A classe-que-vive-do-trabalho e a Assessoria Jurídica Popular

Por João Telésforo Medeiros Filho

Há tempos eu queria indicar aqui o blog da Assessoria Jurídica Popular (AJP), pela qualidade das reflexões lá realizadas e pela perspectiva política que compartilhamos: a de trabalhar com movimentos sociais “com o objetivo de viabilizar um diálogo sobre os principais problemas enfrentados pelo povo para a realização de direitos fundamentais para uma vida com dignidade; seja por meio dos mecanismos oficiais, institucionais, jurídicos, extrajurídicos, políticos e da conscientização“, segundo explica Luiz Otávio Ribas.

Ao ler no blog da AJP o texto de Diego A. Diehl sobre a classe-que-vive do trabalho (e o que a AJP tem a ver com isso), percebi que seria oportuno reproduzi-lo aqui por uma série de razões.

Primeiro, o post traz elementos importantes para a busca da compreensão da estrutura da nossa sociedade de classes. A luta contra as desigualdades de classe é central para o B&D, um dos objetivos fundamentais que tem nos guiado na prática, mas nossa discussão teórica a respeito ainda precisa avançar bastante, e esse texto traz referências e ideias de muito valor nisso. (Para uma outra análise da estrutura das desigualdades de classe no Brasil de hoje aqui no blog, ver a entrevista de Jessé Souza ao Diplô Brasil).

Segundo, o post critica diretamente ideias de André Gorz, autor que mereceu cinco posts da Laila aqui no blog. Laila nos lembrou que Gorz mudou de perspectiva várias vezes ao longo da sua obra, e a crítica de Diego (a partir de Ricardo Antunes) a uma de suas obras talvez não possa ser estendida àquelas de que ela tratou. De qualquer forma, lembra-nos da necessidade de termos cuidado ao utilizar, para analisar a sociedade brasileira, teorias sociais feitas primordialmente com base na observação da Europa e outros países do “Norte”. É preciso superar a colonização do pensamento – o que não significa deixar de considerar grandes contribuições teóricas oriundas de países com realidades sociais distintas, mas refletir rigorosamente sobre os aspectos em que são ou não adequadas para pensar o Brasil, a América Latina, o “Sul”.

A terceira razão é dar uma ótima notícia para os leitores candangos do blog: o Diego Diehl está vindo morar em Brasília, iniciará no mês que vem o doutorado em Direito lá no PPGD da Faculdade de Direito da UnB. Mais do que  um colega de capacidade reflexiva diferenciada, ganharemos um grande companheiro de lutas!

Antes de passar ao texto do Diego, recomendo que leiam também a rica discussão que se produziu lá no blog da AJP, no espaço dos comentários ao post.

A “classe-que-vive-do-trabalho”: e o que a AJP tem a ver com isso?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Frequentemente é utilizado neste blogue o termo “classe-que-vive-do-trabalho”, em geral para designar uma determinada parcela da sociedade, com a qual a AJP se identifica politicamente e busca atuar no sentido de sua libertação. Mas o que é, quem vem a ser especificamente essa classe? Como ela se conforma no Brasil de hoje? E até que ponto essa categoria efetivamente é importante na práxis dos assessores jurídicos populares, universitários ou não?
O espaço é curto, então tentemos apenas apontar alguns elementos introdutórios a cada uma dessas questões, uma de cada vez. 

Primeiro. O termo “classe-que-vive-do-trabalho” foi formulado pelo sociólogo brasileiro Ricardo Antunes no livro “Adeus ao trabalho?”, e se contrapõe diretamente ao termo, cunhado pelo filósofo austro-francês André Gorz, da “não-classe do não-trabalho” em seu famoso livro “Adeus ao proletariado”. Esta obra, publicada em 1980, representou um marco de ruptura de Gorz com o marxismo (ainda que na sua vertente existencialista à la Sartre) e de aproximação do pensamento pós-moderno, movimento que foi igualmente realizado por uma série de intelectuais até então envolvidos nas lutas do movimento operário europeu e dos movimentos de libertação nacional nos países neocoloniais (como Antonio Negri, Alain Touraine, dentre outros).

A tese de Gorz era de que transitava-se para uma sociedade pós-industrial na qual o trabalho teria perdido a centralidade que dispunha até então, o que significaria, por consequencia, que também o movimento operário teria perdido grande parte de seu potencial contestador e revolucionário. Na verdade, uma tese eurocêntrica e mergulhada apenas nas “aparências” (e não na “essência”) do movimento dos capitais especialmente a partir da crise econômica de 1969-1974, que fez com que uma série de empresas transferissem parques industriais completos para países do Terceiro Mundo, em busca de menores salários e menos encargos sociais, com o intuito de recuperar suas taxas de lucro.

Gorz: a “não-classe do não-trabalho”; Antunes: a “classe-que-vive-do-trabalho”

 

Tinha que ser, portanto, um intelectual de um país periférico (sem tirar os evidentes méritos de Antunes) a contestar a tese da perda da centralidade do trabalho, dado que, se na Europa houve uma diminuição dos operários fabris e a expansão de setores de caráter tecno-científico (áreas de programação de software, robótica, microeletrônica, biotecnologia etc), na América Latina, Ásia e África houve um intenso movimento de “industrialização recolonizadora” (cf. conceito de Darcy Ribeiro) que produziu enormes impactos sociais, econômicos e culturais sobre estes povos.

 

Contudo, o conceito da “classe-que-vive-do-trabalho” não é apropriado apenas para os países periféricos (que, por sinal, também sentem nos últimos anos o mesmo processo de redução do operariado fabril), mas pode-se dizer que é “universal”, ao menos onde o modo de produção capitalista é predominante, em tempos da chamada “acumulação flexível” (marcada pela precarização do trabalho, perda de direitos trabalhistas e securitários, desmonte e cooptação dos instrumentos de organização dos trabalhadores etc). Os imensos ganhos de produtividade do trabalho obtidos pelo capital nas últimas décadas, a partir da introdução de inovações técnicas, maquinários modernos, gestão científica do trabalho, aplicação combinada de métodos produtivos fordistas e pós-fordistas etc, efetivamente fizeram reduzir a quantidade de trabalhadores necessários na produção de mercadorias, mas de forma alguma fizeram perder a centralidade do “valor-trabalho” como motor do modo de produção capitalista.

 

Pelo contrário, o aumento da produtividade permitiu um aprofundamento da divisão social e internacional do trabalho, criando ramos cada vez mais específicos e especializados na agregação de valor aos produtos a partir de inovações científicas, na realização mais rápida do capital a partir da venda das mercadorias (pensem nos imensos hipermercados, nas vendas pelas internet etc) e na criação de novos setores de prestação de serviços. Ainda que o número de “trabalhadores produtivos” (ou seja, produtivos para o Capital: produtores de novos valores de uso que são também valores de troca) tenha diminuído, sua produtividade aumentou justamente por causa do incremento dos “trabalhadores improdutivos” (improdutivos, mas necessários para o Capital: não chegam a agregar novos valores de uso à mercadoria, mas fazem com que esta seja vendida e consumida mais rapidamente).

Se eles não produzem mais-valia, por que são tão
indispensáveis às empresas? Por que são tão explorados?
A “classe-que-vive-do-trabalho” corresponde, portanto, a todos estes trabalhadores que vendem sua força de trabalho para sobreviver (são proletários, portanto), justamente por não possuírem qualquer meio de produção que os permita fazê-lo autonomamente. Sejam trabalhadores “produtivos” ou “improdutivos”, todos são igualmente necessários à produção e reprodução do Capital, e, na medida em que fornecem direta ou indiretamente mais-valia ao capitalista, são objetivamente explorados e se configuram, portanto, como os sujeitos históricos centrais do processo de libertação do modo de produção capitalista. O tal “sujeito histórico” não se restringe, portanto, ao clássico operariado fabril, mas tampouco prescinde deste para a construção de um novo projeto de sociedade.

 

Cabe ressaltar ainda que dentro deste conceito da “classe-que-vive-do-trabalho” não se inclui o campesinato, mas apenas o proletariado rural (assalariados agrícolas) e camponeses sem-terra que trabalham como parceiros, meeiros ou semi-assalariados rurais. O que não significa que a classe-que-vive-do-trabalho não possa e não deva construir alianças (e alianças só ocorrem entre classes distintas) com o campesinato e mesmo com a pequena-burguesia.Segundo. Discutir a conformação da classe-que-vive-do-trabalho no Brasil de hoje é tarefa bastante complexa, que exige a análise de dados estatísticos com metodologias adequadas (o que nem sempre ocorre, dado que o IBGE se utiliza ora de conceitos keynesianos, ora neoclássicos – o que prova que os números nunca são neutros!), e que, especialmente quanto aos últimos anos, ainda não estão disponíveis (possivelmente a divulgação do Censo 2010 nos ajudará nessa tarefa). De qualquer forma, a partir de alguns dados resumidos tomados de um estudo do PNAD 2002 realizado pelo IPEA, já é possível verificar as alterações produzidas no mundo do trabalho em comparação a 1985. 

Tarsila, quem é a classe-que-vive-do-trabalho hoje no Brasil?!

Estimou-se que em 2002 a PEA (População Economicamente Ativa) no Brasil era de 80 milhões de pessoas, distribuídas da seguinte forma:

  • 21.703.298 eram empregados com carteira assinada (4.921.282 operários industriais, 4.326.200 empregados no comércio, 2.734.804 no setor administrativo, 2.221.483 em serviços de limpeza e zeladores, 1.860.882 servidores públicos, 396.849 assalariados agrícolas, 3.975.166 em outras categorias);
  • 12.218.039 eram trabalhadores sem carteira assinada;
  • 6.000.000 eram trabalhadores domésticos;
  • 8.000.000 de camponeses;
  • 6.000.000 de camponeses sem-terra ou semi-proletarizados;
  • 2.470.000 proletários rurais; e
  • 18.804.414 desempregados (sendo destes, 8 milhões entre 16 e 24 anos).

Obs.: Havia ainda 6.772.162 na condição de pequenos e médios proprietários urbanos ou atuando como profissionais liberais.

Estes são dados a partir dos quais é possível iniciar uma análise da classe-que-do-trabalho no Brasil de hoje, mas sabendo que a sua disposição sofreu sensíveis variações nos últimos anos, em virtude dos programas sociais e de transferência de renda, da política neodesenvolvimentista voltada à geração de empregos (muitos com carteira assinada, mas em geral com baixos salários e pouca qualificação), o aquecimento da economia e do mercado de consumo interno. A redução do desemprego, o gradual aumento da massa salarial e o maior número de trabalhadores com carteira assinada têm feito inclusive com que a classe se disponha com menos temor a formas coletivas de luta, a ponto de o número de greves ter crescido nos últimos 3 anos. Certamente ainda é cedo para se falar em um novo ascenso das lutas de massas, mas não é infundada essa esperança, desde que combinada com uma agirança!

 

Terceiro. E por falar em agirança: de que forma a AJP tem se relacionado com a classe-que-vive-do-trabalho? Não é correto dizer que não há relação, mas também não é errado dizer que as assessorias universitárias e as organizações de apoio não têm se relacionado com a classe com base nessa perspectiva da classe como um todo, nem mesmo no que faz dela uma classe: a questão do trabalho. O fato é que recaiu-se, desde meados da década de 1990 a meu ver, nas formas de organização e de luta de caráter pós-moderno, aceitando a fragmentação das lutas e das demandas que, por muitas que sejam, pertencem a uma única e mesma classe (ou a potenciais aliados de classe, como o campesinato sem-terra e – por que não? – as chamadas “populações tradicionais”).

 

Quantos projetos da RENAJU atuam hoje com trabalhadores, para além de sem-tetos, sem-terras, sem-escolas, sem-dignidades, sem-direitos? Quantos advogados populares na RENAP têm aproximação com sindicatos e associações profissionais? Não se trata de abandonar ou menosprezar o trabalho que já se faz, mas de compreender a totalidade das relações sociais e atuar de forma mais abrangente, contribuindo na formação da classe para si. O sem-terra, o sem-teto, o desempregado, o oprimido também é trabalhador, e provavelmente tem (ou deveria ter) um sindicato e um partido que atenda aos seus interesses de classe. 

“Antes de sermos sem-terra, somos trabalhadores!”

Sabemos que nem a RENAJU e nem a RENAP têm ou devem ter o caráter de organizações partidárias ou de representação da classe-que-vive-do-trabalho, mas, se a luta não se resume a uma pauta de pequenas reformas e algumas concessões de direitos, mas à construção de uma nova sociedade sem exploração e sem opressão, então a aproximação e o apoio (técnico e político) à classe e às suas ferramentas organizativas é uma questão de primeira ordem, que deve estar no centro das discussões nos encontros, congressos e grupos de discussões da AJP.

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André Gorz – Parte V

Por Laila Maia Galvão

Acaba de ser lançado pela Editora Annablume o livro Ecológica, obra póstuma do filósofo André Gorz. Em cinco ensaios diferentes, o escritor critica o sistema capitalista e a sua lógica de produção em massa e de consumismo desenfreado.

Em um dos ensaios publicados, que pode ser lido aqui , Gorz se debruça sobre um tema atual e que aflige todas as grandes cidades do mundo. Esse enorme problema tem um nome: chama-se carro. Trata-se de uma tecnologia do final do século XIX que chega a pesar algo em torno de uma tonelada e que é capaz de transportar um número reduzido de pessoas, funcionando, na maioria das vezes, como meio de transporte individual. O assunto abordado em A Ideologia Social do Carro é fascinante justamente porque a análise do impacto do carro serve como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre nossas práticas sociais.

No ensaio, Gorz identifica o carro como um bem de luxo, usufruído por uma minoria. A partir daí, aponta os problemas de uma política pública que se propõe a “garantir um carro para cada família” e a fortalecer a indústria automobilística (algo bastante próximo, aliás, da política realizada pelos governos brasileiros há mais de meio século). Gorz critica também a demagogia da esquerda que vê o carro como uma “vaca sagrada”.

A grande vantagem do carro, que seria a velocidade na locomoção, foi seriamente prejudicada pelo aumento da frota e pelos congestionamentos. Para melhorar o tráfego dos carros, alterou-se toda a configuração urbana, o que prejudicou a circulação dos habitantes em suas próprias cidades. Com o afloramento do egoísmo cruel e agressivo do motorista, cenas chocantes passaram a ocorrer no trânsito todos os dias. Para Gorz, o carro teria tornado a cidade grande inabitável.

É interessante notar que apesar de focar a questão do carro, Gorz não reduz o problema a isso. Para ele, não se pode pensar o problema do transporte isoladamente. É preciso sempre relacioná-lo ao problema da cidade, da divisão social do trabalho e da compartimentalização da vida social. Se a cidade é considerada um inferno e o carro acaba se tornando um refúgio para seus moradores, então o problema do carro é um problema de direito à cidade: “A cidade precisa voltar a ser agradável”.

Gorz fala sobre a importância de tornar a cidade um ambiente bom e acolhedor e de instituir novas relações sociais. É por isso que ressalta a importância do transporte coletivo, mas não reduz a solução do problema à ampliação de linhas de trens e de ônibus. Para ele, o carro e os impactos gerados por ele no meio ambiente e no cotidiano das pessoas somente poderão ser combatidos por meio de uma profunda revolução cultural.

As reflexões de Gorz são importantes porque tentam resgatar a maneira como o carro se firmou como grande alternativa de locomoção dos habitantes nas grandes cidades e os efeitos dessa escolha política para a conformação dos aglomerados urbanos. E Gorz é capaz de tocar na ferida: porque alguns setores da esquerda insistem em defender com unhas e dentes esse modelo urbano, a partir da utilização em massa do carro? Essa é uma discussão que a esquerda (as esquerdas) brasileira precisará enfrentar, mais cedo ou mais tarde.

O problema já está colocado. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte são intransitáveis em certos horários do dia. A “solução” desse problema nas grandes cidades tem sido a construção de rodoaneis, minhocões e de condomínios em áreas distantes, o que traz consequências como: diminuição das áreas verdes e ampliação da área asfaltada, enchentes, maior poluição e maior segregação urbana. Outras alternativas como a ampliação do transporte coletivo e a efetivação do direito à cidade para todos tem ficado de lado. É aí que deve entrar em cena a crítica feroz de Gorz ao carro e, além disso, a reivindicação por novas relações sociais entre as pessoas que compartilham diariamente a mesma cidade.

André Gorz – Parte IV

Por Laila Maia Galvão 

Um dos últimos livros publicados por Gorz foi O Imaterial – conhecimento, valor e capital. Nessa obra, Gorz supera a discussão travada nos anos 80 e 90 a respeito da “não-classe de não-trabalhadores” (em Adeus ao proleteriado), para retomar a análise da dominação e opressão observada no sistema capitalista considerando a redução relativa do trabalho industrial e o aumento significativo do setor terciário. Também nessa obra, Gorz parece se afastar um pouco das ideias de Metamorfoses do Trabalho: crítica da razão econômica, em que sustentou que haveria uma ruptura entre o tempo de trabalho e o tempo de vida (produção da subjetividade). Com a identificação da expansão significativa de trabalhos que envolvem conhecimento e informação, ou seja, com a emergência do trabalho imaterial, a suposta separação entre tempo de trabalho e tempo de vida teria de ser repensada. E foi isso que Gorz fez, ao esboçar novas ideias e novas categorias de análise em O Imaterial – conhecimento, valor e capital, o que apenas demonstra a capacidade desse autor de atualizar suas reflexões.

De forma bastante resumida, podemos dizer que André Gorz reconhece que o conhecimento passou a ser a principal força produtiva, gerando uma chamada “economia do conhecimento”. Nessa tal economia, o fator que determinaria a criação de valor não seria mais o tempo de trabalho, mas sim o “componente comportamental”, a motivação. Daí a emergência da noção de capital humano.

Essa valorização do capital imaterial (o que Marx já sinalizava em seus escritos) implicaria em uma série de transformações no mundo do trabalho. A empresa passa a recorrer a uma “gestão por objetivos”, em que fixa metas aos assalariados, que devem arrumar uma maneira, qualquer maneira, de atingir tais objetivos. Seria o retorno do trabalho como prestação de serviço. Assim, o trabalhador não apresenta a sua força produtiva, “hetero-produzida”, ao empresário, mas se apresenta, ele mesmo, como um produto que “se produz” constantemente. Toda a bagagem cultural adquirida pelo trabalhador ao longo de sua vida será analisada no momento de sua contratação.

Assim, Gorz aponta a existência de um “auto-empreendimento”, ou seja, a pessoa torna, ela mesma, uma empresa. Torna-se um capital que precisa ser permanentemente reproduzido, modernizado e alargado. Todos se tornam responsáveis por essa gestão se sua própria força de trabalho.

É apenas com esse “auto-empreendimento” que temos a transformação em trabalho e a redução a um valor de toda a vida e de todas as pessoas.

Ao tratar sobre “capital do conhecimento”, o autor reconhece que a utilização desse conhecimento não é novidade de nosso tempo, sendo característica do capitalismo desde seus primórdios. Seria nova a multiplicação desse conhecimento (por meio de inovações tecnológicas como internet, softwares etc.). Daí, Gorz lança a ideia de que, com essa propagação crescente de conhecimento, seu valor mercantil tenderia a zero, se tornando bem comum acessível a todos, o que se corresponderia a um “comunismo do saber”.

Para se tornar mercadoria, o saber deveria se tornar um bem de propriedade privada e escasso. No entanto, para Gorz, o saber não aceita ser manipulado como mercadoria. Mesmo assim, ele reconhece que o capitalismo tem reforçado o caráter único e incomparável desses saberes para, por meio de propagandas e marketing, criar uma “escassez artificial”.

Gorz, portanto, denuncia a possível apropriação privada pelas corporações capitalistas dessa produção coletiva, chamada de conhecimento, e a subordinação dessa produção à lógica tradicional do lucro capitalista.

As implicações dessa abundante produção imaterial na reestruturação do funcionamento do sistema capitalista ainda são pouco perceptíveis. As mudanças de nosso mundo e as “metamorfoses do trabalho” ocorrem de forma cada vez mais acelerada e robusta, sem que haja uma teoria social ampla e abrangente que traga fundamentações coerentes para essas transformações. No entanto, talvez não seja necessária a presença de uma única teoria analítica dessas novas formas de produção que estamos experimentando. Se pensarmos assim, o livro de Gorz pode servir como interessante referência para um pontapé inicial nessa discussão, uma vez que traz categorias novas de reflexão, que interagem bem com a realidade, e que não deixa de trazer, também, a utopia presente em todas as obras de Gorz.

André Gorz – Parte I

Por Laila Maia Galvão

Apresentação. André Gorz é um filósofo, sociólogo e jornalista, que publicou diversos livros sobre teoria social e política ao longo de seus 84 anos de vida. Atualmente, seus escritos servem de referência para a reflexão sobre o mundo contemporâneo.

História de vida. Gorz é filho de pai judeu e mãe católica. Seu nome verdadeiro é Gerhard Horst. Nasceu em Viena, na Áustria, em fevereiro do ano de 1923. No momento em que a Áustria foi ocupada pelos nazistas, sua mãe o levou para a Suíça, para evitar sua prisão por decorrência de sua ascendência judaica. Lá permaneceu até o fim da guerra e estudou nesse período engenharia química e passou a ter contato com a obra de Jean-Paul Sartre. Após a guerra, mudou-se para a França e passou a adotar o pseudônimo André Gorz. Trabalhou em diversas publicações, como as revistas Les Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. Era amigo próximo de Sartre. Seus livros publicados a partir de 1958 influenciaram o chamado marxismo-existencialista francês do pós-guerra. Foi um dos inspiradores do Maio de 1968. Seu livro Estratégia Operária e neocapitalismo, de 1964, figurou como um referencial para os militantes da Nova Esquerda.

Precursor do estudo da ecologia. Na década de 70, Gorz publicou livros e artigos sobre o tema, que se tornaram referência para os movimentos ecológicos em todo o mundo. Foi um dos principais mentores da chamada Ecologia Política. Suas principais obras sobre o tema são Écologie et politique e Capitalisme, socialisme, écologie (os quais não foram traduzidos para o português).

Adeus ao proletariado. Esse é o título do livro de Gorz de 1980, em que ele coloca em questão algumas das premissas do marxismo, o que gerou à época grande polêmica. Movimentos franceses marxistas criticaram duramente o trabalho de Gorz. Hoje, muitos intelectuais reconhecem que Gorz estava à frente de seu tempo, publicando, já em 1980, prognósticos do desenvolvimento da economia globalizada. Foi também nessa oportunidade que Gorz explorou o conceito de neo-proletariado e a emergência de uma não-classe de não-trabalhadores, questionando, dessa forma, o lugar privilegiado da classe trabalhadora industrial como agente da história na teoria marxista.

Maiores influências. As principais referências de Gorz foram Sartre e Marx.

Livros publicados no Brasil: Estratégia operária e neocapitalismo (1968), O socialismo difícil (1968), Adeus ao proletariado (1982), Crítica da divisão do trabalho (2001), Metamorfoses do trabalho – busca do sentido, crítica da razão econômica (2003), Misérias do presente, riqueza do possível (2004), O imaterial – conhecimento, valor e capital (2005) e Carta a D. – história de um amor (2008).

Peculiaridades. Gorz é, acima de tudo, um crítico do capitalismo. Foi um dos importantes intelectuais que se debruçaram sobre o estudo e crítica do mundo do trabalho no século XX. Muitos reconhecem nele a capacidade de fazer um interessante diagnóstico de nossa época, além de propor alternativas para a crise social atual. Gorz sempre mesclou a reflexão com a militância política ao longo de sua vida. Ao contrário dos teóricos e economistas que enxergam no trabalho assalariado a salvação, Gorz propôs a redução do tempo de trabalho, a renda de cidadania e o estímulo a atividades de grande valor social, mas sem valor de mercado, como forma de estabelecer um contraponto ao capitalismo contemporâneo que busca impor a lógica das relações de mercado para todas as esferas da vida. Foi um crítico do estruturalismo e da redução do sujeito e da sociedade face à razão econômica.

Suicídio e amor. Viveu com Dorine, sua mulher, por quase sessenta anos. Ambos se suicidaram em 22 de setembro de 2007, em Vosnon, na França. História de um amor, Carta a D., foi seu último livro, escrito para homenagear a mulher e companheira. Nesse livro, em forma de carta, Gorz já sinalizava a impossibilidade de viver sem sua amada, que havia sido acometida por uma grave doença: “Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas (…) Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos”.

* Outras reflexões sobre a obra de Gorz serão publicadas posteriormente.