderoso de interesse de corporações. Patrocinadores, marcas e divulgações assediam e se apropriam, diariamente, do quotidiano, de vontades e desejos das pessoas agregadas em identidades e quantidades,  transformadas em “nichos de mercado” para esses olhos, e nada mais que isso.

Um processo avassalador que observa orientação sexual, religião e raça como meios para a finalidade de lucro; valorizá-los obedece uma razão de proporcionalidade: quanto mais valorizados os direitos desses grupos, maior a relação de autoestima que se completa no consumo de mercadorias e na confiança depositada nas corporações que os seduzem. Continuar lendo

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Pelo direito à Memória e à Verdade

por Danniel Gobbi.

“Meio Milhão de Uruguaios fora do país. Um milhão de paraguaios, meio milhão de chilenos. Os barcos zarpam repletos de rapazes que fogem da prisão, do fosso ou da fome. Estar vivo é um perigo; pensar, um pecado; comer, um milagre.

Mas quantos são os desterrados dentro da fronteira do próprio país? Que estatística registra os condenados à resignação e ao silêncio? O crime da esperança não é pior do que o crime da pessoa? A ditadura é um costume da infâmia: uma máquina que te faz surdo e mudo, incapaz de escutar, impotente para dizer e cego para o que está proibido olhar. O primeiro morto na tortura desencadeou, no Brasil,  em 1964, um escândalo nacional. O morto número 10 na tortura quase nem apareceu nos noticiários. O número cinquenta foi normal.

A máquina ensina a aceitar o horror como se aceita o frio no inverno.”

(Eduardo Galeano)

Recebi, hoje, notícia de uma simples e valorosa manifestação do grupo Levante Popular da Juventude. Seguindo o exemplo do que outros coletivos de jovens fizeram no Chile e na Argentina, o ato do Levante retira do anonimato a monstruosidade da tortura e gera algum tipo de constrangimento social àqueles que, por cerca de duas décadas, decidiram brincar de Deus e definir sumariamente o destino de qualquer ser humano. Os algozes da ditadura acreditavam-se acima do bem e do mal, donos da verdade e da história. Escondiam-se covardemente atrás da institucionalidade para reproduzir e aprofundar um modelo de sociedade desigual e opressora. Tinham sede de sangue. Disseminavam a violência.

Além dos mortos e “desaparecidos”, nossa ditadura feriu, violentou, destruiu e torturou milhares. Em Brasília, onde tive a oportunidade de conhecer algumas vítimas da ditadura — pessoas honestas, trabalhadoras, generosas, solidárias e dedicadas à construção de um mundo melhor —, entendi que a memória, o direito à verdade, é fundamental para evitar que se  erotize um dos momentos mais sanguinário de nosso país. A deificação da opressão ditatorial leva algumas pessoas, no limite, a acreditar que é admirável agir, como fez a Direita em 64, para destruir aqueles que pensam a construção de um país melhor e tomam para si a árdua tarefa de desafiar os (muitos) privilégios do establishment.

As ameaças recentes aos professores e estudantes da área de Humanidades da UnB é um preocupante indicador da urgência em manter viva a nossa memória e encarar os fantasmas do passado. Nos tempos em que justiça é chamado de revanchismo e a verdade é ilegal, o Levante Popular da Juventude marcou um gol. De letra.

Manifestação em São Paulo

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Do grupo LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE.

fonte: http://levantepopulardajuventude.blogspot.com.br/

Movimento de jovens inicia ações contra torturadores da ditadura

Em Belo Horizonte, cerca de 70 pessoas participaram de uma ação de escracho em frente a residência do torturador Ariovaldo da Hora e Silva, na manhã desta segunda-feira (26), no bairro da Graça.

A manifestação contou com faixas, cartazes e tambores, além de distribuirem cópias de documentos oficiais do DOPS, contendo relatos das sessões de tortura com a participação de Ariovaldo, para conscientizar a população vizinha ao criminoso.

Os vizinhos se mostraram surpresos com o fato do Ariovaldo ter sido torturador do Regime Militar. “Não sabia que o Seu Ari era um torturador. Tenho na família  um caso de perseguido pela Ditadura e vou divulgar isso”, afirmou um morador da região. O denunciado permaneceu em casa ouvindo e assistindo a manifestação, tendo aparecido na janela por alguns segundos.

O Levante Popular da Juventude realiza em várias capitais do país ações simultâneas de denúncia de diversos torturadores, que continuam impunes. Os manifestantes apoiam a Comissão da Verdade e exigem a apuração e a punição sobre os crimes cometidos pela ditadura militar.

O caráter das ações, conhecida como “escracho”, baseia-se em ações similares as que acontecem na Argentina e no Chile, em que jovens fazem atos de denuncias e revelações dos torturadores que continuam soltos e sem julgamento sobre suas ações durante a Ditadura Militar.

Quem é

Ariovaldo da Hora e Silva foi investigador da Polícia Federal, lotado na Delegacia de Vigilância Social como escrivão.Delegado da Polícia Civil durante a ditadura, exerceu atividades no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) entre 1969 e 1971, em Minas Gerais.

Ariovaldo da Hora e Silva consta na obra Brasil Nunca Mais (Projeto A), acusado de envolvimento com a morte de João Lucas Alves e de ter praticado tortura contra presos políticos.Foram vítimas dele Jaime de Almeida, Afonso Celso Lana Leite e Nilo Sérgio Menezes Macedo, entre outros.

Na primeira comissão constituída para tratar do recolhimento dos documentos do DOPS ao Arquivo Público Mineiro (APM), em 1991, ele foi designado para representar a Secretaria da Segurança Pública do Estado de Minas Gerais (SESP). Em 1998, foi Coordenador de Informações da Coordenação Geral de Segurança (COSEG).

Levante Popular da Juventude

O Levante Popular da Juventude é um movimento social organizado por jovens que visa contribuir para a criação de um projeto popular para o Brasil, construído pelo povo e para o povo. Não é ligado a partidos políticos.   Com caráter nacional, tem atuação em todos os estados do país, no meio urbano e no campo. Se propõe a articular jovens, militantes de outros movimentos ou não, interessados em discutir as questões sociais e colaborar para a organização popular.   Tem como objetivo propiciar que a juventude tome consciência da sua história e da realidade à sua volta para transformá-la.   O Levante organiza a juventude para fazer denúncias à sociedade, por meio de ações de Agitação e Propaganda. Não há bandeiras previamente definidas. A luta política se dá pelas pautas escolhidas pelos próprios militantes, que realizam atividades de estudo e debates, sistematicamente, por todo o país.

MANIFESTO LEVANTE CONTRA TORTURA

Mas ninguém se rendeu ao sono. Todos sabem (e isso nos deixa vivos): a noite que abriga os carrascos, abriga também os rebelados. Em algum lugar, não sei onde, numa casa de subúrbios, no porão de alguma fábrica se traçam planos de revolta.

(Pedro Tierra)

Saímos às ruas hoje para resgatar a história do nosso povo e do nosso país. Lembramos da parte talvez mais sombria da história do Brasil, e que parece ser propositadamente esquecida: a Ditadura Militar. Um período onde jovens como nós, mulheres, homens, trabalhadores, estudantes, foram proibidos de lutar por uma vida melhor, foram proibidos de sonhar. Foram esmagados por uma ditadura que cruelmente perseguiu, prendeu, torturou e exterminou toda uma geração que ousou se levantar.

Não deixaremos que a história seja omitida, apaziguada ou relativizada por quem  quer que seja. A história dos que foram assassinados e torturados porque acreditavam ser possível construir uma sociedade mais justa é também a nossa história. Nós somos seu  povo. A mesma força que matou e torturou durante a ditadura hoje mata e tortura a juventude negra e pobre. Não aceitamos que nos torturem, que nos silenciem, nem que enterrem nossa memória. Não esqueceremos de toda a barbárie cometida.

Temos a disposição de contar a história dos que caíram e é necessário expor e julgar aqueles que torturaram e assassinaram nosso povo e nossos sonhos. Torturadores e apoiadores da ditadura militar: vocês não foram absolvidos! Não podemos aceitar que vocês vivam suas vidas como se nada tivesse acontecido enquanto, do nosso lado, o que resta são silêncio, saudades e a loucura provocada pela tortura. Nós acreditamos na justiça e não temos medo de denunciar os verdadeiros responsáveis por tanta dor e sofrimento.

Convidamos a juventude e toda a sociedade para se posicionar em defesa da Comissão Nacional da Verdade e contra os torturadores, que hoje denunciamos e que vivem escondidos e impunes e seguem ameaçando a liberdade do povo. Até que todos os torturadores sejam julgados, não esqueceremos, nem descansaremos.

Pela memória, verdade e justiça! Levante Popular da Juventude

Lei Geral dos Interesses Privados

Por Camila Damasceno

Sob a justificativa esdrúxula da “excepcionalidade” da Copa do Mundo de Futebol, a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) descaradamente exige que o governo federal pise o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança, o Estatuto do Idoso e mesmo a Constituição Federal para atender ao descabimento de suas exigências. É o “estado futebolístico de exceção”, como bem definiu o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) durante o tuitaço contra a aprovação do PL 2.330/11, a Lei Geral da Copa, realizado na tarde desta segunda-feira, 27.

Para chamar a atenção do governo, dos parlamentares e da sociedade civil contra a aprovação da lei, movimentos sociais e entidades de defesa do consumidor convocaram uma campanha no twitter com a tag #FifaBaixaBola, cuja adesão rendeu-lhe destaque nos Trending Topics da rede no Brasil.

Na iminência da visita de Joseph Blatter, presidente da FIFA, que pressiona pela aprovação do substitutivo do deputado Vicente Cândido (PT-SP) sobre o PL, faz-se importantíssima a mobilização popular na defesa dos direitos dos brasileiros. O PL prevê restrição de vários deles, especialmente dos de estudantes, idosos e consumidores, conferindo amplos e irrestritos poderes à FIFA, que fica isenta de obrigações e responsabilidades. Prejudica ainda a atividade de trabalhadores informais, limita o direito de ir e vir, estabelece regras para a privatização do patrimônio cultural brasileiro pela FIFA e prevê a responsabilidade ampla da União por “todo e qualquer dano resultante ou que tenha surgido em função de qualquer incidente ou acidente de segurança relacionado aos eventos”, gerando enorme ônus público. A troco de quê?

A venda dos direitos dos cidadãos brasileiros à FIFA é justificada com a meia-verdade de que mega eventos esportivos como o Pan, a Copa e as Olimpíadas trazem muito dinheiro e, “consequente” – como se a obviedade entre causa e efeito realmente existisse aqui -, desenvolvimento social para as cidades sede. Será? Na África do Sul, país que sediou a última Copa do Mundo da FIFA, em 2010, entidades denunciam graves prejuízos sociais causados pelas obras do evento e sua realização em si. Aqui, já foi anunciado que as exigências da FIFA para a reforma e construção de estádios que sediarão os jogos da Copa são incompatíveis com as das Olimpíadas. Ou seja, muitas obras da Copa terão de ser imediatamente refeitas para 2016, o que implica num (re)gasto enorme e injustificável de verba pública.

Copa para quem? Para os brasileiros que não poderão pagar o preço exorbitante das entradas, assistir às transmissões em TV aberta ou reproduzir em camisetas, bandeiras ou nas pinturas que enfeitam nossas ruas a cada quatros anos é que não é.

Um exemplo triste, caricato disso é o “Muro da Vergonha”, erguido à época dos Jogos Pan-Americanos de 2007 em volta da avenida que contorna a favela da Maré, no Rio de Janeiro. Construído sob a louvável justificativa de “diminuir o barulho dos carros” – que, imagino, deve ser o principal motivo de insônia dos moradores da Maré – e evitar a passagem de pedestres, o muro tampa, como uma peneira bizarra, a vista da miséria para os turistas que passam pela avenida, exibindo, no lugar, paisagens da cidade maravilhosa.

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No blog da Raquel Rolnik: Dossiê da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa: Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil.

Aquecimento para o Carnaval

Por Laila Maia Galvão

No governo Geisel, em plena ditadura militar, foi lançado o chamado Pacote de Abril. Uma nova emenda constitucional e seis decretos-leis passaram a permitir o voto indireto para eleições no Senado, aumento do mandato presidencial de cinco para seis anos, alteração do quórum para aprovação de emenda constitucional entre outras medidas. Como forma de protesto, jornalistas brasilienses criaram o bloco de carnaval Pacotão, com marchinhas que criticavam Geisel e o regime.

O Bloco de Olinda Acho é Pouco, que desfila na terça-feira de carnaval na cidade, foi criado em 1977 e também criticava a ditadura. A marca da agremiação, de cor vermelha, é símbolo da posição de esquerda assumida pelo bloco desde aquela época.

Em 1989, no desfile da escola de samba Beija-Flor, Joãozinho Trinta organizou um desfile inusitado. Ao invés de fantasias luxuosas, havia muito lixo. O enredo era “ratos e urubus, larguem minha fantasia”. Havia uma imensa faixa que dizia: “mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, esfomeados, loucos, povo de rua, tirem dos lixos deste imenso país restos de luxo… façam suas fantasias e venham participar deste bal masque”. Nesse mesmo desfile, havia um carro alegórico que trazia uma réplica do Cristo Redentor. A Igreja Católica ingressou com uma ação judicial e a escola foi proibida de desfilar com a alegoria. O Cristo, no carro, foi tapado por um plástico. Por cima do Cristo tapado havia a seguinte faixa: “mesmo proibido, rogai por nós”.

No ano passado, o bloco Pacotão criticou duramente os esquemas de corrupção da capital, o chamado mensalão do DEM. O movimento Fora Arruda participou das comemorações carnavalescas e cantou as marchinhas que falavam em panetones, bolsa da Eurides, Arruda na Papuda etc.

Nesse ano, o já tradicional bloco Pacotão traz dois temas muito atuais e oportunos. A primeira marchinha, Mumiarak fala em Egito e também das nossas “múmias” no Senado Federal. Já a marchinha O Vermelho Amarelou critica esse início de governo Agnelo.

A enorme festa popular que é o carnaval e que envolve brasileiros de norte a sul é espaço de confraternização e de folia. Nem por isso deixa de ser espaço de crítica e de criatividade política.

Um ótimo carnaval para todos!

Para entrarem no clima, seguem abaixo as marchinhas do bloco Pacotão desse ano…
MUMIARAK
Autor e intérprete: André Cerino

Mubarak

Mubarak
O Egito é outro
Teu governo é de araque

Lá no Egito a múmia passa mal
O povo pega, joga pedra, mete o pau
Mas no Brasil, quem diria
Múmia se cria no Congresso Nacional


O VERMELHO AMARELHOU
Autor e intérprete: Joka Pavaroti

Ele já saiu no Pacotão de bermuda e de chinelo
O cara era vermelho, mas tá sorrindo amarelo
A Colombina diz que o povo é sifu*
Elegeu o Agnelo, mas quem manda é um Tadeu
O Pierot também já sentiu na pele
Nesse coreto quem manda é Filipelli
Arlequim vive chorando, pelos cantos infeliz
Deu seu voto pro Agnelo e elegeu um assecla do Roriz