Brasil – e desenvolvimento para quem?

Eu não acredito, ainda precisamos convencer os poderosos e poderosas que um país rico é um país que não extermina os seus povos tradicionais. – Leiam o texto da Iara Vicente no Ressaca Política.

Reverberamos assim o apelo desesperado de um povo: mata-se os Guarani-Kaiowá, morremos todxs.

Lembro sempre, sempre, quando falamos de terras indígenas no Brasil, o que diz Ailton Krenak, sobre a chegada dos brancos:  “Os Guarani partilham o território dessas fronteiras do sul entre Paraguai, Argentina, Bolívia. Em todos esses lugares, áreas de colônia espanhola, áreas de colônia portuguesa, inglesas, os nossos parentes sempre reconheceram na chegada do branco o retorno de um irmão que foi embora há muito tempo, e que indo embora se retirou também no sentido de humanidade, que nós estávamos construindo. Ele é um sujeito que aprendeu muita coisa longe de casa, esqueceu muitas vezes de onde ele é, e tem dificuldade de saber para onde está indo.”

O que é segurança?

O meu foco inicial será segurança internacional, tema privilegiado dentro do campo de Relações Internacionais, a partir de uma perspectiva de gênero. Mas fica mais interessante do que isso.

As autoras feministas em RI têm em comum não apenas o uso do gênero como categoria de análise (porque isso é comum a todas as feministas). Elas também, em comum, criticam o conceito tradicional de segurança, e defendem um conceito amplo.

As feministas, no entanto, não são as únicas que argumentam em favor desse conceito. A crítica ao conceito tradicional de segurança é uma das questões mais centrais para o pensamento contemporâneo nas RI. A crítica identifica a existência de um dilema na área. Esse dilema seria o de existirem ocasiões na qual a segurança da comunidade política, do Estado, entra em conflito com a dos indivíduos.

Tomemos as operações de paz por exemplo. Estas seriam ocasiões nas quais a segurança estatal – soberana – sofre em favor da segurança individual. Operações de paz são operações militares, sancionadas por um órgão particular das Nações Unidas – o Conselho de Segurança. As operações de paz são uma solução ad hoc, não prevista pela carta da ONU, e que sofreram uma longa evolução em termos de objetivo e estratégia. Nesse momento da sua atuação, em que se fala amplamente sobre “responsabilidade de proteger”, podemos dizer que as operações de paz da ONU de alguma forma ferem ou flexibilizam o princípio básico das relações internacionais: a não-intervenção, ou seja, o respeito pela comunidade internacional daquela velha ideia de Weber – a soberania é o só poder usar a força em um território o governo soberano daquele território. Atualmente, no entanto, a fim de defender o direito de indivíduos, a “comunidade internacional” pode chegar a um consenso de que determinado país tornou-se incapaz de realizar essa tarefa básica, ou, pior ainda, está agindo ativamente e em larga escala contra o direito de determinados cidadãos. Por isso, é permitido que outros que não o próprio país empreguem a força para defender os cidadãos dali. E o que permite isso é a crescente percepção de que a segurança do Estado e a segurança dos cidadãos desse Estado nem sempre estão alinhadas.

O que as feministas têm em particular, localizadas dentro dessa crítica, é o uso do gênero como categoria de análise (por isso são feministas, além de estudiosas de relações internacionais). Isso significa que a preocupação delas com o dilema de segurança se foca, em primeiro lugar, nas inseguranças que as mulheres, especificamente, sofrem, quando há uma priorização da soberania. Em segundo lugar, elas afirmam que normas de gênero estão presentes no discurso da segurança e da política e elas são importantes para definir a prioridade dada à segurança do Estado, mesmo quando isso se dá em detrimento de certos indivíduos que são parte integrante da comunidade política sendo priorizada. Dessa forma, estamos falando do gênero não só como categoria definidora de indivíduos, mas o gênero como estrutura de pensamento e forma de organização da vida social.

Proponho que a discussão sobre segurança em RI pode, com algumas pequenas diferenças, servir também para criticar o conceito e a prática da segurança pública, voltada para o doméstico. A analogia seria possível porque esta seguiria a mesma rationale de prioridade territorial daquela. Vou me concentrar nos exemplos da minha própria dissertação, que estão em geral conectados com questões de exército, fronteiras, e guerra ou relação entre países, mas acho que eles servem como guia para pensarmos também na atuação da polícia, e nos conflitos dentro do território nacional, entre grupos de mesma nacionalidade.

Assim sendo, como o conceito de segurança tradicional, seja abordada internacional ou nacionalmente, pode funcionar em detrimento de determinados grupos?

Fundamentalmente, o que estamos discutindo é um refinamento do debate sobre segurança. Como disse anteriormente, há um debate contemporâneo, fruto da percepção da por vezes dilemática relação entre segurança individual e estatal. Como eu também já disse, segurança é tradicionalmente concebida como defesa militar de um território – ideia que ganhou força principalmente durante a Guerra Fria. No entanto, após a queda do muro, a chamada Escola de Copenhague propõe que essa identificação e classificação imediata e exclusiva de temas militares como “temas de segurança” é cientificamente fraca. Para melhor abordar segurança cientificamente, busca-se definir segurança em termos mais exatos. O conceito que se alcança é o seguinte:  segurança são ações que objetivam evitar ou suprimir ameaças específicas à sobrevivência de um objeto referente.  

Dessa forma, não há uma ligação direta e única entre segurança e território. O referente da segurança pode ser o território estatal, e as ações que se tomam para evitar ou suprimir ameaças a ele podem ser militares. No entanto, isso não esgota as possibilidades do conceito, ou da ideia de segurança. Eesse conceito de segurança, de supressão de ameaças a um objeto referente, não anula a defesa do território em si, mas anula sua prioridade necessária sobre outras ameaças e outros referentes. Ainda mais importante, deixa clara a existência de outros tipos de insegurança, a partir do foco em outros referentes.

A crítica das feministas em relações internacionais vai no sentido de problematizar o porquê da prioridade política dada à defesa do território, e esclarecer as outras inseguranças que existem no Estado, que tanto podem passar desapercebidas ou serem exacerbadas pela visão tradicional.

O argumento tradicional fala da segurança territorial como condição de possibilidade. Seria necessária a garantia de segurança militar do território da comunidade política para que, dentro dessas fronteiras protegidas das ameaças externas, a política possa se desenrolar e possamos discutir a garantia dos direitos aos cidadãos e cidadãs (aí já começamos a analogia com segurança pública, já que ela parte da mesma ideia de defesa, inclusive por meios militares, do território, para que a sociedade possa desenvolver suas outras atividades – a diferença, no caso, é o tipo da ameaça – interna ou internacional). O trabalho de gênero nas relações internacionais esclarece, em várias instâncias, como o conceito de segurança não possibilita, mas impede o acesso de determinados indivíduos a seus direitos mais básicos.

Há alguns exemplos comumente citados pelas feministas. Um nome clássico do feminismo em RI é Cynthia Enloe. Uma parte importante do seu trabalho está relacionado aos efeitos do militarismo sobre as mulheres. Um de seus focos, por exemplo, são os acordos militares entre EUA e países da Ásia Pacífico, como Coreia do Sul. Segundo Enloe, esses acordos durante muito tempo contiveram cláusulas de “descanso e lazer”, que pressupunham o acesso dos militares estacionados nas bases estadunidenses acesso à bares e locais de prostituição coreanos. Uma das provisões dos acordos incluía check-ups regulares das mulheres que servissem nesses locais. Esse tipo de acordo é remanescente de práticas britânicas na região que remontam ao século XIX. Os chamados “Contagious Disease Acts” que, primeiro, tinham como alvo exames nos próprios soldados, e que passam, a partir de 1864, a significar exames ginecológicos compulsórios de qualquer mulher que a polícia local suspeitasse ser prostituta (ENLOE, 2000, p. 59). Assim temos um exemplo de como a defesa estatal – justificativa primária para o estabelecimento de bases militares, pode efetivamente funcionar diminuindo a segurança das mulheres, infringindo sobre direitos básicos e fundamentais. Também é constantemente citada a experiência de mulheres em lugares de conflito com o narcotráfico ou guerrilhas nacionalistas. O emprego das forças armadas nesse tipo de combate geralmente se traduz em aumento da violência sexual contra as mulheres e dificuldades ainda maiores e inúmeras para a realização das suas atividades em relação ao trabalho reprodutivo. Nessa nota, vale uma reflexão mais abstrata. Pensemos na discussão mais antiga que as feministas em relações internacionais fazem: a das demandas competidoras entre o auxílio (não-oferecido) pelo Estado às mulheres em tarefas do trabalho reprodutivo e os recursos empregados para a manutenção das forças armadas e incremento nos arsenais. Basicamente, pensemos sobre os termos e as justificativas dos debates sobre criação de creches e compra de caças. É a diferença entre como essas duas discussões são travadas e percebidas, em termos políticos, de que falam as feministas em segurança internacional. Uma coisa não seria pré-condição à outra. De fato, os recursos crescente endereçados às políticas de defesa competem com os recursos necessários às políticas de bem-estar do Estado que beneficiam sobretudo as mulheres, porque colocam sobre responsabilidade do poder público o trabalho exercido, de forma não-remunerada, por elas, no privado.

Dessa forma, a segurança territorial não seria prioritária por ser uma condição de possibilidade de fato, mas uma condição de possibilidade discursivamente construída. Escrevi toda uma dissertação sobre as instâncias de construção dessa prioridade no discurso estatal. Nela, argumento que essa prioridade de fato serve para priorizar o interesse de homens, ou melhor, de alguns homens. Além disso, a priorização de um ou outro referente não apenas privilegia algumas seguranças, mas, numa linha mais foucauldiana, constrói sujeitos. Podemos dizer que território é defendido literalmente por homens (no caso dos exércitos, de maneira mais absoluta, e de maneira ainda significativa no caso da polícia), não por causa de predisposição biológica, mas porque foi construída simbolicamente como uma tarefa masculina. E, nesse sentido, os discursos sobre defesa não só determinam alguns privilégios masculinos, mas constroem os homens eles mesmos – e não apenas aqueles que estão ativamente implicados na defesa do território. Porque a segurança como narrativa social impactaria homens e mulheres. Identidades para as mulheres também são construídas por esse discurso, uma vez que o gênero é uma categoria relacional. Elas, no entanto, são construídas como protegidas, vítimas, ou mesmo ameaças à paz da comunidade política ou da coesão dos exércitos. Os homens, por outro lado, seriam privilegiados na medida em que a identidade de combatente, de protetor, é identificada com o modelo de cidadania e liderança, oferecendo a eles maiores possibilidades de participação política e definição de prioridades estatais.

O que estou dizendo é que os homens não defendem o Estado por outro motivo senão a escolha cultural em dizer que o trabalho de defender o Estado é dos homens. Coincidentemente, esse trabalho é dito como prioritário. O questionamento aqui é: esse trabalho é de fato prioritário, ou é prioritário enquanto identificado como masculino? E, se o discurso constrói os indivíduos, os interesses de homens estão ligados à segurança por resultado da sua participação em narrativas sociais. Logo, eles defendem esses interesses porque se identificam com eles. E esses interesses são prioritários, esses indivíduos são privilegiados em termos de ter seus interesses vistos como prioritários – num círculo de identificação entre participação no privilégio e identificação com o discurso que é ao mesmo tempo masculino e prioritário (privilegiado porque prioritário). Nesse sentido, ele (o discurso tradicional de segurança) sendo definido como prioritário e masculino, os indivíduos (esmagadora maioria homens) implicados em atividades relacionadas a ele, ou de alguma forma identificados com eles, são privilegiados nas decisões políticas, porque estão tratando de áreas prioritárias, ou são de alguma forma identificadas com ela (estou sugerindo que devemos extrapolar o pensamento sobre segurança para o pensamento para política, de maneira mais ampla, mas não posso/não cabe me aprofundar nisso agora).

O discurso de segurança, dessa forma, funciona para organizar a vida social, reificando a divisão do mundo com base no gênero, de maneira que mulheres são desprivilegiadas, em diferentes níveis, e alguns homens estão no topo da hierarquia social – sua possibilidade de se identificar com o discurso masculino de defesa do Estado sendo importante para isso. Esse é o motivo original de interesse nessa discussão, por parte das feministas. Em adição a isso, a reunião de argumentos favoráveis ao uso de um conceito amplo de segurança permite a teoria (e, consequentemente, a política) “enxergar” determinadas dinâmicas que um conceito estreito não permite.

Os argumentos feministas defendem que o conceito amplo de segurança permite maior reflexividade a respeito da construção de políticas de segurança em dois níveis. Por um lado, permite a elaboração de políticas de segurança que levem em consideração seu efeito sobre a construção de identidades individuais e sobre a construção do gênero como estrutura discursiva e forma de organização da realidade social. Por outro lado, permite ver como existem na sociedade diversas fontes de insegurança, e que é preciso discutir democraticamente todas elas e incluí-las todas no rol de preocupações do Estado, em vez de definir a priori a importância superior de um referente às custas de outros.

A abordagem feminista para a segurança internacional defende políticas que considerem parte integrante na sua elaboração o efeito que elas têm para diferentes referentes.  Ao mesmo tempo, a reflexividade na elaboração de políticas garantiria que a priorização de um ou outro referente não dependa do recurso acrítico a narrativas sobre gênero, mas resulte do consenso político da sociedade sobre o valor dos referentes ou sobre o quanto eles estão sendo ameaçados.

Finalmente, o gênero como categoria de análise serve não apenas para iluminar uma das muitas maneiras pelas quais o desprivilégio das mulheres é mantido na sociedade, mas, mais ainda, desvela o quanto e como o conceito de segurança resiste a um aprofundamento democrático. As narrativas de gênero, aqui, são justificativas para certas prioridades e certas formas de atuação do Estado que não prejudica apenas as mulheres, que são excluídas ou incluídas de maneira subordinada nessas narrativas, mas também prejudica a própria ideia de política democrática.

Como traduzir esse pensamento para a segurança pública? O primeiro passo é, sempre, ao pensar em segurança, pensar em quem está sendo protegido do quê e como.

Pensemos sobre a Polícia Militar, sobre as UPPs, sobre a própria discussão de segurança que vemos acontecer na nossa Universidade. Em que termos está sendo construído o debate? As estratégias que surgem como resposta ao nosso “problema de segurança” – elas defendem quem do quê e como? Ou mais, ainda, quando falamos de segurança no campus, precisamo reenquadrar todo o debate. Quais são as inseguranças que se vive no campus? Qual a melhor maneira de evitá-las ou suprimi-las? Mais ainda, as respostas que consideramos hoje prioritárias, elas defendem quem do quê? Há o risco de que elas reforcem algumas inseguranças, ao responder a outras? A Universidade, como comunidade política, acha que é válido o trade-off que certas respostas exigem? Essas são perguntas para as quais as respostas não são conclusões apriorísticas, ou baseadas em abstrações, mas resultado do embate e da disputa democrática, que deve ser sempre o nosso ponto de partida, nossa fonte de segurança política. Não um “depois”, sempre adiado, sempre possível apenas como discussão remanescente e autorizada pelo privilégio.

Marcha das Vadias – o B&D marcha junto

A Marcha das Vadias é uma mobilização contra o hábito recorrente em nossa sociedade de culpar as mulheres pela violência cometida contra elas. A violência doméstica e a violência sexual são crimes para os quais não existe justificativa. Nenhuma mulher gosta de apanhar e nenhuma mulher “pede” o próprio estupro – nem quando anda só na rua, nem quando usa saia curta, nem quando são vadias. Todas as mulheres merecem uma vida sem violência, sem medo e sem culpa.

O B&D sabe que a luta das mulheres é a luta de toda a sociedade. O empoderamento social, a inclusão e a cidadania das mulheres requer o fim da violência contra elas. A tomada de consciência e a mudança de atitude é trabalho para todos. Essa também é a nossa revolução. Por isso, o B&D marcha com as vadias, para imaginar um novo senso comum: a igualdade entre mulheres e homens. Se ser livre é ser vadia, somos todos vadias!

Junte-se a nós, próximo sábado, dia 26/05. Concentração às 13hs, em frente ao CONIC.

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012

 

Por que marchamos?

Em 2011, fomos duas mil pessoas marchando por uma sociedade sem violência contra a mulher. No DF, marchamos porque houve cerca de 684 inquéritos policiais em crimes de estupro – uma média de duas mulheres violentadas por dia -, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos. Marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são abusadas sexualmente ao longo desses trajetos.

Dia 26 de maio deste ano, continuaremos marchando porque, no Brasil, aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano e, mesmo assim, nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro. Marchamos porque o nosso Superior Tribunal de Justiça inocentou um homem que estuprou três meninas de 12 anos alegando que elas já se prostituíam, culpabilizando as vítimas, ignorando sua situação de vulnerabilidade e negando a falência do próprio Estado, incapaz de garantir uma vida digna para que meninas tão novas não fossem levadas a serem exploradas sexualmente. Marchamos porque vivemos em uma sociedade onde homens são capazes de planejar e executar um estupro coletivo de seis mulheres como “presente de aniversário”. Marchamos pelo direito ao aborto legal e seguro, porque não queremos Legislativo, Judiciário ou Executivo interferindo em nossos úteros para nos dizer que um aborto é pior que um estupro. Marchamos principalmente para que as mulheres pobres, que abortam em condições desumanas, não continuem sendo criminalizadas e levadas à morte pela negligência e perseguição do Estado, como no caso recente em que o Tribunal de Justiça de São Paulo levará uma mulher acusada de aborto a Juri Popular a pedido do Ministério Público. Marchamos porque o Brasil ocupa, vergonhosamente, o 7 º lugar em homicídio de mulheres e porque, a cada 15 segundos lendo este Manifesto, uma mulher é agredida em algum canto do país.

Continuaremos marchando porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens. Continuaremos marchando porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos – voltada ao prazer masculino – se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas/os filhas e filhos. Continuaremos marchando porque mulheres ainda são minoria em cargos de poder e recebem em média 70% do salário dos homens. Continuaremos marchando porque há trabalhos desempenhados por uma maioria feminina que não são reconhecidos, nem dotados de valor econômico, porque as trabalhadoras domésticas são invisibilizadas, exploradas, discriminadas e não têm assegurados alguns dos direitos fundamentais mais básicos do trabalho. Continuaremos marchando porque prostitutas fazem parte do funcionamento de uma sociedade machista e hipócrita que, ao mesmo tempo em que se utiliza de seus corpos, insiste em negar suas cidadanias.

Marchamos contra o racismo porque durante séculos nós, mulheres negras, fomos estupradas e, hoje, empregadas domésticas são violentadas, assim como eram as mucamas. Marchamos pelas crianças negras que são hostilizadas pela cor de sua pele, por seus cabelos crespos e são levadas a negar suas identidades negras desde a infância, impelidas a aderir ao padrão de beleza racista vigente. Marchamos porque nossa sociedade racista prega que as mulheres negras são “putas” por serem negras, tratando-nos como mulas, mulatas e objetos de diversão, desprovidas de dor e pudor. Marchamos porque nós negras vivenciamos desprezo e desafeto reduzindo nossas possibilidades afetivas; “Vadia” enquanto estigma recai especialmente sobre nós negras, por isto marchamos em repúdio a esta classificação preconceituosa e discriminatória de nosso pertencimento étnico-racial.

Marchamos pela saúde das mulheres negras, porque temos menos acesso aos serviços de saúde, porque nos negam pré-natais, cesarianas e anestesias por acreditarem que somos animais e não sentimos dor, porque sofremos tentativas de extermínio ao sermos submetidas a esterilizações cirúrgicas sem nosso consentimento, porque somos as que mais morremos em virtude de abortos clandestinos e de complicações no parto, porque nos oferecem atendimento inadequado por terem nojo de nossos corpos negros. Marchamos pelas cotas raciais nas universidades públicas, porque temos menos acesso à informação e ao ensino superior e queremos ser mestras, doutoras e ter autoridade do argumento para escrever nossas próprias histórias. Marchamos para exigir providências contra as ameaças dirigidas a nós da Marcha das Vadias e às/os estudantes da Universidade de Brasília, proferidas por grupos de ódio que insultam mulheres, negros/as e homossexuais. Marchamos porque não vamos deixar que o medo nos silencie.

Marchamos também porque as mulheres indígenas lideram os índices de mortalidade materna e há mais de quinhentos anos sofrem agressões e estupros como arma do genocídio social e cultural de seus povos. Marchamos porque mulheres e meninas indígenas têm suas necessidades específicas ignoradas pelo governo, que negligencia o fato inaceitável de que, no mundo, uma em cada três indígenas é estuprada durante a vida e que, no Brasil, muitas mulheres e meninas indígenas são levadas à prostituição e ao trabalho escravo pela condição de extrema pobreza em que vivem.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que devem ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual. Marchamos porque, como reflexo desse cenário de opressão e subordinação, 70% das mulheres com deficiência intelectual, como a síndrome de down, já sofreram abuso sexual, cometido muitas vezes por seus próprios cuidadores e/ou familiares. Marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo. Marchamos porque há poderes institucionalizados que banalizam todas essas violências, porque o Estado não toma todas as medidas necessárias para prevenir as nossas mortes e porque estamos cansadas de sentir que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente.

Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque não seguimos o que a sociedade ou a nossa família esperava de nós,  já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar e em todos os regimes carcerários antes e depois disso. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos mais uma vez para dizer que não aceitaremos que palavras e ações sejam utilizadas para nos agredir. Nenhuma palavra mais vai nos parar, impedir, restringir ou dividir, pois os direitos das mulheres são de todas. Enquanto, na nossa sociedade machista, algumas forem invadidas e humilhadas por serem consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres para ser o que quisermos! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência, o direito à expressão da própria sexualidade e a autonomia sobre o próprio corpo são alguns dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desses direitos fundamentais que marchávamos há um ano, marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Marcharemos para que não restem dúvidas de que nossos corpos são nossos, não de qualquer homem que nos assedia na rua, nem dos nossos pais, maridos ou namorados, nem dos pastores ou padres, nem dos Congressistas, nem dos médicos ou dos consumidores. Nossos corpos são nossos e vamos usá-los, vesti-los e caminhá-los por onde e como bem entendermos. Livres de violência, com muito prazer e respeito!

Negras, brancas, indígenas, estudantes, trabalhadoras, prostitutas, camponesas, transgêneras, mães, filhas, avós. Somos de nós mesmas, somos todas mulheres, somos todas vadias!

Autonomia e não vigilância

Várias representantes do movimentos de mulheres se reuniram hoje com o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia. O tema foi a medida provisória no. 557, sobre o cadastro e vigilância das gestantes, com vistas à redução da mortalidade materna, em tramitação na Câmara e prevista para ser votada antes do 31 de maio.

Ao fim do dia, o que as tentativas de diálogo no Congresso com os representantes do governo deixam transparecer é que este continua surdo às demandas que as mulheres vêm fazendo, desde janeiro, sobre a retirada da medida. No caso, sua surdez não é grave apenas por ter ignorado o movimento de mulheres e mesmo um dos principais órgãos do executivo na temática, a SPM, durante a redação da MP. Sua surdez não é grave, ainda, apenas por ter ignorado a posição da maioria dos membros do Conselho Nacional de Saúde, que aponta que a MP é redundante e cosmética – cadastramento e bolsa-auxílio já estão previstos em outras polítcas. O que falta para a efetiva redução da mortalidade materna, sabem bem os profissionais da saúde, é melhor atendimento às gestantes e puérperas, e a expansão dos direitos sexuais e reprodutivos. Sua surdez é particularmente grave ao escolher fazer ouvidos moucos à ameaça que a votação desta MP representa no contexto legislativo atual. Como apontou o CFêmea recentemente, a atuação do Congresso Nacional no momento é a pior para os direitos das mulheres desde a Constituinte de 88. Dos 34 projetos de lei que tramitam sobre direitos reprodutivos das mulheres, apenas 3 visam ampliá-los. Muitos deles visam regridir nas conquistas dentro da legislação nacional, restringindo ainda mais o acesso das mulheres à saúde sexual e reprodutiva como definida pelo documento final da Conferência do Cairo das Nações Unidas sobre populações.

É ultimamente desesperador dar-se conta de que no governo da primeira mulher presidenta corremos o risco real de ter nossos direitos, como mulheres, restritos, em vez de ampliados. É uma contradição a qual a presidenta não pode manter-se surda. E se ela não nos ouve, talvez seja porque as vozes de certos congressistas, que sustentam suas crenças às custas do laicismo do Estado brasileiro, às custas das mortes das cidadãs brasileiras, estejam se sobrepondo às nossas. Nesse sentido, é preciso falar mais e mais alto, é preciso que nos mantenhamos mobilizadas e exigindo, enquanto e para que as restrições à nossa autonomia não nos subam pelos ventres até a boca. Continuar lendo