Paratodosetodas

Image

Por Leandro Lobo

Para a linguagem não existem marcos de fundação. Fragmentos do seu repertório são construídos e desconstruídos; ela absorve elementos de diversos contextos históricos e descarta outros que não mais agradam às elites letradas (conscientes da linguagem como elemento constitutivo de realidades) ou mesmo caem em desuso e tornam-se arcaísmo devido à não incorporação na linguagem falada. No entanto, há um esqueleto das estruturas linguísticas que podem perdurar por muito tempo e que refletem os valores e perspectivas de grupos dominantes que a forjaram, mesmo que difícil dimensioná-los, como já dito.

Assim, as sociedades patriarcais estabeleceram seus códigos de linguagem que tratam de invisibilizar a sujeita feminina no nível linguístico, o que, por si só, potencialmente gera assimetrias nas existências sociais. Trata-se, dessa maneira, o genérico como o masculino, reforçando e reproduzindo a visão do confinamento da mulher a práticas sociais no espaço privado, dentro da perspectiva patriarcal do binômio público-privado.

Remexendo sobre o tema na internet, esbarrei em um trecho da jornalista Olga Castro Vasquez que dispensará muito desenvolvimento deste que vos escreve e que não resistiu na reprodução:

Para além das estruturas materiais e práticas, a opressão das mulheres existe também nas próprias bases do logos e do raciocínio, e estas incluem procedimentos linguísticos sutis e processos lógicos por meio dos quais se produz o significado. Pensamos com palavras e com categorias gramaticais e imaginamos a realidade através da representação cognitiva que fazemos dela por meio da linguagem.

O famoso princípio cartesiano ‘penso, logo existo’ ganharia sem dúvida precisão se se formulasse como propôs Wittgenstein, ‘falo, logo penso, logo existo’. As empresas mediáticas e publicitárias sabem isto tão bem que calculam escrupulosamente as palavras a utilizar nos seus discursos para construir nas nossas mentes uma realidade que resulte vantajosa para os seus propósitos, concordes em geral com os princípios hegemônicos neoliberais. Todavia, isto que tem valor axiomático nas escolas de comunicação e publicidade inexplicavelmente deixa de ser válido quando reinvindicado pelos feminismos. Ou talvez haja uma explicação: dado o potencial da linguagem na construção mental da realidade, a linguagem não sexista supõe toda uma ameaça contra a ordem social estabelecida e por este motivo provoca em certos grupos sociais um receio profundo de que os valores feministas derrubem esses princípios hegemônicos que tanto os beneficiam, origina o medo de que se produza uma mudança social que enfraqueça parte dos privilégios que a linguagem e a sociedade patriarcal lhes outorgam e, por isso, quando não conseguem submeter ao silêncio as reivindicações feministas, utilizam o ridículo como forma de deslegitimação.

A linguagem não sexista não visa apenas tratar de forma simétrica mulheres e homens a nível linguístico, mas também ganhar precisão e exatidão a nível cognitivo, sem excluir nem tornar invisível qualquer dos sexos. Não se trata de mudar a linguagem apenas para o fazer, nem sequer por uma questão estética ou de moda, nem se trata tão pouco de impor mudanças prescritivas. Pelo contrário, do que se trata é de mudar o repertório de significados que as línguas transmitem, de transformar a linguagem para fazer uma representação mais igualitária da realidade que conduza a uma categorização também mais igualitária nos modos de pensamento, e de promover a reflexão sobre as mudanças na língua para que as e os falantes pensemos no que dizemos e em como o dizemos, de modo que desse modo se gerem mudanças nas perspectivas que, por sua vez, terão consequências materiais na ação humana e na realidade”

Podemos, dessa maneira, conferir à linguagem sexista o caráter estrutural de instrumento de dominação não-física, de dominação simbólica. Nas palavras de Pierre Bourdieu, criador da terminologia:

          A dominação masculina está de tal modo ancorada nos nossos inconscientes que já nem nos apercebemos dela; corresponde de tal modo às nossas expectativas que temos dificuldade em pô-la em questão. Mas mais do nunca é indispensável dissolver as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que cumprem a função de reproduzir ‘o eterno masculino’? É possível neutralizá-las para libertar as forças de mudança que elas conseguem travar?

Alguns cultivam uma visão otimista das maneiras operadas de inserção da linguagem inclusiva. Para o linguista e professor da UnB, Marcos Bagno, há uma “higiene verbal de grande efeito positivo” em que ” a suposta neutralidade do masculino é negada e bem marcada como o que de fato é (opressão machista), levando à criação de termos que sejam de fato neutros e incorporem as pessoas dos dois sexos (em inglês, por exemplo, ‘Mankind’ foi substituído por ‘Humankind’, humanidade, gênero humano).”

Dessa maneira, por mais que a linguagem inclusiva vá de encontro e faça doer as noções estéticas conservadoras (concordo com Olga quando diz que não se trata de uma questão estética, mas esse é um argumento muito corrente), encontrando muita resistência e ridicularização, é necessária a afirmação constante da mesma como um importante instrumento de reflexão crítica das realidades, de construção de significados sociossimbólicos e cognitivos e de potenciais intervenções significativas que podem alterar o status quo.

Anúncios

Chuva, vulnerabilidade social e Código Florestal

Por Leandro Lobo

2012, assim como seu antecessor, iniciou-se ao som de fogos de artifícios, rojões, trovões e tempestades tropicais. Estes últimos que castigaram, em 2011, principalmente, a Região Serrana do Rio de Janeiro, esse ano alargou seus cenários catastróficos, extentendo-se para Minas Gerais e Espírito Santo. Alagamentos, afogamentos, deslizamentos de terra, soterramentos, desalojamentos, histórias de sobrevivência. Elementos múltiplos, sintetizados em lágrimas, gritos silenciosos, sofrimento e compactados em números.

Em 2011, a Defesa Civil do Rio de Janeiro estimou mais de 915 mortes e 35 mil pessoas desalojadas na Região Serrana devido as consequências das fortes chuvas. Dessas 35 mil, a esmagadora maioria ainda não conseguiu restabelecimento de seus padrões anteriores de vida. Em 2012, até agora, no Rio de Janeiro são estimadas 20 mortes na região do município de Sapucaia, no Centro Sul do Estado.

Image

Em Minas Gerais a Defesa Civil do Estado divulgou hoje, sexta-feira (13), que 153 cidades, localizadas principalmente na região sudeste do Estado, desde outubro do ano passado, decretaram situação de emergência. Foram atingidos 215 municípios sendo 3,1 milhões de pessoas afetadas pelas chuvas.Destes números, 4.202 estão desabrigadas (dependência de abrigos públicos) e outras 50.869 estão desalojadas ( localizadas em casas de amigos e parentes ). Morreram 15 pessoas e 3 ainda estão desaparecidos. 

Segundo o portal do Instituto Contas Abertas, o governo federal divulgou, em dezembro do ano passado, o mapeamento do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) sobre as áreas com maior possibilidade de sofrer algum tipo de desastre natural. Do levantamento realizado pelo mesmo portal, dos 251 municípios com risco de inundações e deslizamentos, apenas 23 receberam verbas do programa “Prevenção e Preparação para Desastres”, implementado e coordenado pelo Ministério da Integração Nacional (MI). Ainda segundo o levantamento, são 41.085 moradias e 168.365 cidadãos em áreas de “alto risco” e “muito alto risco”.

Além disso, há outros subprodutos sociais impossíveis de dimensionar quantitativamente( se é que algo possa ser dimensionado dessa maneira). Como questões de ordem ambiental, psicossocial das pessoas atingidas de alguma maneira, mais marginalidade e criminalidade dentro de “cidades fantasmas” que surgiram no pós-desastre na Região Serrana. 

Assim, entre a lentidão das obras de resposta emergencial de recuperação dos estragos do ano passado na região serrana do Rio de Janeiro; a dificuldade de concretizar um sistema integrado para proporcionar uma estrutura de de prevenção a desastres e assistência ampla aos atingidos; a acusação de desvio de recursos que seriam destinados as áreas atingidas; e as acusações de favorecimentos ao Estado da base política na alocação dos recursos pelo Ministro da Integração, as chuvas continuam e continuarão a cair. Famílias pobres continuarão morando e morrendo em áreas de risco. Pessoas pobres continuarão a ter suas bases materiais de existência dissolvidas e seu já precário bem-estar social comprometido.

O quadro problemático, que produziu os elementos supracitados, não compõe-se somente, como quer fazer parecer a mídia alarmista, em ineficácia na gestão de recursos de ordem tecnocrática e fenômenos naturais que produzem desastres inevitáveis. Podemos apontar, assim, duas variáveis principais que constituem a equação que propicia desastres dessa proporção e constroem um quadro de desequilíbrio sócio-ambiental: a vulnerabilidade social de comunidades inteiras conjuntamente a inoperância do Código Florestal.

Dissecando-se as duas variáveis envolvidas, a vulnerabilidade apontada envolve elementos como a histórica desigualdade social, salientando-se o déficit habitacional e a diferenciação nos padrões de urbanização, gestados principalmente, pela especulação imobiliária e adjacências que a envolvem, empurrando as populações pobres para áreas periféricas impelindo-os a ocupar espaços à margem de nascente e ao longo dos cursos dos rios e encostas e topos de morros. Além da perigosa estruturação de moradias em locais inapropriados, essas comunidades não contam com assistência e suporte para lidar com variações climáticas e suas desastrosas consequências.

De maneira interligada está a outra variável. A inoperância do Código Florestal ( vale lembrar da ausência, também, de qualquer política habitacional articulada com a legislação ambiental para a redução de danos ) faz com que Áreas de Proteção Permanente(APP’s), circunscrições geográficas estratégicas para a preservação da biodiversidade, das águas, da vegetação, do solo, do bem-estar de alguma eventual população e do equilíbrio entre os elementos, sofram intervenções antrópicas agressivas, sendo que “retiram das APPs suas muitas e importantes funções, entre as quais: poder da cobertura vegetal de reduzir o carreamento de terra, conter o desbarrancamento de solo ou rochas e evitar o assoreamento dos rios. Rios assoreados são rasos, sendo que qualquer precipitação produz, com o seu espraiamento, inundações.” diz a Leila Soraya Menezes, psicóloga e coordenadora do Programa Mudanças Climáticas e Resposta a Desastres da ONG Care Brasil.

Enquanto observamos o silêncio e a pouca vontade de uma discussão ampla sobre a vulnerabilidade social e as causas da ocupação irregular do solo e o empenho dos ruralistas, esses recheados de recursos políticos, para desconfigurar a legislação ambiental, engessando a operação do Código Florestal, só nos resta enxugar o gelo.

Feliz Big Brother Brasil 2012!

Image

Por Leandro Lobo

Hoje é dia 30. Penúltimo dia do ano.
O final de todo ano traz consigo uma aura de recomeço, de novas perspectivas. O primeiro dia do ano gregoriano contêm milhões de promessas e sonhos e expectativas. Seremos mais tolerantes, amaremos mais, sorriremos mais, choraremos mais, não mais fumaremos, reduziremos o consumo de álcool, emagreceremos, enriqueceremos e assistiremos muita televisão.

Alimentaremos as expectativas de ver novamente o cínico e arrogante filósofo-apresentador nos expondo as desventuras dos novos “brothers and sisters”. Pessoas que aceitaram a exposição sistemática dos seus corpos e, possivelmente, dos seus sistemas de preferências e costumes, pela sensualidade insinuosa da fama e do dinheiro, mesmo que efêmeros. O sistema retroalimenta-se: servirão, por um tempo, de tipo ideal de corpos e comportamentos, protótipos da felicidade, artificialmentalmente esquematizada, que eles mesmo procuram.

Alguns, talvez, entrarão pra um seleto grupos de pessoas que tem sua vida dissecada, exposta e mercantilizada diariamente. Serão nossos novos protótipos permanentes de felicidade: ricos, famosos, corpos “perfeitos”, festas e sorrisos de plástico. Acoplado a isso, serão dados elementos alternativos para nos aproximar dos ideais: consumo, crédito para consumo, possibilidades para o consumo. Como é sexy consumir.

Nosso entretenimento será mediatizado. Nadaremos, festejaremos, jogaremos, choraremos, brigaremos e iremos satisfazer nossas necessidades artificiais de consumo juntamente com os nossos “brothers and sisters”. Em troca, contribuiremos com o sistema mercadológico replicando o racismo, o machismo, o sexismo, a heteronormatividade. Reproduzí-los é a segmetação fundamental para o mercado e o BBB, e não somente ele, cuidará disso.

O ano esta por acabar. E o Big Brother está chegando.
Feliz Big Brother Brasil 2012!

“Escravo da televisão/ E é desse jeito que eles querem/

O povo na maresia e segue dominação/
Da minoria sobre a maioria/

(…)

Com seus rostos maquiado/ Sorrisos forçados/
Programas ao vivo ou gravados/
Eles são os serviçais do poder/
Fazem um jogo sujo e esbanjam você/
Qual o significado?/Sasha e seu quarto de 130m²/
Hebe Carmargo perguntava em seu programa/
Por que todo pobre tem o calcanhar rachado/
Aqui vai a resposta/
Por outro lado o que importa é o cascalho/
1 milhão de reais por mês de salário/
O que você recebe por ano, eles recebem por hora/
Eles são ‘os ricos que o meu povo adora'”

Face da Morte e GOG – Televisão

Não se esqueçam dela…

 

Image

Por Leandro Lobo

A Reforma Agrária não compreende, há algum tempo, nenhuma proposição de agenda política do governo. Isso muito me incomoda. Incomoda-me também a metodologia utilizado pelo INCRA para construção de um quadro da “reforma”, contabilizando a regularizações fundiárias como famílias assentadas, por exemplo, que maquiam a real situação fundiária do país. Uma reforma estrutural dessa natureza é de extrema importância em uma concepção de agricultura como parte integrate do mecanismo de produção social. Constitui-se como um pilar de qualquer revolução social(um dos motivos para sua marginalização).

Assim, independente de contextos de arranjos sócio-políticos que propiciaram nuances na distribuição do poder político entre diversos setores da elite, a propriedade da terra constituiu-se como base do poder político e econômico, desde que fora nos imposto uma estrutura fundiária com latifúndios voltados para monocultura de exportação.

Nesse sentido a reforma agrária, em uma análise superficial levando em conta a complexidade sócio-estrutural, repararia uma injustiça histórica, democratizando o acesso à terra com todos os elementos que o envolvem: desapropriação de latifúndios improdutivos, liquidez no crédito às(ao) trabalhadora(or) rural, criação de uma estrutura de permanência no campo, entre outros. Os diversos tipos de modelo de reforma agrária existentes, em suas dimensões social, política, econômica e ambiental, pavimentariam o substrato necessário para a redistribuição das riquezas, correção de assimetrias na distribuição dos recursos políticos(que interfere na qualidade democrática), ascensão efetiva das(os) trabalhadoras(es) à condição de cidadãs(ãos)(direito a moradia, educação, saúde), com os manejos tradicionais da terra peculiares a agricultura familiar, garantiria a não-agressão à biodiversidade e o equilíbrio das relações ecológicas (manejos que não esgotam o solo, não-uso de agrotóxicos – alguns elementos da agroecologia)

Traduzindo a distribuição da terra no Brasil em dados do INCRA(mesmo com a questionável metodologia), podemos visualizar a importância de uma reforma: 31% de todas as terras do Brasil que representam 175 milhões de hectares e são controladas por 66 mil fazendeiros, são classificadas como improdutivas; 16% das terras, 90 milhões de hectares, classificadas como produtivas são agronegócio;23% das terras são de 4,6 milhões de pequenos agricultores, camponeses, que empregam a maioria do capital humano na produção agrícola, e que produzem 70% dos alimentos que vão pra mesa das(os) brasileiras(os). Quantas terras poderiam ser destinadas a policultura com a reforma agrária, barateando o custo dos alimentos, e efetivando a soberania alimentar do povo brasileiro.

Uruguai, México, Chile, Guatemala e dezenas de outros povos da América Latina implementaram algum tipo de reforma agrária. A maioria não faliu. Os governos autoritários que aparelharam o poder político-institucional posteriormente a desmantelaram completamente, a maioria, sobre os auspícios do governo estadunidense.

Porque até hoje não fora realizada no Brasil, inclusive, saindo completamente da agenda pública? Não somente falta de vontade política de um Estado há muito aparelhado por interesses de valorização do capital mas na aposta de um projeto nacional-desenvolvimentista de superávit primário capitaneado pelo agronegócio. Projeto que, não só nega qualquer ideal de justiça agrária como, aos poucos, mostra seus subprodutos, fragilizando a indústria nacional. A efetivação de uma reforma efetiva significaria a diluição do poder secular dos produtores rurais, uma afronta aos valores de acumulação primitiva de capital e uma perspectiva de mudança social que extrapola as 4 milhões de família que aguardam um pedaço de terra. Extrapola, pois a concentração fundiária é a variável de uma equação que tem como produto os problemas que esfaqueam também, todo o tecido social urbano.

Mesmo as proposições de reforma agrária da Constituição Federal são ignoradas, como elementos de cumprimento da função social e suas consequentes desapropriações. A propriedade, ao menos a grande, não precisa ter função social, elas são intocáveis. Aqueles que se apropriam de grandes extensões de terras públicas, matam diretamente (as mortes indiretas são incomensuráveis)centenas de pessoas por ano e produzem um terço do tal do PIB, esses não são violentos, né?!

Assim, as elites nutrem um medo visceral de movimentos sociais com grande potencial revolucionário, no caso o MST, e que reinseriu, há um tempo atrás, na agenda política brasileira a reforma agrária, que ameaçam sua hegemonia. Agora, as elites agrárias festejam a atual estrutura operacional e práxis política do MST, que dissolveram-se um pouco devido, principalmente, aos programas de compensação social. E como sempre, ultilizam os meios de comunicação de massa atrelados aos seus interesses para espalhar suas mentiras e factóides, numa tentativa desesperada de criminalizar a luta de milhares de trabalhadoras e trabalhadores pobres que militam com recursos escassos, expõem a superfície a realidade subjacente que a mídia deliberadamente não mostra e dá voz aos desfavorecidos.

Fez esse pequeno post para algo: Por favor, não esqueçam a Reforma Agrária!