Direitos autorais e a nova acumulação primitiva

Quem leu as declarações da Ministra Ana de Holanda dadas ontem na Feira Internacional do Livro de Bogotá pode até estar indignado, mas certamente não está surpreso. Desde o início de sua gestão, a Ministra parceira do ECAD demonstrou de forma inequívoca seu alinhamento com a lógica de mercado para a cultura – retirou o selo Creative Commons do sítio do MinC, acabou com os Pontos de Cultura e puxou o freio de mão em relação à reforma da Lei de Direitos Autorais que se encaminhava nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Agora, mais uma vez, Ana de Holanda mostra a que veio:

“O tema está sendo polêmico no mundo inteiro, não só em meu país”, explicou a ministra, que se mostrou preocupada com a forma como “está sendo levada a discussão sobre como divulgar a cultura através da internet”.

Precisamos, contudo, entender a amplitude do debate sobre os direitos autorais. Mais do que um problema jurídico complexo, o que está em jogo nesta questão é a propriedade sobre o imaterial, ou seja, a própria forma de organizar a sociedade e seu modo de produção de bens e valores.

De um lado, um modelo que privilegia a separação da produção social em lotes e mercadorias, com preço, devidamente quantificadas pelo dinheiro, exploradas oligopólica e sistematicamente por grandes conglomerados e empresas. É o discurso “cultura & mercado”, pra quem a economia da cultura constitui um “setor” e seus trabalhadores uma “classe”, encabeçados pela superior “classe artística”. Estratégia que induz a escassez para vender a monocultura.

Esse discurso amolda-se a uma nova matriz do capitalismo global, — concomitante às matrizes industrial e agrário-feudal, ainda incidentes — baseado na exploração do trabalho imaterial e na captura da produtividade difusa, característica das redes sociais (online ou não).

Trata-se da reedição de uma forma jurídica desenvolvida na baixa idade média, a propriedade privada, sob nova roupagem e nova direção. Mutatis mutandis, assim como o estado e o direito estatal foram os principais catalisadores para a cultura proprietária, primeiro européia, depois planetária — quer na sua salvaguarda quase sagrada, quer na exploração do trabalho combinado social — atualmente, a propriedade sobre o imaterial passa pelo mesmo processo de formalização jurídica e repressão estatal.

Isso porque, conforme Marx, a conversão do dinheiro em capital e a extração de mais-valor pressupõem a concentração quantitativa de meios, recursos e força de trabalho, nas mãos de quem comanda o processo de produção, bem como a construção de um aparato político-jurídico que sustente o conjunto. Para tanto, é necessário que, em dado momento, essa convergência de capital e força de trabalho nas mãos de poucos capitalistas aconteça.

É o que Marx chama de “acumulação primitiva”: a separação do trabalhador das condições materiais para produzir. O filósofo procura demonstrar que não foi uma transição pacífica, mas um desapossamento sistemático. Isto induziu uma situação de precariedade, onde a população vadia se via constrangida a vender-se a si próprio, — a sua capacidade produtiva, — como mercadoria, ou seja, ingressar na relação social entre o capital que comanda e o trabalho subordinado.

Bem ao contrário, os trabalhadores que se libertaram da servidão e da coerção corporativa tornaram-se comerciantes de si mesmos: “depois que lhes roubaram todos os seus meios de produção e os privaram de todas as garantias que as velhas instituições feudais asseguravam à sua existência”, num violento processo expropriatório.

Pode-se perceber, então, que a acumulação primitiva tem lugar no momento de transformação da exploração feudal em exploração capitalista e se desdobra em diversos processos sociais opressivos e desiguais. Massas humanas foram súbita e violentamente lançadas no mercado de trabalho, numa enxurrada de proletários privados de seus meios de subsistência.

A classe dominante emergente, então, forja os meios necessários para coagir a fração    majoritária a uma situação de inferioridade estratégica, onde as relações de poder mediadas pelo estado passam a exercer o papel de controle social. Atualmente, do mesmo modo que o direito foi posto pra consolidar gigantescas propriedades agrárias ou industriais, — latifúndios ou cartéis fabris internacionais, — agora se tenta instaurar uma nova Lex mercatoria, de dimensões civis e penais, capaz de assegurar o funcionamento do capitalismo contemporâneo, sua divisão excludente do trabalho e seu regime desigual de acumulação de bens e riquezas.

Como defendia o jurista da revolução russa, Eugênio Pashukanis, não adianta simplesmente ocupar as instâncias estatais para conferir-lhes um sentido libertador. Faz-se necessário desarticular as próprias estratégias de mercantilização e privatização, intrínsecas ao direito vigente, que precisam das categorias, formas e institutos estatais.

Neste sentido, imprescindível restar claro que a disputa não é pelo conteúdo das leis que regularão a propriedade imaterial; ao contrário, a luta é pelo questionamento do próprio tratamento legislativo-jurídica da propriedade imaterial, em nome de sua proteção e lucratividade. Afinal, a crítica deve recair especialmente na forma (no sentido dialético emprestado por Marx, como momento qualificado do processo dinâmico de contradições internas) da regulação legal, para além dos conteúdos das leis.

Daí a importância de investir no outro lado desse jogo antagonístico e de constituir uma democracia fora dos critérios e parâmetros viciados da representação moderna, asfixiada, entre uma direita fascistizante e uma esquerda desenvolvimentista. Uma resposta estaria em apostar no menos pior entre os mundos da representação. Outra, mais radical, mais pashukaniana, pode ser considerar as duas piores, e apostar noutro modo de produzir e viver a liberdade.

Não é mais possível, hoje, acatar passivamente um discurso insultante que adjetiva milhões de internautas como criminosos. Por terem a audácia de compartilhar livremente o saber socialmente produzido, por nutrirem a utopia de viver num mundo em que não se precise de mediações entre os valores e os produtores de valores.

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Homicídios e Prisão: a velha receita da repressão

Por Mayra Cotta

No jornal O Globo de hoje, a reportagem “Número de homicídios aumentou em estados com menos presos” cruzou os dados do Mapa da Violência 2012Imagem com os dados do Infopen para concluir que, nos estados onde o número de presos por homicídio está abaixo da média nacional, as ocorrências de homicídios aumentaram. Por outro lado, os estados com os maiores números de presos por este crime assistiram a uma queda de suas taxas de homicídio. A conclusão – precipitada e mal construída – é que, trocando em miúdos, prender ajuda a resolver o problema. Um especialista chega a afirmar que “o estado que aprisiona pouco tende a ser fomentador de impunidade e isso alimenta a violência”.

De acordo com o Mapa da Violência 2012, a partir de 2003, o Brasil verifica uma quebra histórica na tendência de aumento dos homicídios no país, mas é preciso estar atento: a queda expressiva ocorre entre a população branca, enquanto, entre a população negra, o número de ocorrências aumenta. De acordo com os dados apresentados, o número de vítimas brancas caiu de 18.852 para 13.668, o que representa uma queda da ordem de 27,5%. Já entre os negros, o número de vítimas de homicídio aumentou de 26.952 para 33.264, equivalente a um crescimento de 23,4%. Reduzimos, portanto, os homicídios, mas às custas do sacrifício da população negra.

Pensar, então, que o problema é o baixo número de pessoas presas pelo crime de homicídio é simplificar a tal ponto a questão, deixando de considerar relevantes aspectos, que nada mais resta a não ser mesmo a (má)fé nos presídios. Pela lógica da reportagem, a prisão permite que se tire de circulação assassinos, que provavelmente continuariam matando se mantidos em liberdade, o que, por conseqüência, faz reduzir o número de homicídios. Não considera, contudo, que uma parte deste tipo de crime é decorrente de conflitos pessoais entre autor e vítima, motivados por brigas domésticas e discussões que tomam proporções cruéis.

Também não leva em conta a responsabilidade policial neste número de homicídios. Se O Globo fizesse o cruzamento de mais alguns dados, verificaria que a população vitimizada pelo crescente número de homicídios é a mesma vitimizada pela expansão da população carcerária – hoje, temos 1 branco para cada 11 negros nos presídios brasileiros. Juntando estes dados com as denúncias sobre a atuação policial na repressão do crime, em especial na guerra ao tráfico, que conta com a aceitação da execução sumária, percebemos que a ligação entre redução de homicídios e aumento de presos reflete apenas uma pequena mudança na gestão da pobreza: parte daqueles que antes eram exterminados sumariamente pela polícia, hoje são trancados e esquecidos no cárcere. Com a população negra alimentando o número de presos por homicídio e o número de vítimas deste crime, percebe-se que o assassinato é uma maneira eficaz de controle violento e repressivo dos negros.

Importante também considerar a complexidade do crime de homicídio, que pode acontecer em contextos sociais diversos. Para um crime passional, a repressão pouco adianta, mostrando-se mais eficazes medidas no sentido de retirar de circulação armas de fogo e de identificação de condutas de risco para sua prevenção (por exemplo, acompanhamento psicossocial de dependentes químicos ou alcoólatras que se mostrem violentos durante os períodos de uso das substâncias). Da mesma forma, o homicídio de mulheres em situação de violência doméstica deve ser enfrentado a partir da construção de redes efetivas de apoio e proteção à Mulher – que até podem contar com a prisão temporária do homem que represente de fato uma ameaça, mas não podem se basear na possibilidade de encarceramento perpétuo. Ainda, os homicídios que ocorrem no contexto do tráfico de drogas mostram-se quase inevitáveis na lógica de guerra instaurada.

Defender, portanto, que é prendendo mais que o problema será resolvido, se não for muita ingenuidade, flerta com o mau-caratismo. Em geral, os homicídios representam desdobramentos de questões sociais bastante complexas, que, estas sim, devem ser enfrentadas. É preciso saber por que os homicídios ocorrem, quem os pratica e em qual contexto estão inseridos. Enquanto se considerar que a “impunidade” é o problema a ser resolvido, continuaremos ignorando graves problemas, como a circulação de armas de fogo, a violência doméstica e a insanidade da guerra ao tráfico. Continuaremos utilizando o homicídio como estratégia de gestão da pobreza, a partir do controle repressivo da população negra.

Pela legalização do aborto!

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Por Mayra Cotta

Aproveitando o clima da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres e da 14ª Conferência Nacional de Saúde, que agitaram Brasília neste mês, fundamental discutir uma das pautas mais caras aos movimentos feministas e às mulheres no Brasil: a legalização do aborto. Este debate, muitas vezes, é reduzido às disputas entre aqueles que defendem o direito de escolha da mulher e os que sustentam o direito à vida do nascituro. O embate entre os pólos, contudo, acaba delimitando a discussão em terreno pouco propício a qualquer tipo de diálogo ou avanços no tema.

No Brasil, em diversas oportunidades, desde 2002, os Poderes Legislativo e Executivo articularam-se – sem êxito – na tentativa de descriminalização do aborto. Em dezembro de 2004, foi assinado pelo Governo, representado no ato pela Ministra Nilcéa Freire, o “Plano Nacional de Políticas para as Mulheres”, que trazia como prioridade a formulação da Legislação do Aborto no Brasil, retirando o tema do âmbito penal. Em abril de 2006, durante o 13º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores, foram traçadas e aprovadas as “Diretrizes Para a Elaboração do Programa de Governo”, que trazia o compromisso do Governo Federal com a agenda legislativa de descriminalização do aborto. Na campanha presidencial de 2010, contudo, o tema ocupou lugar de destaque nos debates e a pressão dos movimentos religiosos acabou forçando o recuo do governo de sua histórica posição pela descriminalização do aborto e sua regulamentação no Sistema Único de Saúde.

Não é fácil discutir o aborto. De maneira geral, as pessoas têm opinião formada sobre o assunto e estão pouco dispostas a dialogarem umas com as outras. É preciso, então, tentar avançar no debate político para que haja conquistas. A viabilidade da legalização do aborto fundamenta-se, em primeiro lugar, no direito à saúde, que pode ser analisado a partir da perspectiva da saúde pública e da saúde individual da mulher. Afinal, a criminalização do aborto acaba impelindo uma grande quantidade de mulheres – em especial as mais pobres – a procedimentos clandestinos e perigosos.

De fato, uma parcela considerável da população feminina já recorreu à prática de interrupção da gravidez: uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva revelou que, em 2010, 15% da população urbana de mulheres já havia, ao menos uma vez, abortado voluntariamente, o que nos permite prever que parte considerável destas mulheres teve de recorrer a métodos caseiros perigosos ou profissionais pouco qualificados, por não poderem pagar pelo atendimento em clínicas particulares. 

A clandestinidade aumenta consideravelmente os custos do atendimento médico-hospitalar por conta das conseqüências do aborto mal praticado. Uma pesquisa realizada pelo Instituto do Coração – InCor – constatou ser a curetagem o procedimento mais realizado pelo SUS. Segundo estimativa do Ministério da Saúde, a maioria das curetagens realizadas é decorrente de aborto provocado, pois a maior parte dos abortamentos espontâneos não exige internação, sendo as complicações quase absolutamente resultantes de abortos provocados.

A prática clandestina de abortos e a brutalidade dos meios empregados quando não é possível recorrer a uma clínica particular qualificada também trazem sério dano à saúde pública, que não deve ser analisada a partir das dicotomias saudável x doente ou vida x morte (ou seja, saúde não é sinônimo de não-doença). Ao contrário, a saúde pública é pensada de acordo com ideais de bem-estar do indivíduo e da comunidade, salubridade do ambiente, prevenção de problemas com o corpo e promoção de saúde mental. Cada vez mais, as políticas de saúde pública são elaboradas por meio da articulação das diversas áreas da saúde (medicina, psicologia, nutrição, enfermagem, odontologia, farmácia, entre outras), abordando de modo interdisciplinar o complexo problema.

Dessa forma, o aborto clandestino gera problemas de saúde pública para além das mortes das mulheres que o realizam ou dos danos causados a sua saúde individual (perda do útero, infecções, hemorragias, etc.). Dentre estes problemas, é possível, por exemplo, citar a falta de apoio psicológico para a mulher que aborta, a circulação ilegal de medicamentos, sem controle das agências sanitárias (não são raras as apreensões de CITOTEC, o que mostra existir mercado informal para este remédio) e a exploração das mulheres por charlatões.

É irrebatível a perspectiva de se tratar o aborto como um problema grave de saúde pública no Brasil!

Deve restar claro que a experiência de outros países mostrou que a legalização do aborto não enseja aumento do número de procedimentos, mas permite que as mulheres que optem pela interrupção da gravidez tenham acesso aos cuidados devidos. De fato, os efeitos dissuasórios da legislação repressiva podem ser considerados mínimos, uma vez que quase nenhuma mulher deixa de praticar o aborto voluntário em razão da proibição legal.

Também é reconhecida constitucionalmente a igualdade de gênero, o que permite avançar na superação do paradigma que limita o exercício da sexualidade feminina às finalidades reprodutivas e impõe a elas a maternidade. Esta, numa cultura patriarcal, representa um desequilíbrio das relações de gênero no que diz respeito à atuação feminina na esfera pública, uma vez que a gestação afasta a mulher do mercado de trabalho e, em geral, a confina na esfera privada. Além disso, a maternidade em si, acompanhada dos deveres de cuidado dos filhos, acaba por cobrar da mulher uma participação mais intensa na esfera privada ao custo de perda de atuação na esfera pública.

Ainda está profundamente arraigada entre os valores de nossa sociedade patriarcal a idéia segundo a qual não desejar ter filhos é um comportamento a ser depreciado culturalmente. Inegável a valorização social da maternidade e a pressão que as mulheres sofrem para que sejam mães. De fato, são bastante comuns afirmações do tipo “a mulher só se realiza completamente depois que é mãe” ou “a maternidade transforma a pessoa em mulher de verdade.” As mulheres são culturalmente educadas para “constituir” família, ou seja, casar e ter filhos, sendo que este aspecto permanece praticamente intacto mesmo frente à emancipação feminina experimentada a partir da década de 1950. De fato, as mulheres que atualmente optam por não ter filhos ainda sofrem resistência social para “mudarem de idéia”.

Essa valorização social, contudo, diz respeito apenas ao papel privado da mulher, uma vez que, ao mesmo tempo, a maternidade, no mundo político e do trabalho, desvaloriza a atuação feminina. Afinal, é a mulher que engravida e depois tem a responsabilidade quase exclusiva de criar e educar o filho. A sociedade que cobra dela a maternidade não assume, posteriormente, o trabalho e o tempo necessários à criação do filho. Ao contrário, comuns são os casos de mulheres que acabam tendo de se afastar de suas atividades na esfera pública para cumprir satisfatoriamente – de acordo com as exigências sociais – suas responsabilidades na esfera privada.

A legalização do aborto não traz, necessariamente, a emancipação da mulher pretendida pelos movimentos feministas. A descriminalização da prática e a sua regulamentação no SUS representam um primeiro passo neste sentido, mas ainda muito deve ser avançado para que as mulheres, de fato, sejam autônomas para escolher entre a manutenção ou a interrupção de uma gestação. Isso porque, assim como o machismo e o patriarcado podem impor a maternidade à mulher, podem também obrigá-la a abortar, a não ser mãe.

A realização de aborto para esconder um filho considerado “ilegítimo”, para fugir ao sentimento de vergonha por ser mãe solteira ou para atender às ordens de um marido que não deseja ser pai, por exemplo, são casos em que a escolha livre foi seriamente comprometida. Nestas situações, quando o aborto não é autonomamente escolhido, ele representa mais uma forma de opressão e violência contra as mulheres.

Por estas razões, a descriminalização do aborto e sua regulamentação no Sistema Único de Saúde são demandas urgentes, que caminham no sentido de emancipação feminina por concretizar um meio importante para o exercício da maternidade voluntária. Este direito, contudo, só será de fato efetivo quando a mulher realmente for livre para exercer seus direitos sexuais e reprodutivos, quando for autônoma para escolher ser ou não ser mãe. E isto não depende da regulamentação normativa, uma vez não ser o Estado o promotor da autonomia feminina, que será conquistada por meio da transformação sócio-cultural voltada à superação do patriarcado.

Apenas quando a mulher puder, de fato, escolher a maternidade ou não e, caso deseje filhos, o melhor momento para tê-los – sem que esta decisão seja pressionada por fatores sociais, culturais, profissionais ou familiares – a igualdade de gênero estará próxima. E, para viabilizar esta realidade, a legalização do aborto é um passo essencial.

Carta aberta em resposta à Veja

Nesta semana, a revista Veja publicou matéria – que não pode ser chamada de jornalística – a respeito da Universidade de Brasília, rotulando a UnB de madraçal da esquerda. Abaixo, segue excelente carta elaborada pelo Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães, em resposta às acusações.

Como nossos leitores sabem, o B&D é formado por estudantes da UnB, que ao longo de anos exercitaram muito a crítica neste privilegiado espaço de discussão. O B&D nasceu deste exercício constante da reflexão e da vontade de transformação, que foi alimentada e cresceu neste ambiente.

A defesa da UnB está muito bem feita na carta do DCE.

Carta aberta de resposta à revista Veja Brasília, 05 de julho de 2011

“A Universidade de Brasília nasce com uma função clara, fundamentar uma utopia: ordenar, concatenar as ações, para fazer frente ao espontaneísmo fatalista e, sobretudo, para impedir que os oportunistas façam prevalecer propósitos mesquinhos. (…) Pensaremos o Brasil como problema, nosso país não precisa de mais uma universidade conivente com a miséria de nosso povo.” Darcy Ribeiro – Universidade para quê?

A UnB está longe de ser a universidade que queremos! Quando idealizada por Darcy Ribeiro, nos anos 60, a Universidade de Brasília simbolizava o que havia de mais libertário e transformador na educação brasileira. Muito antes de se concretizar, porém, o sonho foi interrompido pela Ditatura Militar.

Hoje, julho de 2011, chega a ser surpreendente que um professor conhecido por defender em sala de aula a “gloriosa revolução de 64”, Ronaldo Poletti, seja fonte privilegiada de uma reportagem sobre suposto “patrulhamento ideológico” e perseguição política no ambiente acadêmico. A dita reportagem “Madraçal do Planalto”, da edição de 04 de julho de 2011 da revista Veja, recorre ao termo normalmente utilizado para se referir a escolas fundamentalistas radicais islâmicas para inventar uma UnB baseada em rumores e suposições.

A mesma revista que, em 2005, elogiou o protagonismo do movimento estudantil ao combater Severino Cavalcanti, hoje define como manobra política ilegal a eleição de uma reitoria de forma paritária (com pesos iguais para professores, estudantes e técnicos-administrativos). Esquece que a “manobra” foi aprovada em conselho de maioria docente, composto pelas direções de todas as faculdades e institutos, eleitas autonomamente, como prevê a arcaica Lei de Diretrizes e Bases (LDB) .

Mais grave ainda, a revista parece ignorar que a paridade foi uma conquista política do movimento estudantil de 2008, quando derrubamos uma reitoria corrupta, cujos contratos e movimentações ainda hoje são investigados pelo Ministério Público da União. Em vez disso, a Veja atribui a ida do ex-professor da UnB, decano da antiga reitoria no período Timothy e ex-diretor da polêmica Finatec, Márcio Pimentel, para o Rio Grande do Sul, a uma suposta perseguição política.

A revista, que se diz ferrenha defensora do combate à corrupção, tenta transformar investigados em vítimas. Atitude esperada da mesma publicação que, em 2009, identificou o ex-governador do DF, José Roberto Arruda, como símbolo da volta por cima. Não esperamos nada diferente desta revista, mas é necessário repudiar o falso rótulo da imparcialidade adotado, formador de opinião de parcela considerável de nossa população, cujo acesso a meios de comunicação plurais é extremamente restrito.

O desconhecimento do repórter Gustavo Ribeiro, graduado pela Universidade Católica de Brasília, sobre a realidade da UnB é certamente um dos problemas na elaboração da matéria. É possível que ele ignore o fato de que diferente das instituições privadas, onde as direções são indicadas pelos proprietários, nas universidades públicas federais as coordenações dos cursos são eleitas diretamente por seus estudantes, professores e técnicos-administrativos. Tal ignorância e má-interpretação dos fatos o impedem de perceber que a saída da professora Inês Maria Pires de Almeida da direção da Faculdade de Educação, por exemplo, se deu por uma votação legítima e democrática da comunidade que escolheu outro modelo de gestão.

Aliás, fatos concretos são raros nesse texto supostamente jornalístico. É citado um caso de vandalismo contra o carro da advogada do DEM e mestre pela UnB, Roberta Kaufman. Algo que, se de fato tivesse sido praticado, de forma alguma mereceria nosso apoio. Muito pelo contrário. No entanto, qual a real possibilidade de uma advogada de tamanha influência ter sido agredida desta forma sem prestar sequer uma denúncia? É possível acreditar que tal ocorrido passaria em branco justo na “Universidade das Cotas”? Sem nenhuma divulgação midiática? O mínimo a ser feito pelo repórter era uma checagem dos fatos e o fornecimento de informações mais precisas. Em vez disso, ele optou por dar voz a professores “com medo de represálias”, offs no mínimo estratégicos.

Para justificar a saída do professor voluntário da Faculdade de Direito, Ibsen Noronha, o repórter apostou em uma retaliação fantasiosa. O fato de que o jurista se recusou a adequar-se ao regime de professor substituto, com dedicação de 40 horas à Universidade, como é exigido dos demais professores, foi estrategicamente ignorado. Assim como o fato de que foi oferecida e recusada pelo professor a condução de outras disciplinas.

Em uma sucessão de mentiras, o texto nada jornalístico da revista Veja se constrói. Antes fosse a UnB um antro da esquerda! Fato é que as mínimas conquistas obtidas pelo movimento estudantil dos últimos anos estão cada vez mais ameaçadas. O Congresso Estatuinte Paritário, prometido em 2008, onde deveriam ser discutidos de maneira aprofundada o funcionamento e a função da universidade, aparece cada vez mais distante. O projeto de uma gestão compartilhada está longe de sair do papel como prometido.

O que temos é uma reitoria que cada vez mais cede às pressões de uma direita organizada. Que aprova o recredenciamento de fundações privadas corruptas em sua prática e essência, como a Finatec. Que ao mínimo estardalhaço, diz que festas atrapalham o aprendizado. Que está longe de priorizar a assistência estudantil, o acesso e permanência de estudantes de baixa-renda, no ambiente elitizado que é a universidade pública brasileira. Que ainda reserva à prática extensionista o lado mais fraco do tripé “ensino-pesquisa-extensão” e é conivente com a existência de cursos pagos, dentro de uma instituição que deveria ser 100% gratuita.

No entanto, apesar das naturais divergências do movimento estudantil com a administração superior da universidade, reconhecemos que hoje a universidade vive em um ambiente mais democrático, quando comparado a períodos anteriores. A própria foto de abertura da matéria utilizada pela revista é de uma manifestação estudantil contrária à reitoria, onde era cobrado o cumprimento de prazos e promessas não cumpridos, referente à conclusão das obras de expansão da Universidade.

Na Universidade, sempre tivemos espaço para nos manifestar. Fosse contra a reitoria ou o governo federal, como na ocasião do corte orçamentário para a educação e na priorização da construção de um Beijódromo, frente a salas de aula e prédios de moradia estudantil. O movimento estudantil da UnB segue livre e independente em defesa dos interesses dos estudantes, da universidade e da democracia. Certamente não é o caso da revista, que não entrevista nenhum estudante ou técnico-administrativo, deixando clara a visão de democracia que defende o veículo.

Temos muitos problemas na UnB e nas universidades brasileiras em geral, mas somente com mais debates e democracia conseguiremos resolvê-los. Quando nossa universidade é criticada por sua diversidade étnica, racial, sexual, cultural e política, ou por funcionar “em prol de uma causa” – a formação de cidadãs e cidadãos conscientes, emancipados e transformadores – só nos resta ter orgulho.

Orgulho da UnB!

Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães – Gestão Amanhã Vai Ser Maior