Nem tudo é machismo. Mas muita coisa ainda é.

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O CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) produziu diversas peças publicitárias (http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/conar-mostra-males-de-palhaco-e-do-arroz-separado-do-feijao) com o intuito de questionar o excesso de algumas reclamações que lhes são feitas.  O objetivo, ao que parece, são dois: 1) mostrar que há um órgão que regula a propaganda; e 2) que existem profissionais aptos a fazerem essa análise, vide o fim dessas peças: “confie em quem entende”.

Para melhor ilustrar seus sentimentos, o Conar utiliza-se do “humor” para fazer referência ao exagero nas reclamações de grupos específicos. Numa dessas peças “hilárias”, um casal se encontra em um restaurante prestes a comer uma feijoada. Antes de iniciarem, porém, chamam o garçom. Ao chegar, o atendente é indagado pelo homem se a separação entre o feijão e o arroz é devido aos sentimentos racistas do restaurante. A mulher, por sua vez, reclama pelo fato de a couve ser o único alimento “feminino” na mesa. Não satisfeita, reclama também do paio, devido à “evidente conotação sexual” do alimento “fálico”. A propaganda segue para dizer que o Conar recebe diversas reclamações por dia. Algumas justas e outras, nem tanto. Tudo isso para fazerem seu apelo final: confiem em quem entende, confiem no Conar.

É fato que existe exagero nas reclamações dos mais diversos lados da sociedade. Em vários momentos, nossas visões estão tão embriagadas de um sentimento específico que somos incapazes de enxergar a situação de modo mais amplo, mais justo. É preciso entender, pois, que nem sempre nosso ponto de vista é o de todos. Que, aliás, nem tudo que enxergamos está ali daquela exata forma, daquela exata maneira. Mas é partindo dessa mesma compreensão que se torna ainda mais evidente que as reclamações dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos violentados e dos oprimidos são relevantes. Porque são vozes excluídas. Vozes, aliás, tratadas como se fossem do “excesso”, do “surreal”, de uma vontade de ver aquilo que não existe.

Percebam que o CONAR, de forma bastante inteligente, utiliza do exagero para nos chamar a atenção para a necessidade de relativizarmos algumas coisas. Nem sempre o paio tem conotação sexual. Nem sempre a cor de um alimento significa algo tão bizarro quanto o racismo. É verdade. Nem sempre. A primeira premissa é corretíssima. Mas ela esquece algumas coisas. Por exemplo, a mulher é tratada como objeto em comerciais de cerveja. Sempre. Porque se pressupõe que quem bebe cerveja é o homem. Porque se pressupõe que uma mulher com medidas x e y apetece o consumidor (masculino). Porque se pressupõe que a mulher, assim como a cerveja, faz parte do jogo da diversão masculina. Assim como a cerveja, a mulher está ali para ser consumida. A mulher combina com cerveja da mesma forma que uma carne vai bem com um vinho.

A utilização do exemplo exagerado contribui para o senso comum de que as reclamações feministas sobre esses comerciais são fruto de um exagero. Que não há nada de anormal num comercial que apenas retrata o que de fato acontece: homes gostam de mulher bonitas e de cerveja. Isso acaba sendo irresponsável e, querendo ou não, beneficiando um lado da balança. Um lado que sempre ditou as regras e continua ditando.

Segundo dados do Fórum Econômico Mundial (http://exame.abril.com.br/economia/noticias/educada-brasileira-nao-tem-espaco-no-mercado-de-trabalho)  o Brasil está na 117ª posição – de um total de 136 países – no quesito de igualdade salarial entre homens e mulheres. É dizer: no Brasil, além de haver nítida desigualdade material entre homens e mulheres (pra dizer o mínimo), é normal que o mercado econômico acabe se voltando quase que completamente à mente masculina. Vejam, até quando existem comerciais para a “mulher-consumidora”, eles sempre ressaltam os atributos que ela, a mulher-objeto, possui para atrair o homem. Óbvio. Na cabeça de alguém com dados, o mais provável é que uma mulher compre apenas o que seu “macho-provedor” permita.  Num cenário desses, apontar o dedo para quem reclama é nitidamente uma forma de enviesar o debate. E não de nivelá-lo.

O CONAR acaba ilustrando, magistralmente, algo que o sociólogo Pierre Bourdieu nos ensina em 150 páginas sobre a dominação masculina. O CONAR precisou de 30 segundos.  O que o sociólogo e o CONAR nos mostram é como nossa sociedade utiliza de dualidades que não guardam nenhuma relação com o que se busca afirmar para justifica-las. Isto é, utiliza-se a diferença de cor em alimentos para, consciente ou inconscientemente, dizer que a diferença de cor dos indivíduos é tão banal quanto essa diferença entre arroz e feijão. Banaliza-se a diferença entre gêneros como se fosse um detalhe de regra gramatical. Banaliza-se a luta feminista como se ela fosse encampada por loucas, chatas ou encrenqueiras (qualquer semelhança com o esterótipo de toda mulher que tem personalidade forte na sua vida não é casual). Tudo isso utilizando-se da diferença entre “a” couve e “o” feijão, ou “o” arroz.

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A disputa do senso comum nas marchas: o papel da esquerda revolucionária

O discurso do senso comum há muito tempo no Brasil gira em torno da “apolitização” da política. E por apolitização, normalmente, entende-se a rechaça aos partidos políticos. Crises de representatividade, desmoralização e oportunismo das figuras públicas e uma visão de corrupção generalizada permeiam esse discurso.

Isso não significa que não existem evidências e situações históricas que deram razão a esse pensamento, de uma ou outra forma, mas significa que essa percepção foi consolidada, a ponto de virar inquestionável. O senso comum, alias, tem como uma de suas principais características essa inquestionabilidade. Isto é, o senso comum se entende como um conhecimento que parte daquilo chamado  de “bom senso”. As frases do senso comum são repetidas tantas vezes que formulamos as afirmações partindo da expressão “todo mundo sabe que”. Assim, “todo mundo sabe que” político é corrupto, que o Congresso não nos representa e que a política é o lugar da sacanagem.

Na nossa opinião, isso se deve ao que Marcos Nobre intitulou de “pemedebismo”. O PT, ao se aliar com os “velhos donos do poder” e ao se apropriar de “velhas práticas” de fazer política, deixou a parcela da classe média com ânsia por mudança descrente com a política. A forma como a mídia vendeu os episódios do “mensalão” e as declarações públicas de Lula em apoio a Renan Calheiros, Sarney, dentre outros, aparentou como uma união entre pessoas do mesmo molde, origem e pensamento.

As indignações nas ruas refletem isso. São as manifestações das indignações do senso comum. Daquelas ideias que são compartilhadas, consciente ou inconscientemente, e que dão algum sentido ao dia-a-dia da maioria da população.

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Rechaçando a política, o povo tomou a rua. E a tomou para fazer política. Sabendo ou não, querendo ou não. O Professor Ricardo Ismael, cientista político da PUC/RJ, chamou atenção para o fato de que todas essas manifestações tiveram origem na de São Paulo. Lá, o MPL puxou ato contra o aumento de passagens que, segundo ele, ocorreu principalmente porque o Ministro da Fazenda pediu que alguns Estados segurassem os aumentos para desacelerar a inflação. Fazendo isso, a maioria das grandes cidades não teve reajuste no período de férias, o que causou mais impacto do que o normal. É obvio que o aumento em si é problemático e acreditamos que a manifestação ocorreria de qualquer forma, mas a conjuntura na qual muitas pessoas se incomodam diretamente (especialmente estudantes) ajuda na construção de atos de massa.

Com esse sentimento, o primeiro ato na Paulista teve 5 mil pessoas. 5 mil pessoas em sua grande maioria estudantes de classe média que foram brutalmente reprimidos. No segundo ato, esse número pulou para 20 mil. Novamente reprimidos, mas agora com a cobertura da grande imprensa, a classe média se indignou. Indignou-se contra a polícia. Indignou-se contra os governos. Porque impediam a classe média de se manifestar. De protestar. Inicialmente, pois, as manifestações se massificaram pela vontade de prestar solidariedade e dizer em alto e bom tom que, “sim, nós da classe média temos o direito de nos manifestarmos”.

Um bom exemplo disso é a diferenciação que a mídia em Brasília fez das duas primeiras manifestações que tomaram a cidade. A primeira, com mais ou menos 300 pessoas, foi puxada primordialmente pelo MTST junto ao Comitê Popular da Copa. Representando uma classe trabalhadora esquecida, o MTST foi duramente criminalizado pela Globo e outros veículos da grande imprensa, inclusive nos levando B&D juntos, pois apoiávamos aqueles que não tem o direito tão manifesto assim de se rebelar: os mais pobres e invisibilizados. A mídia fez esforços para diferenciar essa marcha da que ocorreu no sábado. Nela (a de sábado) a grande maioria das pessoas era da classe média. A pauta era semelhante (denunciar os gastos excessivos da copa do mundo em detrimento do investimento em problemas sociais), mas a origem social, diversa.

Na sexta, não houve confronto com a polícia. No sábado, houve repressão pesada na frente do Estádio Nacional. A primeira, foi tida como violenta devido à queima de pneus. A segunda, divulgada como pacífica com “alguns-pequenos” vândalos. Essa linha editorial, de apoiar os manifestantes, inclusive, foi alterada após a imprensa perceber que o movimento nacional tinha espaço para uma ideologia mais conservadora.

Atentos para a insurgência nacional e precisos na análise do vazio que seguiam os protestos, a mídia mudou de tom. Em suma, perceberam que falavam da classe média lato sensu. Era ela, em peso, que se mobilizava para ir às ruas. Não estavam analisando uma quantidade minúscula de militantes radicais de esquerda ou de pobres tradicionalmente esquecidos e invisibilzados. Estavam falando daqueles que têm poder de persuasão cultural, que têm imagem defendida pela própria imprensa, que dão apoio ao império e monopólio dos meios de comunicação da Folha, do Estadão e da Rede Globo, etc.

As manifestações, sem pauta específica além do direito de protestar, então começaram a se cobrar pautas e, veja que surpresa!, qualquer pauta passou a ser viável, possível, dentro desse balaio de gato. O importante é protestar, estar na rua, mostrar indignação. Parte disso é atribuível à nossa geração e suas especificidades. Outra parte àquilo que é a juventude em sua essência. O novo, quando se depara com o mundo, o vê com lentes frescas e deve, por isso mesmo, refrescar o funcionamento, tentar introduzir novos rumos, encaixar sua criatividade na caixinha que tudo aglomera.

A juventude do nosso tempo, porém, está extremamente voltada para sua auto-estetização virtual. As imagens das redes sociais, hoje, às vezes interessam mais do que a vida real. Os youtubes, facebooks e instagrams são capazes de simular o mundo das celebridades em pequenos círculos, dando grande satisfação aos acontecimentos relacionados a essa imagem construída e aos envolvidos no processo. Ir ao casamento da minha tia se torna legal quando posto uma foto interessante no Instagram, ou um vídeo engraçado no Youtube. Sem essas referências, quem quer saber do casamento da minha tia? Ninguém.

A referência ao mundo das celebridades “reais” é constitutiva dessa formação, entretanto, havendo real vínculo entre o mundo que se quer viver (o do espetáculo real) e aquele em que se vive (o espetáculo-micro). Não é por acaso que a Globo, apesar de rechaçada em toda manifestação, ainda é referência para muitas pessoas na hora de emitir um juízo sobre tudo que está ocorrendo. Todo mundo liga na Globo para saber as notícias e quando alguém aparece lá, acaba nas redes sociais.

Parece, então, que a juventude se organiza nas redes sociais e vai para as ruas para, depois, voltar e contar suas experiências nas redes sociais. É lá (na rede) que tudo parece importar. Lá que estão as discussões, lá que está a “paciência” de cada um para ler posições diversas, lá que os jovens encontram as razões para se manifestar.

Nesse contexto, parece natural que cada vez mais há a inserção do imaginário conservador nas manifestações. E por que isso? Porque 1) o senso comum rechaça todo tipo de organização por descrença fomentada pela mídia; 2) a juventude vive uma realidade de extrema estetização do seu modo de viver; 3) o nacionalismo volta à tona como solução de todos os nossos problemas, sem se atentar para o contexto geral de internacionalização dos problemas sociais; e 4) as redes sociais têm contribuído para dar caráter supérfluo a tudo que é presencial e mais profundo.

Os avanços da esquerda nesse ambiente parecem mais tortuosos, portanto. Demanda-se um esforço de disputar o senso comum e também (o que parece mais doloroso) fazer essa disputa na rua com a extrema direita, que não só reforça como instrumentaliza o senso comum a favor da destruição completa de qualquer diferenciação.

A busca por pautas que unifiquem e dêem caracterização mais política às marchas é, então, indispensável. Disputar a marcha é disputar toda a concepção de sociedade. Disputar a marcha é, inclusive, disputar o Facebook e todos que ali estão. E disputar não porque a esquerda é oportunista ou qualquer outra pecha que colam em nós, mas porque realmente acreditamos que é necessário pensarmos em uma nova sociedade. Numa sociedade mais justa, livre de opressões, que privilegie a auto-realização dos seres-humanos, ao invés do Capital. Nós não temos medo de nos mostrar, não temos medo de defender nossas posições justamente porque acreditamos, porque achamos que podemos mudar as coisas para melhor. Não se pode dizer o mesmo da grande imprensa e de todos que se escondem por trás dessa e outras ferramentas para diluir seus pensamentos.

Nesse sentido, inclusive, as críticas aos partidos politicos denotam como o suposto  “esvaziamento” do contéudo politico das marchas beneficia esses que se escondem. A concepção de partido, para Gramsci por exemplo, é o de uma organização, um aglomerado de pessoas, que defendem um determinado modelo de sociedade. Ele entende “o partido como ideologia em geral, superior aos diversos agrupamentos mais imediatos”. Isso é dizer: as marchas estão criticando as legendas partidárias e as atacando sem reconhecer, às vezes, o oportunismo e dirigismo vindo de outros flancos e outros partidos. Partidos esses que, com ou sem legenda, se organizam, possuem ideologia clara e lutam por uma sociedade com um determinado formato. A mídia é um desses “partidos. A Igreja, a bancada “evangélica” e a FIFA, por exemplo, também. A disputa pelo “despertar” deve, pois, ser uma disputa das consciências e da forma como a classe media tem exergado o mundo. Escancarar essas realidades serve ao nosso projeto de sociedade, afinal.

A linha que defendemos é que ocupemos as ruas. Que disputemos as pessoas, e que mostremos, com calma, paciência e sinceridade, tudo que acreditamos. Nós temos que liderar pelo exemplo e mostrar que outra sociedade é possível. Sendo-a. Criando-a.

E que assim seja.

Universidade sem política. Faz sentido?

Grande parte da comunidade acadêmica não tem preocupação alguma com as eleições para a reitoria. Nenhuma. Mesmo. E, naturalmente, devemos nos perguntar por que isso acontece. É bem curioso que, às vezes, mesmo com uma abertura democrática, com a possibilidade de se escolher quem representa a universidade, as pessoas não se preocupam em se informar, em se engajar e, claro, em disputar o espaço público.

As razões são inúmeras, mas, grande parte parece se sentir repelido pela disputa política em razão da contaminação do espaço público. Contaminado por discursos surdos, costuras infrutíferas e estratégias oportunistas de alguns que vivem existencialmente a política.

Os professores, parece, pensam que a escolha do reitor e da política de ensino, pesquisa e extensão da Universidade afeta pouco sua atuação na Universidade. Os estudantes, felizes e contentes por não pagarem nada pelo seu ensino, por terem passado num vestibular difícil, por carregarem o status de estudarem numa Universidade pública, estão mais preocupados com o papel que recebem ao “fim” do curso do que em produzir soluções criativas para os problemas sociais.

Esse panorama, por si só, já demonstra o problema com o projeto universitário em voga. Dizer que a universidade pública tem função social é bonito, então todo mundo fala. Dizer que o ensino público deve ser gratuito e de qualidade também é “socialmente referenciado”, então todo mundo fala. Mas a estrutura da comunidade acadêmica não privilegia o engajamento, não busca a interação e, pior, não cria sentido de comunidade. Nós temos, hoje, grupos esparsos e personalistas com projetos que refletem sua “história pessoal”. Não há um projeto que abarque a importância da instituição e que supere a dicotomia público-privado para instaurar a lógica do comum, isto é, da comunidade.

Por isso, a mudança de postura é indispensável. Um projeto de universidade que questione sua função e a critique, perguntando até que ponto ela atinge seu objetivo, qual é e qual deve ser seu objetivo faz parte da própria ideologia de uma instituição que se entende como produtora de conhecimento. Afinal, é postulado da ciência (pós) moderna o questionamento de suas premissas constantemente. A irrefutabilidade está mais vinculada à religião do que a um suposto conhecimento objetivo.

De onde, então, podemos esperar que surja que seja construído um projeto claro e refutável? De onde essa mudança partirá? Dos professores que, supostamente, se preocupam com sua carreira acadêmica e com a produção do novo, do funcional, do estruturante? Dos estudantes? Esse grupo criticado pelo “pouco tempo” que passam na Universidade, pela “falta de experiência”, mas exaltado pela ousadia, crença em utopias e espírito destemido? Ou dos servidores que, em tese, se inserem na comunidade enquanto trabalhadores e técnicos que fazem o sistema realmente funcionar e, portanto, tanto entendem como tudo funciona de fato, como reconhecem as mazelas estruturais e estruturantes da instituição?

É claro que virá do trabalho conjunto entre esses atores. A paridade, mais que uma perspectiva de contabilização de votos, invoca a importância participativa de toda a comunidade de maneira igual. Mas é evidente que a formalidade da paridade precisa ser preenchida por participação e engajamento nos projetos defendidos.

E isso se dá porque a elaboração de um projeto consistente requer pressupostos, requer princípios, requer disputa, requer exposição. Em suma, requer política. Não no sentido despolitizante que se dá constantemente à política. Isto é, que entende a política como uma conversa de bar ou disputa entre torcidas. Fala-se, aqui, de política no sentido de embate público de forças e idéias, de desejos e solidariedade comum.

O engajamento da libido que nos envolve requer essa politização de um projeto. Não se engaja, nem se requer que outros se lancem sobre algo que não atrai, que não seduz. Esse projeto de desejos precisa ser social, por ser uma entidade pública, precisa ser discursivo por envolver embate e confronto de visões de mundo e precisa ser político por envolver relações de força e de processos que, em última instância, se vinculam no viver do dia-a-dia.

Despolitizar a Universidade, pois, é desengajar, é retirar a possibilidade de alocar desejos, é jogar no lixo a instituição. Não é na não-política que as pessoas se preocupam com as coisas, é na politização enquanto projeto de alocação de desejos que se cria preocupação, vínculo e disposição para tentar, inovar e buscar atingir finalidades comuns, comunitárias.

#Freixopq

“Claramente, a construção de um corredor de segurança na Zona Sul da cidade não segue critérios de um projeto de segurança pública, e sim de cidade para megaeventos. É o mapa da cidade olímpica: Jacarepaguá–Zona Sul–Zona Portuária–Maracanã. Só em Copacabana tem quatro UPPs, enquanto na Baixada só tem milicianos. Cidade segura não é a que tem muita polícia, e sim a que precisa de pouca, mas que tem muita escola, muita saúde.” – Marcelo Freixo em Revista Piauí

Quando votamos, espera-se, levamos em consideração algumas coisas básicas: qual é o projeto que o partido desse sujeito defende (afinal, no Brasil, o mandato eleitoral público é monopólio dos partidos)?; Quais são as propostas que melhor atendem às necessidades que esse cargo pode enfrentar?; e Qual é a desse sujeito que hoje pede meu voto?

Enfim, o que é representado pela candidatura? O que que ela representa?

No Rio de Janeiro, sede de Copa do Mundo e das próximas olimpíadas, a disputa eleitoral revela, mais que uma escolha sobre quem será chefe do executivo da cidade, a possibilidade de questionarmos, mundialmente, o modelo de cidade que se quer. Conhecido tanto por ser o cartão postal do Brasil no exterior, quanto pelos noticiários e filmes que exploram as dinâmicas problemáticas que envolvem o mundo criminal da cidade, o espaço urbano carioca se reivindica enquanto problema há tempos. Sou nascido no rio, de família carioca, tenho 26 anos e desde que reconheci a funcionalidade desse “eu” simbólico chamado Gustavo escuto em casa, no bar, na praia e no ônibus quão problemáticas são as relações de poder que imperam sobre o espaço urbano do Rio.  Não me parece, portanto, que é segredo que há, em momentos, desespero por mudança. Mudança estrutural. Mudança estruturante.

A candidatura de Marcelo Freixo tenta ser essa possibilidade. Além de reivindicar a pauta da ética enquanto projeto mínimo (é o mínimo que se espera de um homem público), a candidatura expande-se justamente quando, na prática, e não só no discurso, enfrenta e escancara, sem medo, os problemas de fato. As ameaças à vida de Freixo não são pelo que ele fala. São pelo que ele faz. E faz com frequência.

Baseada, hoje, num projeto de poder de um partido que busca guarnecer os projetos históricos da esquerda programática, a candidatura de Freixo tem conteúdo propositivo e transparente: quer tornar o espaço urbano do rio de janeiro um local mais público, menos excludente, mais conectado, menos ilhado. Isso tudo sem maquiagem, sem dependência de projetos ocultos que bancam seu caminho político.

Para emplacar a visão que hoje predomina no seu partido no Rio de Janeiro, o deputado estadual encara hoje as máfias do Morro e do asfalto. Enfrenta milícias armadas e máfias eleitoreiras. Disputa um projeto político contra uma aliança que hoje se vincula ao projeto de poder já instaurado no rio de janeiro. Projeto que não questiona, cede a pressões conservadoras. Projeto que não propõe, defende-se do avanço reacionário.

A política, dizem alguns, é a mistura entre Virtu e Fortuna. Na atual conjuntura, parece-nos que a cidade do Rio se vê diante da fortuna de poder votar com vontade. Pouquíssimas outras podem dizer o mesmo. Em geral, hoje, vota-se nao no que se quer, mas no que se pode. Mais que apresentar um projeto alternativo, pois, parece que a candidatura de Freixo pode realocar libido social em um projeto que empolga, que renova, que enfrenta.

Espera-se, logo, que a virtu de Freixo, valente e constante, concretize-se ao receber da população a oportunidade de se imiscuir na estrutura e tentar desagregar o hegemônico. Porque, nesse momento, mais que contra a hegemonia, é indispensável ser anti-hegemonico diante do projeto de cidade escolhido na sala da Fifa e do comitê olímpico.