B&D Cria atividade no ENECOM

Camila: Senta aí que a gente precisa escrever sobre o evento de hoje no ENECOM, rapá.

Gustavo: Cri cri cri

Camila: Eu tenho três reuniões ainda hojeee, vamo logo!

Gustavo: Faz aí que eu assino embaixo, hehe.

Camila: Ok. Era uma manhã ensolarada, pássaros cantavam de longe, o cheiro de café fresco, aquele ar friozinho típico de Brasília e, nós, entusiasmados com uma oficina sobre criatividade política, nos debruçávamos sobre o texto de 10 páginas que tínhamos escrito, para refletir a respeito, na noite anterior.

Gustavo: Tu vai mentir na cara dura?

Camila: Belê, vou começar de novo. Acordei um pouco atrasada, vim correndo pra UnB com medo de ver todo mundo aqui me esperando, indignado com minha demora. Cheguei, encontrei você  e vi que estava tudo um pouco atrasado. Ufa…

Gustavo: Daí bateu aquele medo de ninguém aparecer.

Camila: Exato.

Gustavo: Mas não.

Camila: Não. E isso foi genial. Chegaram o Paraná e a Clarice e a sala, naquele momento vazia, foi enchendo! Eu fiquei muito de cara. Pensei que a ressaca venceria os encontrandos.

Gustavo: Alguns presentes estavam vencidos, perdidos na rua da amargura, de fato.

Camila: Tá, beleza, mas a energia da sala tava sensacional, vai dizê! Cada hora que surgia um novo sotaque eu achava que era outra língua. Uma mais cantante que a outra. Eu ficava tentando acertar as regiões desse pessoal que ia entrando, pouco a pouco, e se entusiasmando com os vídeos, com as falas, com toda a oficina.

Gustavo: Acho que era o som dos vídeos. Músicas boas, bem selecionadas e pá.

Camila: Não era o som, ô, mane. A campanha #votoserrapq realmente empolga.

Gustavo: Sim, se eu votasse negro, eu não seria serra, hehehe.

Camila: Ok, seu chato, mas, falando sério! A gente reúne alguns preconceitos no vídeo que são tragicômicos, claro, mas que também demonstram como estudantes com um senso de humor conseguem interferir na agenda política. Disputar o senso comum é massa,  dialogar com quem discorda é massa. Mostra que esse lance de fazer política não é algo que tem que ser necessariamente chato. Politicar é legal, vai…

Gustavo: Vai…

Camila: Serião! E oficinar é entusiasmante quando se põe em prática um pouco desse sonho que é a UnB. Pensar junto, unido, pés nos chão e com base na prática, na práxis do dia-a-dia.

Gustavo: Foi looonge…

Camila: Looonge…

Gustavo: Lá de looonge…

Camila: Onde toda beleza do mundo se escooonde…

Gustavo: Mandeee para ontem…

Camila: Ok, voltar pro post.

(entra uma participante da oficina, a “encontranda”)

Encontranda: Galera, que tipo de post é esse nada inclusivo, no qual vocês simplesmente escrevem suas percepções sem nem considerar ou chamar alguém do encontro pra escrever com vocês?

Camila: Escreva aí, colega.

Oficina do B&D no ENECOM-Brasília

Encontranda: Acho bom…. Então, vamos começar: “Era uma manhã ensolarada, o céu brilhava azul anil, minhas axilas suavam de tesão pela oficina que começaria no horário exato…”

Gustavo: A gente já desconstruiu esse discurso…

Encontranda: Ah….tá. Bom, vou falar então…hum…ah, sim, nos apresentaram dois contextos sociais diferentes para…

Gustavo: Seja precisa, quem apresentou?

Camila: Não dê atenção a ele.

Encontranda: (vira de costas para Gustavo) Como eu dizia, o B&D nos apresentou dois contextos sociais diferentes: um do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e um do Banco da Estrutural de Economia Solidária. A gente tinha que bolar meios criativos de promover, difundir informações e divulgar as iniciativas de forma a disputar o pensamento hegemônico. Uma forma que agregasse libido, que envolvesse os desejos individuais em planos comuns e coletivos.

Gustavo: Que deeennnso. Tinha tudo isso num videozinho besta, véi?

Encontranda: Não sei se era intenção, mas, sabe comé esse lance de linguagem, né? Nunca pertenceu nem nunca vai pertencer a ninguém.

Gustavo: Falou bonito, me dá um beijo?

Encontranda: Jamais. Segure a onda ae. Meu desejo não contempla você enquanto objeto e eu quero falar mais.

Camila: Desembucha ae aquele papo que altera.

Encontranda: Aquele papo de alteridade, cê diz…. Cara, sei lá, ver um grupo com pessoas discutindo estratégias de comunicação inovadoras para movimentos sociais. Ver, num grupo só, pessoas que não se conheciam, de diversas regiões, expondo suas realidades-próximas, seus desejos-locais, realmente fascina, envolve e pelo menos ME seduz.

Camila: Contempla.

Gustavo: Comunica.

Encontranda: Explica.

Camila: Aglutina.

Gustavo: Incorpora.

Encontranda: Revigora.

Camila: Ok, parou.

Gustavo: É, parou.

Encontranda: Pelegos…

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Paul Singer, um jovem de 80 anos

Jovem. O que significa essa palavra? O que significa ser jovem? A Presidência da República, ao criar a Política Nacional da Juventude, inclui no termo “Jovem” todos aqueles que estão entre a idade de 18 anos e a de 24. Pelo menos são esses os atingidos pelo Programa Nacional de Inclusão de Jovens, primeiro programa dentro dessa política nacional. Claramente, essa definição não é exata. Alguns dirão que a idade do jovem vai até os 30 anos, outros dirão que é até os 29, etc. Fato é, entretanto, que não se entende, normalmente, que o termo esteja desvinculado da idade. Quando as pessoas utilizam o termo, geralmente referem-se a pessoas de uma determinada faixa etária e se diferenciam dos “jovens” dizendo que já possuem esta ou aquela idade, supostamente superior ao limite daquilo que é jovem.

Acredito, porém, que é consenso que um senhor de 80 anos, pelo menos no senso comum, não é entendido como jovem. A não ser num clube de idosos no qual ele seja o mais novo, ou coisas do tipo.

Essa concepção de juventude, por demasiadamente objetiva no quesito numeral da idade, olvida um aspecto do “ser jovem” que, ao que tudo indica, é exatamente o que dá significação substancial ao termo, isto é, a capacidade de se sentir “novo”. E esse “novo” não diz respeito somente à idade. Diz respeito à capacidade de arriscar, de se jogar, de, enfim, sonhar e investir libido em experiências e esperanças ainda não conhecidas. Paul Singer é, antes de qualquer outra qualificação que o defina, um jovem. Acredita e vive o novo. Explora, inova, sonha, empenha sua vida ao desfrute de novas perspectivas para a sociedade de amanhã.

Seu projeto de economia solidária, e tudo que acompanha essa perspectiva, é fruto de um olhar crente numa sociedade estruturalmente diversa da que vivemos hoje. Tem por base, pois, uma construção capilarizada de novos agentes sociais emancipados e, consequentemente, capazes de transformação diária da estrutura econômica. Pensar a economia solidária, como disse o Jovem de 80 anos no curso de economia do B&D ontem, é pensar também numa sociedade que privilegia mais outros aspectos que a mera acumulação de capital. É pensar em outros objetivos, outras prioridades. A solidariedade como ponto central desse projeto escancara a perspectiva de uma felicidade no e a partir do outro (existe outro tipo de felicidade?).

É claro que a bibliografia da alteridade é extensa nesse aspecto e é inevitável fazermos paralelos com todas elas ao escutar esse tipo de exemplo. A diferença de Singer é que, quando ele diz isso, todo seu discurso está repleto de vivência. Ele vive tudo isso. Seu jeito brasileiramente cordial e sua disposição invejável para discutir e explicar o porquê desse projeto mostram que seu vínculo com a implementação da economia solidária deixou, há muito, de ser um projeto exclusivamente político. O projeto da economia solidária é existencial para Singer. Sua vida gira em torno das sensações que a economia solidária lhe proporcionam e, se não toda, grande parte de sua libido está investida na realização dos projetos que envolvam a solidariedade econômica.

Ver alguém tão imerso na política macro como ele com toda essa ânsia e crença na mudança é, sem sobra de dúvidas, inspirador. Não há nada mais desejável, atraente, empolgante, envolvente que ver pessoas que lutam e se empenham em atingir seus objetivos. Ainda mais quando esses objetivos são ambiciosos. Ainda mais quando esses objetivos são inovadores.

Os “jovens” de hoje em dia, adeptos das relações virtuais e das frequentes mudanças abruptas de gostos, conceitos e formas de comunicação, têm muito o que aprender com esse jovem que se embasa em percepções simples e, de certa forma, constantes para criar e constantemente se inovar – tudo muda e tudo é possível. O jovem, que nasceu em 1932, poderia dar aula de juventude e de século XXI para muitos que se encaixam na janelinha objetivamente burra de 18 a 24 anos. Ontem, na casa 14, no Curso de Economia do Brasil e Desenvolvimento, ele fez exatamente isso.

Prostituta. E daí?

A inclusão social de sujeitos “esquecidos”, “deixados para trás”, é indispensável para o projeto democrático brasileiro. Vislumbrar a possibilidade de um projeto cidadão que olvida certos indivíduos e os remete a situações humilhantes e degradantes contradiz todo o aspecto que envolve a abertura constante aos mais diferentes atores e às mais diferentes moralidades.

De acordo com o estudo de Jessé Souza[1], existe uma classe social que se (re)produz enquanto falta. Faltam a eles, segundo o sociólogo, todas as capacidades básicas ditadas pela moralidade hegêmonica e pela ideologia dominante. São eles, nos termos de Souza, membros da “ralé”. Essa classe desempenha algumas funções específicas que lhes são atribuídas justamente pela dissintonia entre seu modo de viver e a cultura predominante.

As profissões mais costumeiramente atribuídas à ralé, segundo o autor, são:  o posto de empregada domestica, o de prostituta, o do delinquente, o de guardador de carro e o de todos os que exercem os chamados trabalhos desqualificados[2].

Se analisarmos mais de perto a prostituição, entretanto, perceberemos que existem alguns aspectos que lhes são peculiares:

Primeiramente, é importante enxergarmos como a prostituta, ao mesmo tempo, é tratada socialmente como agente de um ato ilícito, se aproximando, por isso, da delinquência, e como vítima e agente passiva em crimes como tráfico internacional de pessoas, onde a lei penal brasileira parece enxergar a prostituição como uma forma de exploração sexual, ao dizer que há tráfico internacional de pessoas quando ele é feito com o fim específico de exercer a prostituição “ou outra forma de exploração sexual”.

O que isso significa? Significa que o tratamento social dispensado à prostituta determina que sua vontade ou é ilícita, quando, como veremos, é delinquentizada; ou é descartada e irrelevante, quando exclui a validade de sua escolha, de seu projeto de vida, ao impedir, por exemplo, que ela vá exercer a prostituição no exterior. É óbvio que o tráfico de pessoas é algo muito mais complexo do que a aglomeração de prostitutas livremente escolhendo sair do país para exercer seu ofício em outro local. No entanto, o tipo penal, que busca, em tese, punir aquele que se beneficia da exploração das desigualdades sociais para traficar seres humanos, acaba, propositalmente ou não, impedindo, em vários casos, o exercício da prostituição como uma profissão igual às outras.

Patrícia Mattos analisa a questão dizendo que no Brasil, apesar da prostituição não ser considerada crime, há uma condenação da atividade, sendo as mulheres tratadas como agentes de atos ilícitos. Diz ela:

“Mesmo que a prostituição no Brasil não seja considerada uma atividade ilegal, isto é, não há lei que proíba uma mulher de trocar favores sexuais por dinheiro, ela é associada como numa relação de “contágio” a crimes como lenocínio e furto. É isso o que legitima que a policia faça operações como a ‘Copacabana’ e ‘Barrabacana’ realizadas nas praias de Copacabana e da Barra da Tijuca, que tinham o objetivo de encaminhar prostitutas, travestis e meninos de rua à delegacia para serem cadastrados sob a justificativa de reprimir a desordem urbana nessas regiões da cidade.”[5]

Assim, entender a prostituição como profissão é, antes de mais nada, reconhecer certas prerrogativas e certos direitos reconhecidos juridicamente para combater a exploração constatada pelo capital no trabalho. Entender, pois, a prostituição como profissão, é entendê-la como uma atividade sujeita à lógica capitalista e, por conseguinte, sujeita abjetamente à exploração pelo capital. A exploração e coisificação que advém da relação cliente-prostituta e agenciador-prostituta é, antes de qualquer coisa, um reflexo da lógica mercadológica capitalista.

A diferença essencial, nesse caso, relativamente às relações sociais clássicas que constituem o modo capitalista de produção é que as relações constituídas na prostituição, apesar de serem necessárias e, ainda mais, produzidas pelo mundo do capital, são inteiramente marginalizadas tanto social quanto jurídica e ideologicamente.

Vejamos.

Como demonstrado por Patrícia Mattos e pela Pesquisa Sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial no Brasil (PESTRAFE), a prostituição é uma atividade que raramente se dá por vontade própria. Na maioria dos casos, mulheres são levadas ao exercício da prostituição por questões de vulnerabilidade social[6], pela naturalização do “estupro infantil e familiar”[7] ou outras situações análogas relacionadas à sua classe social. Porém, é importante fazer a ressalva de que os trabalhos relacionados à ralé raramente são tidos como trabalhos “escolhidos”. Uma das características centrais desse tipo de trabalho é a imposição dele como necessário para subsistência própria e da família. Em suma, a ralé admite sua própria incapacidade e utiliza a estratégia de “transformar necessidade em virtude”[8]

A prostituição, como as outras ocupações da ralé, são menos fruto de uma escolha do que se deseja fazer do que uma escolha entre o que se pode fazer para conquistar condições materiais mínimas. Assim, a análise sobre a prostituição como profissão perpassa o exame de um dos casos emblemáticos de toda uma classe de sub-cidadãos que, apesar de estarem incluídos formalmente no rol de destinatários dos direitos constitucionais, não são considerados na esfera pública de tomada de decisões.

Tal perspectiva viola uma noção emergente que considera a democracia como sistema político do outro[9]. Nela, como já vimos, os indivíduos são igualmente livres e livremente iguais para decidirem sobre o que os vincula, o que os limita e, consequentemente, o que os constitui como comunidade de direitos. Em um mundo complexo[10], onde o “outro” significa “o diferente”, “o plural”, “o diverso”, a abertura para ele requer o entendimento de uma igualdade na diferença. Somos agora, e seremos cada vez mais, igualmente diferentes. O reconhecimento institucional e constante do plural como igualmente capaz, igualmente digno, igualmente necessário, revela o conceito democrático de cidadania.

Assim, o problema da ralé como um todo e, consequentemente, de grande parte da prostituição, é um problema democrático. É a abertura democrática que consolida e vincula, em um procedimento[11], várias vontades, trazendo à esfera pública uma perspectiva que aumenta o campo de visão de indivíduos, fazendo-os não só compreender o mundo e sua situação de forma diferente, como também enxergar no diverso[12], no outro[13], um “eu” que precisa ter seus direitos defendidos. Afinal,  autonomia pública é justamente a possibilidade e o entendimento de um “fazer-se” coletivo a partir de uma auto-limitação individual[14].

Conforme expõe Friderich Muller:

“Uma democracia, legitima-se a partir do modo pelo qual ela trata as pessoas que vivem no seu território (…). Isso se aproxima, finalmente, da idéia central de democracia: autocodificação, no direito positivo, ou seja, elaboração das leis por todos os afetados pelo código normativo.”[15]

Por todo o exposto, parece que os ganhos com o reconhecimento do direito à prostituição e a conseqüente regularização da profissão geraria mais benefícios à ralé do que a sua criminalização, extinção, no que diz respeito a aceitação do “outro” no processo democrático. Vejamos.

Como defende Jessé Souza, a valorização de uma profissão enseja maiores pré-condições para alcançar o sucesso econômico social. Isso porque os valores de classe refletem necessariamente valores morais da sociedade do tipo maior /menor, melhor /pior, bonito /feio. Uma mulher que exerce a prostituição sem ter garantido os direitos de se prostituir, no sentido de ter resguardado algumas garantias trabalhistas e ser tratada como pessoa igual perante seus pares sociais, colhe para si e reproduz para outros a aversão ao seu modo de vida, às vezes essencial para resguardar seu sustento econômico. A mulher ou homem rechaçada/o socialmente pela atividade que exerce para possibilitar o sustento material de sua família transmite sua própria sensação de fracasso e “ensina”, por seus atos, o senso de inferioridade e modos de viver que não coadunam com os valores sociais dominantes.

A auto-estima elevada de um grupo de pessoas costumeiramente excluídas é capaz de  promover a análise e (re)construção de valores devido, principalmente, à percepção de que a regulação das condutas dos agentes não lhe pertencem pelo mero fato de que não levaram em conta sua existência enquanto sujeitos de direitos.

No mesmo sentido, indispensável enxergarmos os problemas sexistas em torno da prostituição. O mercado da prostituição se constrói e se desenvolve a partir de uma relação intrínseca com os bens culturais e os bens simbólicos emitidos constantemente pelos produtores culturais. Isso não o diferencia de nenhum outro mercado no mundo.

Porém, em se tratando de um aspecto inteiramente ligado ao sexo, cuja regulação perpassa a redução da mulher a um papel objetificado, o dever democrático do Estado é buscar mecanismos que impeçam ou ao menos diminuam essas perversidades. Afinal, a cultura, ao que tudo indica, majoritariamente sexista, molda os aspectos da prostituição para que se entenda o serviço prestado como advindo de um “ser” sexualmente objetificado. Logo, o aspecto “objeto” do serviço está ali impregnado por questões sócio-culturais que enaltecem o poder do homem e diminuem a agência feminina. Tanto é que a reivindicação pela regulamentação do serviço se dá majoritariamente em razão dos abusos trabalhistas, sexuais e físicos que essas mulheres sofrem.

Destarte, mesmo que se condene a prostituição, e se entenda que ela perfaz um caminho não desejável aos indivíduos, parece indispensável o reconhecimento da escolha, induzida ou não, plena ou deficitária, de exercer a atividade. O seu não reconhecimento e a conseqüente entrega às vias informais do mercado submete as pessoas que disso vivem a um ambiente mais hostil. Tendo em vista o fato de que a prostituição está geralmente atrelada às classes sociais mais baixas (PESTRAFE), o empurro social dessas pessoas à informalidade acaba por restringir o acesso às vias institucionais de defesa à dignidade da pessoa humana, dificultando mais ainda a emancipação desejável e a conseqüente inclusão social.


[1] SOUZA, Jessé. 2009.

[2] O exemplo dado é o de vigias de carro, mas é aplicável a situações análogas. GRILLO, Fabrício Maciel André. In: SOUZA, Jessé, 2009.

[3] As dinâmicas sociais e as consequentes regras de convivência, nas quais a prostituição obviamente se insere, são influenciadas por todo um background sócio-econômico e geopolítico, tal como explica Renato Ortiz. Para este autor, a história das configurações capitalistas de nossa sociedade não podem ser definidas sem entendermos a “tendência modernizadora” das indústrias culturais. Isto é, a construção de um vínculo, hoje indissociável, entre a produção de bens materiais e, ao mesmo tempo, de bens simbólicos, que não só foram cada vez mais produzidos e pensados conjuntamente, como fomentavam um ao outro. A própria configuração do espaço nacional, ainda segundo o autor, se deu numa correlação de forças que fincava seus pés tanto na arena econômica, numa perspectiva de dominação clássica de classe, como também por um viés cultural. Dessa forma, a produção de cultura e, por consequência, a atribuição de sentido e interpretação coletiva das memórias também coletivas passaram a ser controladas e manejadas por uma indústria cultural com o objetivo de “uniformizar consciências, segundo os ditames da modernidade capitalista” .

Já a lógica “pós” moderna se edifica sobre a fluidez de uma retórica social capaz de criar vínculos sem a hegemonia reguladora do Estado . A determinação mercadológica, cuja preponderância econômica – apesar de aliada a aspectos simbólicos e comunicacionais –remonta aos ensinamentos de Marx, acaba por, em prol de seu próprio funcionamento e sua própria lógica de buscar mercados rentáveis, esfacelar fronteiras físicas e, ao mesmo tempo, construir barreiras virtuais

[4] Interessante ver como essa passividade, para além de ter propósitos políticos, no sentido de, em muitos casos, dar a idéia de incapacidade de auto determinação, também é referencia mercadológica do que é procurado por clientes quando se busca a prostituição. A passividade e a aceitação de “ser explorado”, de ser sem vontade, é uma das características comumente desejadas pelo cliente. Ele, na posição de aquele que “paga por sexo” quer se sentir dono do ato, do prazer e, indubitavelmente, do corpo da prostituta.

[5] MATTOS, Patrícia. In: SOUZA, Jessé. 2009.

[6] PESTRAFE.

[7] SOUZA, Jessé. 2009.

[8] MATTOS, Patrícia. In: SOUZA, Jessé. 2009.

[9] HABERMAS, Jürgen, 2002.

[10] “In information-theoretical terms, complexity designates a lack of information that prevents a system from completely observing itself or its environment. Complexity enforces selectivity, which in turn leads to a reduction of complexity via the formation of systems that are less complex than their environment.” LUHMANN, Niklas. Social Systems. 2005

[11] “Os direitos de participação política remetem à institucionalização jurídica de uma formação pública da opinião e da vontade, a qual culmina em resoluções sobre leis e políticas. Ela deve realizar-se em formas de comunicação, nas quais é importante o princípio do discurso, em dois aspectos: O princípio do discurso tem inicialmente o sentido cognitivo de filtrar contribuições e temas, argumentos e informações, de tal modo que os resultados obtidos por este caminho têm a seu favor a suposição da aceitabilidade racional: o procedimento democrático deve fundamentar a legitimidade do direito.” HABERMAS, Jurgen. (1997, 49)

[12] A política organiza, de antemão, as diversidades absolutas(dos indivíduos) de acordo com uma igualdade relativa em contrapartida às diferenças relativas(dos povos). A política trata da convivência entre diferentes. Os homens se organizam politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, ou a partir do caos absoluto das diferenças. BECK,  Ulrich.

[13] O homem só existe (ou se realiza) na política a partir do momento em que seus pares reconhecem direitos iguais aos mais diferentes. Os homens devem a si mesmos sua pluralidade. ARENDT, Hannah. (1998, 11).

[14] “A constituição faz valer exatamente os direitos que os cidadãos precisam reconhecer mutuamente, caso queiram regular de maneira legítima seu convívio com os meios do direito positivo” HABERMAS, Jurgen (2007, 229)

[15]MULLER, Friedrich. Democracia e Exclusão Social em Face da Globalização. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_72/Artigos/Friedrich_rev72.htm.

Criatividade pra quê?

Por Gustavo Capela

Num mundo onde as desigualdades sociais são um fato, pensar a estrutura da sociedade e a alocação de recursos é quase que um lugar comum. Afinal, a pergunta que martela a cabeça do cientista social, ao que tudo indica, é para quem vão e, em seguida, para quem devem ir os recursos? A resposta tem muito a ver com o sistema de distribuição que elencamos como valido ou, talvez, simplesmente como mais útil a sociedade. Essa utilidade e validez decorrem, em tese, de princípios que justificam e aglomeram a sociedade em torno de si para um melhor compartilhamento e desenvolvimento coletivo. E aí encontramos a maldita palavra que não só pode, como deve ser disputada pela esquerda atual – desenvolvimento. O que é desenvolvimento afinal e qual é a relação que ele (é masculino o desenvolvimento?) tem com a esquerda?

José Luis Fiori busca analisar essa relação, e seu viés histórico-atual, num artigo bastante recomendável que se encontra aqui. Em síntese, Fiori demonstra como, apesar de o desenvolvimentismo, historicamente no Brasil, ter se atrelado ao que é comummente conservador, houve espaço para a criação daquilo que é chamado de desenvolvimentismo de esquerda.

Segundo seu artigo, desde os modelos utilizados pela Ditadura de Vargas até aquele proposto e efetivado pelo governo militar pós-golpe de 64, a veia conservadora de um modelo nacionalista que se embasa no empoderamento econômico da nação dentro do mercado capitalista global afastou, inicialmente, a esquerda desse proposito, reaproximando-os a partir de uma releitura, segundo o autor, do PCB (o partidão na candidatura de JK e, posteriormente, na reflexão marxista a partir de releituras dos trabalhos da CEPAL e do movimento que acabou por fundar a UNICAMP, como centro emissor das ideias eixo-econômico esquerda.

Fiori questiona, e aparentemente cobra, a esquerda campineira no que diz respeito a criatividade que, segundo o autor, era ali vivenciada nos anos 70. Para o autor, desde então, a criatividade deixou de ser um fator forte da escola, que passou a se portar como mero locus tecnocrata e pouco afeita aos anseios sociais. Diz ele:

“Por isso, não é de estranhar que neste início do século XXI, quando o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional, a sensação que fica da sua leitura é que o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico” que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola”.

Acreditando ou não na descrição feita no artigo, fato é que a guinada desenvolvimentista no Brasil, desde a chegada do PT ao poder, parece ter desviado o foco da esquerda no quesito criação. A despeito dos diversos fatores que certamente apontam para uma melhora considerável em alguns campos, ainda engatinhamos em alguns fatores elementares no que diz respeito a justiça social. O saneamento básico e o deficit habitacional são alguns deles. Sob o pretexto de desenvolvimento nacional, construímos estádios gigantescos, com orçamentos igualmente grandiosos em lugares onde não ha time de futebol, mas ha, sim, miséria e pobreza. Mas talvez mais injustificável que a inversão de princípios que governam o desenvolvimentismo-puro, parte da esquerda parou, ao que tudo indica, de pensar que uma outra sociedade é possível. Agir e pensar assim, para a esquerda, é super problemático. Se a esquerda deixa de agir e pensar o novo, cai no terrível erro de não só permitir como convalidar o que já existe. E, pelo que sei, o que já existe não contempla os princípios que coordenam a esquerda mundial. Estou errado? Partindo desse pressuposto, todo e qualquer passo deve ser tomado com vistas a algo novo e isso é um principio claro de uma esquerda que se predispõe a mudar e reestruturar as bases de uma sociedade que julga injusta.

Enquanto alguns chamam essa postura de sonhadora, com o nítido viés conservador de quem não entende o potencial de um sonho para a mudança de fato, eu chamaria essa indicação de principio. Sem ele, nos perdemos na fácil consideração de que estamos fazendo o melhor possível. E aí, amigo, nao sei diferenciar muito bem o que é PSDB, o que é PT e, claro, o que é PMDB. Alias, ha, no governo, hoje, essa diferenciação? Ha esse embate ideológico? Ou isso é uma mera conjectura irrelevante para o projeto de pais? Se não nos dispusermos a pensar e disputar esses espaços já estamos perdendo-o.

Acredito que num mundo que da cada vez mais sinais de questionamento social frente ao modelo desenvolvido globalmente, o caminho para a palavra desenvolvimento é, antes de mais nada, se vincular a possibilidade criativa que esta atrelada a própria condição de nos reconhecermos enquanto seres humanos. É no novo e no diferente, no plural e no diverso que nos encontramos enquanto seres capazes de construir e ditar caminhos ainda não traçados. Pensemos, pois, o novo, disputemos o posto e, pelo a amor de algum-ser-superior, criemos com mais frequência.