Quem anda pra trás é caranguejo: frente ao retrocesso, um voto contra Aécio Neves

As eleições de 2014 demonstraram um gigantesco avanço do conservadorismo e do fundamentalismo nas instituições representativas. Se o horário eleitoral parecia uma disputa sobre quem conseguiria atacar mais os direitos LGBTs através da defesa vazia de um projeto de família os resultados apontam para uma realidade em que a violação aos direitos humanos e o punitivismo – junto ao investimento dos setores do poder econômico – ainda são o que ganha voto.

Esse fortalecimento dos segmentos mais atrasados da política brasileira é um processo amplo e complexo que precisa ser avaliado com cautela e duramente combatido. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) temos eleito agora o Congresso mais conservador desde 1964. Sim, 1964! Cresceu a bancada fundamentalista, que é fiel escudeira da bancada ruralista, ambas impulsionadas pelo que chamam agora de “bancada da bala”, conformada pela lógica da militarização da vida, pelos senhores da punição, da redução da maioridade penal, da criminalização dos movimentos sociais, da manutenção da política de genocídio da juventude negra.

O processo de ascenso das forças conservadoras está umbilicalmente aliado as concessões promovidas pelos últimos anos de governabilidade petista como também pela forma de atuação de sua oposição de direita, berço do patrimonialismo e do coronelismo no Brasil. Através de um programa reacionário, a direita apresentou uma alternativa muito concreta para a população, tendo sido legitimada e apoiada tanto pelo projeto de poder petista quanto por Marina e Aécio. As principais lideranças conservadoras foram eleitas na base aliada da atual gestão e o fato é que Dilma e o PT correm o risco de serem derrotados pelas concessões e pelos setores que ajudaram a fortalecer na política brasileira. Foi neste contexto que o PSOL apresentou a candidatura de Luciana Genro que aproveitou muito bem esta disputa para denunciar os limites do debate presidencial e da própria lógica do sistema político, apresentando uma nova alternativa de esquerda para o Brasil.

Neste cenário dramático no segundo turno, em que disputam a eleição dois projetos políticos limitados a lógica do mercado, do latifúndio, das alianças e do fundamentalismo, sabemos que ocorrerá pouco debate real de ideias. O que veremos é muita retórica e demagogia, o poder da mídia corporativa e o impacto das grandes estratégias de comunicação.

Mas o que fazer? O desafio deste segundo turno é derrotar um projeto social mais conservador, aliado aos fundamentalistas religiosos e àqueles que querem criminalizar a juventude. Com os dados assustadores apontando a eleição de setores de ultradireita no congresso nacional e nas assembleias legislativas temos a missão de derrotar Aécio Neves do PSDB e seu campo político que representa no âmbito do segundo turno a consolidação de um projeto de poder reacionário, cujo foco de atuação é a ameaça à cidadania dos setores sociais historicamente excluídos da agenda política institucional. Isto não significa que o projeto apresentado por Dilma e Michel Temer seja alternativa voltada ao avanço real do país – mas que a candidatura tucana representa um real retrocesso.

Nós fizemos muito barulho através de uma candidatura negra, gay e intersecional, que pautou o enfrentamento à lógica fundamentalista que insiste em se fortalecer e obtivemos mais de 6200 votos em uma dinâmica de campanha inovadora, sem dinheiro de empresa, construída de forma colaborativa e coerente. Nos pautamos pelo debate aberto e pela necessidade de se tomar lado, por isso o resultado da nossa votação nos traz esperança, pois demonstra que há muito espaço para a novidade, para os direitos humanos e para a resistência.

Nesta eleição daremos um voto crítico e sem entusiasmo na candidatura de Dilma, com o objetivo de enfrentar o retrocesso econômico, político e social que pode representar uma vitória tucana. Mas o que a conjuntura nos mostra é que, acima de tudo, precisamos seguir firmes na defesa das nossas pautas, sem medo de fazer barulho, de incomodar a zona de conforto de qualquer que seja o Governo.

Não esperamos nenhuma mudança estrutural vinda das casas de representação política, por isso a nossa aposta é a rua, o espaço público como meio para a disputa real de ideias rumo às transformações que nosso país necessita.

Movimento “O barulho dessa cidade é a nossa voz!”

Por que votarei nulo para o GDF no 2º turno

Rollemberg Pitiman

Pitiman, candidato do PSDB ao governo, agora está com Rollemberg. As credenciais do novo aliado: foi Presidente da Novacap no governo Arruda e Secretário de Obras do governo Agnelo, sempre por indicação de Filippelli (PMDB).

Mesmo com suas alianças clientelistas, inclusive com partidos e figurões egressos do rorizismo e arrudismo; mesmo com o PSB tendo participado das gestões Arruda e Agnelo; mesmo com o comprometimento do partido e de seu candidato com os interesses da “alta burguesia da cidade”, que não nos permite ter ilusão de que seu governo será instrumento para implementar outra lógica urbana e de serviços públicos; mesmo com o seu apoio à candidatura presidencial de Aécio Neves; mesmo com o não compromisso com as lutas em defesa dos direitos humanos, do combate às opressões, e a reprodução das velhas alianças com os setores conservadores nestes temas… Mesmo com todas essas características da candidatura Rollemberg, muita gente ainda está em dúvida sobre anular o voto ou votar nele, para evitar o “mal maior” que seria Frejat.

Eu não sou contra, em abstrato, voto útil, voto crítico, voto para evitar retrocessos, para escolher o adversário menos ruim contra quem lutaremos, etc. Porém, chega um ponto em que as duas alternativas são tão ruins, tão profundamente comprometidas com os adversários do nosso projeto de cidade e de sociedade – em defesa da igualdade social, da liberdade política e da diversidade humana e biológica -, que perde o sentido ficar escolhendo uma entre as duas, por mais que uma delas eventualmente consiga mesmo ser pior ainda que a outra. É o caso do RJ, na disputa entre Pezão, o vice sucessor de Cabral, e o Bispo Crivella, da Igreja Universal. Não vejo sentido escolher uma entre as duas candidaturas, ambas conservadoras no essencial.E é o caso aqui no DF também. Ao ver o comecinho do programa eleitoral de Rollemberg na TV, hoje, convenci-me de vez do voto nulo.

A propaganda do candidato do PSB começou com uma pessoa “explicando” que não há recursos para custear a redução da tarifa para R$ 1,00 (uma “promessa” recém lançada por Frejat, o candidato de Arruda). Porque mesmo se usada toda a verba do IPVA, ainda faltariam R$ 88 milhões; porque seria necessário retirar recursos da saúde, educação, etc; porque, enfim, o governo terminaria aumentando impostos como IPTU e outros, o que seria um horror…

Há quatro grandes problemas aí. O primeiro é que apresenta uma visão tecnocrática engessada de orçamento. Junho mostrou que é possível encontrar dinheiro para reduzir tarifa quando se dá prioridade política a isso. A questão contábil de discutir se a arrecadação do IPVA é ou não suficiente para isso não é o ponto aqui, porque a crítica da propaganda não se concentrou nisso (poderia ter feito, para defender que o recurso poderia e deveria sair de outro lugar, por exemplo), mas simplesmente apresentou como “impossível” a redução proposta pelo outro candidato para o ano que vem. Mistificação tecnocrática. Discurso parecido com a resposta inicial dos governantes em junho. Até que o “impossível” tenha se tornado necessário, pois o poder instituído não pôde resistir à pressão das ruas.

O segundo problema é que a propaganda passou a ideia mentirosa – também transmitida por gente como Alckmin após a redução das tarifas no ano passado – de que, caso se pretenda reduzir a tarifa do transporte público, seria necessário tirar dinheiro da saúde, educação, etc. É uma mentira que esconde inúmeros gastos contemplados nos orçamentos públicos. Quanto o GDF gasta com publicidade? (Levantei isso em 2010 e era assustador, aposto que ainda é e continuará sendo no próximo governo, seja de quem for). Quanto gasta com as diversas formas de favorecimento aos lucros dos grandes empresários? E mais: quanto gasta com o próprio subsídio aos lucros dos empresários dos transportes? É possível reduzir a tarifa pressionando as empresas a reduzirem seus lucros, e não simplesmente pelo aumento do gasto público. Aliás, é possível e necessário pôr fim à exploração de serviços públicos visando ao lucro. Todo o investimento da população (via impostos ou pagando a passagem) deve ser revertido em melhoria dos serviços de transporte, e não para enriquecer meia dúzia de empresários do setor.

O terceiro e gravíssimo problema é a propaganda de que todo aumento de impostos, inclusive para financiar serviços públicos de qualidade e universais seria ruim. Não! Depende: sobre quem recairão esses impostos e para onde irá a verba? Se for para aumentar impostos sobre o “1%” mais rico para financiar direitos sociais (como mobilidade, saúde e outros) e uma cidade melhor para todos/as, então seja bem-vindo o aumento dos impostos sobre o capital e as grandes fortunas!

O quarto problema: ao invés de denunciar os vínculos de Frejat com os “donos da cidade”, e tudo que isso implica, a campanha do PSB opta por se colocar contra uma das únicas propostas do adversário cuja execução implicaria melhora real na vida do povo, e que é uma resposta – mesmo que incoerente e oportunista – às demandas de Junho e das lutas dos últimos anos pelo direito à cidade. Quer desconstruir o discurso de Frejat? Que tal desconstruir o seu discurso violento sobre segurança pública? Bom, não dá pra esperar isso de alguém que apoia Aécio e tem Reguffe (um defensor da redução da maioridade penal) como um de seus principais aliados…  Ideologia do punitivismo penal, a gente vê por aqui também…

No segundo turno, para o GDF, votarei nulo, com toda convicção.

 

Leia também, aqui no blog: Cristovam Buarque, o novo tucano.

Superar a capitulação da esquerda

Precisamos pensar a capitulação de Marina, que dá mais um passo em trajetória rumo à direita iniciada há anos, para muito além do Fla-Flu eleitoral. É necessário pensar mais uma vez também a capitulação do PT, ou de grande parte do partido, assim como do PSB, PCdoB e tantas outras forças. Para evitar que essa tragédia se reproduza como destino da nossa geração de militantes sociais com horizontes anticapitalistas e altermundialistas, é indispensável buscarmos a reflexão mais profunda sobre a cadeia de fatores que tem conduzido a esse beco sem saída diante da ordem estabelecida.

A aposta prioritária ou quase cega na disputa do Estado, em especial na via eleitoral, como principal e quase exclusiva forma de intervenção e transformação da realidade certamente é um desses fatores. E isso caracterizou fortemente a trajetória tanto do PT quanto de Marina nos últimos anos, não interessa o quanto façam discursos de apologia aos movimentos sociais ou às redes de ativismo social.

Não temos direito de reproduzir esse erro. E isso obviamente é um desafio muito maior para quem, como nós do PSOL, interpreta que continua sendo importante participar da disputa eleitoral na atual conjuntura, ainda que de forma não prioritária, e sim subordinada à construção do poder popular. Passar da “boa intenção” à coerência da práxis concreta neste assunto, como em tantos outros, é que são elas…

Outro fator que acho importante é a necessidade de retomarmos, na luta política cotidiana, a inquietação de compreensão profunda e atual da realidade, e, com ela, a apropriação e reconstrução de ferramentas teóricas necessárias para tanto. O espontaneísmo e postura anti-teoria de muitos/as militantes sociais da nossa geração não são novos, tal como diagnostica Paulo Arantes, que enxerga nesse achatamento da reflexão e do horizonte mais uma forma da capitulação à ordem, ainda que em nome de um discurso de emergência (que termina por “enxugar gelo” sem atacar o fundo das questões).

Como diz Bruno Cava Rodrigues (no rastro de muita gente mais), não são “a humanidade” ou “a sociedade” que produzem a hecatombe social, política e ambiental dos nossos tempos. É uma determinada forma de produção da vida social, que tem nome: chama-se capitalismo.

Se tentativas de superação do sistema do capital fracassaram nesse intento, ao longo do último século, isso não é razão para não seguir tentando. Um século é muito pouco na escala da história global. Outro mundo é possível, sim, porque a organização social da nossa vida não é um dado, ela é dotada de grande plasticidade, é um artefato social produzido historicamente e que podemos reconstruir, aliando grandes doses de imaginação e de rebeldia.

E tem mais: segundo enuncia Eduardo Viveiros de Castro, não precisamos apenas imaginar utopias, lugares não-existentes para inspirar essa luta construtiva “rumo ao futuro”. Podemos e devemos nutrir heterotopias, aprender com as experiências alternativas existentes de organização da sociedade, de outros mundos sociais efetivos hoje, como os de povos indígenas, notadamente. Outros mundos são possíveis e já existem no presente, resistindo à força homogeneizadora do capital, destrutiva da diversidade de formas de produção da vida social, cultural, econômica, de organização (e desorganização) do poder.

É preciso que voltemos a nos munir das armas da crítica radical, forjando a quente, a partir das lutas, a atualização das leituras do capitalismo global e de sua conformação no lugar onde lutamos (América Latina, Brasil, cidade, etc), bem como das estratégias para sua suplantação.

“As ferramentas do mestre nunca desmantelarão a sua casa. Elas no máximo nos permitirão derrotá-lo temporariamente em seu próprio jogo, mas nunca nos tornarão capazes de promover mudança genuína”. (Audre Lorde).

Não é sobre Safatle, não é sobre o PSOL. O que aconteceu com uma das candidaturas mais promissoras da esquerda radical em 2014?

Safatle

Breve descrição dos acontecimentos sob a ótica de quem participou das negociações

Sou Edemilson Paraná, vice-presidente do PSOL-DF, integrante de uma organização local denominada ELA – Esquerda Libertária Anticapitalista. Não temos militantes em São Paulo. Não disputamos, dessa forma, nenhum espaço em sua estrutura burocrático-administrativa. Nossa organização, no entanto, tem um diálogo político com Vladimir Safatle que data já de antes de ambos termos entrado no partido (nós em abril de 2013, ele em agosto do mesmo ano). Em mais de uma ocasião, realizamos atividades com Vladimir em Brasília para discutir os rumos da esquerda socialista no Brasil.

Por conta dessa relação, que aos poucos se tornou mais próxima, ancorada num profundo acordo no plano das ideias, comemoramos sua filiação no PSOL e a notícia de que seria candidato a governador em um dos Estados mais importantes da Federação. Era a chance de vermos essas ideias representadas em mais um importante front de lutas. Achamos que a entrada de um intelectual da escala de Vladimir é um indício do próprio fortalecimento e crescimento do PSOL no último período, em sua relevância política e social, parte que é da mesma conjuntura que impulsionou nossa opção pela filiação no partido como uma alternativa diante do atoleiro histórico (estético, simbólico, de valores e ideias) em se que se enfiou o PT.

Dessa forma, entramos no circuito dessa discussão, para ajudar a resolver a crise lá instalada, imbuídos unicamente do senso de responsabilidade política e histórica em defender tais ideias e o processo que seu enraizamento, mediante luta política e construção cotidiana do poder popular conjuntamente de várias setores e movimentos do Estado, poderiam ajudar a conformar em São Paulo e em todo o Brasil um novo ambiente político. Achamos que essa candidatura é boa para o PSOL e para todo o debate político brasileiro, não só em São Paulo. Dito isso, narro o que presenciamos. 

Certo dia recebo, por alguns companheiros presentes em uma reunião da executiva do PSOL-DF, a informação de que Vladimir havia desistido da candidatura. Duvidando da solidez da informação, entro em contato com o mesmo para verificar a informação. De fato, a história não era exatamente essa. Ali começava, mesmo que ainda não soubéssemos bem ao certo a razão, a operação de não-viabilização de sua campanha.

É que em uma reunião com a direção do partido, que acabara de acontecer, Vladimir praticamente foi abandonado à própria sorte: informado de que não contava com nenhum recurso e nenhuma estrutura para realizar sua campanha, nem mesmo uma previsão de equipe militante. Zero. Nada. Poucos quadros políticos, sobretudo alguém recém-ingresso na vida partidária, não integrante de nenhuma corrente política e, portanto, pouco ambientado com as adversidades da disputa interna levaria a empreitada de ser candidato a governador adiante em tal contexto. Estava evidente, no entanto, que as coisas não eram bem assim, que nenhuma candidatura à governador é abandonada, dessa forma, à própria sorte, sem a viabilização de absolutamente nada e, se assim o fosse, esse fato deveria, no mínimo, ter sido comunicado com antecedência, quando Vladimir foi convidado a ser candidato pelo partido, ainda em 2013. Longe de apenas refletir o quadro de carestia de um partido político militante e coerente com seus princípios, que não aceita doações de empresários e donos do poder – algo que confere com a realidade, era patente o esvaziamento político que a manobra denunciava.

No dia seguinte, após conversas com outros companheiros, Vladimir manifestou legitimamente que seguiria candidato desde que conseguíssemos viabilizar algumas condições políticas e de infra-estrutura mínimas que, de saída, fossem capazes de ao menos colocar a campanha na rua. A questão, concordamos, se tratava apenas de calibrá-las de diante de nossas possibilidades. Sabíamos que com algum trabalho, militância e dedicação era possível obter as tais condições de partida que, nesse caso, estavam longe de serem absurdas. A isso seguiu nossa luta, com algum sucesso, não sem a colaboração do próprio Vladimir, para obtê-las de comum acordo com todos os setores do partido. 

Pressionando por um desfecho rápido, a direção do partido, comandada pelo mesmo grupo que tentaria praticamente demovê-lo da empreitada na primeira das reuniões, produziu de modo apressado uma nota que anunciava a desistência da candidatura diante da não obtenção das referidas condições. A nota, de caráter interno, e dirigida à militância, dava pé das razões para a referida desistência, não sem apresentar de modo irresponsável um suposto comportamento individualista da parte de Safatle. O professor, por sua vez, de modo a não aprofundar o tensionamento interno e preservar o partido, evitou manifestar contrariedade ao teor do texto. Enquanto isso, seguimos trabalhando pela obtenção das condições que um dos setores do partido se negava, de fato, com algumas exceções, ao empenho de buscar. Vladimir seguiu afirmando para todos os setores e seus dirigentes, de modo bastante claro durante as negociações, de que seguia candidato se as condições fossem obtidas, algo que àquele momento estavam próximas de serem obtidas.

Depois de quase uma semana de trabalho, conversas e negociações, conseguimos obter as referidas condições. O PSTU, irmanado no propósito de compor uma frente de esquerda, se dispôs a ajudar (ainda que até àquele momento sequer tivesse sido procurado pelo setor do partido que alegava a total falta de possibilidade para obter as referidas condições), além de outros simpatizantes da campanha e quadros políticos. Nada de substancial, mas o suficiente. Obtidas as condições, na verdade algo próximo delas, Vladimir voltou a afirmar para todos os agrupamentos do partido sua disposição, amplamente conhecida àquela altura, de ser candidato. 

Mas já era tarde. A “política do fato consumado” já havia sido ligada, e a direção do PSOL-SP, conduzida a mão de ferro pela corrente política do deputado federal Ivan Valente, já havia decidido que a candidatura Safatle não era de seu interesse. Em seu lugar, seria colocado Gilberto Maringoni, ligado à Unidade Socialista, o referido grupo de Ivan, Paulo Búfalo e outros. Por trás da decisão estava a indisposição para aliança com o PSTU, pleiteada por Safatle e setores da esquerda do partido, que exigiria reconfiguração da disposição do tempo de TV e algumas outras condições, além do temor diante da ameaça que a candidatura e as ideias de Safatle poderiam representar ao equilíbrio de forças interno, que garantia sua apertada maioria no diretório estadual. O velho pacto de mediocridade da burocracia: manter o controle do partido, nem que às custas da inviabilização de um importante processo político e do próprio crescimento quantitativo, mas sobretudo qualitativo, da legenda.

Surpreendidos com a rápida obtenção das condições que hora imaginaram que não conseguiríamos por nossa própria sorte e sem sua ajuda, que viabilizava política e materialmente a manutenção da candidatura Safatle, a Unidade Socialista deu um passo além em sua política de boicote: o tesoureiro do partido ligou para umas das pessoas que havia se disposto a contribuir com a campanha de Safatle pedindo ajuda financeira, vejam só!, para outro candidato: Gilberto Maringoni. O objetivo de implodir a candidatura de Safatle não poderia estar mais claro. Depois desse acontecimento, e prevendo outros ataques, Safatle sentiu-se no dever de soltar uma nota própria, também de caráter interno, explicando os problemas e reafirmando sua disposição de ser candidato. Com tudo esclarecido, o diretório, que iria se reunir no dia seguinte, o fatídico domingo, poderia tomar a decisão sem grandes polêmicas ou dificuldades.

Mesmo diante deste ataque aberto, acreditávamos em uma recomposição que fosse capaz de, unitariamente, superar as disputas e problemas de comunicação em nome da nomeação conjunta e coletiva de Safatle. Não havia nada que impedia isso, afinal. Tudo estava garantido. As condições haviam sido obtidas, e Safatle havia manifestado reiteradas vezes sua disposição diante delas, algo que era de conhecimento de todos os dirigentes ali presentes. A ideia era compor uma comissão que, na segunda-feira, batesse o martelo conjuntamente com nosso candidato a governador.

Mas a Unidade Socialista de Ivan Valente e Paulo Búfalo, amparada numa apertada maioria estava empenhada a levar, de modo grosseiro, a disputa até as últimas consequências, e ancorados na informação inverídica de que Safatle havia desistido do pleito, que seguiram afirmando mesmo diante do conhecimento de sua afirmativa, colocaram em votação, não sem protesto e deslegitimação aberta por parte de um número significativo integrantes do diretório, a aprovação da candidatura Maringoni. Sim, amigos, a máquina burocrático-administrativa havia sido ligada mais uma vez para submeter a vida militante do partido em nome do controle do pequeno poder local como um fim em si mesmo. O tragicômico repetir da velha manobra por todos nós conhecida em manuais e tratados de história política. Desde então, seguiu-se o lamentável que temos visto na imprensa e que motiva mais este texto de esclarecimento: notas, declarações, entrevistas e acusações trocadas.

Safatle, ao contrário do que se diz, agiu de modo altivo, paciente e comprometido. Seu único erro foi confiar em demasia na burocracia do partido em seu Estado.

E agora? Ou por que essa crise não é apenas sobre a candidatura Safatle

No seguinte texto (publicado aqui), descrevo porque as diferenças entre Maringoni e Safatle não se dão meramente entre indivíduos ou agrupamentos/correntes políticas, mas entre posições distintas em um importante debate estratégico: de concepções sobre quais rumos deve seguir o PSOL em seu objetivo de reconstrução da esquerda brasileira a partir do esgotamento estrutural (ou não, a depender da visão diferente de cada um deles nesse particular) do ciclo político petista, iniciado na década de 80. E aqui, leituras diferentes sobre o que representam as jornadas de junho, qual a dimensão e o significado da revolta social que hora toma o país, e mesmo do que é feito e como deve funcionar um partido como o PSOL diante desse cenário estão implícitas. A militância sabe disso e se levanta pelo nome de Safatle de modo ainda mais apaixonado do que pudemos imaginar. A direção burocrática do partido também sabe disso e por isso leva o nome de Maringoni até as ultimas conseqüências de modo muito mais truculento do que fomos capazes de conceber.

Não entrarei no mérito a respeito de quem é Gilberto Maringoni com quem divirjo a respeito da leitura do momento político em que vivemos dentro e fora do PSOL. Respeito e admiro sua história coerente de luta política e construção partidária, sua militância e compromisso, e justamente por isso, acho equivocado o papel a que ele tem se prestado neste momento. Maringoni é um quadro bastante experiente e sabe exatamente com o que está lidando e, portanto, que tarefa está cumprindo neste contexto. Como reitero, o debate aqui, no entanto, não é sobre Maringoni ou Safatle (já que ambos, como militantes, merecem nossa estima) mas sobre qual deve ser o papel do PSOL na reconstrução da esquerda e qual deve ser o seu lugar no cenário político brasileiro. E com base nessa leitura, é no mínimo um grande desperdício prescindir de uma das que figurava entre as candidatura mais promissoras da esquerda radical em 2014.

Não aceitaremos que lideranças burocráticas, instaladas na máquina partidária da esquerda radical atuem como se o partido fosse uma verdadeira capitania, administrada à mão de ferro, em nome de um pacto de mediocridade ancorado no curto-prazismo da obtenção e manutenção de mandatos parlamentares.

E tampouco encontra amparo na realidade a versão de que Safatle ou outros setores do partido, com tal negativa, não respeitam decisões coletivas. Só confunde, de modo interessado ou não, decisão coletiva com decisão burocrática quem não aprendeu com os erros da história. 

Por mais que disputas como as de São Paulo sejam desanimadoras para nossa aguerrida militância, não devemos sequer cogitar prescindir dessa luta política. Há todo um mundo para ser transformado. Tudo somado, o PSOL ainda é um partido em disputa, com um equilíbrio sempre tênue e cambiável, um instrumento importantíssimo para construirmos as mudanças necessárias. Mesmos nossos acordos mínimos, fruto de duros embates, estão muito além do pavoroso cenário de transformismo e capitulação de outros partidos, que cada dia menos ousam se autodenominar de esquerda. A duras penas, é verdade,  o PSOL segue sendo um espaço plural de recomposição política da esquerda brasileira. Cabe a nós seguir lutando de modo incansável para aprofundar ainda mais essa sua condição.