Feminismo, militância e autocuidado

Texto de Manuela Melo para as Blogueiras Feministas. Originalmente publicado aqui (http://blogueirasfeministas.com/2014/11/feminismo-militancia-e-autocuidado/)

A nós mulheres foi delegado o cuidado. O cuidado da casa, dos filhos e filhas, dos irmãos e irmãs, do marido, dos animais domésticos. O cuidado na profissão: somos maioria na enfermagem, no serviço social, na pedagogia. O cuidado (dos outros) perpassa nossa realidade desde muito cedo.

Quando as mulheres brancas de classe média alta saíram de casa para “trabalhar” (como dizem, né, porque sabemos que em casa o que se faz é trabalho também), passaram a pagar (muito pouco) outras mulheres (muitas vezes negras e sempre pobres) para fazer o cuidado. Com a casa, com filhos/as, animais. O cuidado pode ser menos rotina na vida de algumas mulheres que de outras, mas segue sendo uma atividade implacavelmente feminina, por conta do patriarcado e da divisão sexual do trabalho.

Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

As mulheres reivindicam há muitas décadas o espaço público. O espaço político, institucional, a participação e reconhecimento nos movimentos sociais, no trabalho, na mídia. Queremos, com razão, ocupar a rua, espaço historicamente masculino. A rua era deles, a casa, nossa — e digamos, nem isso, porque por séculos nos foi negado inclusive o direito de propriedade. Queremos o espaço público e por isso ainda hoje saímos às ruas para dizer: O corpo é meu, a cidade é nossa!

Reivindicar o espaço público não é negar o privado. É negar, em verdade, a dicotomia público-privado, que só serve à desvalorização do chamado espaço privado, espaço destinado a nós historicamente. Faz tempo que se diz que o pessoal é político, isto é, o que se faz no “privado” tem conotações políticas, de opressão e dominação. E que o político é pessoal: as relações políticas precisam considerar as dimensões dos sentimentos, da emoção, da vivência subjetiva das pessoas.

Não devemos negar o cuidado. O cuidado é essencial, e é por isso que o patriarcado o mantém tão intacto. Não há como viver sem cuidado. Não há porque viver sem cuidado. O cuidado nos fortalece para a luta. O cuidado faz parte da luta.

Nesse sentido, se cuidar é uma tarefa militante. Vivemos em um mundo capitalista de fluxo de informações e pressão pela produtividade que nos oprime na dimensão subjetiva e objetiva e nos ameaça a saúde física e mental.

As mulheres militantes, em geral, são responsáveis pelas atividades de cuidado da casa, dos/as filhos/as, do seu trabalho fora de casa, da sua capacitação e educação (mais mulheres têm educação formal que homens, mas isso não se reflete na oferta de empregos para nós, então em geral nos capacitamos cada vez mais para tentar, sem sucesso, compensar essa diferença), e também das atividades militantes. Para além da tal dupla jornada de trabalho. Para muito além.

As atividades militantes também envolvem cuidados. Cuidados com os companheiros e companheiras, com as populações oprimidas: com as mulheres vítimas de violência doméstica, com os drogadictos, com as mulheres que abortam; e o cuidado com o próprio funcionamento da atividade desenvolvida.

Nessa tripla ou quádrupla jornada de trabalho e de cuidado, em que momento cuidamos de nós? Esquecemos de nossa saúde física e mental. De nosso lazer, de nosso crescimento pessoal, de nossa conexão com as pessoas. Acabamos, muitas, vezes, adoecendo fisicamente, ou em depressão, por dedicarmos nosso tempo ao externo e negarmos a nós mesmas o cuidado que também merecemos.

Foucault dizia que não é preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. Mas as coisas que combatemos são mesmo abomináveis. As pessoas morrem de fome, são estupradas, assassinadas por homofobia, não têm onde morar, são assassinadas pela polícia, são internadas contra a sua vontade — e a lista é infinita. Militar é se confrontar com o que há de pior no mundo, porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente. Militar é uma tarefa de resistência, porque somos reprimidos pelo estado, pela ideologia dominante, pela mídia, ….e a lista segue. Para resistir é preciso força. Para termos força é preciso cuidado. Já dizia a Gal Costa: é preciso estar atenta e forte.

Como fazer para manter as esperanças, a vontade de viver e de mudar o mundo, quando todos os dias nos reprimem e machucam? É preciso cuidado. Cuidado individual e coletivo. O cuidado deve ser uma tarefa comunitária. Não há relação que seja meramente política. sua(seu) companheira(o) de militância deve te cuidar e você deve cuidar dele também, para que sigamos nos fortalecendo, resistindo e crescendo. Então, repito, cuidar é uma tarefa militante.

E não achemos que o cuidado é egoísmo, perda de tempo, coisa de pequena burguesia; isso só faz reproduzir as estruturas patriarcais capitalistas de cuidado (as mulheres vão seguir cuidando dos outros e não de si) e nos enfraquece perante nossos adversários na luta social, que estão todos muito bem cuidados pelas mulheres que eles pagam para isso.

Emma Goldman uma vez disse que “Se eu não posso dançar, não é a minha revolução”. E é essa a verdade. Não podemos reproduzir a lógica de trabalho capitalista que nos impõe modelos de produtividade e meritocracia em nossa atividade militante. Se não podemos ter lazer, amor, se não podemos nos cuidar, não é a nossa revolução.

Mulheres, cuidem-se. O auto-cuidado é uma tarefa revolucionária!

Autora

Manuela Melo é estudante de Direito da UnB. Mulher, nordestina, militante feminista intersecional e que tem coragem de sonhar e lutar com um mundo sem opressões.

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A banalidade do mal no “time do bem”

No ano passado, um oficial da PMDF foi filmado em uma manifestação jogando spray de pimenta indiscriminadamente em manifestantes pacíficos. Ao ser perguntado de forma educada pelos manifestantes por que teria feito aquilo, respondeu prontamente “porque quis”, estampando um sorriso despreocupado no rosto. As imagens ganharam repercussão nacional e indignaram a população em mais esse caso de abuso e violência policial.

O fato revelou a completa falta de controle sobre a atividade policial, que parece ter poder para realmente fazer o que quer contra manifestantes, mas também contra todos os setores que enfrentam a hegemonia branca e racista, heterossexual, cis e homofóbica, burguesa e conservadora. Não é atoa que, além de manifestantes, são também os pobres e negros, os homossexuais, travestis e prostitutas, os que mais sofrem com a desmedida violência policial todos os dias nas nossas cidades.

Capital viva-3Hoje, esse oficial que “faz o que quer” em sua função pública se apresenta como candidato a deputado distrital e o slogan, estampado em seus panfletos e adesivos de carro é nada menos que seu mal-afamado bordão,‪#‎porquequis‬. Se ele faz o que quer como servidor público, como policial, o que fará como Deputado?

A cada 100 candidatos a deputado distrital nas eleições atuais, pelo menos oito são ligados à segurança pública. Até aí, nenhum mal. Policiais devem ter direitos políticos como qualquer cidadão. Defendo inclusive a ampliação de seus direitos, com a desmilitarização da polícia, para que lhes seja garantido o direito de greve, o que hoje, no modelo militarizado, é proibido. Minha preocupação não é com o fato de cidadãos ligados à segurança pública apresentarem suas candidaturas. O problema mesmo é o que defendem e como defendem.

São eles os responsáveis pelo discurso militarizado que contrapõe a polícia à sociedade. Sob a desculpa de combater bandidos, o que fazem é fortalecer o caráter militar do Estado contra a população. Esses setores atrasados das corporações policiais não apresentam soluções efetivas para o verdadeiro problema da violência. Sob argumento de combater o crime, aumentam os casos de violência policial e o encarceramento em massa da juventude, que já tem hoje o maior índice proporcional de internos no sistema socioeducativo.

Não podemos naturalizar e banalizar esse discurso da violência do Estado contra a população. Devemos rejeitar o “fiz porque quis”, pois ele representa o oposto do que queremos de qualquer servidor público, mas especialmente das autoridades policiais, que devem fazer apenas o que é permitido pela regulamentação, seguindo os princípios de Direitos Humanos na relação de cooperação com a população. É especialmente lamentável que pessoas que defendem os direitos humanos e os movimentos sociais estejam aliadas a esses setores reacionários e possam, com suas candidaturas, ajudar a elegê-los.

Tenho orgulho de fazer parte de uma campanha do Fábio Felix, que tem compromisso irrestrito com os direitos humanos, repudia a violência e o abuso de autoridade policial e se compromete a fiscalizar a atividade policial no DF. Votando nessa candidatura, você pode ter certeza de que não elegerá nenhum desses militares irresponsáveis, pois o Psol é um partido que tem a defesa dos direitos humanos como um princípio fundamental e não vende direitos em troca de votos.

Vamos enfrentar essa mentalidade punitivista e irresponsável de segurança pública e defender um modelo de segurança que seja realmente pública e defenda os direitos humanos! Basta de desrespeito das nossas leis: segurança pública é direito nosso, e dever do Estado e seus agentes.

Marina Silva: desestabilização ou renovação do pemedebismo?

BeDMarina

A ELA, então B&D, promoveu debate com Marina na UnB, em 2010. Assista aqui: http://migre.me/ldknk

 
A irrupção de Junho e a ampliação do espaço para novas lideranças políticas
 
A irrupção de Junho não evidenciou somente a crise das instituições representativas brasileiras ou do sistema político formal. Entre outras tantas lições, escancarou também que não existe nenhum setor político organizado que seja socialmente reconhecido no Brasil, hoje, como capaz de canalizar a insatisfação com a institucionalidade política e com os limites e contradições do modelo de desenvolvimento em curso.

O PT exerceu esse papel ao longo de décadas, mas em Junho ficou explícito que a estratégia conciliadora, a burocratização e os anos no governo fizeram o partido perder, em larga medida, tal capacidade. A multidão que foi às ruas em junho, sobretudo de jovens, não estava protestando contra o governo Dilma ou o PT, simplesmente; mas tampouco identificava nesse partido uma alternativa que expressasse, no conteúdo e na forma, seus anseios – ainda que “difusos” – de radicalização democrática. Podem até encontrar no PT e seu governo um meio para melhorar de vida, mas dificilmente veem no partido uma alternativa para mudar o sistema, ou de uma nova práxis política, aberta à reinvenção pelos novos sujeitos em ação nas redes e nas ruas.

Alguns movimentos – como o MPL e depois o MTST – conseguiram maior exposição e reconhecimento, mas nenhum é amplamente visto por parte expressiva da população, por ora, como uma alternativa real de poder, ou de mudança do poder em escala nacional. Já as velhas vanguardas autoproclamadas tornaram-se, em geral, ainda mais patéticas, pelo abismo entre suas pretensões e sua baixa capacidade de servir como alternativa real de expressão e organização da revolta popular.

Quando amplas camadas da sociedade buscam ansiosamente o “novo” na política e não conseguem encontrá-lo em nenhuma referência coletiva organizada existente, abre-se um terreno fértil para que lideranças individuais assumam essa função, representando e mobilizando os anseios sociais de mudança política. Há quem interprete que foi numa situação até certo ponto análoga que se produziu a ascensão política de Hugo Chávez na Venezuela, por exemplo, no final da década de 1990.

Em Junho, vieram à tona com mais força algumas tendências que já se manifestavam antes, e que se tornaram ainda mais significativas e irrefreáveis a partir da nova qualidade adquirida pela conjuntura após a irrupção. A projeção de Marina Silva como liderança individual capaz de canalizar os anseios por mudanças na política e da política é uma dessas tendências que foi amplificada.

Se é ruim um indivíduo ter tanto peso assim no estímulo e canalização das esperanças e energias de mudança? Estou entre quem pensa que o ideal é que organizações coletivas e democraticamente organizadas exerçam esse papel. Não me filio, porém, às críticas abstratas e idealistas que condenam o “personalismo” como mal em si. Lideranças individuais, por vezes, cumprem um papel que referências coletivas não têm capacidade de desempenhar em dado momento. O processo pode se tornar virtuoso, e superar paulatinamente suas próprias contradições, caso a legitimidade e a energia mobilizadora desses indivíduos consiga ser canalizada para o fortalecimento de lutas coletivas organizadas desde baixo. Isso depende, obviamente, não apenas desses indivíduos – embora também deles, afinal são chave central nesse tipo de situação -, mas igualmente da capacidade de coletivos organizarem-se e fortalecerem-se a partir do que o/a líder simboliza, mas indo além dele, mediante um processo de expansão e ressignificação coletiva insurgente.

Marina Silva tinha e tem diante de si, portanto, uma grande oportunidade. A de impulsionar, a partir da projeção que adquiriu, uma agenda de mudanças reais ancorada em discurso de antagonismo capaz de mobilizar(-se com) amplos setores da sociedade para a luta política transformadora – como conseguiu fazer na Venezuela, até certo ponto, Hugo Chávez. Não parece ter sido esse, porém, o rumo que ela optou tomar até aqui, como veremos.

A potência do símbolo Marina Silva

Marina é um poderoso símbolo de mudança política. Depois de Lula, não apareceu outra personalidade, no Brasil, com potência sequer próxima à dela, da sua extraordinária capacidade de representar anseios e mobilizar esperanças por transformações na política e na sociedade.

Mulher, negra, acreana de origem muito pobre, alfabetizada aos 16 anos, companheira de luta de Chico Mendes em defesa dos povos e trabalhadore(a)s da Amazônia na década de 1980, defensora do meio ambiente, ex-Ministra de Lula, evangélica…

Cada uma dessas identidades portadas por Marina, e outras mais, que se inscrevem não somente em sua história, mas em seu corpo e em seu estilo, une-se para formar um amálgama que gera identidade ou fascínio entre milhões de brasileiros/as. A isso soma-se seu discurso arejado e democrático sobre a “nova política”, feita em rede, mediante ativismo autoral, (ou coautoral), etc. Eu mesmo não nego que pertenço ao grupo sobre quem o símbolo Marina Silva, assim como o Lula, exerce certo nível de fascínio (embora não os idealize, e apesar de todas as fortes diferenças políticas que tenho com ambos, hoje).

Dentre os diversos componentes da identidade e do símbolo Marina Silva, sua fé evangélica provavelmente é o mais polêmico, em especial na esquerda. Alguns setores parecem avaliar, implícita ou até explicitamente, que se é evangélica (ou de determinada vertente protestante específica), logo é conservadora… Curiosamente, a mesma associação automática pejorativa raramente é feita sobre políticos católicos, apesar do conservadorismo desta instituição e de sua grande força nos três Poderes da República – não haveria, aí, certo elitismo, já que há muito mais evangélicos/as entre os/as pobres?

Eu gostaria de viver num país em que a fé transcendental (ou a ausência dela) e a religião não interferissem no julgamento político que se faz de alguém, ou na capacidade de diálogo social de uma figura pública. Infelizmente, porém, não é assim, e é preciso lidar, na política, com as contradições da vida real, sem abrir mão de nossos princípios e ideias. Nesse contexto, sempre achei politicamente interessante o fato de Marina ser evangélica. Como já disse, não acho que isso implique, automaticamente, conservadorismo. Mas amplia, quase automaticamente, sua capacidade de dialogar e representar um setor da população brasileira que, além de grande e crescente – em especial entre os/as mais pobres e a nova classe trabalhadora (a mal chamada “nova classe média”) – , parece bastante organizado em comunidades de base, o que potencializa sua força política. E nessa organização de base provavelmente há muito mais multiplicidade e auto-organização do que imagina certa esquerda que emite juízos sem investigar a realidade.

Nunca vi como defeito o fato de Marina ser evangélica, mas como elemento amplificador de seu potencial político, que poderia fazer muita diferença positiva a serviço de causas de radicalização da nossa democracia. Um elemento que poderia ajudá-la a se conectar às redes da “nova classe trabalhadora”, estimular suas lutas e sua auto-organização política desde baixo, em sentido emancipador. 

As ideias conservadoras de Marina Silva

O problema não é qualquer aspecto simbólico da identidade de Marina, nem sua fé religiosa (muito antes pelo contrário). O problema é que ela optou por defender um conjunto de propostas conservadoras para o Brasil. “Autonomia” do Banco Central (o que significa dizer: entregá-lo de vez para ser gerido por tecnocratas alinhados com os bancos e grandes atores do mercado financeiro); continuidade do “tripé” da política macroeconômica vigente há vinte anos e que privilegia as classes mais abastadas; zero enfrentamento ao monopólio da mídia; posições conservadoras sobre direitos das mulheres e LGBTs; posições no mínimo ambíguas sobre diversos temas – inclusive meio ambiente -, conforme já advertia Edemilson Paraná em texto do início do ano passado.

É verdade que em inúmeras questões – inclusive nos temas políticas para mulheres e LGBTs -, as posições de Marina não são piores do que as políticas do governo Dilma (embora chegue a ser pior em um tema central, política macroeconômica, com sua defesa da “autonomia” do Banco Central, isto é, da ditadura do capital financeiro nesse órgão). Mas, é esse agora o parâmetro?! E mesmo com esse padrão rebaixado de comparação, fica difícil concluir que um governo Marina seria consideravelmente superior (ou inferior…).

“Marineiros/as” argumentam que é preciso “fazer concessões à governabilidade” para chegar à Presidência e promover algumas mudanças, assim como fez Lula. Mas Marina cedeu tanto, em tantos temas, que fica difícil dizer o que sobra… Qual compromisso concreto Marina assumiu, que a torne uma alternativa com algum conteúdo real de mudança?! Custo a encontrar.

Dizer que vai “cuidar da segurança” e “melhorar a saúde” (como Marina afirma na propaganda na TV) é um insulto… Até mesmo a defesa do passe livre estudantil é muito pouco, por sua vagueza. Até Renan Calheiros apresentou, em 2013, um Projeto de Lei para garantir o passe livre. Quero saber é segundo qual modelo de gestão e financiamento Marina implementará essa e outras políticas. Já sabemos que ela não vai mexer nos juros, pois dará “autonomia” ao Banco Central; logo, eles continuarão consumindo gigantesca fatia do Orçamento Público. Marina vai retirar os recursos de outros investimentos sociais? De quais? Vai produzir novos retrocessos nos direitos de aposentados/as? Ou tentará instituir, no Congresso Nacional, o Imposto sobre Grandes Fortunas e aumentará as alíquotas sobre grandes empresas, tal como propõem o PSOL e outros setores da esquerda? 

Marina Silva: renovação do pacto pemedebista?

A debilidade central da candidatura Marina Silva não é, porém, a proposta A ou B. Os recuos nas propostas são sintomas importantes do déficit mais grave, que é a estratégia política de Marina e de sua Rede.

O cerne do discurso e da estratégia/tática de Marina é o seguinte: (i) produzir “união” entre empresários, ambientalistas, trabalhadores/as, movimentos sociais… Enfim, fazer um governo de conciliação e busca do “consenso”; (ii) isolar os partidos “fisiológicos”, principalmente o PMDB, e fazer um governo “dos bons”, com direito a um realinhamento entre PSDB e PT, pondo fim à polarização que já dura vinte anos.

Marina poderá até governar sem o PMDB, mas o pemedebismo não morrerá junto. O elemento central do pemedebismo é justamente a negação da polarização, afirma Marcos Nobre, o cientista político que criou esse conceito para interpretar nosso sistema político-partidário (ver aqui). O que Marina promete é justamente isso, sob a falácia do velho discurso da “união nacional” que esconde os conflitos e termina por manter tudo como está, em suas grandes linhas.

Como bem disse Paulo Tayur, “não há nada mais ‘velho’ na política do que o discurso da ‘união de todos’. Nada mais velho – justamente por negar o conflito, as divergências e a luta entre desiguais – do que pregar uma falsa união, ou acusar adversários de ‘dividirem o país’. O problema de PT e PSDB não é que ‘dividem o país’, e sim o fato de serem muito mais iguais do que dizem ser, criando uma polarização muitas vezes falseada. Marina nega a polarização não pela exposição do que ela tem de falso, mas sim pelo contrário: dizer que não deveria haver polarização alguma”.

O PMDB certamente é adversário da sustentabilidade e do aprofundamento da democracia no Brasil, as duas bandeiras de Marina. Porém, também o são o PSDB, o DEM, o PSD, o PPS, além de dezenas de outros partidos e de amplos setores do próprio PSB, que abriga Marina (basta lembrar Bornhausen do PSB-SC ou Pastor Eurico do PSB-PE)… A questão não é a sigla A ou B. Os partidos, mais do que “bons” e “éticos” ou “maus” e “fisiológicos”, expressam interesses de classes e de grupos sociais. Quais classes e outros grupos Marina se dispõe a enfrentar? A resposta que ela dá sistematicamente, mediante seu discurso renitente e suas propostas é: nenhuma classe. O que significa dizer: vai ‘sobrar’ para as classes com menos poder na política institucional de hoje: as mais pobres.

As transformações profundas de que o Brasil precisa – desmilitarização da segurança pública, reformas urbana, agrária e política, democratização das comunicações, mudança da economia orientada pela transição energética para fontes renováveis e socialmente justas, etc – não nascerão de dentro do sistema pemedebista, ou de um mero rearranjo interno dele, de sua repactuação, que é a grande estratégia de Marina.

Por isso, fica difícil imaginar como um eventual governo seu corresponderia minimamente às esperanças de mudança nela depositadas. Mais ainda, não vejo razão para crer que a dança das cadeias que ocorrerá entre os ‘grandes’ partidos, caso ela seja eleita, terá algum impacto transformador ou de abertura democrática. Pelo contrário, parece aprofundar a lógica de pasteurização da política institucional brasileira.

Há quem ache que Marina deve ser apoiada, apesar de tudo, porque seu simbolismo mobiliza energias transformadoras da sociedade brasileira. Ora, mas mobiliza sem apresentar como caminho para essa energia o conflito social, mãe da democracia real… Sem articular o discurso, as subjetividades e as lutas para enfrentar os principais adversários da nossa democracia – pelo contrário, o discurso e a prática é de aliança com eles. Trata-se de uma mobilização que pode, então, acabar cumprindo um papel conservador, por desidratar outras vias, institucionais e não institucionais (sobretudo as últimas, hoje), que possam constituir força transformadora efetiva, não porque possam ganhar as eleições deste ano, mas porque contribuem para reinstalar e fortalecer na política as principais e diversas linhas de antagonismo social produzido desde baixo. Existe até mesmo o risco, por aprofundar a lógica de não-polarização, de Marina contribuir não só para a renovação, mas para o aprofundamento do pemedebismo.

Defendo a importância de se disputar as eleições a sério, mas para contribuir ao fortalecimento e articulação das lutas sociais para se expressarem com todo o seu vigor e conflitividade em todos os terrenos da política, e não para integrá-las ao sistema de modo domesticado e subordinado aos interesses dos nossos principais adversários na sociedade.  

A energia desestabilizadora de Marina Silva: esvaziar o discurso do medo

A estratégia política de Marina Silva e de sua Rede não me empolgam nem um pouco, portanto. Não acho que o caminho para produzir democracia real para o Brasil esteja por dentro do sistema pemedebista, na sua renovação ou rearranjo, que é a opção de Marina. Prefiro apostar em vias de polarização com os donos do poder, e não de conciliação subordinada a eles. Essas vias podem parecer mais longas, mas me parecem muito mais eficazes do que supostos atalhos que nos fazem gastar energia para caminhar em círculos e continuar no mesmo lugar, com pequenos ajustes.

Parece-me inequívoco, porém, que há algo de bastante positivo que Marina já trouxe com muita força para a campanha: a forte desidratação do PSDB como possível alternativa para a Presidência. Caso se confirme que os tucanos não passarão ao segundo turno, essa é uma grande contribuição viabilizada pelo fenômeno Marina, conforme argumentou Bruno Cava.

O PSDB só oferece possibilidades de continuidade e retrocesso, então é positivo que isso seja afastado da Presidência. Por mais que nas coalizões de Dilma e de Marina também seja difícil vislumbrar uma agenda de transformações reais, me parece que o PSDB está realmente em outro patamar, pois seu conservadorismo é muito mais homogêneo, não existem fissuras como as que há (mesmo que relativamente pequenas) nas bases do PT e de Marina.  

Além disso, e possivelmente mais importante, Dilma X Marina no segundo turno esvaziará, em grande medida, o discurso medíocre e conservador que o PT tem utilizado nas eleições há muitos anos: o discurso do medo, de que seria preciso votar em Dilma porque a alternativa é o retorno do passado, o fantasma do PSDB. Enfrentar Marina pressionará o PT a sair da zona de conforto, de sua posição que se contenta com acenar apenas para a continuidade do atual arranjo neodesenvolvimentista e de sua governabilidade conservadora. Talvez Marina e o PT busquem abraçar-se ainda mais à direita, mas de qualquer forma essa possibilidade já seria forte numa disputa Dilma X Aécio (como já aconteceu em 2010). Mas com Dilma X Marina, abre-se a chance, ainda que pequena, de ambas serem estimuladas a apresentarem alguma agenda transformadora. Isto é, talvez ocorra algum alargamento mínimo, por dentro do PT e da base de Marina, para o fortalecimento de setores ‘mudancistas’ (pois prefiro não utilizar a expressão ‘progressistas’).

Não sou nada otimista de que isso se processará de modo significativo por dentro do PT ou da Rede – o recuo da campanha de Marina no tema da democracia participativa é um dentre tantos sinais eloquentes. Avalio, porém, que a ausência do retorno do fantasma tucano como liderança do polo alternativo aumentará o espaço para que outras forças políticas, ao invés de terminarem se apresentando ou sendo percebidas como linhas auxiliares do continuísmo, apresentem um projeto alternativo, por fora e em contraposição à geleia geral do sistema pemedebista.

O enfraquecimento do medo do retrocesso como afeto na política implica a oportunidade de empoderar alternativas de mudança radical da sociedade brasileira. Para tanto, nós, que apostamos pela rota desde abajo y a la izquierda, devemos seguir cumprindo, na disputa eleitoral, o papel de repercutir os antagonismos produzidos pelas lutas sociais e servir à sua articulação, polarizando com os atores do sistema sem nos reduzirmos à posição estéril de linha auxiliar de qualquer um deles.

PS: a produção deste texto foi influenciada pelo diálogo com Bruno Cava e Idelber Avelar (o que não quer dizer identidade de pensamento sobre o assunto). Agradeço também a Octávio Torres por sua contribuições.

Quando me gritaram “macaco!”

futebol

Eu devia ter uns 11 anos. Lá no INDI, minha escola de infância e pré-adolescência, a galera do futebol tinha uma prática, um tanto quanto aleatória, de, em alguns meses, deixar de jogar bola na quadra grande e descer lá para o pátio de baixo. A “max 200” era substituída por uma bolinha de cachorro, os gols grandes eram trocados por bancos de madeira e as quatro linhas pelas extremidades do pátio.

Em um desses dias, estava eu e meu time, o povo da eterna “turma A”, de próximos, conversando entre nós besteiras e sem prestar muito atenção no jogo. Enquanto isso, a bolinha pequena veio na nossa direção e se embaraçou no meio das nossas pernas. Apressado e com o time perdendo, um dos jogadores, amigo meu, tentou puxar a bola rapidamente com os pés, mas ela insistia em não sair dali do meio dos que estavam de “próximo”. Nesse entrevero de puxa e repuxa, ele fala: caralho, só os macacos!

Esse episódio me retornou à memória recentemente, a partir da discussão gerada pelo episódio do Daniel Alves e pela subsequente “campanha” do #somostodosmacacos. Estava a me perguntar se alguma vez eu tinha sido alvo da palavra “macaco”. Foi quando lembrei dessa situação, que volta e meia me reaparece para perturbar noites insones. Perturba, entre outros motivos, porque é a memória da primeira situação da qual eu lembro ter sofrido, diretamente, um processo de racialização expressa, verbal. Constrange-me, até hoje, por retrazer o sentimento de desespero de quem não sabe o que fazer naquela situação. Angustia por ainda eu sentir a ausência de reação quando o peso das marcas da história nos chama de maneira inesperada.

Pensando sobre o caso e sobre a banana comida por Daniel Alves, a reflexão não tem como deixar de perceber o futebol, seja na Espanha, no Peru, em grandes estádios ou no pátio do INDI, como lócus privilegiado da erupção racista e do cinismo que paira sobre alguns discursos. Por mais problematizações que devam ser feitas a respeito disso, talvez essas ofensivas, contra jogadores/as negros/as, se devam ao fato de no esporte, em mais específico no futebol, negros/as e brancos/as disputarem e estarem, ainda que apenas na aparência, em um mesmo patamar de representação, reconhecimento e de local de fala [1].

Quando o/a negro/a se encontra em posições de sujeito subalternizadas, o racismo se camufla mais facilmente. Não há motivos para ofensas e bananas quando as expectativas das estruturas racistas, que lhe chamam e lhe impõem um local de inferioridade, não são quebradas. Por outro lado, as ofensas e as assertivas diretas se tornam menos veladas quando o/a negro deixa a posição de silêncio ou o “lado b” da história, ganhando uma espécie de destaque no discurso oficial. Assim, a reação, a opressão visível e as vocalizações diretas se tornam menos incontidas em situações nas quais ocorrem frestas e fraturas no fluxo contínuo do racismo, ainda que espacialmente delimitadas, como no caso do futebol.

 A branquitude, por óbvio, não gosta de perder privilégios: seja em espaços institucionais, educacionais ou até no “craque da vez”. A afirmação e o confronto por parte de um grupo subalternizado, perante um universal superior, sempre gera uma reação de proteção, advinda de uma paranoia daqueles/as que sentem estarem perdendo algo. Não tem como deixar de tecer o paralelo com a luta por direitos e por políticas afirmativas, quando a postura de se reconhecer enquanto negro no espaço público é sempre seguida, do outro lado, por: “ah não, mas aí já é demais” ou “não acredito que você está se utilizando da sua cor para pleitear isso”. No futebol, basta a presença negra; na luta por avanços concretos em processos de igualdade, o problema é reconhecer que a raça discrimina. Em tanto um como outro, trata-se da disputa por espaços de representação, da ideia que temos sobre nós e das subsequentes reproduções dos símbolos em clivagens e estratificações sociais.

Continuando a refletir sobre o “caso da bolinha presa entre as pernas” e girando para o recorte de um acontecimento pessoal, mas que é transversalizado por uma experiência coletiva. É sintomático que a palavra “macaco” tenha sido utilizada na primeira ofensa direta que recebi devido a minha cor; é cruel quando se visualiza o contexto – crianças de 11 anos jogando bola -; é dolorosa ao estendermos a análise para a provável série de causas que levou aquele xingamento.

Talvez o mais banal é notar que verbalizações não surgem do acaso. O fato de meu amigo, ainda uma criança, utilizar a expressão “macaco” evidencia o racismo não como um acontecimento aleatório, repetido em casos excepcionais e específicos, como muitos/as tentam localizá-lo. O racismo não é um ponto fora da curva, mas algo estrutural. E é esse “algo estrutural” que estabiliza o significado pejorativo no significante “macaco”; são os dispositivos de racialização que, ao longo da história, fixaram o discurso e a semântica racista na palavra. A pequena verbalização, realizada ali em um aperto confuso de pernas atrás da bola, carrega um peso da história, que restringe a dispersão da linguagem em um termo que serviu para marcar os envolvidos na situação. [2]

Na crueza cruel da inocência de crianças jogando futebol, sem querer, eu era envolvido, através de uma única palavra, por uma fronteira que me separava deles, dos meus amigos. Não era como qualquer outro xingamento repetido a exaustão nas brincadeiras. Aquele era diferente. E era sua diferença que me tirava a reação. Eu não podia respondê-lo “à altura”, muito menos podia me desvencilhar da alcunha retornando para a casa e esquecendo tudo que aconteceu. Eu carregava o motivo do xingamento na pele; comigo. Uma criança de 11 anos, que por um simples acontecimento na “pelada do intervalo”, começou a entender melhor como “as coisas funcionavam” e, assim, a se sentir um estrangeiro perante uma determinada “comunidade”.

E sabe se lá que tipo de trauma passei, que um/a menino/a passa ao se perceber como excluído permanentemente por algo que o “marca”; que tipo de complexo e recalque a situação de estrangeiro/a é capaz de desenvolver; que tipo de atitudes reiteradas comecei a fazer para me sentir pertencido, para me afastar daquela demarcação inscrita na pele. Para me sentir igual. Para me sentir menos negro.

Na última noite, a banana e o macaco me fizeram revisitar minha infância com outras lentes, com olhos que ressaltavam como o racismo criou paranoias naquele pequeno Marcos: a autorepresentação inferiorizada (na minha cabeça, eu era “o estudante com cara de pobre”), da qual escapava todos os dias ao ser buscado por um carro do ano (ai deus se fosse “meu velho” na Saveiro antiga dele); o constrangimento balbuciante em estar ao lado dos meus pais perante meus/minhas amigos/as: a fraternidade envergonhada do pai e a mãe loira estranha que me redimia; a casa como um elemento de amostra, de poderio, que era de alguma forma incoerente em relação à visão que tinham de mim na escola (ou: “pois é, eu sou como vocês!”); o sentimento ambíguo perante um amigo que tinha o apelido de “Negrito”, pois me identificava, mas “ai bem que não era eu o apelidado daquela maneira”.

Confusões simples e “preconceituosas” da cabeça de uma criança negra em uma escola de um “bairro nobre”. Eram confusões de alguém que tentava se mover em um mundo que não lhe pertencia. De uma pessoa que loucamente tentava alcançar um falso reconhecimento, quando cada vez mais esse reconhecer se tornava contraditório e distante.

Foi a discussão sobre a possibilidade de reapropriação da palavra “macaco” que me levou ao passado, às dores que, ainda moleque, comecei a sentir de maneira recalcada, sem saber muito bem o porquê daquela sensação estranha. Situação estranha que permanece, mas agora de maneira mais “enxergável”. E é esse passado – meu, nosso, coletivo – que diz: não, não somos todos macacos. A dor que eu senti é imperdoável para ser ressignificada.

[1] sobre espaços de representação, reconhecimento e de discurso, é interessante notar as peculiaridades do racismo à brasileira. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, a discussão sobre representatividade do/a negro/a tem como base simbólica fundamental o presidente Obama, no Brasil, por outro lado, as imagens mais reproduzidas, para se falar da suposta ocupação racial de espaços de expressão, são geralmente relacionadas a esportistas (mais notadamente o caso de Pelé). Com essa relação, só se procura levantar questões sobre as especificadades do racismo em cada contexto, sem querer tecer considerações sobre qual conjuntura é mais branda. Racismo é racismo e ponto.

E é importante sempre problematizar essa ideia de representatividade, que carrega nela mesma mecanismos racistas. Primeiramente por ela poder passar uma imagem de sociedade “pós-racial” a partir de representações que fogem do fluxo comum do racismo, o qual inferioriza, controla e impede largamente o acesso de determinados grupos a instância de produção de discurso e decisão. E segundo, o próprio mal da representação: representar algo não significa que as estruturas de uma sociedade de fato estejam mudando.

Por fim, cabe esclarecer que quando falei da relação branco/a e negro/a no futebol, a consideração, em grande medida, se restringe às quatro linhas. O esporte apresenta uma série de outras estratificações que fogem ao duelo dos/as 11 contra 11, como a questão da presença de negros/as como técnicos/as, assistentes, dirigentes, comentaristas ou jornalistas.

Sobre essas considerações, agradeço as reflexões da professora Ana Flauzina, que me trouxe importantes luzes sobre algumas diferenças entre o racismo no Brasil e aquele praticado nos Estados Unidos, assim como ao amigo Luiz Carlos, que me ajudou a aprofundar a análise da problemática da representação do/a negro/a a partir do futebol.

[2] Para uma breve história da palavra “macaco” como inferiorização racista, texto do professor James Bradley, no blog do Negro Belchior: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/04/29/xingar-de-macaco-uma-pequena-historia-de-uma-ideia-racista/

*Título baseado no poema de Victoria Santa Cruz: https://www.youtube.com/watch?v=RljSb7AyPc0&list=FLkzszhbtyTTJGkHuqTyxB1A