Não tá fácil pra ninguém

Por Izadora Xavier

pedaço de conversa da qual eu participava ontem

– Não vai dar pra votar todas, e o que se percebe no momento é que essa vai dar problema, com o qual eles não querem se envolver agora. E a gente tem que mostrar que vai dar problema mesmo, que não é pra votar mesmo.

– Então eles querem deixar cair a 557 porque tem outras coisas que consideram mais urgentes. Especificamente, a 558.

– E sobre o que é a 558?

– A diminuição dos limites dos parques.

– Nossa…

– Pois é. Tá ruim pras feministas, pros ambientalistas tá pior ainda.

– Esse é a nossa presidenta.

Anúncios

Que tempos são esses

Por Izadora Xavier

Essa é uma semana de pautas importantes no STF. Ontem, a Camila postou sobre o julgamento que o STF fará sobre anaencefalia. No dia seguinte a esse julgamento, o STF se reune de novo, para jugar o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia.

Do mesmo jeito que no caso da anaencefalia, poderia recitar e referenciar diversas posições, que se reproduzirão na mídia e com as quais o B&D se alinha. Preferirei, no entanto, argumentar de outra forma. Argumentarei com uma homenagem.

Semana passada morreu a poeta e ensaísta Adrienne Rich. Lésbica, judia, Adrienne esteve na vanguarda da literatura e do movimento feminista a maior parte da sua vida. Seu ensaio mais famoso, Compulsory Heterossexuality and Lesbian Existence, é uma peça belíssima de crítica à heteronormatividade do movimento de mulheres. Famosa também foi sua recusa da medalha nacional das artes, maior prêmio artístico oferecido pelo governo dos Estados Unidos. Em uma carta à chefe do comitê de entrega do prêmio, Adrienne Rich escreveu: “a arte não significa nada se serve apenas para decorar a mesa do poder que a faz de refém”. Em 1974, ao ser declarada ganhadora do maior prêmio dos Estados Unidos para a literatura, o prêmio nacional do livro, ela recusou o prêmio apenas para si e subiu ao palco com duas das outras finalistas, as poetas negras Audre Lorde e Alice Walker. As três receberam o prêmio em nome de todas as mulheres.

Revendo seus poemas, semanda passada, deparei-me um que me comoveu particularmente. Ele me comoveu porque pareceu falar tanto à nossa realidade política atual, e à realidade que será julgada pelo STF nessa quinta-feira, apesar de ter como foco original uma realidade distinta. Essa capacidade simultânea para o específico e o universal, já disseram antes, é o que faz dos poetas grandes. Nesse caso, não há como defender com maior eloquência a grandeza de Adrienne Rich, nem melhor maneira de chamar o STF à sua responsabilidade no próximo dia 12. Deixo aqui uma tentativa de tradução, como homenagem à poeta e como argumento em favor da justiça e dos direitos humanos. Sobretudo, deixo como homenagem à poeta o uso do seu poema como arma de luta, como lírica da libertação, como reafirmação de que ela não será decoração nas mesas do poder.

Que tempos são esses

Por Adrienne Rich

Existe um lugar, entre grupos de árvores, onde a grama cresce subindo o morro

e o velho caminho revolucionário se desfaz em sombras

perto de uma casa abandonada pelos perseguidos

que desapareceram naquelas sombras.

Eu andei por ali, colhendo cogumelos, beirando o terror, mas não se engane

este não é um poema russo, este não é outro lugar senão aqui,

nosso país, movendo-se mais próximo das suas próprias verdades e terrores

das suas maneiras próprias de fazer desaparecerem as pessoas.

Não direi pra vocês onde é esse lugar, essa malha sombria de floresta

que encontra uma réstia indefinida de luz —

encruzilhadas assombradas, paraíso mofento:

Eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.

E se eu não digo onde é esse lugar, por que digo

qualquer coisa? Porque vocês ainda escutam, porque em tempos como esses

para que alguém ao menos escute, é necessário

falar de árvores.

(original:

What Kind of Times Are These

BY ADRIENNE RICH

There’s a place between two stands of trees where the grass grows uphill

and the old revolutionary road breaks off into shadows

near a meeting-house abandoned by the persecuted

who disappeared into those shadows.

I’ve walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don’t be fooled

this isn’t a Russian poem, this is not somewhere else but here,

our country moving closer to its own truth and dread,

its own ways of making people disappear.

I won’t tell you where the place is, the dark mesh of the woods

meeting the unmarked strip of light—

ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:

I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won’t tell you where it is, so why do I tell you

anything? Because you still listen, because in times like these

to have you listen at all, it’s necessary

to talk about trees.)

Ida e volta Brasília – La Paz, com escala no Rio de Janeiro

por Izadora Xavier

Fiz uma viagem, recentemente, à Bolívia. Assim que voltei, há um mês, as discussões e manifestações que vi me colocaram um pouco angustiada com alguns pontos da análise de conjuntura internacional que o B&D fez e publicou aqui.

No entanto, revendo minhas anotações hoje, vi que há um assunto mais premente para ser tratado, e que tem muito a ver com os desconfortos que senti durante a viagem.

Primeiro, um dos melhores momentos da viagem foi uma longa conversa que tive com um antropólogo aymará. Apesar de sua identificação étnica, ele se mostrava impressionado com o que seria uma nova “hegemonia aymará” na política boliviana. A redefinição da participação política no país, tão celebrada, estaria agora caminhando para barrar seu próprio aprofundamento. Apoiado pelo grupo cocaleiro, os chamados “indígenas de terras altas”, a cúpula da decisão política cada vez mais se fecha e se alinha às ideias de desenvolvimento “sustentável” que vemos em outras partes da América do Sul e, em especial, no Brasil. A própria ideia de “bem-viver”, celebrada pela constituição plurinacional, ele apontou, baseia-se numa concepção de mundo a qual não compartilham várias das outras etnias do país.

Assim como Belo Monte, muitos dos projetos de infraestrutura sendo avançados pelo governo de Evo Morales são retirados de diretrizes da década de 70, 80 – elaboradas por governos a que, teoricamente, o atual governo se opunha de forma fundamental.  Uma delas é a própria rodovia, objeto central da controvérsia do TIPNIS – um projeto de altíssimo impacto que é, ironicamente, justificado como necessário para ligar entre si alguns projetos de baixo impacto, entre pequenas comunidades indígenas “de terras baixas”.

Como eu disse no início do post, a ideia, no entanto, não é apontar os limites do plurancionalismo e do modelo de participação popular da Bolívia. De fato, ao revisitar as discussões que tive, o meu interesse se move para o futuro, ainda que um futuro bem próximo.

A principal frustração que vi no discurso de colegas que trabalham com cooperação internacional não era apenas a defesa de projetos e modelos com os quais elas discordam. A principal frustração era com o abondono do esforço de tentar imaginar e implementar modelos alternativos, que foi a marca dos primeiros momentos do governo, e impulsionou o processo da nova constituição do país.

Isso tem um significado especial que entendo como premente, quando estamos a menos de três meses da Rio +20.

A Rio +20 e, por consequência, todo o sistema multilateral relacionado a meio-ambiente e desenvolvimento, perde com a perda de capacidade imaginativa do governo boliviano. E não creio que ao dizer isso estou em absoluto superestimando o poder desse país no sistema internacional. Ao fazer essa afirmação, penso na atuação do Brasil na Eco 92 (a Rio -20). Mesmo tendo muito menos poder e importância no sistema internacional do que países europeus, naquele momento, naquele espaço, o Brasil foi bem-sucedido em propôr e conseguir adesões à ideia das “responsabilidades comuns mas diferenciadas”. Assim, estabeleceu quais as linhas e os limites do (direito ao) desenvolvimento e pautar políticas internacionais e nacionais sobre o tema. Na época, a questão era não impedir que o discurso do ambientalismo fosse distorcido de forma a reforçar a ordem econômica internacional assimétrica.

No atual momento, algum ator que faça o mesmo papel de, vindo da margem, angariar legitimidade para novos modelos, para diferentes formas de conceber sustentabilidade, é igualmente essencial. Se a Bolívia tivesse seguido os rumos definidos em Tiquipaya, haveria esperança ao menos de uma voz dissonante, em torno das quais a sociedade civil global e, quem sabe, outros governos, poderiam se organizar. Teríamos muito o que aprender com a Bolívia, se o país não estivesse aprendendo com o que estamos fazendo de mais errado. E o final do semestre está quase aí, em junho de 2012, para reprovar todo mundo.

A discussão sobre direitos sexuais e reprodutivos e a natureza do espaço público

por Izadora Xavier

Com a aproximação do dia internacional da mulher, vamos dar uma folga para as flores e a exaltação dos estereótipos cansados sobre as mulheres. Vamos lembrar o propósito original do dia – internacional porque assim é a realidade do desprivilégio feminino, comum a tantas sociedades. Vamos lembrar uma das dimensões dessa luta que une mulheres de diferentes contextos: a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos.

No Brasil, a luta continua por tornar o debate sobre a MP 557, sobre o cadastro universal das gestantes, um debate de fato sobre a saúde sexual e reprodutiva das mulheres, com a busca de soluções efetivas para a nossa privação de direitos e nossa morte cotidiana. Porque nós, mulheres, cidadãos brasileiros, estamos morrendo todos os dias em decorrência de complicações relacionadas à gravidez, por negligência do Estado. Porque o Estado, Executivo e Legislativo, tem encaminhado a discussão de forma que ela se tornou uma plataforma para a promoção de grupos políticos e religiosos, em vez de uma busca pela melhoria da saúde das mulheres. O debate sobre a MP continua e, além dele, continua a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres brasileiras.

Nos Estados Unidos, essa luta, como aqui, é travada continuamente. No momento, o que está sendo discutido é um projeto de lei que permitiria empresas financiadas por grupos religiosos ou filantrópicos não oferecer, dentro do plano de saúde que oferecem aos seus funcionários, contraceptivos ou acesso a métodos de planejamento familiar, quando isso vá contra os princípios da instituição empregadora, religiosa ou filantrópica. Sandra Fluke é uma ativista que apontou a estreiteza desse posicionamento: muitas mulheres sabem, por exemplo, que o uso da pílula anti-concepcional não serve apenas a fins de contracepção. Todo mundo, mesmo que não saiba, tem uma amiga/parente com síndrome do ovário policístico, a quem foi recomendada o uso da pílula anti-concepcional como tratamento. Ou seja, negar direitos sexuais e reprodutivos às mulheres é fazer com que todas as mulheres paguem com saúde e bem-estar pelas posições moralistas de alguns.

Rush Limbaugh é um radialista conservador que, após o posicionamento de Sandra Fluke, usou o espaço do seu programa de rádio para atacá-la pessoalmente, xingando-a de vadia por tomar uma posição política a favor da saúde sexual e reprodutiva das mulheres. Neste artigo, Aaron Bady analisa o posicionamento de Limbaugh de maneira lúcida e totalmente traduzível ao contexto atual brasileiro. Tomo, assim, a liberdade de literalmente traduzir uma parte do artigo de Bady, originalmente em inglês:

Rush Limbaugh atacou Sandre Fluke, em resumo, porque a voz dela ameaçava reconstituir a natureza do público estadunidense: se ela fosse ouvida — se a especificidade da saúde da mulher fosse articulável publicamente nos salões sagrados do Congresso — então não poderíamos mais fingir que esta é simplesmente uma questão abstrata e legalista de ‘religião’, ‘governo’ e ‘medicina’. Tornar-se-ia repentinamente aparente que o público masculino e feminino tem interesses e preocupacões diferentes quando se trata de questões de sexo e contracepção, que contracepção significa coisas diferentes para pessoas com diferentes órgãos reprodutivos. O fato de que o gozo de sexo sem consequências, por um público masculino (e heterossexual), depende do privilégio de haver algum outro grupo que arca com as consequências desse ato, tornar-se-ia imaginável, se esse “algum outro grupo” tivesse uma plataforma pública a partir da qual falar sobre o assunto.

É por essa razão, afinal, que ‘privilégio’ é tão importantemente distinto de poder ou preconceito: o privilégio precisa se manter ignorante sobre si mesmo, porque privilégio é ter benefícios sobre os quais você não tem nem mesmo consciência de que estão sendo negados a outros. Nesse sentido, enquanto Rush estava e está indiretamente policiando os limites de onde e como os órgão reprodutivos de uma mulher vêm a ser uma preocupação pública — e sofrimento humano real é o que de fato está em jogo aqui — são os limites sobre quais preocupações, e de quem, chegam a ser verbalizadas e ouvidas publicamente é o que de fato o preocupa, quem vai chegar a ser ouvido quando o público discute a si mesmo.

Quem fala e decide sobre direitos sexuais e reprodutivos das mulheres? Quais preocupações estão sendo privilegiadas quando legislamos e elaboramos políticas públicas sobre direitos sexuais e reprodutivos? A discussão sobre direitos de grupos minoritários, direitos ditos “específicos” ou “particulares”, nunca é apenas sobre esses direitos ou grupos, nunca é específico ou particular. Ela está no centro da própria ideia de legitimidade de fala, de espaço público, de democracia. A reflexão que Bady suscita é importante e em nada específica, é uma reflexão que todo cidadão precisa fazer quando confrontado com um problema político.

Quando nos perguntamos sobre porquê é tão difícil defender políticas públicas que priorizem a saúde das mulheres em vez de preceitos religiosos (esses sim, particulares e específicos) é que podemos perceber que, antes de que aqueles médico ou enfermeira específicos possam salvar aquela mulher específica, é preciso que toda a cidadania salve a democracia da ignorância anti-democrática do privilégio.