A Abertura ao Sexo

Por Gustavo Capela

O  espectro ideológico que envolve agrupamentos sociais serve muitas vezes para afastar aqueles que pensam de forma diferente. Eles agem negativamente a quem se manifesta de forma contraria, quem se veste de uma forma ou de outra, quem é de um curso, quem é de outro. Engraçado que em alguns momentos ainda pregam abertura e pluralismo.

Em meio à semana em que celebramos o dia Internacional da Mulher, cabe a reflexão sobre o papel desse sexo em nossa sociedade. Ainda são objetos como já foram (ou ainda são) os negros, os índios, os estrangeiros, etc? Ainda são consideradas menos capazes para exercer certas profissões? Ainda sofrem com a falta de auto-estima no mercado de trabalho e nos atos públicos?

É provável que sim. Vivemos em uma sociedade desigual onde alguns movimentos ainda buscam ressaltar mais as semelhanças do que as diferenças. Não, não somos iguais. Não, não temos as mesmas reações. E isso não se deve ao sexo. A individualidade e singularidade-singularíssima de cada um impede essa equiparação. Cada um é cada um. Importante é permitir que a mulher exerça essa sua individualidade, podendo, a qualquer momento, agir livremente, em prol de sua satisfação pessoal.

Isso requer, claro, alguns ajustes sociais. Não é simplesmente porque a mulher quer que ela vai poder, amanhã, possuir tanto prestígio quanto o homem no mercado de trabalho. Existem impasses, bloqueios, que simplesmente podam os anseios que elas possuem. Entraves sociais, preconceituosos, que as menosprezam pelo simples fato de terem nascido mulheres.

Nessa esteira, cabe críticas para ambos os lados. Homens impedem a emancipação sexual quando agem contra a liberdade existencial da mulher, ao tratá-la como objeto, ao impedir que ela compita com homens pelo cargo de maior prestígio, ao enxergar nela um ser que, diferentemente dele, não possui capacidades mentais. Pior ainda são aqueles que abusam da força física para impor sua vontade. Como um homem consegue pensar que é mais capaz que uma mulher se ele precisa usar da força para impor sua vontade? Quem é o ignorante da estória, afinal?

Por outro lado, é importante que algumas mulheres de destaque, que possuem poder de influência, levantem-se em prol de suas companheiras. Muito do que o homem-todo-poderoso-da-globo faz é utilizar dos estereótipos que ele quer atiçar usando como testa-de-ferro uma mulher. Mulher, respeite suas concidadãs e as alerte para o tipo de exploração que é feita em seu ambiente de trabalho. Não fazendo isso, acaba por ser conivente com atos que menosprezam o sexo, que diminuem a área de influência da voz feminina.

Isso não significa que a luta é só das mulheres. Não significa, tampouco, que cabe ao homem o papel de observador inerte do processo de emancipação. Lembrem-se a luta é coletiva. Os ganhos de uma ampliação dos direitos das mulheres não são exclusivamente delas. Quanto mais inclusão social, a vida coletiva se torna mais aberta, mais plural e, consequentemente, mais tolerante. A tolerância é irmã gêmea do fazer-se, do constituir-se como ser humano autêntico e realizado.

O dia internacional da mulher, creio eu, foi instituído para lembrar todo marmanjo e toda Mulher que há, ainda, passos necessários para maior inclusão dessa parcela significativa de nossa sociedade. Lembremos, então, que precisamos lutar conjuntamente, que o menosprezo pelo diferente nunca acrescentou nada à vida social. Não é rechaçando o homem que a mulher ganha espaço, assim como não é podando os anseios femininos que o homem se afirma.  É preciso reafirmar cotidianamente a solidariedade como princípio basilar de uma sociedade mais aberta ao diferente, mais capaz de assentar diferenças, mais capaz de enriquecer o indivíduo através do social.

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Escolhendo o outro pelo outro

Por Gustavo Capela

Ouço som, ouço luz.

Nego cor, nego cruz.

Ela samba, ele canta

Ele sabe, ela dança.

Pensar no outro requer a presença do outro. Até a visão própria só se completa na presença do outro. A democracia é necessariamente o lugar do outro, do diferente-de-mim, do plural. Falo isso pela n-ésima vez no blog não por acaso. O curso de formação nesse fim de semana trará aos seus participantes a perspectiva de Jurgen Habermas sobre o outro, sobre a inclusão do outro em uma sociedade.

Não tenho capacidade cognitiva suficiente para dizer que não há no mundo, hoje, sociedades que não contemplem diferenças das mais abruptas. Posso dizer que nosso país comporta muitos brancos, muitos negros (apesar de alguns entenderem que estes últimos não existem em nosso país, que são criação de um tribunal racial), muitos heterossexuais, muitos homossexuais, muitos homens, muitas mulheres, poucos ricos, muitos pobres, muita terra, poucos donos, muita vontade, pouca ação. Somos o país do diferente.

Mas algo nos une. E esse algo não pode ser um mero sentimento de nacionalismo, uma gota de verde ao lado de uma de amarelo. A unidade está na esfera política, na necessidade de criarmos um conceito de autonomia pública que inclua todas as diferenças e escute todos os lados da moeda. Temos defesa equânime hoje de todas as facetas da sociedade? O pobre pode tanto quanto o rico? O negro tanto quanto o branco? Os súditos tanto quanto os donos?  Se sim, nada precisa ser alterado. Se não, até que ponto há vínculo nas relações sociais entre as diferenças? De quem é, afinal, a sociedade em que vivemos? É de todos?

Sem o devido empoderamento do que é diverso ele é excluído das escolhas que vinculam todos. Pasmem, inclusive ele, que foi excluído. De que adiantam leis que buscam contemplar interesses homossexuais se eles jamais foram incluídos no processo de escolha, processamento e efetivação da política pública? Nós, homens brancos, de classe alta, e donos de terra temos a prerrogativa de sempre decidir como e quando vamos atender aos anseios dos “outros”?

Em uma democracia, em um estado democrático de direito, independentemente de ideologia, faz-se mister que todos os entes sejam bem representados, que haja igualdade de condições, liberdade efetiva,  e condições para se expor ao debate público. Para além dos benefícios que vem ao indivíduo da alteridade constante, a sociedade ganha em Law enforcement, em justiça e em legitimidade de ações.

Para que tudo isso aconteça, primeiramente é preciso haver um compromisso estatal para com os excluídos. Logo, é indispensável que a maioria do poder (que quase nunca é a maioria em números) se dobre perante às demandas sociais e respeite na esfera pública a autonomia em seu sentido strito – o poder de criar suas próprias leis. Não defendo, claro, que somente mulheres podem fazer leis para mulheres, que somente homossexuais o façam para eles próprios. Tanto é importante para os bem aceitos a atenção ao outro, como a recíproca é completamente verdadeira. No espaço público, não existem regras que se sustentam como legítimas somente pelo rito procedimental. A defesa de um ato de lei se deve à capacidade que ela tem de atender as diferentes facetas da sociedade. De forma igual, em alguns momentos, e de forma diferente, em outros.