Deixem minha calvície em paz: sobre opressão estética e financiamento de pesquisas

calvície

Por Hugo Sousa da Fonseca

Zymo HSOR, Minoxidil, Finasterida, 17 Alfa Estradiol, Fitoterápicos, Vitaminas e minerais, Xampu de Cetoconazol, Gel FF, Revivogen, Auxina, L-Carnitina. Junto às inúmeras simpatias mais empíricas, eis o rol de indicações que nós calvos sempre recebemos das pessoas. Já reparou que todo mundo tem uma saída infalível pra esse monstro que é ficar careca? Na maioria das vezes nem perguntamos nada, mas todo mundo sempre se acha responsável por não só apontar sarcasticamente uma queda de cabelo evidente, mas também por indicar algum medicamento para que ela pelo menos esteja amenizada.

Comecei a apresentar esses temerosos sintomas aos 17 anos e por isso já ouvi muita coisa desse tipo. Passei por alguns médicos, rezas das mais fiéis e uma coisa me chocava: as inconvenientes pessoas que me abordavam estavam sempre mais preocupadas com esse “problema” do que eu mesmo. Aliado a isso, um bombardeamento de campanhas publicitárias me deixava numa saia-justa enorme, tentando me fazer crer que havia algo de muito errado comigo.

Iniciei alguns tratamentos e nunca entendi a real necessidade de ingerir aqueles remédios que até os médicos afirmam: não vão resolver porra nenhuma. Talvez algumas piadinhas e comentários ofensivos me fizessem naturalizar minimamente aquela rotina, pois a resposta mais óbvia à zoação é a tentativa de sair da condição de pessoa calva. Mas o fato é que nunca refleti seriamente sobre a necessidade de tamanhos gastos em uma droga que deveria me fazer alguém melhor(?). Eu pulava alguns dias, me esquecia de tomar o bendito remédio, até tentava cotidianizar aquela preocupação, mas às vezes eu fracassava.

Mais uma vez, a sensação era de que havia algo de muito errado comigo porque ao meu redor o medo da calvície era sempre um assunto pautadíssimo. Assim, por mais que eu resistisse, esse medo também me molda(va). Enquanto escrevia esse texto, numa folga entre uma frase e outra, meu facebook sugere um produto através da seguinte manchete: Produto que Fortalece o Cabelo e Acelera o Crescimento em 350% Chega Ao Brasil¹. No anúncio, a seguinte introdução: “Apesar do dizer “é dos carecas que elas gostam mais”, uma pesquisa na inglaterra confirmou que 76% das mulheres entre 25 e 40 anos preferem um homem com cabelo à um careca.”  Sem aprofundar na problematização da forma cis-sexista e heteronormativa com que a propaganda trata atração sexual e amorosa, é risível uma pesquisa com resultados tão óbvios. A ideia é forçar a venda de um produto, colocando alguns números para dar alguma credibilidade.

A queda de cabelo é vendida como uma situação que te deixa mais feio, menos charmoso, menos atraente e toda essa lavagem cerebral acaba estruturando a forma como lidamos com o nosso próprio corpo. É torturante ver fotos expostas com tamanho sensacionalismo, que colocam sempre um Brad Pitt em oposição a um calvo, naquele formato Antes e Depois. Os remédios cumpririam a função de inclusão no padrão de beleza. A gente se sente mal e, obviamente, esses 76% de mulheres que “preferem” homens com cabelos também passam pelo mesmo processo simbólico.

É importante observar que há muito tempo a militância dos diversos movimentos negros organizados problematiza a relação entre cabelo e identificação com o próprio corpo. A opressão pelos cabelos no caso da negritude se dá num nível maior de complexidade, é reflexo de uma opressão estruturante da nossa sociedade, mas podemos aprender com algumas reflexões já feitas pra tentar entender como se dá o processo de auto-estima de corpos que desviam do padrão esteticamente aceito pela sociedade. Minha intenção não é fazer uma crítica simplista às pessoas que fazem tratamento para calvície porque não lidam bem com ela. Eu sei como é foda! Um último texto² que vi no Blogueiras Negras trazia um parágrafo que traduz o que eu quero dizer:

Eu concordo e defendo a bandeira de que o corpo é seu e de que você tem o direito de fazer o que quiser com ele, mas, por favor, reflita antes de tudo: O que você tem feito é por que você quer? Se você quer, o que te motiva a isso? Se no final, a resposta te levar a um padrão de opressão, tá tudo errado. Acredito que o mesmo vale pra quem tem o cabelo liso ou encaracolado e quer a todo custo “baixar” o volume. Quem foi que te disse que o volume precisa ser baixo? O alto é muito mais divertido. Não acredite que você precisa recorrer a produtos esdrúxulos periodicamente pra ter um cabelo legal. O padrão racista adotado na indústria cosmética não quer que você resista ou perceba o quanto ela oprime a nossa identidade.

Esse é o ponto: enquanto nos mutilamos, não apenas fisicamente, a indústria cosmética vai se beneficiando; enquanto a imagem do cabelo afro é destruída a $alvação do alisamento vem por um preço bem caro. É impressionante o espaço que pesquisas de alisamento, de combate à calvície e também de emagrecimento têm hoje não apenas na publicidade, mas no próprio processo de fomento a pesquisas. Parece meio clichê de esquerda dizer, mas não há como não observar: a ciência de hoje tem violentado corpos, porque está envolvida exclusivamente com as demandas do mercado. Não foi nenhum comunista que alertou recentemente, foi Bill Gates: o capitalismo significa que há muito mais pesquisa sobre a calvície masculina do que em doenças como malária, que afetam majoritariamente as pessoas mais pobres. Ele ainda acrescenta:  “A vacina contra a malária é a maior necessidade. Mas quase não tem financiamento. Mas se você está trabalhando com a calvície masculina ou outras coisas você pode conseguir mais recursos para pesquisa por causa da voz que tem no mercado, mais que algo como a malária”.

Nesse sentido, é urgente que questionemos a que(m) tem servido esse ~conhecimento~ produzido nos laboratórios. Nas Universidades, essa lógica de mercado ainda exerce influência absurda frente às/aos pesquisadoras/es, secundarizando inúmeros experimentos comprometidos com problemas concretos da sociedade. Públicas ou privadas as Universidades devem estimular processos de mudança social e se referenciar na realidade a cada página escrita ou conta feita.

A educação no Brasil é uma história de privilégios, de manutenção de interesses dominantes: é hora de fazer diferente. A ciência tem responsabilidade social e por isso não é aceitável que as necessidades humanas sejam moeda de troca, instrumento de lucro. É bandeira histórica do Movimento Estudantil a reivindicação por financiamento público de pesquisa nas Universidades, como forma de superação dessa ingerência do mercado na produção acadêmica. Esse grito discente por liberdade na academia representa uma concepção mais ampla de projeto de sociedade, mas também visa combater opressões diárias que acontecem. Priorizar o mercado é inviabilizar que o ~progresso~ da ciência signifique um avanço pras as PESSOAS. Financiar o tratamento da calvície é um efeito simbólico violento sobre os calvos, mas também é uma resposta omissa frente as pessoas que estão morrendo por doenças pouco pesquisadas/lucrativas.

A ciência mercantilizada de hoje em dia me vê como alguém que merece muita atenção – preocupação que parece se estender às pessoas como um todo – e com esse texto eu quero dizer: deixem minha calvície em paz, porque não sou obrigado a consumir algo só porque vocês julgam ser importante pra mim. Eu estou bem, mas muita gente não está! Se falar em ciência é estudar a vida, por que não nos preocupamos com quem está morrendo?

¹ http://cabelosalfa.com/sp/pt/tratamentosebb9.php ²http://blogueirasnegras.org/2014/04/01/sobre-alisamento-capilar-racismo-e-liberdade/ ³ http://tecnologia.terra.com.br/negocios-e-ti/bill-gates-capitalismo-significa-pesquisar-mais-a-calvicie-que-malaria,0be9ff9bc9c6d310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

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Da Lama ao Caos – conceito, cidade e cena 20 anos depois

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Dizem que para um álbum virar clássico, ele deve permanecer atual, mesmo com o passar do tempo. Com os 20 anos de “Da Lama ao Caos”, estreia de Chico Science e Nação Zumbi, lançado em abril de 1994, tirei o encarte do armário e fui ler o famoso manifesto “Caranguejos com cérbero”, escrito por Fred Zero Quatro dois anos antes, em 1992, pedra “inaugural” do polimorfo Mangue Beat.

É foda notar como diversos temas que estão nos rolês contemporâneos já pulsavam com toda vivacidade no texto, principalmente quando se tem em conta que o problema da “cidade” é o principal eixo articulatório da crítica e das possíveis saídas. A Recife, descrita na segunda parte do manifesto como a quarta pior cidade do mundo para se viver, serve de referência da metrópole que carrega consigo uma cínica noção de progresso, gerando miséria, desemprego e caos urbano.

Mas é dessa cidade, anárquica em explorar, que nasce “A Cena”: energia na lama que impede a depressão crônica dos cidadãos. Como os enfrentamentos que se colocam hoje ao modelo de cidade docilizadora, essa cena é descrita como uma rede (núcleo) de pesquisa e produção capaz de gerar ideias e novas apropriações do espaço público. Midialivrismo, ocupação político-festiva da rua (dos isoporzinhos aos blocos de carnaval politizados), comunicação não-hegemônica, sexualidades alternativas, perifa, outras subjetividades urbanas, reutilizações do cotidiano: 2014? sim, mas já estavam ali nas fraturas expostas pelo Mangue Beat. Como diz o próprio texto:

“Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em quadrinhos, tv interativa, anti-psiquatria, Bezerra da Silva, Hip-Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência”.

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Passando para o próprio álbum, a atualidade é percebida na apropriação e reestruturação não linear da linguagem; na abertura de novos canais e meios de expressão e de crítica; na modernização do passado, das formas de resistência e das narrativas; na apropriação de tradições musicais a partir da sedimentação com o novo; e na mistura e desconstrução de diversos sentidos e referências (tudo no aqui e agora). É um deslocar de fronteiras: urbanas, musicais e da “razão”.

A clássica “A cidade” dá o tom das ideias, ao abordar o fato de como as formas de organização coletiva podem enfrentar o cotidiano de concretos levantados por pedreiros suicidas. As ideias também estão no banditismo que reflete as contradições de classe à brasileira, a qual se materializa na construção de inocentes como bandidos, no corre para comer um pedaço de pão todo fodido e na polícia como “pacificadora” e agente de controle social. Assim como elas estão nas dores da carne, que fazem homens e mulheres se movimentar, pois é com o bucho mais cheio que começamos a pensar: simbora para a rua, que me organizando eu posso desorganizar e que desorganizando eu posso me organizar (e essa simplicidade sobre o óbvio vale mais do que qualquer tese sobre junho).

20 anos depois, “Da Lama ao Caos” lateja o presente ao carregar, em forma de música, as maneiras de realizar o embate contra um modelo de cidade (des)funcionalizado e estagnado, que se mantém, forçosamente, através da reprodução, da categorização, do encaixotamento, da espacialização, do atrofiamento de artérias e da minimização do espontâneo. O caos em rede como contrahegemonia perante a felicidade racional planejada e controlada por antidepressivos e estimulantes. A cidade dos caranguejos; dos produtores culturais; dos/as artistas de rua; dos/as batalhadores/as que dão valor de uso ao espaço público; dos/as construtores/as do urbano contra a vida de um “espaço perfeitamente ordenado e depurado de todo acaso, livre de tudo que seja fortuito, acidental e ambivalente” (BAUMAN, “Globalização: as consequências humanas”, p. 47, 1999).

O Mangue Beat talvez seja o primeiro rompante, na grande cena musical e cultural brasileira, a articular discursivamente as novas formas alternativas de viver e produzir em um mundo com crescente dinamicidade comunicacional e de fragmentariedade dos “escapes”. Sua atualidade está em antecipar novos tempos e reestruturar contemporaneamente velhas resistências. Assim como também está em retratar e construir uma narrativa sobre a cidade como “centro das ambições”, lócus dos conflitos sociais e fonte, sempre rica em “matéria orgânica”, de lutas e de construção de outros saberes.

O presente reverbera no tripé “o conceito, a cidade e a cena”, marcos fundamentais da tensão entre tentativa de homogeneização e universalização frente a teimosia daqueles/as que seguem na dispersão, na elaboração diária de tradições alternativas ao jardim da razão oficial, na ressignificação daqueles signos (“notas”) que aparentemente estavam estáveis até serem reapropriados pelos/as subalternizados/as.

Apenas um beijo gay no horário nobre?

por Fábio Felix*

O assunto mais comentado das redes sociais, seu impacto e reflexos geram curiosidade e fomentam o debate em toda as esferas. Apenas um beijo gay no horário nobre? Talvez não! É preciso nos debruçarmos sobre seu impacto e reais desdobramentos. O beijo entre dois homens ocorrido na última sexta-feira (31) na novela global em pleno horário nobre é uma novidade que pode cumprir um papel simbólico importante. O significado da naturalização, mesmo que parcial, de uma demonstração afetiva de uma orientação sexual divergente/minoritária refém de violência sistemática no Brasil pode ser um sintoma de avanço e algum nível de superação paradigmática. Não que o beijo em si tenha este significado, mas ele é parte de um processo.

O confronto ideológico em torno da pauta LGBT tem se acirrado no último período, com a organização cada vez mais empoderada dos setores “fundamentalistas” e conservadores, e com a dificuldade do movimento LGBT de dar respostas para além da institucionalidade. Este conflito tem evidenciado cada vez mais violência, crimes homofóbicos, transfóbicos e aumentado a polarização social no que se refere às pautas libertárias, não limitadas ao campo LGBT.

A demonstração de um beijo na noite de sexta-feira parece que teve um significado de libertação, coragem para muitas LGBTs brasileiras. Comentários de “vamos às ruas”, comemorações, sentimento de conquista foram latentes na nossa comunidade que sofre em pleno 2014 uma confrontação social com resquícios inquisitórios. Este sentimento complexo gerado não pode superestimar os efeitos do acontecido, mas, também, não deve ignorar suas possibilidades. Talvez o fato possa significar mais esperança e combustível na luta contra a opressão e pela livre expressão da sexualidade. 

Cristiano Lucas Ferreira, militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, fez um resumo importante do resultados incertos do ocorrido em seu texto Um beijo

E o que irá mudar se houver o beijo na novela? Bom, pelo que sei, nada! As travas, bichas e sapas continuarão a serem assassinadas com violência, continuaremos sendo piada sem graça do Zorra Total e similares, expulsos/as de casa, das escolas ou dos hospitais, vítimas de todas as formas possíveis de violência além de temas de sermões em púlpitos ou palanques. Mas num país, alfabetizado pela TV, retratar dois homens se beijando não é só um espetáculo, é também, pedagógico.” (Texto publicado na página da Cia Triângulo Rosa no Facebook)

Beijo gay

Beijo de Félix na novela global

A Globo é progressista?
Óbvio que a existência de um beijo gay, demonstração tão trivial de afetividade ou desejo, não deve nos iludir que a Rede Globo tenha se tornado uma aliada nesta pauta ou que ela tenha algum compromisso com lutas que enfrentam o conservadorismo. Pelo contrário: a Rede Globo, uma das maiores emissoras de TV do mundo, continua sendo parte da comitiva de frente das diversas opressões de classe, raça e gênero no Brasil. Novelas, programas e toda uma linha editorial construída para manter o andar de baixo calado e subserviente aos interesses das classes dominantes. Legitimação de uma política econômica devastadora para a população, difusão de toda forma de preconceito racial, um reforço a diversas práticas machistas e também homofóbicas. 

A lógica do mercado rege os interesses desta empresa, então sua sensibilidade para o tema tem relação com números e a abertura de um “diálogo” com um mercado em ascensão no Brasil. A indústria do entretenimento LGBT, as festas que faturam milhões no Brasil, o circuito das Paradas do Orgulho e etc.

Neste sentido, elogiar o beijo ocorrido na programação da Globo deve levar em conta uma análise mais complexa, que trata os fenômenos não como concessão ou possível aliança, mas enxergar a profunda pressão ocorrida nas últimas décadas que foi capaz de criar a correlação de forças para o acontecido. Ou seja, o poder popular é um elemento marcante nestas variações editoriais adotadas. 

Basta nós lembrarmos o que ocorreu nas manifestações de junho, quando, após a ida de milhões às ruas, ouvimos Arnaldo Jabor pedindo desculpas e a TV Globo junto com outras emissoras poderosas protagonizando um giro ideológico de alta rotação. Não devemos nos enganar, a Globo continua sendo um forte instrumento de alienação popular. Há ainda a tentativa desta de retomar o diálogo com “setores descontentes” com a mídia brasileira. Quem não se lembra dos carros de TV apedrejados e queimados em junho de 2013? Tem crescido na população um sentimento cada vez maior de desconfiança com a mídia, e estes momentos podem servir para “quebrar o gelo”. Esta avaliação não esvazia o beijo de seus significados.

O enfrentamento ao fundamentalismo
Desde a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, temos nos preocupado com a organização deste setor político fundamentalista, que reúne, entre outros, o Pastor Silas Malafaia, Marcos Pereira e o Deputado pró-ditadura Jair Bolsonaro. Um possível sinal de avanço não pode nos fazer arrefecer a resistência e organização para enfrentar politicamente os sórdidos argumentos levantados por eles. Felizmente eles não representam a maioria dos evangélicos e católicos brasileiros. Aqueles com maior densidade teológica não se sentem, da mesma forma, representados por estas lideranças. 

Declarações do Pastor Caio Fábio e do Padre Fábio de Melo representaram uma diferença clara de quais são os fundamentalistas e intolerantes e quem são aqueles com que há possibilidade de constituir algum diálogo democrático dentro das contradições e diferenças de concepção. Estes dois citados tratam a questão LGBT com mais respeito aos direitos civis e criticam a postura extremista e oportunista das lideranças de Malafaia e Feliciano.

Portanto, o desafio de construir novas estratégias da luta sexodiversa, ampliar a mobilização pelo casamento igualitário, por programas anti-homofobia e por uma sociedade que respeita a diversidade deve continuar nos movendo. Devemos espalhar esta necessidade e reforçar que as poucas vitórias que tivemos vieram da nossa luta e organização coletiva.

Um beijo para Dilma e Agnelo
A cena da novela e os milhões de beijos trocados todos os dias entre casais do mesmo sexo devem servir para lembrar a Presidenta Dilma de suas opções. Em nome do que se chama de governabilidade a presidenta deixa claro que prefere se aliar com os setores mais atrasados da religião, ao rifar as medidas de garantia de direitos para LGBTs no Brasil, realizar acordos em torno da retirada do PL 122 de pauta no Senado, extinguindo o Programa de educação para a diversidade nas escolas e deixando os programas de combate à homofobia no Brasil em completo abandono. Da mesma forma, o Governador do DF, Agnelo Queiroz, menos de 24h depois de publicar a regulamentação da lei que previa punições administrativas para práticas homofóbicas em estabelecimentos comerciais, revogou a decisão. Voltou atrás por pressão do fundamentalismo e mostrou claramente de que lado está.

Nossa tarefa é politizar o debate do beijo trazendo a reflexão crítica sobre a coalização governante brasileira que privilegia a aliança com o fundamentalismo, apontar os limites de um movimento LGBT que mantenha vínculo orgânico com os governos e não aposta na luta social, construir novos movimentos combativos para a disputa dos rumos da luta LGBT, e aliar as nossas mobilizações ao desafio de enfrentar o capitalismo e as diversas opressões que ele agrava e impõe. A esquerda brasileira precisa ousar subverter a lógica heteronormativa com ações que demonstrem compromisso claro com esta pauta. Para que este beijo signifique muito mais, precisamos agir!

* Fábio Felix é militante ELA, PSOL, Assistente Social e mestrando em Política Social pela UnB

Mãos sujas: homofobia mata!

Por Fábio Felix e Daniel Jacó

Uma morte banal. Um corpo numa rua em São Paulo. Depois por dias sem identificação no IML. Desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada em uma das pernas. Com dedos quebrados. Mais um “indigente.” Só mais um.

Matamos nossos gays por que eles nos assustam. Lembram-nos que a casinha perfeita papai e mamãe não é a única casa. Estão aí pra avisar que sexualidade é espontânea mas não é natural. Pra avisar que possuir um pinto não garante o domínio sobre uma casa, sobre uma mulher, sobre uma cultura. Pra mostrar que estamos todxs travestidxs, brincando papéis de gênero decadentes e os negociando. E isso assusta muito homem. Assusta a ponto de torturarmos. Assusta a ponto de matarmos.

Matarmos. Nós o matamos, sim.

Mais um jovem gay assassinado, em meio a tantas travestis torturadas, lésbicas espancadas, casais do mesmo sexo agredidos verbal e fisicamente. A barbárie que nos amarra na institucionalidade da conveniência e da inoperância. Se não há sangue em nossas mãos, é porque as lavamos.

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Talvez não sejamos culpados, mas somos certamente responsáveis. Mantemos os gays reféns. Todas as políticas voltadas ao combate a homofobia são rifadas – sejam políticas protetivas com dimensão educacional, como o Kit Escola Sem Homofobia, sejam elas punitivas, como o PLC 122 (que criminaliza a homofobia), permanecem paradas, enquanto milhares de homossexuais, travestis, transexuais e trangêneros continuam reféns da violência simbólica, psicológica e física explicita de uma sociedade que tem medo de liberar sua sexualidade, e que mata quem quer ouse liberar sua própria.

Nossos destinos são negociados no submundo do Congresso Nacional e nossas vidas são rifadas por coligações e governabilidade. “Mas eles têm o direito de não concordar com a prática de vocês”. E as mãos são lavadas.

O Governo de Dilma – PT abandonou o movimento LGBT para manter um elo com os setores religiosos mais atrasados. Governabilidade. Em termos leigos, para manter o poder mesmo – em troca de jogar no ralo os direitos de milhões de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais brasileirxs.

Na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República é mantida uma Coordenação LGBT. Mas pra quê? Se não conseguimos nenhum avanço via Executivo? Sua influência nas decisões, nos rumos e nas disputas da política pública brasileira é quase nula. A prioridade foi escolhida: manter as alianças para a governabilidade conservadora e contribuir para os retrocessos.

Ontem, ao ler a matéria e assistir ao vídeo da morte de Kaique, de 16 anos, negro, no início de sua vida, nos indignamos profundamente com o descaso das instituições e com a forma como é tratada a história de vida das pessoas. Cadáver desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada um uma das pernas. Com dedos quebrados. Pra Polícia de São Paulo, um suicida.

Este caso junto como tantos outros, deve nos fazer refletir sobre o apartheid de classe, raça, gênero e orientação sexual existente em nossa sociedade. A necessidade de superação de uma sociedade profundamente desigual e discrimatória que hierarquiza a cada segundo as pessoas por suas condições de existência.

O nosso grande desafio é construir uma nova cultura social de respeito à diversidade e a livre expressão da sexualidade. Não há como conviver com a violência, a apatia patrocinada por nossos governantes e por setores tão conservadores das religiões mais atrasadas. Aqueles que dizem pregar o “amor” lutam cotidianamente contra a criminalização da homofobia, se articulam contra os direitos das relações homoafetivas. O falso discurso do “amor” acaba se transformando em ódio, sangue e morte!

Precisamos limpar nossas lágrimas, e transformar nossa indignação em ação política coletiva e organizada, tanto para denunciar o tamanho da violência que nossas instituições praticam quando se silenciam quanto para nos sentirmos parte do mesmo corpo que sofre todos os dias a ausência de vida em totalidade e de direitos e plenitude.

Superar a homofobia é uma transformação cultural profunda que exige assumir responsabilidade. Exige ver as lutas com clareza. Exige, acima de tudo, que não lavemos nossas mãos.

Daniel Jacó é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Advogado

Fábio Felix é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Assistente Social