Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

#2 texto da série: Análise de Conjuntura Nacional

O grupo político Brasil & Desenvolvimento traçou, neste início de 2012, o que considera fundamental para qualquer intervenção crítica na realidade: uma análise de conjuntura. Na semana passada, publicamos o primeiro texto da série, sobre o contexto internacional do ano passado, com suas convulsões e primaveras. Hoje, postamos a análise da conjuntura brasileira em 2011, na qual se destaca a compreensão dos limites do governo Dilma Rousseff e, para além disso, do modelo econômico e político nacional-desenvolvimentista. Figuram no nosso texto, ainda, comentários sobre o quadro partidário e sobre os atores e lutas sociais emergentes no país.

Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

Análise de conjuntura nacional

Grupo Brasil e Desenvolvimento

2011 começou com a histórica recepção da faixa presidencial por uma mulher. Iniciou-se o governo Dilma, o nono ano da coalizão encabeçada pelo PT, partido nascido da união de diversos movimentos populares em 1980 e envelhecido nas amarras das atuais instituições de poder estatal quanto a avanços profundos nas conquistas sociais. Quando os projetos de esquerda são profundamente associados ao desenvolvimentismo e medidos a partir de parâmetros econômicos, os avanços sociais passam a ser restritos à ampliação do acesso a bens de consumo. Essa tendência, já forte no governo Lula, intensifica-se ainda mais com  Dilma: afinal, simbolicamente, o Brasil deixa de ser para todos, para ser um país rico, entenda-se, sem miséria.

Ao longo do seu primeiro ano, o governo perdeu diversas oportunidades de se reaproximar da militância progressista e dos movimentos sociais, priorizando a relação com setores reacionários da sociedade, como os ruralistas e as organizações religiosas conservadoras.

A condução da votação do novo Código Florestal, o recuo na reforma agrária devido ao atraso na política de assentamentos e o cancelamento da distribuição do material de combate à homofobia nas escolas ilustram essa movimentação, assim como a displicência com as pautas trabalhistas – terceirização, precarização, desregulamentação da demissão imotivada, entre outras.

O alinhamento com o grande empresariado se escancarou quando inaugurada a Câmara de Gestão e Competitividade – conhecida como “Conselho do Gerdau” – instalada com o objetivo de pensar a gestão pública a partir da lógica da eficiência de mercado. Aprimorar a capacidade de gestão do Estado é fundamental, desde que sob o viés da criação e do fortalecimento de mecanismos que possibilitem a efetiva participação popular no planejamento, execução e avaliação das políticas públicas, algo que tem se mostrado ausente até mesmo e com frequência, do discurso do governo Dilma.

Se Lula, apesar de condicionado por limitações semelhantes às do governo atual, inovou ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES, o “Conselhão”) e apostar na multiplicação das Conferências Nacionais, Dilma retrocede com sua agenda e sua retórica da eficiência tecnocrática-empresarial, deixando de promover as reformulações e avanços necessários ao aprofundamento das experiências iniciadas anteriormente. Em vez disso, percebe-se um crescente desprezo às Conferências Nacionais como instâncias vinculativas das políticas de Estado – os retrocessos do governo Dilma na área de segurança pública, em grande medida decorrentes do desprezo aos resultados da 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (CONSEG), são marcantes a esse respeito. Aguarda-se que, em 2012, o governo finalmente retome as propostas da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM) sobre o marco regulatório da mídia, para dar cumprimento às previsões constitucionais que proíbem, por exemplo, a propriedade cruzada no setor.

O modelo da política pública em formato de pacote, entregue à sociedade pronto, sem discussão prévia, sem construção coletiva, passa por cima de complexidades sociais e peculiaridades locais. Exemplos não faltam: Plano de Enfrentamento ao Crack, Minha Casa Minha Vida e o Cadastro de Acompanhamento e Vigilância das Grávidas.

Na área da cultura, a tendência de alinhamento com grandes grupos empresariais culminou na nomeação de uma Ministra alinhada com uma visão conservadora de direito autoral, e aprofundou-se pelo corte no orçamento do setor, que atingiu programas importantes, em especial os Pontos de Cultura, que representavam um avanço na política cultural e um modelo inovador de relação democrática entre Estado e sociedade.

Em um governo desenvolvimentista “cimento e tijolo”, a cultura fica restrita à artificialidade da praça construída pelo PAC, sendo irrelevante a produção autêntica e autônoma do povo-artista, a espontaneidade de sua espacialidade.

A preparação do país para os mega eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, constrói uma prática política em conflito com o povo. As recorrentes remoções das ocupações urbanas e a orientação higienizadora dos choques de ordem colocam em andamento ações governamentais que protegem os interesses dos ricos por meio do ataque aos pobres e da criminalização de suas vidas – um viva para a construção anunciada de vários novos presídios!

Por certo, avanços pontuais podem ser identificados, como a aprovação da limitada Comissão da Verdade, da ousada Lei de Acesso à Informação, e o envio ao Congresso do Marco Civil da Internet. Porém, o governo deixa claras suas prioridades quando apressa-se em atender às exigências draconianas da FIFA, enquanto trabalhadores de Jirau, as populações indígenas de Belo Monte e os cidadãos do Haiti seguem submetidos a angustiantes condições, aguardando alguma solução para seus problemas.

Com este governo, é possível fazer uma “faxina” ética de seus  membros e fortalecer os órgãos de controle interno e externo, mas não se avança no combate à corrupção estrutural, decorrente da relação entre Estado e Capital. É possível fazer UPP’s, mas não se questiona com profundidade o fracassado viés policialesco da política de combate às drogas.

O nacional-desenvolvimentismo, se já se mostrou superior ao neoliberalismo para promover crescimento econômico e combater a miséria, também revelou, ainda mais em 2011, os seus limites. Para um governo afeito a números, aqui estão alguns dados preocupantes e reveladores: (i) o número de moradores de favelas aumentou no Brasil na última década (compreendendo os oito anos do governo Lula), segundo estudo do Censo 2010 do IBGE publicado no fim de 2011; (ii) segundo o mesmo Censo, 25% da população brasileira têm renda mensal de até R$ 188, e 50% da população, de até R$ 375; (iii) a desigualdade racial agravou-se no Brasil entre 2009 e 2010 (v. aqui o elucidativo relatório produzido por grupo de pesquisa da UFRJ); (iv) 45% dos municípios brasileiros não coletam esgoto. Enfim, a lista de estatísticas que podemos apresentar é extensa, e contempla não apenas a manutenção ou melhora tímida dos nossos elevados padrões de desigualdades, mas até mesmo, em alguns casos, o seu recrudescimento.

Economia brasileira: a grande transformação ainda está por vir.

Em meio a uma crise do capitalismo que convulsiona o mundo, a política econômica ao redor do planeta, salvo raras exceções, quando não se converteu em redução da qualidade de vida dos mais pobres, manteve-se estável.

Por décadas, instituições financeiras de toda natureza se engajaram em atividades de altíssimo risco e lucraram quantias vultosas, distribuídas a seus acionistas e executivos. Quando, recentemente, o risco se converteu em gigantescas perdas, os governos ao redor do mundo transferiram a conta aos trabalhadores e socorreram a elite financista, sem qualquer contrapartida.

No Brasil, apesar de um índice razoável de crescimento econômico e da relativamente baixa taxa de endividamento/PIB (cerca de 58%), pagamos uma das taxas de juros mais altas do mundo, o que significa desaceleração do crescimento econômico e desvio de renda para uma elite financista improdutiva.

A política econômica brasileira naturalizou a percepção de que a sociedade está a serviço da economia e não o oposto. A prioridade orçamentária que permanece é garantir o religioso pagamento do serviço da dívida, mesmo que, para isso, se sacrifique o acesso de cada brasileiro e brasileira a seus direitos constitucionais, como educação, saúde e moradia.

A leve queda nas taxas de juros, enquanto o país deslancha suas modestas taxas de crescimento econômico, demonstra uma preocupação do governo brasileiro em realizar melhorias na estrutura de crédito, desde que se mantenham os privilégios do setor financeiro.

Entre os avanços tímidos da economia, destaca-se a política de valorização do salário mínimo atrelado ao crescimento econômico. Tímido porque a valorização depende do crescimento, quando deveria ocorrer independentemente disso e com maior vigor, como instrumento de redução da desigualdade social.

A propósito, o Brasil ainda é o 3º país mais desigual do mundo, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O salário mínimo —referencial remuneratório para a maior parte dos brasileiros assalariados — é ainda muito inferior ao valor necessário para se aproximar do verdadeiro salário mínimo: uma renda capaz de garantir que os trabalhadores e trabalhadoras tenham acesso a saúde, moradia, educação e lazer.

Prevalece ainda, como já apontado, uma pauta trabalhista conservadora, que ignora os efeitos perversos da terceirização (em prol de um suposto ganho de eficiência) e a existência de um enorme contingente de trabalhadoras domésticas oficialmente inferiorizadas, dada a ausência de garantia legal de certos direitos trabalhistas, consequência da inafastável discriminação de gênero e, na maior parte das vezes, da discriminação racial nas relações de trabalho.

A política industrial brasileira também expõe a opção pelos grandes conglomerados, que recebem renda pública via juros subsidiados do BNDES (quem não se lembra do polêmico e abortado financiamento do BNDES para a fusão do Pão de Açúcar e Carrefour?), enquanto os pequenos produtores ainda têm difícil acesso ao crédito e pagam juros bem maiores.

A decadente indústria automobilística estrangeira, instalada em grandes parques industriais no Brasil, é aqui agraciada com a maior taxa de lucro do mundo. Essa mesma indústria continua com proteção governamental e vantagens tributárias de toda natureza, a vender-nos produtos de baixíssima qualidade e segurança a preços muito acima daqueles praticados em outros mercados.

Enquanto isso, a grande maioria da população padece de péssimas condições de uso do transporte coletivo, que não figura no rol de prioridades do Estado – seja por meio da melhoria das condições existentes ou da criação de meios alternativos de transporte urbano. Esse modelo cujos esforços e prioridades centram-se na funcionalidade do automóvel individual demonstra-se bastante tímido no estímulo ao desenvolvimento de uma “economia verde”, sustentável.

Enfim, apesar de êxitos relevantes na economia, como a redução do desemprego e o aumento da formalização no mercado de trabalho, não se pode dizer que estejamos no rumo certo enquanto não enfrentarmos o crônico aparelhamento do Estado brasileiro pelos grandes grupos capitalistas – setores estratégicos são balançados por meio de políticas que instrumentalizam o aparelho estatal, garantindo a dominação da máquina pública. Tratam-se de formatos distintos da associação Estado e Capital, estampados, por exemplo, na entrega de milhões de barris de petróleo e da hegemonia tecnológica da Petrobrás ao grupo de Eike Batista, “agraciado” pela descoberta do Pré-Sal, cujas riquezas, se fossem adequadamente revertidas em investimentos públicos em setores como saúde e educação, certamente trariam enormes benefícios a nossa população.

É esse aparelhamento do Estado brasileiro por grandes grupos capitalistas que está na raiz das nossas carências na educação, na saúde, no trabalho, na transparência pública…

O esgotamento dos partidos políticos

Após 20 anos de inquestionável importância do PT na organização dos movimentos socais do país e uma mudança para oito anos de um governo encabeçado pelo partido, seu objetivo político principal segue sendo garantir a mera governabilidade. Há oito anos, em vez de buscar respaldo nos movimentos sociais organizados, o PT optou preferencialmente por alianças com partidos que pudessem lhe garantir apoio parlamentar. O PT, assim, garantiu a continuidade do que o cientista político Marcos Nobre chama de peemedebismo: para garantir a governabilidade, o partido no poder dá espaço aos partidos adesistas que buscam espaços na máquina pública e impedem que temas polêmicos entrem em pauta decisória.

Apesar de não ser novidade do ano, 2011 teve um momento simbólico na questão partidária. Após ter tentado uma estratégia de mudar sua imagem de PFL para Democratas, o partido símbolo da Ditadura Militar e principal aliado do Governo do PSDB sofreu um duro golpe com a criação do PSD, em sua maioria surgido do antigo PFL. Esse fato evidencia a força do peemedebismo, sendo o partido uma estratégia para arregimentar mais políticos, que, antes na oposição, passam em seguida a aderir à base, o que também reforça o caráter conservador da aliança governista. A direita que está na oposição se enfraquece, sem sucesso em articular uma frente coesa, que se contraponha ao Governo. Enquanto isso, a direita que está dentro do Governo se fortalece e ali vem se mantendo, livre de uma oposição da esquerda, até o dia em que lhe parecer conveniente.

Os partidos da oposição de esquerda, por sua vez, não mostram efetividade em suas estratégias. O PSol, partido parlamentarista que busca pautar o debate público de forma contundente, não o faz. Não acumulou nenhuma vitória parlamentar que não tivesse sido organizada pela direita, nem conseguiu apoio e mobilização da opinião pública em temas que superem a tão batida pauta ética. Os demais partidos de esquerda sem representação no parlamento continuam não mostrando capacidade de formar maioria com seu discurso e suas ações, mantendo-se no gueto da eterna minoria.

Em síntese, no ano de 2011 se evidenciou a falta que faz aos partidos políticos a inovação esperada pela sociedade, o que foi denunciado pelos diversos movimentos sociais que marcaram o ano. Mas o descrédito dos partidos tem origem na falência da democracia liberal, que os utiliza como meros instrumentos eleitorais, e na equivocada estratégia dos partidos de esquerda quando optam pela estratégia exclusivamente eleitoral. A força do partido está na estrutura de organização e coordenação das demandas da sociedade, dos movimentos sociais organizados, enfim, está na força criadora e na capacidade de mudança a que se propõe.

Novos atores sociais, novas lutas

2011 foi marcado por ocupas também nas ruas do Brasil. Além dos acampamentos na Cinelândia, no Rio de Janeiro, e no Viaduto do Chá, em São Paulo, várias cidades integraram-se ao circuito mundial de protestos, compartilhando criativamente linguagens e métodos de mobilização semelhantes – foi o caso, por exemplo do movimento “primavera sem borboleta”, na capital potiguar, que nasceu nas redes sociais e passou às ruas, tendo chegado a promover um vitorioso acampamento de 11 dias na Câmara Municipal de Natal.

Ainda que muitas vezes distantes dos partidos, céticos quanto à organização institucional, os manifestantes foram às ruas. Nas grandes cidades, marchas libertárias – das Vadias, da Maconha, pela liberdade na internet – dividiram espaço com a ambígua e limitada marcha contra a corrupção (que nunca chegou perto de confrontar as raízes da corrupção estruturante do Estado brasileiro, decorrente do fato de ele servir prioritariamente aos interesses dos grandes grupos capitalistas, e não à autogestão democrática do povo).

As manifestações contrárias à reforma do Código Florestal e à construção de Belo Monte mobilizaram a luta ambientalista e indígena e trouxeram para a ordem do dia essas demandas, mas também mostraram a força avassaladora dos adversários dos direitos socioambientais no Parlamento e no governo.

Fortes movimentos de outrora, como o MST e as maiores centrais sindicais, não se destacaram em 2011, apresentando dificuldades de mobilização – seja por paralisante alinhamento com o governo, no caso de entidades como a CUT; por acúmulo da falta de vitórias e desidratação da sua base, no caso do MST; ou por inabilidade na construção de unidade e no desenvolvimento de uma estratégia de luta inovadora e convincente, no caso de centrais sindicais ligadas a partidos de esquerda como PSOL e PSTU. No caso do MST, porém, merece destaque positivo (do ponto de vista programático e estratégico) a crescente atenção que vem sendo conferida por sua prática e militância à agroecologia, à defesa da agricultura social e ambientalmente sustentável.

Se as grandes centrais sindicais, assim como os partidos, não atravessam boa fase, os trabalhadores não deixaram de se mobilizar em novas frentes. Além de acontecimentos relevantes e promissores como a revolta dos milhares de trabalhadores da Usina Hidrelétrica de Jirau, merecem destaque os movimentos de trabalhadores sem-teto, que conquistaram maior visibilidade em sua luta contra a perversidade da especulação imobiliária vivenciada em todo o país.  A formação dos comitês populares da Copa indica que a luta pelo direito à cidade seguirá sendo central nos próximos anos, denunciando as arbitrariedades decorrentes da organização dos megaeventos e lutando pela produção democrática do espaço urbano.

A “nova classe média” – ou melhor, a nova classe trabalhadora, que em grande parte continua na pobreza, apesar de ter superado a linha de 2 dólares por dia –, cantada em verso e prosa aos quatro ventos, emerge como protagonista de valores contraditórios e, em grande medida, ainda desconhecidos. Tornou-se a nova menina dos olhos do mercado e de partidos políticos de diversos matizes, os quais buscam seduzi-la e conquistá-la.

Discursos religiosos conservadores e reacionários invadem a política e ganham frentes organizadas de seguidores e fanáticos. Mesmo assentados sobre velhos dogmas, muitos desses discursos ganham força em diferentes segmentos sociais. Deus se torna o grande negócio de muitos empreendimentos Brasil afora, capazes de reacenderem juízos moralizantes e anacrônicos, apegados ao ódio e ao preconceito, e desapegados à questão central da alteridade.

Porém, se discursos e práticas em prol do engessamento de certos valores ainda conquistam a opinião pública, lentamente alguns flancos se abrem para o respeito dos iguais na diferença: uniões homoafetivas têm deixado de ser tabu para muitos (a vitória no STF foi um grande marco para essa luta), a igualdade de gênero tem se tornado aos poucos mais visível no mundo do trabalho (apesar do enorme caminho que ainda há a percorrer no rumo da igualdade), a recomposição dos núcleos familiares brasileiros tem deixado cada vez mais de lado a figura patriarcal e lentamente outras questões sobre a diversidade vão ganhando espaço.

A prisão de manifestantes, os despejos ilegais, o recrudescimento da violência contra indígenas, a atuação da PM nos campi universitários e fora deles mostram que a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais continua sendo uma realidade.

Num contexto em que as nossas cidades seguem fortemente marcadas pela segregação socioespacial, o conflito é inevitável, e cresce a esperança no herói policialesco, vigilante permanente da paz e da ordem, e a euforia por instrumentos punitivos que só agravam os problemas que dizem combater. Para confrontar essa cultura do medo, precisamos de uma  integração social emancipatória, fundada na alteridade, no pluralismo e na aceitação de que a luta por  direitos iguais é legítima e deve ser equacionada politicamente, e não por meio da violência repressiva.

É preciso confrontar as bases de reprodução das nossas crônicas injustiças sociais. Nesse sentido, o atual modelo de desenvolvimento (?) levado a cabo pelo Estado brasileiro, em estreita cooperação com os grandes grupos capitalistas, não tem combatido essa realidade. É preciso imaginar e viabilizar politicamente novas alternativas. Conforme já apontamos na análise de conjuntura internacional, não é dos gabinetes dos burocratas do Estado ou dos escritórios das grandes empresas, mas da efervescência das ruas que há de surgir esse impulso de criação rebelde.

2011 – O ano do fim do fim da história

O grupo político Brasil & Desenvolvimento traçou, neste início de 2012, o que considera fundamental para qualquer intervenção crítica na realidade: uma análise de conjuntura.

Trata-se de um exame da realidade imediata, vivenciada em 2011: se essa realidade é construída por fatores históricos, ela não é por eles enclausurada. A realidade clama por intervenções dos agentes do presente.

Se imaginar é revolucionar, não separamos pensamento e ação, crítica e luta. Nossa proposta para 2012 começa com a análise do que representou 2011, o contexto em que nos inserimos, para que, empoderados da crítica, possamos construir mudanças.

Construímos, então, três textos, com a interpretação de planos distintos (e nem por isso desconexos entre si) da realidade:

– conjuntura internacional,

– conjuntura brasileira, e

– conjuntura do Distrito Federal, sede do grupo.

#1 texto da série: Análise de Conjuntura Internacional

No texto abaixo abordamos as formas criativas de superação do cenário de crise do capitalismo e das democracias representativas ora instalado: as novas interações entre ocidente e oriente, a experiência alternativa de democracia na Islândia, os avanços de direitos sociais, econômicos e civis no contexto regional latino-americano.

Criticamos a posição em que vem se colocando o Brasil como porta-voz do mundo em desenvolvimento, que por vezes parece legitimar a lógica diplomática de relações hierarquizadas e coloniais entre as nações.

Refletimos, enfim, sobre a descoberta de que o alardeado fim da história não passa de uma grande bobagem.

2011 – O ano do fim do fim da historia

Análise de conjuntura internacional
Grupo Brasil e Desenvolvimento

2011 começou na praça Tahrir. Em época de islamofobia crescente e “exportação de democracias”, o povo tunísio, seguido pelo povo egípcio, demonstra que os caminhos da política democrática não estão em receitas. Não há “donos da democracia”.Um ano depois, em 25 de janeiro de 2012, milhares de egípcios de diferentes afiliações religiosas voltaram a se juntar na praça Tahrir, para lembrar a queda de Hosni Mubarak e exigir que a junta militar, atualmente no poder, leve as reformas democráticas a cabo.A dita “primavera árabe” testemunha que os caminhos que tomam as lutas democráticas extrapolam os limites previamente estabelecidos para elas.

Por um lado, os esforços pela derrubada de antigos tiranos e pelo estabelecimento de democracia e justiça social deixam claros os limites do comprometimento moral e a instrumentalização de ideologias que se opera na política externa das grandes potências. Enquanto os movimentos populares no Egito poderiam beneficiar-se enormemente do apoio externo, o medo por parte das potências ocidentais de até onde a democracia egípcia pode ir – talvez a um governo da Irmandade Muçulmana – faz parecer que a manutenção indefinida de uma junta militar no poder não seria assim tão terrível para os principais regimes ocidentais, e que a democracia e a justiça social são objetivos nem tão centrais.

Para potências ocidentais democracia não passou de retórica

Essa afirmação discursiva silencia as demandas por maior democratização dentro do próprio ocidente. A solidariedade intercultural entre indignados serve para lembrar que um projeto de democracia radical no interior dos países requer uma reformulação também radical do outro, em contraposição ao outro antagônico que a política externa sempre colaborou para construir, nos Estados modernos.

Do lado europeu, movimentos de ocupação, acampadas espanholas e revoltas gregas demonstram que as instituições da democracia representativa, amarradas ao sistema financeiro e às grandes corporações, esgotaram sua capacidade de canalizar demandas. No Occupy Wall Street, o enredo é o mesmo.

Em todos os lugares onde se reúnem indignados, há o questionamento sobre como construir novas alternativas políticas. Se estão falidas, as instâncias representativas e as instituições postas, por outro lado, não estão esvaziadas. Há ainda grandes interesses lutando pela conservação das instituições econômicas e políticas hegemônicas. Desses interesses compartilha o seio da União Europeia. Antes vista por alguns como alternativa potencial ao modelo vigente de Estado, centralizada na Alemanha, o bloco europeu torna-se um meio de reforçá-lo. Isso não quer dizer que o caminho da supra-nacionalidade e da integração não possam ser pensados como vias alternativas pela esquerda, mas que a integração capitaneada pela economia, sobretudo pelo receituário econômico neoliberal, gera menos resultados positivos do que aqueles que o discurso dominante propagandeava.

A Islândia aponta a saída à crise “econômica”: a invenção democrática.

Apesar do grande poder catalítico da internet e das redes sociais para a organização dos movimentos, o que Egito, Tunísia, Chile, Ocupas e Acampadas demonstram é que a ação do povo na rua, ainda no século XXI, continua sendo um fator decisivo para desencadear mudanças. É na conjunção de redes, praças e ruas que têm se expressado e se articulado os clamores e impulsos para a imaginação e criação de novas alternativas econômicas e políticas. Nesse sentido, é exemplar o caso da Islândia: desde 2008, quando o país foi profundamente afetado pelo colapso financeiro global, a população tem se mobilizado amplamente para rejeitar as “soluções” de praxe – isto é, manter intocado o sistema financeiro, precarizar direitos trabalhistas e reduzir gastos sociais do Estado. Por meio de intensa mobilização, o povo islandês tem conquistado uma série de vitórias: derrubou a coalizão liberal-conservadora que governava o país; recusou-se, em dois referendos, a pagar as dívidas internacionais causadas pelos bancos; tem conseguido compelir o Estado a levar adiante a investigação dos crimes financeiros para punir os seus responsáveis e reformar o sistema; e, finalmente, forçou a convocação de um processo constituinte marcado, em 2011, por inovações notáveis, como a ampla participação popular por meio da internet.

Merece destaque ainda, na Islândia, o projeto Initiative Media, aprovado pelo parlamento islandês em 2010 e cuja execução segue avançando. O projeto visa a tornar o país um porto seguro para o jornalismo investigativo mundial. Aliás, o silêncio generalizado por parte da maioria da imprensa sobre a alternativa democrática que o povo islandês vem construindo à crise lembra-nos mais uma vez a quais interesses econômicos e políticos serve a mídia hegemônica. Tal silêncio também nos faz lembrar da importância de se garantir e proteger o desenvolvimento de novas mídias. É preciso considerar, a propósito, a contribuição da Wikileaks para a primavera árabe e outras revoltas e manifestações populares em 2011.

As movimentações políticas na Europa e em Wall Street, de resistência à utilização da crise econômica como pretexto para retirada de direitos sociais, lembram-nos de que a crise econômica que se arrasta e se aprofunda desde 2007 é sobretudo uma crise política, sobre os fins políticos da produção econômica, sobre a política de apropriação de riquezas. Nesse contexto, a Islândia tem mostrado que existe uma alternativa democrática, inclusiva e transformadora ao receituário de precarização que costuma se apresentar como o único caminho; essa alternativa passa pela afirmação da soberania popular sobre a economia, com a apropriação comum das riquezas produzidas em comum pelo povo.

América Latina: avanços nas lutas contra o neoliberalismo, o racismo e o sexismo

É nesse contexto em que se situam, também, as grandes mobilizações do movimento estudantil chileno em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, em contraposição à educação concebida e vendida como mercadoria, exclusiva para alguns poucos. O movimento tem se destacado não apenas por realizar marchas com dezenas de milhares de pessoas, mas pela capacidade de apresentar alternativas e de se articular com outros movimentos sociais: a partir da consciência de que a privatização e mercantilização de direitos submetem-se à lógica do lucro, e por isso mesmo são negados à grande maioria da população, os estudantes têm demandado, notadamente, uma reforma tributária que aumente a cobrança de impostos sobre os mais ricos, para financiar a garantia de direitos sociais universais.

A luta para frear ou reverter a mercantilização neoliberal de direitos e a busca por inovações sociais e institucionais capazes de superar os limites da democracia representativa têm sido marcantes na América Latina na última década. Antecipam-se à eclosão da atual crise do capitalismo global e às recentes ocupas e primaveras. O processo de mudança social em curso na Bolívia, um dos países mais pobres da América do Sul, é provavelmente o mais significativo e simbólico nesse sentido. Além do enorme sucesso do país na redução da pobreza e das desigualdades, merecem destaque três outros fatores. Primeiro, as inovações institucionais promovidas na estrutura política do Estado, de que foi exemplo, em 2011, a realização de eleições diretas para a escolha dos juízes dos tribunais superiores, inclusive da Corte Constitucional, um procedimento inédito no mundo, que merece ser analisado e pensado a fundo, pelo potencial de democratização da justiça que carrega. Segundo, o combate ao racismo estrutural da sociedade boliviana, dirigido em especial contra a maioria indígena da população, é uma prioridade do “governo indígena” de Evo Morales, muito mais do que dos demais governos da América Latina, que não dão o valor devido a esse tema – apesar de o racismo ser uma marca decisiva da estrutura social de todos os países do continente.

Na Bolívia, indígenas conseguiram impedir a construção de estrada que atravessaria a Amazônia

Finalmente, como condicionante de todos os aspectos anteriores, destaca-se o fato de que o processo de mudança, na Bolívia, é impulsionado e em importante medida controlado “desde baixo”, pela força da organização popular, de modo que a alta mobilização social existente no país mostra-se capaz de impor suas pautas ao governo. Em 2011, isso ficou evidente em dois momentos. No início do ano, Evo Morales anunciou a decisão de cortar os subsídios dos combustíveis, o que equipararia o seu preço ao mercado internacional, elevando-o em até 73% para os consumidores; cinco dias depois, voltou atrás, após ter enfrentado fortíssima resistência nas ruas, organizada em especial por movimentos de trabalhadores do campo, importante base política do Presidente. Ao fim do ano, o governo novamente cedeu às ruas em outra questão de alta importância, a construção da rodovia TIPNIS, que passaria por meio de terras indígenas, ameaçando o seu modo de vida tradicional – algo incoerente com o “Estado plurinacional” proclamado na Constituição boliviana de 2009 – e provocando danos ao ecossistema da Amazônia. O movimento indígena, outra base política fundamental de Evo, realizou grande marcha de dois meses e obteve a mudança da posição do governo, que no início tinha chegado inclusive a reprimir as manifestações, com uso de força policial (o que levou à renúncia da Ministra da Defesa, por discordar de tal procedimento). Fundamental observar que a vitória não foi apenas dos índios, mas de amplos setores da sociedade boliviana que se articularam para apoiar sua pauta, merecendo destaque a greve geral realizada pelo principal sindicato operário da Bolívia, a COB, em repúdio à violência policial contra os manifestantes.

Não é novidade que, num processo de mudança social, existam fortes e múltiplas contradições entre diversos setores da sociedade, o que se reflete também no Estado, em especial num contexto democrático. Não há nada novo, tampouco, no fato de o governo ter cedido a pressões de grupos empresariais para tomar medidas impopulares em nome de um “projeto de desenvolvimento” (para quem?) ou do “equilíbrio econômico”. O elemento inédito, ou pelo menos nada usual, desses dois casos foi o fato de as mobilizações sociais terem vencido essas pressões e impedido os recuos políticos do governo. Parece seguir firme, portanto, por força da mobilização social, o processo de construção e fortalecimento de uma democracia de alta intensidade na Bolívia, marcada por vigorosa participação popular. Para as forças progressistas da sociedade brasileira, fica a lição de que, quando se tem um governo que se pretende de esquerda, a luta social não se faz menos necessária e oportuna; o caminho para promover mudanças não é blindar o governo, mas enfrentá-lo a cada vez que ele sucumba a interesses contrários à democracia e à justiça social.

Finalmente, ainda no âmbito do nosso continente, merece ser celebrado um fato ocorrido nos últimos dias do ano: a aprovação, pelo Senado do Uruguai, da legalização do aborto nas primeiras doze semanas de gestação e de um imposto para combater a concentração de terras. Ambas ainda pendem de aprovação na Câmara, mas é alentador observar, desde o cenário de poucos avanços no Brasil nessas duas temáticas fundamentais – direitos sexuais e reprodutivos e reforma agrária, respectivamente –, que os nossos vizinhos seguem caminhos diferentes. Cabe a nós aprender com suas lutas vitoriosas por um modelo alternativo de desenvolvimento, pautado pelos direitos humanos e pelo protagonismo social do inesgotável processo de aprofundamento do processo democrático.

Brasil: potência solidária ou subimperialista?

Os dois casos citados de antagonismo entre governo e movimentos sociais na Bolívia permitem-nos observar também o papel – subimperialista? – que o Brasil tem desempenhado naquele país. Continuar lendo