PSOL: perdemos uma batalha, mas estamos vencendo a guerra

Congresso do PSOL
Por Edemilson Paraná
publicado originalmente em 1/12/2013 no Facebook 

Chego há pouco do 4º Congresso Nacional do PSOL. Foram dois dias de intensos debates, discussões e disputas programáticas em torno do que queremos para o nosso partido e do que queremos para o Brasil.O resultado das deliberações demonstra o nível de acirramento entre dois modelos de partido e formas de entender o que pede nossa conjuntura. De um lado o Bloco de Esquerda – do qual minha organização faz parte; de outro a Unidade Socialista (US), representada pela candidatura de Randolfe Rodrigues, que apesar de não ser a nossa opção, passa longe do que Dilma, Campos ou Aécio representam para o Brasil.Na executiva do partido? 10 a 9. No diretório nacional? 32 a 29. Na escolha do candidato a presidente? Uma maioria de apenas 51,5% sagrou a US e Randolfe vencedores. No DF? Os ventos de junho nos ajudaram a retirar a direção das mãos deste grupo e nos estabelecemos como uma alternativa jovem e de fôlego para o próximo período. Estou honrado de, como vice-presidente recém-eleito, ombrear a direção do partido em Brasília com as jovens guerreiras Juliana Selbach e Talita Victor.

Junto de Marcelo Freixo, Chico Alencar, Luciana Genro, Renato Roseno, Renato Cinco e tantos outros combatentes, lutamos até o fim pelas prévias, pela democracia, pelo debate qualificado nas bases; perdemos para uma visão centralista, burocratizante e hegemonista, que não soube exercer a responsabilidade e a maturidade que se pede de uma maioria (sobretudo uma frágil como essa), e que não demonstra, portanto, estar habilitada para os desafios que a conjuntura aponta.

Perdemos a batalha, é verdade. Mas estamos vencendo essa guerra. Somos uma partido dividido exatamente ao meio. Isso é um problema? Não, uma virtude. Diferentemente de outros partidos e instituições, não aceitamos o monismo da ordem, o estancamento das direções inquestionadas e o dirigismo de uma cúpula degenerada que submete eternamente sua base. Fazemos o bom combate, temos espaço para ele e saímos vitoriosos em muitos lugares e espaços. A correlação de forças estabelecida nesse congresso, as vitórias regionais como a nossa no DF, o crescimento do partido e seu enraizamento nas lutas, a decantação de uma linha política cada vez mais clara, à esquerda, provam que nosso potencial como instrumento de mobilização, luta e referência de massas apenas começou a se realizar, o que naturalmente não pode ser dito de outras siglas, que capitularam de vez e irreversivelmente à ordem.

Temos problemas? Limites? Muitos, mas junho mostrou que a conjuntura está a nosso favor. Seguiremos crescendo. E seguiremos porque o tempo é de insatisfação, insurgência e indignação, um tempo que pede novas formas de pensar e fazer a política, um tempo que pede um partido como o nosso: jovem, lutador, indisciplinado, respeitador da autonomia das lutas e dos movimentos sociais e, sobretudo, socialista. Dirigiremos esse instrumento, tão importante no tempo presente, nas ruas e a partir das ruas. A força de um partido se mede não por sua burocracia, mas por sua vida militante. E isso nós temos de sobra.

Não se faz política sem contradições. A arte da boa política, que sabe lidar e dialogar com o mundo real, é a arte de escolher as contradições corretas. Estou feliz de estar na pouco confortável posição de ter que escolher as contradições que escolhemos hoje: estar em um partido em que não somos maioria e aceitar a derrota de uma escolha equivocada de um candidato que não julgamos o melhor; mas estou feliz, sobretudo, por seguir em um partido que tem os melhores parlamentares do país, um dos únicos partidos políticos brasileiros que estatutariamente garante a representação de 50% de mulheres na sua direção, que é linha de frente em todas as lutas combativas desse país, que não teme em denunciar esse governo e a crueldade de nossa realidade social, e que segue em disputa, que segue em aberto, que segue dividido e instável como deve ser a verdadeira democracia transformadora: clara em relação à suas divergências, unida em relação às suas convergências.

Pelo socialismo, pela liberdade, a luta apenas começou.

Anúncios

A universidade na transformação social

Por João Telésforo Medeiros Filho

O B&D fez hoje uma visita a São Sebastião, cidade-satélite do DF. Em breve escreveremos aqui a respeito do projeto no qual estamos nos engajando por lá. Por ora, quero deixar registrada apenas a impressão fortíssima com que todos voltamos à bolha do Plano Piloto: é incrível o tanto que aprendemos com as poucas horas de diálogo que tivemos hoje com lideranças do movimento de cultura da região! E destaco que o aprendizado não veio apenas do acesso às experiências de pessoas de uma realidade que em grande medida desconhecíamos, mas às suas reflexões profundamente críticas e autocríticas a respeito delas. Aprendi mais sobre cidadania e gestão pública hoje do que lendo muitos bons livros… Sem menosprezar a importância da leitura!

A extensão tem um papel fundamental para que a universidade não siga cega aos problemas e surda aos saberes populares, e assuma seu papel na transformação social, pelo diálogo com outros atores. A esse respeito, transcrevo abaixo trecho de artigo que escrevi em 2007 sobre a experiência da ONG/Projeto de Extensão Universitários Vão à Escola, da UnB. Ele diz muito também sobre o tipo de utopia – ou heterotopia – que nos move no B&D.

realismoutopico
UnB, 2008, durante o processo de ocupação da Reitoria

A universidade tem de questionar constantemente a si mesma, examinando com independência e lucidez o saber que produz ou deixa de produzir, o papel que ocupa na sociedade, os condicionantes e efeitos de sua atuação. Sempre cabe pensar sobre as perguntas que Darcy Ribeiro fez em discurso proferido há mais de vinte anos aqui na UnB: “Universidade de Brasília, para quê? Universidade Brasília, para quem?”[1].

Para Darcy, a universidade, além de ter de ser crítica e autocrítica, teria que ser um espaço privilegiado para pensar o Brasil e formular e perseguir utopias. Mais uma vez, concordamos com ele: a universidade deve ser o lugar da utopia. Eis uma frase que soa paradoxal: como um lugar poderia ser o lugar do não-lugar?[2] A contradição, no entanto, é apenas aparente, porque “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”[3]. A idéia de universidade funda-se no compromisso com a diversidade de pontos de vista, de pensamentos, de saberes, de modos de ser e de agir. Nela, não pode haver espaço para a intolerância e para o pensamento único; devem proliferar perspectivas diferentes e opostas, que permitam o conhecimento do mundo em sua inesgotável complexidade. Por isso, a universidade é o lugar de todos os lugares, inclusive daqueles que não existem.

Trata-se de um local que aspira “a inventar um outro lugar, uma heterotopia, se não mesmo uma utopia”[4]: a universidade tem a função de imaginar, de pensar o que não existe, o não-lugar, o outro, o novo. Os grandes fins da universidade são reproduzir e criar conhecimentos; não há criação sem imaginação, por isso a universidade é local privilegiado para a formulação de utopias e para a reflexão sobre elas.

Universidade não pode ser, portanto, lugar para conformismo acrítico – freqüentemente escondido sob a capa de pretensa neutralidade ou de suposto realismo. Se a ciência tem a função de compreender a realidade, não pode se limitar a conhecer o que existe, porque a realidade abrange as possibilidades e alternativas potencialmente existentes. Caso reduzamos a realidade ao que existe, teremos uma visão já de antemão parcial, ficando desprezada uma parte importante do objeto de estudo. Edgar Morin adverte que “importa não ser realista no sentido trivial (adaptar-se ao imediato), nem irrealista no sentido trivial (subtrair-se às limitações da realidade); importa ser realista no sentido complexo: compreender a incerteza do real, saber que há algo possível ainda invisível no real”[5]. No mesmo sentido, Boaventura de Sousa Santos explica que

“[a] realidade qualquer que seja o modo como é concebida é considerada pela teoria crítica como um campo de possibilidades (…) A análise crítica do que existe assenta no pressuposto de que a existência não esgota as possibilidades da existência e que portanto há alternativas susceptíveis de superar o que é criticável no que existe. O desconforto o inconformismo ou a indignação perante o que existe suscita impulso para teorizar a sua superação”.

O desconforto, o inconformismo e a indignação perante a situação de Itapoã suscitaram em estudantes de Direito da UnB o impulso imediato não para a teorização, mas para a ação. Moveu-os um anseio utópico de transformação social e uma concomitante repulsa a discursos pretensamente transformadores, porém descolados da realidade e de ações realizadoras de mudanças concretas. Francis Bacon disse que “os filósofos elaboram leis imaginárias para comunidades imaginárias e seus discursos são como estrelas que dão pouca luz por estarem muito altas”[6]; utopias como essas não são as nossas.

A utopia que inspira o projeto Universitários Vão à Escola é de outro tipo. Encaixa-se na definição de Boaventura de Sousa Santos, segundo a qual a “utopia é, assim, o realismo desesperado de uma espera que se permite lutar pelo conteúdo da espera, não em geral mas no exacto lugar e tempo em que se encontra”[7]. A nossa utopia não está junto às estrelas altas e distantes criticadas por Bacon. Não estamos distantes de Itapoã, nem produzimos discursos superiores à realidade; não sobrepomos a ela a camisa-de-força de quaisquer teorias absolutas. Tampouco nos pretendemos a luz daquela comunidade. A UVE nasceu do chão da realidade, do chão não pavimentado que pisamos em Itapoã; a partir dele pensamos, sobre ele agimos. O projeto se faz pelo contato com essa realidade, pela relação entre os estudantes da UnB e as pessoas de Itapoã.

Esta é a importância da extensão para a universidade. Discursos, teorias e profissionais passam a se formar a partir da relação estreita com outros segmentos da sociedade. Isso não significa que na universidade não se devam desenvolver pesquisas desprovidas de aplicação prática perceptível, ou que não possam ser compartilhadas com a comunidade externa. Não se deve exigir, por exemplo, que um pesquisador deixe de estudar um assunto extremamente abstrato, de alta complexidade técnica, apenas porque não há aplicação aparente daquele conhecimento no momento, ou porque ele não pode ser compartilhado com a comunidade externa (devido à sua extrema tecnicalidade, que o torna compreensível apenas num meio acadêmico restrito). Uma exigência de tal modo absurda poria fim à autonomia da universidade, à sua singular função social de pesquisar livremente todos os campos do saber humano. A questão é outra: a centralidade da extensão decorre do fato de ela ser meio para que a universidade aplique seus conhecimentos de modo criativo para transformar a realidade social em conjunto com a comunidade externa; para que se produza novo conhecimento sobre essa intervenção; para que o estudante, o professor e o pesquisador incorporem ao seu trabalho a permanente consciência crítica sobre a função desempenhada pelo seu conhecimento na sociedade, sobre as formas como esse conhecimento é e deve ser apropriado e utilizado.

Essa é a postura que a UVE busca adotar. A nossa utopia é uma sociedade democrática em que todas as pessoas sejam plenamente cidadãs, tenham concretamente assegurados os seus direitos fundamentais. Decidimos lutar em Itapoã por essa utopia, e a arma que escolhemos foi a educação de crianças e adolescentes.

 


[1] RIBEIRO (1986, p. 9).

[2] Utopia, etimologicamente, significa não-lugar, conforme explica o Dicionário Aurélio. “Utopia: Do lat. mod. utopia < gr. o oÏ, ‘não’, + gr. tópos, ‘lugar’, + gr. -ía, (v. -ia1)”.

[3] A frase foi dita pelo professor Carlos Newton Júnior, da UFRN, em vídeo da década de 1990 sobre o projeto de extensão Trilhas Potiguares.

[4] SANTOS (2005).

[5] MORIN (2002, p. 85).

[6] BACON apud CARR.

[7] SANTOS (2005, p. 36).

Por um novo desenvolvimento e uma nova política

Por Ana Rodrigues

Recentemente o Grupo Brasil e Desenvolvimento passou por uma reavaliação das suas ações pregressas com vistas a estabelecer um cronograma de pautas para continuarmos atuando cotidianamente.

Dentro dessa perspectiva, decidimos nos empenhar em construir, por meio de um projeto ousado e inovador, uma nova política no DF que possa representar, ao mesmo tempo, os anseios sociais mais profundos da sociedade e servir de modelo para um novo desenvolvimento do Brasil.

Concordamos que as propostas, para que sejam inovadoras, devem congregar formas novas e eficientes de solucionar problemas antigos. Nesse sentido, avaliamos que um novo desenvolvimento deve estar alicerçado em pressupostos de sustentabilidade, tanto em relação ao meio ambiente como em relação aos seres humanos.

Se as demandas são sociais e a sociedade não se identifica com a representação que tem nos cargos eletivos, a base para uma nova política deve ser a ampliação da democracia e criação de instrumentos de poder popular, como as organizações civis de classe e os movimentos sociais.

Consideramos que a essência de qualquer projeto de desenvolvimento deve ser o combate à desigualdade até o momento em que não faça mais sentido colocar esse ponto em pauta. A sociedade deve ser composta de mulheres e homens livres e iguais, não só perante a lei, mas perante quaisquer instrumentos de poder.

Entendemos também que a maior parte das desigualdades são provenientes do capitalismo e que, portanto, é condição essencial para eliminá-las, combater esse sistema. Isso se torna viável ampliando os instrumentos de participação e de empoderamento da cidadania, os quais são, em última instância, fins da revolução social que desejamos.

Concordamos que há necessidade de planejamento para entrever a realidade pós-capitalismo e estruturar as próximas ações a partir daí. Dessa forma, seguiremos pensando e agindo pela mudança, essa verdadeira revolução que começa pela centelha lançada em cada cidadão. Essa é a motivação que nos move.

Solidariedade (?!)

Em um dos encontros do grupo, em que debatíamos política, alguém mencionou a palavra solidariedade. Alguns olharam meio torto, outros acenaram positivamente. Entramos, então, em uma discussão muito interessante a respeito do significado da palavra.

No dicionário Houaiss, podemos encontrar várias definições… i) laço ou ligação mútua entre duas ou muitas coisas ou pessoas, dependentes umas das outras; ii) sentimento de simpatia, ternura ou piedade pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que sofrem, pelos injustiçados etc; iii) manifestação desse sentimento, com o intuito de confortar, consolar, oferecer ajuda etc. No entanto, a primeira definição encontrada no dicionário é a seguinte: compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas. Acredito que era esse o sentido geral que estávamos querendo dar à solidariedade.

Ocorre que, ao longo dos anos, a palavra passou a ter um significado um pouco pejorativo. A solidariedade costumava (e costuma) ser associada a ações de grupos específicos, de caráter assistencialista. A solidariedade é vista, então, como caridade individual, o que nos leva, consequentemente, a pensar na incapacidade de o Estado promover políticas de proteção social.

Talvez seja o momento de resgatarmos outro conceito de solidariedade, que ultrapasse a noção de mera caridade. Esse outro significado poderia fazer com que nós nos sentíssemos mais responsáveis uns pelos outros, para que nos tornássemos mais dispostos a buscar um desenvolvimento comprometido com a justiça social.

Zygmunt Bauman, no posfácio do O mal-estar da pós-modernidade, afirma que “a política pós-moderna, voltada para a criação de uma comunidade política viável, precisa ser guiada pelo tríplice princípio de Liberdade, Diferença e Solidariedade, sendo a solidariedade a condição necessária e a contribuição coletiva essencial para o bem-estar da liberdade e diferença”.  O sociólogo polonês sustenta, ainda, que sem solidariedade nenhuma Liberdade é segura e que, sem solidariedade, a Diferença e a política de identidade que ela tende a gerar poderiam potencializar a opressão (uma discussão mais aprofundada a respeito disso fica para um próximo post!).

Para ele, no mundo pós-moderno, a Liberdade e a Diferença já têm muitos aliados, enquanto que a Solidariedade dificilmente poderia ser produzida por nossa sociedade pós-moderna sem que houvesse qualquer intervenção política.

Parece-me que Bauman insiste nessa inclusão da Solidariedade como princípio político para acrescentar um novo elemento que seja capaz de diluir um pouco o individualismo exacerbado que vislumbramos em nossa sociedade atual. Por isso, a busca desse significado de solidariedade, que nos faça sentir mais responsáveis uns pelos outros, se faz tão relevante e necessária.

Retirantes - Portinari

Retirantes - Portinari